sexta-feira, 2 de março de 2012

Para alguns

E quanto nos encontrarmos lá na frente, dedicarei grandes sorrisos à você, a nós dois, a nós todos. Dedicarei lembranças felizes, fotografias doces de um tempo passado que tanto gostei. Vou dar uma gargalhada se o constrangimento vier, te convidarei para entrar e me colocarei à disposição, dizendo que comigo você pode contar, sim, para tudo. Terei uma vida tão diferente, e tu também. Mas ainda, na minha fértil imaginação, tu me pareces ainda muito a mesma pessoa. É que acho que já mudastes tanto, vivesses tanto, que será só mais um pouco de diferença a somar-se daqui para a frente. Concorda?

Falo isso sem tom pejorativo. São só impressões. É que acredito que o tempo vai vir e passar, vir e passar, e, um dia, sim, um dia o tropeço em um paralelepípedo vai nos colocar de frente de novo. E seremos novos. Seremos outros.

Encontrei nos meus rascunhos, onde coloco frases prontas e idéias, mas também palavras soltas, e aí encontrei idéias para frases prontas com palavras soltas! Sim. Mais ou menos isso, e precisei ler várias vezes, ao longo dos dias, para compor o quadro.

Escrevi que nós somos vários de nós mesmos. Assim "nós = vários de nós mesmos". Que somos além da soma racional + emocional. Somos, na verdade, várias partes, e, de vez em quando (essa expressão já é inferência minha!), essas partes tomam suas vontades próprias. Sabe o dia que acordamos tão artisticamente inspirados e pegamos carona na imaginação, sem pedir parada? E o dia que recusamos propostas irresistíveis, porque, de repente, somos dois cérebros e nenhum coração. Acho que era isso, certo? Quando nos damos conta, somos apenas alguma dessas partes se manifestando.

Há, ou somos, não sei bem o que quis dizer, uma grande confusão: de sentimentos, de pessoas, de sentimentos para com determinadas pessoas. Somos um monte de partes e também somos várias confusões? Somos um emaranhado de pedaços indistintos, confusos.

E aí anotei "imbróglio", porque é essa idéia que passa, e é nisso que terminamos nos transformando. Anotei também porque gosto que só dessa palavra, e terei um cachorro chamado assim um dia. (Acredite!).

E aí, logo abaixo, escrevi "desesperador". Provavelmente, no dia em que fiz as anotações (não há data no papel), foi assim que me senti. Imagino agora. Minhas partes distintas, emocionais, racionais, animais e humanas, devo tê-las imaginado em ebulição; devo ter ficado apreensiva e angustiada imaginando o que estaria se dando dentro de mim, e o que poderia acontecer em seguida, em breve, ou no futuro distante! Estava fora do meu controle, e, agora eu sabia. Desesperadamente, eu sabia.

E aí, na última linha escrita, está lá, simples, óbvio, lugar-comum, e, claro, clichê, porque nem sempre há como fugir: "normal". E o pior, assim mesmo, entre aspas. Aí eu já não sei o que eu quis dizer com a palavra, nem com as aspas. E nem me arrisco. Já foram chutes demais para palavras de menos, inferências demais para incertezas tão grandes: nós, a vida, o futuro.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Diálogos espontâneos

- A namorada de Cicrano tá gravida.
- Menina! Não! Mentira!
- Menina não.
- Né menina não? Já sabe que é menino?
- Menina não. Por favor.
- Ah, tá, desculpa, amor.

~

- Minha filha, simplismáint...
- Minha filha não!
- Argh. Deixa eu dizer!
- ...

~

- Menina, sabe quem voltou o namoro?!
- Pare. Pare.
- Af. Séééério! Sabe? Adivinha!
- ...

~

- Passei naquela seleção que te falei.
- MULHER!
- (...) Intimidade é uma merda. Só gera filho e aborrecimento.

~

Aah, mas vou te aborrecer muito ainda!

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Dia com cheiro

Entrei pela sala, banheiro e cozinha, e senti um cheiro diferente. Não era o habitual da minha casa. Senti também a preguiça em mim, o sol tímido, o dia esgueirando-se pelas cortinas, assim à vontade mas sem vontade de vir e ficar. A aura era um pouco cinza. Mas não havia fumaça.

Na mesa onde estudo, o cheiro da madeira era mais forte e incomodava. O cheiro. O chão, de azulejos brancos, estava limpo e sujo. Sem vida e sem graça. A sala tinha algumas coisas fora do lugar. Tentei pôr de volta. Mas não ficou bom. Parece que os móveis prenderam a respiração. Parece que a sala e a luz que nela entrava estavam um pouco cansadas.

Comecei a lavar os pratos, e a aura, o cheiro, o dia que pouco que se mostrava... tudo continuava igual. Não era questão de sujeira ou bagunça. Não era a minha neurose fumegando.

Sentei-me para almoçar um segundo café da manhã. E também o gosto, o sabor... Meu paladar não aprovou. Fiquei pelo pão e seus recheios de sempre, nada de novo, nada de difícil, a preguiça do dia também era minha, e eu queria ser prática - mas não porque tinha pressa. Eu queria ser prática exatamente porque não tinha pressa para nada.

Tirei o presunto, o queijo, a geléia. Tirei tudo de dentro do pão, e comi as fatias puras. Era o meu pão preferido. E não sei se o cheiro incomodativo (?) que eu sentia era que atrapalhava o paladar. Dei à minha cocker spaniel, nesse dia estranhamente calma e silenciosa, o restante do que tinha sobre o meu prato. E o presunto, ah, esse presunto não deve estar bom, melhor jogá-lo fora. Meu leite achocolatado preferido também não balanceou a situação.

Melhor não acender nenhum incenso ou vela. Melhor ler um livro e deitar. Tomar banho, pôr o perfume que eu gosto, e sair. É domingo. Com seus odores e sem suas cores.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O escafandro que te liberta

Eu ganhei de presente na semana passada e adiei alguns dias sua leitura. Precisava terminar o Game of Thrones. Ainda não terminei. Precisava terminar o Sandman. Ainda não terminei. E sabia que quando começasse a ler o danado do livro, o faria de uma vez só; teria muita sede nos primeiros capítulos, e me deliciaria com as palavras mais do que me delicio com uma bandeja de quatro pães de mel. E depois, teria pena de avançar nas páginas, como fico com pena de seguir em frente as mordidas a partir do terceiro pão de mel da bandeja.

Não resisti. Com livros interminados e a expectativa aos prantos, abri O Escafandro e a Borboleta e comecei. Parei um pouquinho pra terminar de fazer o café. Li. Parei mais um pouco para conversar com meu pai. Li. Li. Li mais e tive de interromper novamente porque os compromissos me chamavam (o bar com as amigas). Mas eu queria mesmo era ficar em casa deitada na cama com o Escafandro sobre mim.

Eu estava defronte as palavras (letras ditadas) de um escritor singular, incrível. Desses que faz a gente ficar procurando adjetivos à altura pra poder colocar no post, mas acaba por dizer breguices ("singular"), porque não encontra a palavra.

A síndrome de estar trancado dentro de si mesmo, uma única pálpebra que se move, e o esforço de halterofilista, como ele mesmo descreve, de esperar a letra ditada para poder compor uma palavra, um parágrafo, e capítulos inteiros. Um livro sucinto e por demais minuncioso, tamanha a realidade da descrição.

Eu estou extasiada. E penso nas palavras que a pálpebra de Jean-Dominique Bauby foi ditando ao longo dos meses, com o simples intuito de nos comunicar... verdades. Eu gosto mais da vida agora? Não sei. Só sei que nunca mais reclamarei de dificuldade que tenho de escrever. E de agora em diante, farei tudo que meu corpo me permite, num piscar de olhos.

"Tá aí! 'A panela de pressão'! Poderia ser um título de uma peça de teatro que eu talvez escreva um dia com base na minha experiência. Também pensei em intitular O olho e, evidentemente, O escafandro. Todos já conhecem o enredo e o cenário. O quatro de hospital onde o senhor L., pai de família na flor da idade, aprende a viver com uma locked-in syndrome, sequela de grave acidente vascular cerebral. A peça conta as aventuras do senhor L. dentro do universo médico e a evolução de suas relações com a mulher, os filhos, os amigos e os sócios que tem na importante agência de publicidade da qual é um dos fundadores. Ambicioso e meio cínico, não tendo até então amargado nenhum fracasso, o senhor L. aprende o que é sofrimento, assiste à derrocada de todas as certezas de que se escudara e descobre que seus parentes são uns desconhecidos. Pode-se assistir de camarote a essa lenta mutação graças a uma voz em off, que reproduz o monólogo interior do senhor L. em todas as situações. Só falta escrever a peça. Já tenho a última cena. O cenário está mergulhado na penumbra, com exceção de um halo de luz que circunda o leito, no meio do palco. É noite, tudo dorme. De repente, o senhor L., inerte desde que a cortina subiu, afasta lençóis e cobertas, pula da cama e dá uma volta em cena, sob iluminação irreal. Aí, tudo fica escuro, e ouve-se pela última vez a voz em off, o monólogo interior do senhor L.: 'Merda, era sonho'."

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Eu ainda lembro

Estava pensando em (te?) escrever esses dias. Sim, assim, por aqui mesmo, sem saber se o destinatário de interesse leria, mas para deixar a sensação que eu deixei dito. Em algum lugar.

É que de repente comecei a lembrar demais, a pensar demais, e até a sonhar - essa noite. Era simples e idêntico a realidade. E se eu tivesse analista, ele nem interpretaria, porque foi deveras óbvio. Meu inconsciente não se intimida diante certas coisas, e revela tudo mesmo.

Esses últimos dias também pensei que não existe saudade sem tristeza. Que, sim, sinto uma saudade boa, mas disso não se pode desvencilhar tristeza alguma. Se eu lembro, sinto falta, sinto os sentimentos de então (!), claro, um abatimento vem. Às vezes uma lágrima também. Mas sem mágoa. Eu juro! Quer dizer, eu acho.

E como eu tinha frio na barriga! E como eu sinto frio, calafrio, borboletas e mariposas dentro da minha barriga agora, ao escrever. Há alguma ansiedade, esquisitice, nostalgia, raiva?, e nessa lambança de sentimentos eu preciso dizer. Preciso gritar. E o máximo que posso é deixar escrito, tu sabes.

E hoje, com o tamanho susto que levei (eu sabia que os pensamentos e o sonho não tinham vindo "do nada", alguma coisa estava por acontecer), precisei deixar a verborragia aflorar. Diz a psicanálise, né, que precisamos falar, falar, falar sobre "o" algo! Não, sem sermos hipnotizados, não há necessidade disso, já te falei. E, assim, falando, ou tentando fazê-lo, digo a ti, que simplesmente te aconteças o que for melhor pra ti! Não digo "tomara que dê certo", "tomara que seja isso que vai te aumentar a felicidade". Não. Fico numa espécie de "seja o que Deus quiser", sem o Deus, porque, pelo que me lembro, o "ide em paz" ainda é sua parte preferida da missa. Que teu destino seja o melhor possível, seja ele qual for, na seqüência que for: talvez bom agora, difícil lá na frente, ou o contrário (melhor, né?). Que tu consiga amar, sentir, viver verdadeiramente. Que dê mais passos certos que incertos, tomando cuidado de não tropeçar, pisar, atropelar outrem (isso às vezes acontece sem que a gente queira ou perceba, veja bem).

Não sei dizer como me sinto. Mas sei dizer que ainda lembro. Ainda lembro...

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Monólogo imaginário

É o seguinte. É que eu tenho uma visão muito romântica das coisas, sabe? Sou contra essa história de trabalhar pura e simplesmente pelo contracheque. Eu também acho massa, imaginar os seis, oito, treze, vinte e três mil no fim do mês, digaí!, oito ou treze ou mais e mais... E ficar fazendo as contas de quanto é possível economizar mês a mês, e de quanto terei em dois, três, cinco anos! Meu Deus! E pensar no que gastar, quer dizer, investir esse dinheiro. Para então juntar mais, e investir mais. E, nesse meio tempo, divertir-se no final de semana com ele. Porque a vida só vai te dar a chance disso. Sim, só. Eu acho pouco.

Se eu tiver que me sentir triste no domingo à noite porque, da segunda até a sexta, eu terei de dispor quarenta horas fazendo qualquer-coisa-que-no-fim-do-mês-dê-dinheiro, e essa qualquer-coisa não me agrade, não tenha nada a ver com o que eu estou estudando há tanto tempo (e para o que eu passei outro tanto tempo estudando para conseguir estudar isso de agora!), sinceramente...

Toda manhã, às 7h, um respirar fundo porque terei um dia inteiro sem fazer o que eu gosto. Ou, em alguns casos, fazendo o que eu não gosto. Pra me contentar em à noite, ter tempo para ler um livro ou tocar projetos paralelos (?), ou seja, buscar satisfação em outros lugares, porque o que importa, menina!, tá por fora, é o que vem escrito no seu contra-cheque. Ali, em algarismos arábicos. Pode vir escrito por extenso, em romanos. Eu não quero sofrer de segunda a sexta.

Passei períodos inteiros em sofrimento absoluto, digo sem exagero e com todo o direito da verdade, sofrendo de segunda-a-sexta. Porque eu ia lá fazer o que eu não gostava. O que não me dava prazer, e tudo por um diploma no final de dez semestres. Até chegar o dia em que os caminhos se tornaram mais variados. Fui lá, procurei, encontrei. Tá dando certo sim. Eu sei, isso pode até acontecer nesse futuro-perfeito-do-contra-cheque-vultoso, mas eu não quero correr o risco. Muito menos passar mais quatro anos, ou dez ou vinte, até que haja alguma satisfação. Se é que vai haver.

Deixa eu pensar. Deixa eu escolher. Deixa eu estudar quando for para o que eu quiser. Não digo que vai ser fácil, mas talvez até seja! As boas oportunidades (sempre) aparecem quando a gente espera por elas. As boas expectativas são mais poderosas do que uma conta corrente valiosa... Nunca tive uma conta corrente valiosa, mas as boas expectativas há muito tempo estão comigo e eu te garanto isso que te disse, sim.

Eu ainda não me decidi. Mas o caminho é meu. E as semanas que virão, no decorrer de vinte e cinco anos ou mais, antes da aposentadoria, quem as viverão serei eu. Não tu! Desculpa a desilusão. Eu sei que você ficou tão empolgado que começou a se comportar e a me incentivar como se você fosse eu.

E os pequenos feitos que eu conseguir porque eu quis, comemorá-los-ei (relembrei isso, estudando hoje). Com muita gala, digo, com muita euforia, e, principalmente, tranquilidade, porque eu conquistei o que conquistei porque eu quis. E nessa minha curta vida (que já acho longa, e por vezes abrevio minha idade para parecer que tenho mesmo menos de 21), eu já aprendi que o que vale a pena conseguir não é o mais difícil ou o mais aparentemente inalcançável, adjetivo esse tão glamuroso, né. Mas o que vale a pena de conseguir é o que a gente quer de verdade. Pode ser, sim, o concurso público. Mas pode ser o sorvete no dia quente ou as flores inesperadas. Se foi o que você quis, parabéns: grande feito.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Invasão de espaço

Sabe você na sua faixa, no trânsito, e o motorista da frente, teoricamente na faixa vizinha, mas com 1/3 do carro dele também na sua faixa? Invasão de espaço.

Sabe você comendo um sanduíche, um salgado, um cachorro-quente, e a pessoa: me dá um pedaço? Invasão de espaço. Pedir um biscoito de dentro de um pacote, um pouco do seu doritos, até um gole da sua água, tudo bem, claro. Mas morder a mesma comida que você morde, ali, na sua frente, não. Peça dinheiro emprestado. Ou deixe pra comer em casa. Ou compre você seu lanche, filadaputa, mas não coloque sua boca onde eu coloco a minha.

Também: usar o SEU garfo para tirar algo do MEU prato. Peraí! Por que? Você mora na rua? Sua infância foi tão miserável que hoje você não se aguenta vendo o prato de comida dos seus amigos, e tasca SEU talher no prato DELE? Quem disse a você que isso é normal? Isso é invasão de espaço, fique você sabendo.

Você tá lendo uma revista, ou no notebook, na sala de aula, e um coleguinha, sentado ao seu lado, ou bem atrás de tu, cheirando seu cangote, olha junto com você. Invasão de espaço.

E por falar em cangote, as pessoas precisam entender que, quando em uma fila, aproximar o máximo possível da pessoa na sua frente, cheirar seu pescoço, orelha, saber qual condicionador ela usa, além de respirar (bufar) no ouvido dela, não vai fazer a fila andar mais rápido e é, também, invasão de espaço.

Você, estudando, sua mãe entra no seu quarto e vai abrindo as cortinas, porque tá muito escuro, abre a janela, porque tá uma quentura no quarto, as fotos do mural caem, voam, as folhas do seu caderno batem na sua cara, e ela fica no seu quarto olhando seus objetos pessoais e se esforçando para pensar em algo para dizer. É um pouco de carinho misturado com carência, e, tá, amorzinho-de-mãe, mas é invasão de espaço também.

No ônibus, e o sujeito ou a sujeita do seu lado decide, por bem, conversar com você. Sobre as pessoas que sobem no ônibus e pedem, sobre a sua escola (maldita farda que denuncia), sobre aquele ônibus que demora demais, e que teve uma vez que ele ou ela esperou o danado por mais de 45 minutos, mas que, pior que aquele ônibus, só aquele outro... Enfim. Invasão de espaço.

Ouvir Raça Negra no carro, bem alto, com os vidros abertos. Invasão de espaço pura e simples.

E você que não tem intimidade comigo, me vê com feições plácidas (?), cara de quem está distante, e pergunta: "tá pensando em quê?!".

Por favor!

Obrigado.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Ai, que abuso!

Tem dias em que a gente se sente particularmente abusado. Aliás, particularmente não, porque, como diria o pai de um amigo do meu irmão (!), quando é que você não é particularmente você? E particularmente abusado não é a melhor das definições. Mas especialmente abusado.

Você acorda e o mundo não te odeia mais, mas você odeia ele. E, se o mundo parou de te odiar, de repente todas as pessoas querem te ver. E você não quer ver ninguém. Nada contra as pessoas. Quer dizer, você até que tem coisas contra algumas pessoas do mundo, mas até aquelas contra as quais não rola muito da sua oposição, você odeia. Momentaneamente.

Você tem abuso de aparecer visitas na sua casa. E de as visitas, por algum motivo que eu nunca entendi, se intrometerem pelo corredor dos quartos e usarem o banheiro do corredor. E não o lavabo. Seu abuso está transbordando mas, por algum motivo, ninguém percebe, e começa a te perguntar sobre a viagem, o concurso, a faculdade. Nessa hora, a única coisa que você quer é não ver ninguém. Passar o dia em frente a uma parede branca parece ser a melhor das opções.

Você tem abuso de te chamarem para o bar, aquele-onde-todo-mundo-vai, porque lá você vai encontrar todo-mundo, e, dentre esse todo-mundo, vai precisar abraçar e sorrir para alguns ou muitos.

Então te chamam para ir ao cinema mas você não quer. Porque gastar dez reais e receber um chiclete Chiclets de troco não é bem o seu esporte, e, nesse dia então, você não tá no espírito.

O celular toca e... Desligue tudo. Hoje você não merece existir.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Eu não (sei se) sou maluca

Quando criança, ainda cedo aprendi a estalar meus dedos. E, assim que aprendi, aprendi a gostar de estalar os dedos. Uma, duas, dez vezes em uma manhã. E mais à tarde e mais à noite. De madrugada, enquanto eu dormia na cama da minha mãe (eu era o tipo de criança que dormia no quarto da mãe, mas, no meu caso, a desculpa única era a presença do ar-condicionado), ela dizia que toda madrugada eu "acordava", sentava na cama, estalava meus dedos, e deitava novamente.

Quando passei a dormir sozinha, já não sei mais o que se dava. Mas achei que havia passado a fase. A "novidade" dos dedos barulhentos (os meus são super barulhentos). Aprendi a estalar os dedos dos pés. O tempo todo consigo estalá-los. E, de vez em quando, enquanto faço as unhas, a manicure se assusta com o barulho.

E então, dormindo por aí, na casa da amiga em BH, com o amigo dormindo no colchão aqui no quarto, o relato do susto na manhã seguinte: acordei com você dormindo e estalando os dedos! E, de acordo com os relatos, eu não fico mais sentada. Economia de energia, e sono mais reparador.

Não acho carnes gostosas. Como quando tem. Tá na mesa, é pra comer sem reclamar. Foi assim que eu aprendi lá no semi-internato, com Irmã Heloísa botando a gente pra comer sem achar ruim. (Tinha muita criança morrendo de fome, e a gente reclamando de barriga cheia, literalmente. Não podia.) E a carne que eu mais gosto, é a que todo mundo detesta: fígado.

Aí, de sobremesa, nunca aceito sorvete. Nem picolé. Não gosto de sorvete, não gosto de picolé. Na adolescência, comecei a usar aparelho nos dentes, que eram de assustar um, e todo mês eu passava uns cinco dias à base de sorvete. Hoje não tomo mais.

Também não gosto de pipoca. Como quando tô com muita fome. De vez em quando eu chamo o pessoal pra ver filme aqui em casa, e como sou mal-educada e desaprendi todas as regras de etiqueta que a minha mãe me ensinou, esqueço de comprar comida suficiente. É que, na verdade, o filme é sempre uma desculpa pra beber cerveja, então são as garrafas de Heineken que importam. Aí, além da pizza, um pouco de pipoca. Como meu estômago multiplica-se de tamanho enquanto eu como, não sei por que, eu boto uma pipoquinha na boca. Sem sal!

Eu sou das poucas que gosto de comida insossa. Insonsa, como de vez em quando eu digo.

Sou uma pessoa bem organizada... Na verdade, tenho mania de organização. Às vezes, é um transtorno obsessivo compulsivo. Teve uma vez que eu chorei porque tinham desarrumado minha estante. Foi. Cheguei em casa e minha mãe tinha resolvido organizar os livros por um critério qualquer que não era o anterior. Eu olhei pra estante e os livros estavam até arrumados, mas sob outro critério, de acordo com a organização de outra pessoa, logo, desorganizados. Eram os meus livros! Fora do lugar! Com etiquetas embaixo deles e tudo, coladinhas na estante. Chorei, chorei. Arrumei tudo de volta, suando até. Hoje em dia, minha mãe pouco entra no meu quarto. E manda mensagem avisando quando precisou tirar algo do lugar ("peguei um clipe vermelho e outro lilás").

Eu não sou maluca... Assim, demais.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Não sei, é?

É só não pensar na dor que ela passa. É só acreditar que vai dar certo!, que dá. Se você diz que não vai conseguir, então nem tente. Ele não gosta de mim?, então não gosto dele. Pronto. Se quiser ficar feliz, pense em coisas felizes. Você aí falando de coisas tristes, vai tudo dar errado no seu dia. Se tu não ficar se encontrando com a tal pessoa, é melhor para você. Tu te esqueces mais rápido quem tu não vês. Tu se acostuma logo a não sentir mais nada pelo dito-cujo se tu vê-lo sempre... Deixa acontecer naturalmente! É assim que tem que ser. Um clichê para terminar o dia.


Não sei. É assim?

Tavam dizendo.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Tipos no veterinário: a maluca dos gatos.

Quando nosso animal vai ficando velho, nossas idas ao veterinário (nossas não, as idas dele) ficam mais freqüentes. Coisa de uma vez por mês ocorre de você ter que ir, pra ver aquele joelho, o ouvido, o pêlo caindo, os dentes podre. E aí você, impreterivelmente, termina por conhecer uns tipos típicos (?) de gente frequentadora de um ambiente como uma clínica veterinária.

No último mês, conheci a maluca dos gatos. Eu odeio gatos, e por isso talvez esse post soe um pooouco parcial. Até quem não me conhece, talvez saiba, porque já me viu gritar e quase chorar toda vez que um bicho desses roça nas minhas pernas lá no setor dois ou na cantina. Eu nem sempre odiei os gatos, mas essa história é uma que depois eu conto. Só que, no dia da maluca dos gatos, passei a não gostar também das pessoas que gostam de gatos (algo que, para mim, já era uma falha de caráter).

Eu cheguei no veterinário numa segunda-feira, pela manhã, para uma pseudo-urgência. Enquanto eu esperava em pé, próxima do balcão, uma senhora, quer dizer, uma velha, conversava com a recepcionista. Ela estava detalhando o tratamento que vinha dando a um dos muitos gatos que ela cria em casa (o que já fez eu me afastar da senhora). O remédio que ela dava, quantas vezes ao dia, pingando tantas gotas no ouvido, outras tantas nos olhos, explicando os resultados dos exames... A recepcionista não é veterinária, só para deixar dito. Depois, começou a perguntar por mamadeiras. "Porque tem aquela, né, Fulana, que parece mesmo todinho o bico do peito de uma gata! Tu num sabe? Han?". Certo.

Quando o veterinário por um acaso saía da sala dele para deixar algo na recepção, o pobre do homem quase não conseguia voltar a trabalhar. Olhava e sorria constrangido para as pessoas (que agora se acumulavam em torno da velha) esperando para ser atendidas. A velha voltou a falar, detalhadamente, do tratamento dado a um dos seus gatos. Depois acho que falou de um outro. Quando o médico conseguiu uma desculpa para sair, a maluca dos gatos voltou a falar com a recepcionista sobre mamadeiras.

O próximo passo foi pagar a conta. Na verdade, ela estava todo o tempo, teoricamente, pagando sua conta no veterinário. Eu não estou mentindo: a velha ia pagar mais de mil reais na clínica. Tive de ser indiscreta (?) e escutar o valor, pois ela falava muito alto para todo mundo ouvir, com uma voz mal assombrada, trêmula, rouca, típica de uma criadora de gatos, e escutava muito pouco, o que fazia a recepcionista repetir o valor várias vezes, e aí todo mundo ficou sabendo que a bicha gasta tudo que tem com gatos. Com GATOS. (E meu pai achando ruim eu consumir minha bolsa da monitoria comprando roupa. Podia ser bem pior, tá vendo?)

Pois é. A velha leva os gatos dela para consultar, tosar (não sei se gato faz isso, mas os dela devem fazer de tudo), e tomar banho lá na clínica. Mas também leva os gatos da vizinha, da prima, e os que ela encontra na rua. Aí, então, quando o veterinário reaparece, a velha volta a falar de mamadeiras e abre uma daquelas gaiolas de transportar animal: "Doutor, olhe, eu trouxe esse gatinho aqui de uma vizinha minha lá na rua, num sabe [ele falava muito 'num sabe']. O bichinho, doutor, não tá bem de saúde não. Eu precisava que o senhor consultasse ele, num sabe, olhe aqui, doutor, olhe."

Pronto. A velha abriu a tampa da gaiola, e eu vi isso que vocês chamam de gato com 50% a menos de pêlo, 80% a menos de peso, 200% a menos de fofura (?), e um-olho-pendurado-para-fora. O olho esquerdo do gato não estava no seu devido lugar! Estava pendurado, assim, como o pingente de um colar! Quem disse àquela velha que todo mundo na clínica queria olhar para aquilo? Quem, disse, aliás, que eu gostaria muito de ver um gato, na minha frente, saudável ou semi-morto? É, porque aquilo, me desculpem, nem era gato, nem sei se tava vivo, porque a única coisa que ele mexia era a cabeça - e só o suficiente para todo mundo ver sua deficiência.

Depois que toda a sala de espera esperou ainda mais uns dez minutos para a maluca dos gatos deixar seus mil reais na clínica, conversar mais sobre mamadeira cujo bico parece direitinho o peito de uma gata, e ouvi-la falar um pouco mais sobre esses felinos que só 0,5% das pessoas normais apreciam, a mulher saiu... do balcão. E ficou na clínica por mais meia hora, comprando rações, camas, coleiras, frufrus, e talvez até um olho de vidro.

Mas, claro, não se enganem. Dois dias depois precisei voltar lá com os resultados da radiografia de Hanna (é a minha cocker spaniel), para o veterinário dar uma olhada. A maluca tava lá de novo. Com outros gatos, com mais conversa sobre mamadeiras, pedidos ao médico, e pagando mais contas vultosas. E se vocês acham que isso é ser normal e ter bom gosto...

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

E então, topa?

Certo, amor. Eu caso. Eu aceito. Acho que você é a vítima, quer dizer, o cara ideal mesmo. Mas, antes, queria dizer que há algumas condições(zinhas). É, claro. Não pode ser assim tão simples.

Você tem de me prometer que nunca, jamais, em hipótese alguma, vai usar sunga e camiseta ao mesmo tempo. Somente a sunga e a camiseta, me refiro.
E tem que me prometer mais ainda, que essa camiseta nunca será uma regata.
Você tem que me prometer nunca usar uma regata ao sair comigo. De preferência, nunca ou quase nunca usar uma regata. Mas principalmente ao sair comigo porque não gosto de pêlo de suvaco nos meus ombros.
E por falar em pêlos, não deixe os da sua orelha crescerem demais. Ou melhor, não deixe nunca eu saber que você os tem.
Também não, nunca, nunquinha! cuspa no chão. Desculpe, mas essa tem que ser questão de ultimato: cuspiu no chão, a gente termina. Com ou sem comunhão de bens, com ou sem filhos, com ou sem casa própria. Significa o fim.
Não passe a gostar de Roberto Carlos ao longo dos anos. Nem leia livros de auto-ajuda. Eu te peço!
Nunca ligue a televisão na Globo no turno da manhã. Eu fico possessa quando estou diante do programa Mais Você.
Você não tem o direito de reclamar das calcinhas dentro do box. É o seguinte: nojento é não lavar a calcinha.
Não use pochete.
Não use Rider.
Não coloque as meias no meio da canela.
Evite os tênis extravagantes.
Aceite minha comida de microondas.
Não fale alto. Até hoje, a otorrino não acusou nenhuma deficiência no meu sistema auditivo.
Não cultive pêlos nas costas nem nos braços, por favorzinho.
Faça tudo que eu te pedir no meu computador e no meu celular sem me mandar ler o manual ou me chamar para eu aprender. Se eu peço para você fazer, é porque quero que você faça. Se eu quisesse que você me ensinasse, te pediria para me ensinar.
E deixe eu pedir minha pizza de rúcula com tomate seco de vez em quando.

Acho que é (só) isso. E então, topa?

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Oi, vô.

Hoje de manhã eu fui até a farmácia, coincidentemente na mesma hora em que todas as pessoas do bairro resolveram reunir-se lá, para comprar seus respectivos remédios. Havia umas seis pessoas debruçadas no balcão, uma senhora pedindo todos os remédios de doenças crônicas, resfriados, e velhice, um de cada vez, uma senhora que nem era tão senhora assim, mas que quis se aproveitar dos seus 60,5 anos para furar a fila de quem esperava a galera do balcão, outra senhora com bem menos de 60 anos que atropelou todo mundo e foi até o balcão sem pedir licença e fingindo-se de cega, sem ver as três pessoas em pé, em fila, no meio da farmácia, e, enquanto eu finalmente conseguia pedir meu remédio (acho que uns trinta minutos depois), um senhor, merecedor do seu status prioridade/preferencial, foi em passos calmos até o balcão.

Ele vestia uma calça social e camisa social. Mas pelo que me lembro não tinha mangas, era tipo aquelas que o senhor usava, sabe? Seu cabelo era alvo, branquíssimo, e ele era mais cabeludo que o senhor, não me entenda mal! Ele foi andando devagar, sorrindo timidamente para o balconista, para as pessoas da fila que deixavam-no passar, e, com a voz macia e gentil, deu seu bom dia e fez seu pedido.

Quando passou por mim, eu vi: ele tinha os seus olhos azuis, vovô. E eram claros. Eram azuis esverdeados, ou verdes azulados, assim como eram os seus. Tinha a mesma serenidade do seu olhar, o mesmo brilho, e o mesmo aspecto límpido que tinham os seus. Acho que, no milésimo de segundo em que olhei para o seu olhar (e não digo que trocamos um olhar!), vi uma certa ternura, também gentileza, e pude ouvir uma voz que há muitos anos atrás me chamava de boneca. Será?

Enquanto eu passava meu cartão e digitava minha senha, digo, passava o cartão de mamãe e digitava a senha dela no caixa do lado oposto ao dele, vi suas mãos um pouco trêmulas digitando o número do celular. Ele estava pondo créditos no telefone! Achei isso engraçado. O tipo de coisa que o senhor faria também, assim que aprendesse. Era capaz de querer toda semana que alguém te levasse até a mesma farmácia, para o senhor colocar a mesma quantidade de créditos no celular. Tão rotineiro como ir ao barbeiro, ou comprar aquele sorvete que passava em frente a casa de vovó, quando eu tinha lá meus seis anos. (O pepém.)

Ele era também simpático e gentil com a moça do caixa. Parece que errou ao digitar os números na maquininha. A mão dele tremia, e eu lembro que a sua tremia também, ou será que eu já estava num êxtase nostálgico que comecei a te copiar naquele velhinho?

Não sei. Só sei que, na saída, me vi obrigada a olhar nos olhos dele e sorrir. Ao passo que ele me sorriu sem a menor cerimônia ou constrangimento. Posso estar enganada, mas senti que ele se sentiu até satisfeito. Tá, tudo bem, não era o senhor para sentir-se satisfeito com um mero sorriso meu. Mas sei que o sorriso dele encheu meus olhos de lágrimas, e eu voltei para casa inebriada de um sentimento intensamente contraditório em si mesmo: saudade.

É que eu sinto muita falta.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Poético e até patético

Talvez o que eu esteja para escrever aqui fique brega, piegas, pareça metafórico demais, até forçado. Não vou me esforçar para nada disso, como também não ligo muito para como soe (hoje menos ainda, vou já contar!), contanto que sirva às pessoas a quem deve. Quem sabe, todas?

Foi bom, viu. Foi bom conversar assim tão franco, tão direto, estando tão toda ouvidos e ao mesmo tempo querendo dizer tantas coisas importantes para mim, e para você. Como foi importante também estarmos naquele diálogo mais de esperar nossa vez de falar ao invés de realmente, aliás, somente ouvir o outro. É que o que queríamos dizer não necessariamente julgávamos mais importante, como se o outro tivesse de ouvir algo importantíssimo que tínhamos para falar. Mas o que queríamos dizer, vinha gritado lá de dentro de nós, e estava sendo preciso falar em voz alta, ter alguém como testemunha além dos nossos próprios ouvidos.

E, não sei você, mas que belo trabalho fizeram os meus ouvidos. E essa identificação com tua persona. Meus ouvidos confirmaram aquilo que eu vinha pensando. A gente precisa afirmar e confirmar o que estamos pensando tanto! E precisamos da testemunha de ouvidos e olhos atentos, balançando a cabeça afirmativamente demonstrando que entende, e que, muitas vezes, concorda, é também assim, aceita e acata logo tudo isso. Para crescer. Eu cresci. Faz é tempo que cresço, eu acho. Mas a gente só vê o quanto cresce depois que cresce. Depois que cresceu, então. E me identificar contigo, vou te dizer, foi preciso para eu ter certeza que existe alguém bem sucedido no que eu tenho planejado (depois de achado que tenho aprendido): ser simples. Dizer exatamente o que eu sinto, por quem, para todos, para quem interessar, e, principalmente, a mim. Ser simples consigo mesmo. Que objetivo do caralho! Nunca tinha parado para pensar.

É isso mesmo? O preto sobre o branco, os períodos simples que terminam em ponto final e nunca, por favor, em reticências. A metáfora que só serve se for para brincar. A verdade tem de ser mesmo escrachada. Eu estou sentindo tudo isso, e você? Eu gosto de sentir tudo isso, e você? Comigo tá de boa. Simples assim.

E na volta para casa, enquanto eu inflava o ego, enchia o orgulho de mim mesma, inflacionava as convicções e auto-definições, estico até a praia para ver como vai o mar às seis da manhã do domingo. E lá de baixo, vi o maior e mais nítido arco-íris, do tipo que nunca imaginei ver. O arco quase completo, e não só aquela metade que a gente vê da nuvem até o mar. As cores vibravam, não se misturavam, e quanto mais eu me aproximava, mais bonito e grandioso ele ficava. E aqui sendo brega: senti uma felicidade pura, uma leveza, e a simples certeza de que as coisas simples é que são deslumbrantes. Que é só nos sentirmos plenos, tranquilos, e com sinceras definições sobre nós mesmos, que esse deslumbramento inunda nossos olhos, invade nossas manhãs comuns, e nos traz uns sentimentos nobres assim.

No caminho de volta, a chuva se preparava para derrubar as várias nuvens cinzas que já estavam no céu desde que amanheceu. Encobriu o arco-íris. Sumiram as cores, a nitidez, o provável brilho que eu tava nos olhos. E passou. E o sol subiu, e já há mais luz, e agora, já já, amanhã e em vários outros dias, haverá outros arco-íris para nos deslumbrar. Ou melhor, nos confortar. Assim como é a vida. Não tenha dúvidas.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Tudo por um biquíni de lacinho.

A gente tem ido lá todo dia. Mentira, a gente tem tido vontade de estar indo (eita) todo dia. Caminhar na Alexandrino. Agora tem luz, tem decoração de Natal, tem faixa preferencial, e, o principal, pessoas, para não se correr o risco de nossa mãe dizer "minha filha, não vá, lá é muito esquisito!". Que é o que se ouve quando você vai descendo as escadas do prédio pra correr nas ruas perto da sua casa, onde é escuro, feio, esquisito, deserto, e aquele tipo de motorista nunca liga a sinaleira quando você está correndo-no-lugar esperando a boa vontade dele em virar ou não no cruzamento.

É bom mesmo, viu, o negócio. Essa história de caminhar queima umas calorias, evita celulite e tudo mais. E, claro, por isso, eu vejo por lá bem mais mulheres do que homens. Bem mais mulheres jovens do que velhas. Bem mais mulheres jovenzinhas do que de qualquer outra idade. Foi a loucura do Natal e do Ano Novo. Lembro até agora as duas ceias que fiz naquela noite (uma na casa da minha avó, outra na casa de Marina), os seis tipos de sobremesa que comi dia 24 de dezembro, e as três longuinetes do Reveillón. Pronto. Minha consciência já pesou e não vejo-a-hora de chegar logo amanhã de noite para eu correr de novo!

E hoje, enquanto a gente caminha, eu, Luana e Malu, uma voz feminina, de dentro da cigarreira (já devia ter terminado de caminhar e sentou-se no batente para criar coragem de ir para casa - vai que ela mora a dois quarteirões dali e vai e volta caminhando também!): "ah, minha filha, tudo por um biquíni de lacinho!".

Mas, claaaro! Nunca tinha parado para pensar. Para mim, meu maior avanço feminino de vida foi poder trocar o maiô pelo biquíni. Já tá bom, num tá não? E trocar aquela parte de baixo que parecia um short (depois de ter coragem de despir o short!) por uma que parecesse realmente um biquíni. Já me sentia uma vencedora por fazer tudo isso independente daquela aglomeração que muita mulher tem e incomoda pra cacete: a pochete. Mas, não, nunca tinha parado para pensar que eu nunca tive coragem de comprar um biquíni de lacinho. Aí, sim, é certificado sobre sua capacidade em emagrecer, manter-se magra (pelo menos durante o mês de janeiro), e se orgulhar de pendurar no varal da casa de praia seu biquíni de lacinhos.

Me desanimei. Eu estava indo caminhar só para a pochete não ficar realmente aquela coisa desagradável de se ver (e de se sentir sobre a calça jeans). Era um cooper básico, amador. Já fui mais (bem mais!) viciada em academia, dieta, comer folhas e sementes, e coisa e tal, e até toparia esse desafio há anos atrás (ah, os meus 18 anos!). Mas, hoje, não dá. Já passei. E passo. Biquíni de lacinho é demais para mim. Esse objetivo deixo para você, colega. E boa sorte! (Parece que as estampas de flores estão com tudo. Mas, veja lá, o biquíni é seu. Você decide, amiga.)