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Brinquedo Torto

 

Os desafios da tensão...

pré-menstrual.

Não entendo por quê, mas essa moça de nome TPM só começou a vir me visitar mensalmente depois que eu passei dos 18. Dos 12 aos 14, eu não tinha as cólicas nem as tpm's. Mas em compensação eu também não tinha calendário menstrual: apenas um caos institucionalizado. Dos 14 aos 18, conheci as cólicas, e depois as dores nas costas imobilizantes. E, desde então, o pacote completo com a tensão do que está prestes a acontecer.

Não precisa correr, tá? Eu não começo a morder as pessoas, nem bato a cabeça na parede por causa de um ódio inexplicável. Eu simplesmente... choro o tempo inteiro! Tudo começou na sexta-feira de manhã, quando na sessão de tortura conhecida como Depilação Completa, a mulher de mãos de aço me desafiou dizendo que o que eu tinha até então denominado "pêlo encravado" seria um furúnculo. Primeiro: essa é a pior palavra já dita e inventada no nosso vocabulário. Segundo: eu morro de nojo de furúnculos - e olhe que eu nunca tinha visto um! Por que uma coisa tão nojenta precisa de um nome à altura? Até "gonorréia" fica bonito perto disso. E por que logo EU, às vésperas da minha menstruação, tinha que ter um furúnculo?

Depois que a depilação ficou mais dolorida por causa da má notícia, voltei para casa e no caminho passei em uma loja de sapatos em liquidação. Prato cheio para "aqueles dias", hein? Se não fosse o meu cartão de crédito que NÃO PASSAVA!, prato cheio sim. Por que logo COMIGO, às vésperas da menstruação, tinha que acontecer isso? O cartão salvador da minha mãe estava na carteira, e então eu passei como se fosse meu.

À tarde: dermatologista. Diagnóstico: furúnculo, viu, minha filha... Ele falou isso como quem diz que o termômetro está marcando 31ºC e eu, com os olhos cheios de lágrimas, quase abri um berreiro no consultório. Mas ele me garantiu: antes do Carnaval, você vai estar 100%. Vou mesmo, se esse desespero tpminal terminar antes.

Parti de lá para o banco pagar as contas da minha mãe, com o minguado dinheiro após o rombo do sapato do mesmo dia de manhã. Ai, Deus. Acho que no Banco do Brasil da Afonso Pena existem uns 15 caixas eletrônicos. E havia uma fila considerável quando eu cheguei e enquanto eu permaneci no caixa fazendo os pagamentos. Mas esse não foi o problema! Dentre todas as pessoas que estavam, simultaneamente, usando os caixas para fazer pagamentos e outras operações, e dentre todas as outras que estavam na fila esperando a sua vez, repentinamente me surge uma mulher, em cima do meu cangote, perguntando com a mesma naturalidade do dermatologista quando me disse do furúnculo, só que em uma voz aguda e pouco polida:

- Tu sabe fazer pagamento, é?
(...)
- Eu não sei não. Eu queria saber. Eu não sei como é que faz, e à essa hora já fechou tudo...


E, mantendo a naturalidade, até porque isso é muito normal, fungar o cangote de um desconhecido enquanto ele utiliza o caixa eletrônico para fazer seus pagamentos pessoais, ela continuou do meu lado me observando. Por que logo EM MIM, às vésperas da minha menstruação, que ela vem se escorar? Claro que eu interrompi os pagamentos pela metade, não saquei o dinheiro que ia sacar, arranquei o cartão da boca do caixa eletrônico e fui embora. Entendam: ela podia estar querendo me assaltar ou me sequestrar ao invés de apenas querer aprender a pagar contas. Tinha um cara "posso te ajudar?" quando eu estava na fila. EU VI ESSE CARA! Ele era bem bonito até... Mas enfim. Ela podia me atacar quando eu fosse embora do banco, ou decorar minha senha, ou arrancar o cartão da minha mão e me fazer de refém dentro de um grande assalto àquele banco. Tudo isso passou pela minha cabeça, e eu precisava vir para casa e não sair nunca mais, porque a minha TPM me dizia o tempo todo para eu fazer isso.

E então, de sexta à domingo, me dediquei à arte de não fazer nada, não sair, e, principalmente, não encontrar pessoas. E usei todo esse tempo para chorar sem motivos, ter uma insônia doentia, cuidar da e uma raiva do mundo que se transformava ora em desespero, ora em depressão profunda.

Mês que vem tem mais.

Biazetz
Terça-feira, Fevereiro 09, 2010
00:01

 
 

Obrando

Meu apartamento tem sido um ótimo lugar pra se viver e, principalmente, para dormir nos últimos dias. Desde não sei nem quando, começou a troca de pastilhas daqui. São 12 andares. Eles primeiro vão de baixo para cima, tirando tudo à pau e pedra, pra depois descer colocando os azulejos.
Às 8 horas, eles chegam. Agora que estão na altura do meu andar, eles chegam literalmente, passando por dentro da minha casa e pulando a janela da sala. E então tudo começa. Eles começam a martelar sempre, de preferência, a minha janela. Eu aposto que a parte externa do prédio correspondente ao meu quarto tem as pastilhas mais bem grudadas da história da construção civil, e por isso todos os dias eles se dedicam, de preferência o mais cedo possível, à minha parede.
Concomitantemente, eles cantam! Primeiro vem Grafith, depois vem um outro chamando "Ô Olga, ô Olga; Alaíde, Alaíde!", e, em sintonia, mais um assobia outra melodia impossível de ser identificada. Sempre na minha janela. São aquelas músicas que quando se está na praia durante o mês de janeiro, você escuta todos os dias na mesma ordem e qualquer casa por onde se passe. E as mesmas que no Carnaval se repetem, só que numa freqüência maior e em um espaço de tempo menor.
À tarde, se eu for para outro quarto da casa, dormir, a sinfonia recomeça. Se eu estiver na sala, recomeça na sala. Eles passam o dia seguindo minha sombra através das cortinas para poderem fazer o seu trabalho. Porque pedreiro só faz trabalho bem feito quando demora mais que o planejado e quando incomoda bastante.
E fora a musicalidade da marreta e do Grafitão, o apartamento ficou em uma clima bem agradável de estufa. Não se pode abrir a janela durante os dias porque os pedreiros ficam praticamente dentro da minha casa, se isso for feito. Fecham-se as cortinas, então, para que alguma privacidade exista. E à noite? À noite a gente se alivia com uma brisa né, porq... À noite tem que continuar tudo fechado, trancado e lacrado. Nenhuma janela aberta. Se abrir um dedinho, a quantidade de poeira que cobre os móveis, a louça, a comida, a minha cama e minhas almofadas é capaz de dobrar de tamanho o Morro do Careca. E é daquelas poeiras ótimas de se limpar: fina, pequena, quase invisível, que tem uma cola poderosa em todos os seus grãos.
Argh. Eu não quero estar aqui pra ver esse martírio terminar...

Biazetz
Quinta-feira, Janeiro 28, 2010
09:57

 
 

Comédia em pé.

Eu gosto mesmo é de falar dos outros.

Sexta-feira fomos eu e meu namorado, e mais centenas de pessoas ao Centro de Convenções assistir Oscar Filho fazendo comédia dele mesmo, de nós, do Brasil, do comportamento feminino e de exames ginecológicos.
Eu juro que não esperava tanto. Pra falar a verdade, eu não esperava nada. Ele não é meu preferido e o humor dele parece meio... simples, não é não? E o fato de ele ser bonito o torna menos engraçado. Desculpa, mas isso funciona pra mim. Não é à toa que o Anderson é o meu preferido dos Barbixas e de todo mundo que participa do Improvável.*

Foi curto, quente, desconfortável e atrasado, mas valeu a pena. Nessas horas a gente vê que pra ser engraçado... basta ser engraçado. Acho que ninguém riu até chorar, saiu com dores abdominais que valem por uma manhã na academia, muito menos derramou um pouco de xixi nas próprias roupas, mas foi bom, muito bom.

Eu vi que a beleza do humor está, antes de tudo, em ser inteligente e detalhista. Você precisa ver o que ninguém vê; e precisa ser crítico em cima disso. Se você for um cronista rabugento (complexo de Édipo se manifestando!), você repara e faz os outros pensarem sobre o absurdo do fato, sobre a inescrupulosidade fugindo aos nossos olhos!, oh não!. Se você for um cara gente boa, engraçado e inteligente (o que não impede que o tipo anterior seja isso também, calma), você vai subir num palco e fazer as pessoas rirem de si mesmas, e ainda saírem de lá satisfeitas. Aliás, minto. Vai fazer saírem de lá querendo um pouco mais dessa besteira toda que faz bastante sentido...

Eu nunca tinha reparado o espanto do nome do exame "ultrassonografia transvaginal", muito menos que parecia frase dita pelo Corcunda de Notre Dame. Nunca tinha reparado no absurdo íntimo de emprestar sutiã e/ou de pegar sutiãs emprestados das amigas. Muito menos de se trancar no banheiro pra ver o implante de silicone da outra. Também não tinha me perguntado o por quê de dar um tiro pro alto ao invés de dizer "JÁ" na corrida de atletismo. Nem que ator chinês demora uma vida inteira pra conseguir morrer em qualquer filme que seja. Interpretações oscarfilhianas à parte, pensar nisso já começa a ser engraçado pra mim.

Pode fazer pouco caso, mas foi foda. Principalmente porque serviu pra muita gente ver que rir de si mesmo é melhor que parar para rir dos outros...







(*) Como ponho o link no nome da pessoa? Esqueci!

Biazetz
Terça-feira, Dezembro 22, 2009
00:17

 
 

Vem acontecendo uma overdose de sentimentos, uma alteração intensa e colorida demais de emoções opostas, uma miscelânia de fatos, imagens, e de frases e memórias de efeito. Tudo que eu não aguento. Tudo intenso demais.
É uma felicidade sem explicações seguida de uma tristeza cheia de justificativas, as quais há dois minutos passados não eram mais justificativas coisa nenhuma! Basta aquela sensação de que o tempo está passando, e o meu tempo, principalmente, passando também. Aquele vazio, aquele oco, e esse vai-e-vém tão estranho que eu não gosto, que eu abomino. Eu sinto falta é da felicidade normal, comum. Das crises existenciais também normais, comuns. Essa coisa profunda, intensa... eu não gosto disso. Eu não entendo isso.
Há poucos dias atrás eu tinha encontrado todas as respostas! Mais ainda, eu tinha esquecido de todas as perguntas sem respostas, de todas as perguntas que não valiam à pena e que eram só mesmo uma grande perda de tempo. E aí, pá-pum, volta tudo outra vez. As mesmas perguntas e outras novas, uma escuridão perversa e sem controle, e, putz, inexplicável demais. Não tem pra quê isso. As novas e outras perguntas são iniciadas por "comos" e "por ques". E, mais do que sempre, ou mais do que nunca, sei lá, eu não faço a mínima idéia a quem socorrer (eu mesma?), como começar, e, pior, SE devo começar, e SE devo continuar tudo isso...

Prefiro o constante animador ao intenso imprevisível, porque esse imprevisível é uma moedinha: dois lados, duas caras. E uma delas pode estar viciada...

Biazetz
Segunda-feira, Outubro 19, 2009
23:53

 
 

Ai, ai.

Muita gente diz, né: a internet veio pra facilitar nossas vidas, aproximar pessoas, reduzir distâncias, enfim. Que facilita, facilita. Acelera bastante também. Mas essa história de aproximar pessoas só vale pra quem mora em cidades ou países diferentes. Quando você e mais meia dúzia de amigos moram na mesma cidade, e todos usam o orkut, a chances de a internet distanciar vocês é muito maior.
Não se usa mais telefone para conversar. A gente manda depoimento, joga um recado dizendo que a pessoa sumiu, que nunca mais se viram... Também é pela internet que se convida amigos pra sair, pra ir pro seu aniversário, pra comparecer à festa surpresa do Fulano que tu nem sabia que ia passar 12 meses fora do país! E as chances de você só receber o convite dias depois do ocorrido são, tipo, enormes. A gente acompanha a vida dos outros olhando as fotos, e não participando dela. A gente recebe os cumprimentos pelo nosso aniversário e o Natal também pela tela, nunca mais por cartão. Até quando um parente seu morrer, a mensagem de luto chega por ali. Nem mesmo um abraço...

Biazetz
Domingo, Agosto 16, 2009
23:02

 
 

Tanto assim.

Saí da aula de clínica psicológica querendo trancar o curso. Voltei para a de metodologia amando psicologia de novo. Hoje foi a vez do Jornalismo. Mas ontem eu queria mesmo era ser médica.
Cortei o cabelo e não ficou bom. Corto mais ou trato mais? Vou abandonar a escova progressiva e assumir os meus cachos que nunca foram bem cachos - e as pessoas educadas só queriam me agradar. Ou continuo escrava dessa química mesmo. Foi depois dela que veio o namorado; que chegou, viu, gostou e se apaixonou. Tá até hoje. Não que ele vá embora junto com ela. Mas, você me entende né.
Não sei se é melhor ser professora e pesquisar. Não sei se é melhor arriscar os meus putos em uma clínica supermegabigauber nova e revolucionária. Acho melhor pegar um bronze na sexta, mas eu talvez tenha que adiantar uns compromissos - aqueles que me rendem poucas centenas de putos no fim do mês.
Eu fico aqui por mais 40 minutos esperando meu pai ou vou embora? Depois do fim dessa música eu vou. Eu vou. Eu vou... bem devagar... o elevador tá no 11! Chega, pai! Não, não veio. Pois eu que fui.
Como a droga do doce sem vontade de comer doce? Me entupo de feijão porque, afinal de contas, estou malhando feito homem com vigorexia? Mas não cabe mais, puta que pariu. Cabe o doce; o doce cabe.
Eu estudo ou trabalho nesses minutos? Arrumo só o meu quarto ou o dos outros também? Gasto todo o meu dinheiro da poupança? Metade dele? Porra nenhuma? Paro de falar palavrão?

Eu vi que era tempo de mudança. Comecei pelo cabelo. E o restante das coisas eu não sei... Ou sei e não assumo que sei. Porque eu acho que tô meio em dúvida, sabe?

Biazetz
Terça-feira, Agosto 11, 2009
22:05

 
 

Estampa

Ela tinha um cabelo curto e azul, que já havia sido verde, que já havia sido grande. Saiu de casa com as roupas que gostava, com o tênis preferido e com uma só estampa em todo o modelito: felicidade.
Lá vinha ela de mãos dadas com ele. Também despojado, também com o tênis preferido, uma camiseta que tinha uma dessas frases engraçadas do tipo "morro de vergonha dos meus amigos". Eram com eles que eles estavam até então.
Aquele grupo grande, unido e de sempre. A programação: a de sempre. Cinema em dia de semana, lanche barato, conversas intermináveis. E lá estavam eles dois: ela com seu cabelo azul que chamava a atenção de todas as pessoas que acham estranho um cabelo que não seja loiro, preto ou ruivo, e ele com sua camiseta bem-humorada, barbicha no queixo e estampado de felicidade também.
Era um daqueles casais que têm tudo pra dar certo. Suas roupas combinavam. Seus amigos combinavam. Suas conversas tinham o mesmo teor, e o gosto musical nem se fala. Eu não sei dizer direito o que escutavam. Mas tinham bom gosto, isso dava para desconfiar.
Encontrando um outro amigo, ele soltava uma piada, sorria de lado com cara de quem não quis dizer algo engraçado intencionalmente, e ela ria mais ainda. Todo mundo ria mais ainda. Aquele carinho mútuo, discreto, sincero e de dar inveja em qualquer um, apaixonado ou desiludido, não cessava. A forma como sua suas mãos estavam entrelaçadas dizia tudo. O fato de andarem devagar, sem pressa, conversando animadamente enquanto a turma toda ia mais à frente, com certa pressa por causa do ônibus por chegar, também dizia muita coisa. Olhando pra eles, dava pra ver uns balõezinhos de pensamento no estilo das histórias em quadrinhos. Enquanto eles conversavam, esses balões estavam ali. Tinham os sonhos, coraçõezinhos vermelho-vivo, e talvez mais alguns pensamentos que não nos cabe saber.
Hora da despedida. Amanhã se veriam novamente: talvez para um filme na casa de alguém, para uma cerveja ou um show de música alternativa para onde só iriam umas 300 pessoas no máximo. Mas iriam se ver. E mesmo assim, quando ele se foi, deu-lhe um beijo e falou algo bem próximo da sua boca, olhando nos olhos dela, ela ainda ficou com o olhar perdido por alguns segundos, observando se ele ia bem, se estava tudo bem com ele, e pensando no quanto de saudades já sentia. Os olhos dela brilhavam, e imploravam, com todo esse brilho, que chegasse logo o próximo encontro. A estampa da felicidade que eu vi na menina se misturou à da sinceridade do sentimento, e eu já não sabia se havia diferença entre essas duas.

Biazetz
Domingo, Julho 19, 2009
11:25