quinta-feira, 25 de maio de 2017

há tempo

não sei se parece tanto, mas acho que tem dado pra dar um break real na ansiedade.
não sei se tanto muito (sim, eu falei tanto muito) pela meditação e kung fu, mas mais pela convicção concreta de que não consigo controlar o que mais quero resolver no presente. não controlo. não decido. só me exijo manter uma postura "correta" e tentar manter uma tranquilidade absoluta, generalizada, por assim dizer.
não sei se consigo me fazer explicar muito menos me fazer entender. mas compreendo o momento dessa forma.
(apesar de ter falado "não sei" três vezes em poucas linhas.)

parece mais um processo de aprender a lidar com uma nova pessoa, eu mesma, mas totalmente diferente nesse agora. eu não entendo meus comportamentos nem sei muito como lidar com eles. nem esperar nem prever.
é difícil real ter ansiedade, talvez mais do que ter humor deprimido, arrisco dizer (já que só eu leio o blog, né, posso arriscar a dizer muita coisa).

o agora é muito diferente do que o que eu queria estar ou ter, mas é o agora que tenho, então tenho de me ver com ele. tenho de me ver nele.
a ideia de se agarrar ao doutorado tá boa, tá se fixando, se é o que eu tenho e o que me tem, nem preciso de muito pra decidir por onde começar. :)

o resto eu vou lidando sem muita pressa - esse é o difícil, mas tem se tornado menos difícil. mais real.
na tentativa absoluta de ter calma e esperar. há tempo.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

futuro do presente ao mar

parece que agora me demoro aqui em excesso, de frente pra ele de novo, de frente pra esse horizonte conhecido meu. querem me tirar daqui às vezes, me perguntam se não mudo de cidade, se não mudo de ares, se não vou embora, e nem cogito. nem cogito nada. na verdade mal faço planos. sei que o concreto virá atrapalhar os planos esplêndidos para pôr no lugar soluções imediatas e drásticas e o que tiver de ser. escrota demais essa expressão, o que tiver de ser. acho covarde. mas sei que essa hora virá, esse tempo daí, esse futuro do futuro meio pra ontem, que me apressam. eu fico aqui e me demoro. finjo que ele não vem. fico de novo frente ao horizonte frente ao mar frente a esse azul que às vezes é claro às vezes é bem escuro às vezes é meio verde. a coisa mais bonita do mar talvez seja essa. ele é belíssimo e muda a cada dia. ele é belíssimo porque muda a cada dia. ele dá medo e abraça. ele dá medo enquanto abraça. grita e assopra a ferida recém aberta. me recebe e me abraça enquanto eu sou inteira uma ferida recém aberta. uma pele exposta muito franca muito rósea muito frágil e que até brilha um pouco, devido à nova pele.
agora penso num será, num será se estou me fazendo nova, e portanto esse novo agora em que me demoro tanto olhando em frente olhando o nada olhando pra dentro de mim — faço esses três ao mesmo tempo. só se pode fazer esses três ao mesmo tempo, digo, exijo.
me demoro.
e sinceramente penso se me consigo sair daqui. se me consigo levantar e pôr de volta a vida no lugar. pegar nos braços pegar no colo feito criança muito nova e arrumá-la para o dia. tenho dúvidas se consigo arrumar novamente a minha vida para o dia, para os dias. há mais desânimo e apatia que desespero, e sinceramente (outra vez) (na verdade num sempre) não sei qual fase pode ser melhor para mim, para o agora, para o futuro do presente. o que certamente virá.
se desespero busco em excesso e quero o resolver do tudo. aproximo corro peço refaço e, claro, erro em demasia. ansio. nem existe esse verbo, vejo que me corrige aqui. ansio. não? eu ansio, tu ansias, ele ansia. todos ansiosos no discurso. pois quando não desespero eu faço o oposto que a própria palavra anuncia: não espero. sem desespero não tenho espera nem esperança dum nada. sigo o baile que nem existe. mas não peno nem ansio nem fico insone nem choro largamente. choro silenciosamente. é um quadro que consola.
permaneço ainda aqui num tempo que já não sei quanto tempo faz. peço um tudo dando certo mal sabendo que tudo pode ser esse. repenso as decisões que tomei e mais ainda as que deixei prum depois. o pedido de volta e o tamanho atraso. o tamanho baque cara no chão. ainda dói excessivamente mas parece que as feridas expostas, a carne crua, a pele rósea, acostumaram-se ao agora e até me deixam em paz. mas ardem. e quando deito toda noite me lembram estarem ali, roçando nos lençóis que me lembram o quanto ainda vou só.
aí permaneço. aqui. mais só mais eu mais nada mais lugar sem espera enquanto se finge que vive e existe. enquanto se acredita em algo que nem se sabe sê-lo. confiante num futuro do presente que possa vir que possa me dizer o que fazer. se me levanto e pra onde vou. se penso demais nisso quase desespero. quase. o desespero parou de caber.
permaneço.
mar à frente areia pouca e tempo que penso infinito. talvez haja uma ressaca. um afogamento. um chamado. ou até mesmo um retorno ao concreto,
e uma sequência de mais movimento nesse futuro do presente que já vem.

terça-feira, 23 de maio de 2017

dom casmurro,

~ quis insistir que nada, mas não achei língua. Todo eu era olhos e coração, um coração que desta vez ia sair, com certeza, pela boca fora. 

~ Capitu, após duas voltas, foi ter com a mãe, que continuava à porta da casa deixando-nos a mim e ao pai encantados dela.

~ Capitu não parecia crer nem descrer, não parecia sequer ouvir; era uma figura de pau. 

~ Não disse mal dela; ao contrário, insinuou-me que podia vir a ser uma moça bonita. Eu, que já a achava lindíssima, bradaria que era a mais bela criatura do mundo, se o receio me não fizesse discreto. 

~ Os dedos roçavam na nuca e nas espáduas vestidas de chita, e a sensação era um deleite. Mas, enfim, os cabelos iam acabando por mais que eu os quisesse intermináveis. 

~ Assim, apanhados pela mãe, éramos dous e contrários, ela encobrindo com a palavra o que eu publicava pelo silêncio. 

~ Duas vezes fui à janela, esperando que ela fosse também, e ficássemos à vontade, sozinhos até acabar o mundo, se acabasse, mas Capitu não me apareceu. 

tento

o desafio da ansiedade/picoaltodeansiedade/humordeprimido/oscilaçãoabsurda é o exercício do "deixar as coisas acontecerem".
a tendência é se apegar excessivamente a tudo que possa dar certo, sempre se concentrando no que ainda não está certo. num desespero de estabilizar o tudo para que o humor fique estável também.

mas o caminho tem de ser inverso. ficar de humor estável e emoção estável e afeto estável (afeto consigo mesmo) pra que todo o resto fique.

os dois movimentos parecem praticamente impossíveis, seja o deixar-acontecer-sem-se-esforçar-no-controle, seja o ficar estável antes que o contexto fique estável por si só.

hoje amanhã esses dias essa semana

amanhã de manhã aula sobre dom casmurro e só agora passei da metade do livro;
à tarde aula sobre alguns ensaios de bakhtin que não li ainda;

quer dizer
essa sou eu tentando ser produtiva na semana.

~

hoje pela manhã fui ler um conto de borges, pra aula da tarde: "pierre menard, autor do quixote". tá no livro ficções. que, porra, é bem difícil. eu tinha a ilusão de que jorge luis borges era fácil, de que esse livro 'ficções' era fácil e facilmente incrível etc, porque sempre acho que os autores populares são fáceis de serem lidos, vide garcía márquez e saramago - e jorge amado e guimarães rosa, por exemplo. não são fáceis no sentido simplório, mas não são borges.

demorei muito tempo nesse conto, e não sei se vou ler o livro agora. peguei na biblioteca. acho que vou devolver mesmo.

~

no momento lendo nada por lazer/prazer. só coisas do doutorado e da faculdade. [que não são menos prazerosas por isso]
até o livro do leia mulheres, orlando, de virginia woolf, não comecei ainda, e o encontro já é 04 de junho.

~
ainda lidando com ansiedade, que agora parece mais velada. numa espécie de momento "não tô ansiosa não, ou tô?, mas eu acho que não estou, não me sinto ansiosa, porém devo estar". e por isso o olho tremendo por quase quarenta e oito horas. quarenta e oito horas.
o olho tremendo dizem que é estresse/ansiedade PORÉM se ele não pára de tremer você não pára de ficar estressado nem ansioso nunca.

melhorou. tá tremendo bem pouco agora.
também consegui meditar hoje.
uma saudade absurda dos cachorros.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

bakhtin

... não se esgota a dialogicidade interna do discurso. Não é só no objeto que ela depara com o discurso do outro. Todo discurso está voltado para uma resposta e não pode evitar a influência profunda do discurso responsivo antecipável. 
O discurso falado vivo está voltado de modo imediato e grosseiro para a futura palavra-resposta: provoca a resposta, antecipa-a e constrói-se voltado para ela. Formando-se num clima do já dito, o discurso é ao mesmo tempo determinado pelo ainda não dito, mas que pode ser forçado e antecipado pelo discurso responsivo. Assim acontece em qualquer diálogo vivo. (pp. 52-53)


~ A vida social viva e a formação histórica criam no âmbito de uma língua nacional abstratamente única uma pluralidade de universos concretos, de horizontes verboideológicos sociais e fechados. (p. 63)


... em cada momento convivem linguagens de diferentes épocas e períodos da vida socioideológica. Existem até as linguagens dos dias: porque o dia socioideológico e político de hoje e de ontem, em certo sentido, não têm uma língua comum. Cada dia tem sua conjuntura socioideológica, semântica, seu vocabulário, seu sistema de acento, seus lemas, seu desaforo e seu elogio. (p. 66)


~ Estudar a palavra nela mesma ignorando seu direcionamento fora de si carece tanto de sentido como estudar um vivenciamento psíquico fora daquela realidade para a qual ele está voltado e na qual é determinado. (p. 68)

~ A língua, para a consciência que nela vive, não é um sistema abstrato de formas normativas, mas uma opinião concreta e heterodiscursiva sobre o mundo. [...] Cada palavra exala um contexto e os contextos em que leva sua vida socialmente tensa; todas as palavras e formas são povoadas de intenções. (p. 69)


Em: Teoria do romance I - A estilística (editora 34 ; 2015)