segunda-feira, 24 de setembro de 2007

De noventa e nove a quase zero.

É impossível ter certeza absoluta de alguma coisa na vida. Nem gosto dos termos "impossível", "nunca", "sempre" e similares. Sou do tipo imparcial quanto a isso, ou pelo menos tento ser de quando em vez. Mas é fato. As certezas (tirando a da finitude da nossa existência), quando muito, atingem os seus 99%, mas a porcentagem nunca se completa.

Felizardos são esses que atingem os tais noventa e nove por cento. Queria estar inclusa nos que têm dois noves de certeza na escolha profissional. Ah, sei lá, vou dizer que esse "é o meu sonho". E digo mesmo. Digo porque na adolescência, todo mundo sabe, as idéias são confusas, os planos são numerosos demais, as incertezas são praticamente absolutas. E aí venha com o papo de faculdade que o nó aperta de vez.

Meus 99% estavam lá, quetinhos, seguros e contentes por uns dois anos, desde quando fiz a escolha. Nunca nem tremeram na base para um 98,99%, te juro. Isso aconteceu até o dia que o ano de concluinte chegou e o da inscrição se aproximava. É inversamente proporcional, né? Quanto mais o tempo passa, mais a certeza diminui. Virou regra, porque é justamente nesse momento que a gente pára e se pergunta: eu tô fazendo a escolha certa, né? Tô, num tô? Não, porque... É, estou. Devo estar, devo estar.

Bate uma vontade louca de trocar a Medicina pela Engenharia Civil, a Psicologia por Ecologia ou Ciências Biológicas, fazer Geografia porque gosta da matéria, pensar em fazer Nutrição, quem sabe. Espero que até aí eu seja normal, igual a todos os outros adolescentes - conjunto de hormônios em erupção ambulantes.

Não fosse, porém, o agravante da família bacana que, desde que nasci, vem me hipnotizando: você vai fazer Direito, você vai fazer Direito, ou Medicina, mas você vai fazer um desses dois cursos na sua vida... É desolador, cara. Viram pra ti, e com um ar de "preste-atenção-na-merda-que-você-está-fazendo" perguntam: por que Psicologia, hein? Uma espécie de "qual o propósito de você fazer isso, pelo amor de Deus? Te criei tão bem, com tanto carinho e com tanta esperança... te vi, desde a maternidade, com um livro de Direito Penal debaixo do braço ou vestindo uma bata branca e sendo chama de Dra....". Diria até que soa deboche essa pergunta, mas na verdade é mais preocupação mesmo. O mais bacana de tudo é o bombardeio de perguntas desse tipo vir depois de eu ter feito a inscrição (lembro o quanto feliz e segura eu estava nesse dia, estava sim!), o que aumenta ainda mais a insegurança: será que eu acertei mesmo?

Até agora, a certeza que dá pra achar que tenho, é a de que não há como saber se eu acertei. É uma resposta que virá a longo prazo, e que se vir negativa, vai, no mínimo, me colocar no fundo do poço, porque eu vou sentir os genitores me olhando com cara de reprovação e dizendo sem dizer palavra: eu bem que avisei...! (Mesmo que por hoje eles mintam e falem que vão me apoiar caso eu queira voltar atrás lá da frente.) E a conseqüência mais imediata até então foi o total desestímulo e a completa desilusão com o caminho que tracei pra mim, que eu escolhi sozinha, e sobre o qual vou ter que andar solitária nos próximos anos - me apoiando sabe lá em quê.

Pelo menos eu vou tentar. E se eu me arrepender, tenho certeza (!?!) que a única a ser culpada vou ser eu. Pelo menos isso.




~
(Júlio, não me mande para o jornalismo (outra vez!).)

Ei e eu errei uma coisinha no post passado. Escova progressiva não leva formol! Minha possível rotulação tem que mudar de 'formolizada' para alguma outra coisa mais coerente então...
(Puf. Não falo sério quando a palavra "rotulação" sai da minha boca. Por favor...)

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Sou outra pessoa.

Em anos recentes seria mais fácil eu chamar alguém pro próximo show no DoSol Roque Bar, e não para o próximo Asa de Águia que fosse ter.
Antigamente o final de semana chegando me empolgava pela perspectiva de sair e beber; hoje, pela vontade de dormir (e quanto dá).
Minha galera era outra, totalmente diferente. Abominava os gostos, as roupas e as conversas de muitos que hoje são meus amigos. Me sinto uma hipócrita aqui. Eu sou como eu não queria ser, aparentemente falando.
Talvez por dentro também tenha eu mudado. Não na essência, porque esse caráter, de fato, não é mutante. Mas o falar baixo e calmo que não era meu; os abraços constantes, que minha mãe diz ser sintoma de carência; o olhar perdido e o desprezo pelas discussões: sou hoje a favor do brando, do delicado, da calmaria. Põe as revoltas pra longe de mim. (Antigamente quem comandava a histeria era eu. Sempre eu.)

Às vezes confundo tudo e saio mesclando. Uma crise de pré-adolescente (aos 17, sim!) que acha que aparência diz muita coisa; eu hoje sei que não diz, mas às vezes não sei se não diz. Sou igual a uma legião de garotas, muitas radicalmente vazias, porque a indumentária e os cabelos formolizados me põem em par de igualdade com elas. Na boca as mesmas gírias e os poucos palavrões, porque "é feio". Eu não era assim e às vezes assim sou. Também não me decido. Fico em cima do muro. Sei mesmo é que mudei. Só ainda não concluí quem sou eu.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

A última que morre

E eu poderia consumir alguns minutos meus e de quem for ler esse post, dizendo que o que aconteceu hoje legitima a impunidade no Brasil, ou dizendo que falta ética, moral e caráter nos nossos governantes, falta peso na consciência etcétera e tal. Ou, melhor ainda, poderia dizer que "é preciso fazer alguma coisa!". Mas não. Lugar-comum, clichê. Quem me conhece sabe que abomino isso. Não vou perder meu tempo dizendo o óbvio, mesmo que vez por outra eu faça isso sem intenção.

Minha preocupação não está no fato de que o cara foi absolvido; não está no erro de que a sessão foi secreta, e de que para isso a segurança do Senado foi completamente mobilizada, com direito à armas que disparam choques elétricos e tudo mais. Foge. Minha indignação é outra.

As rugas na testa são causadas pelos 6 senadores que, diante de problema tal, disseram "por mim tanto faz". E as rugas vão ficando mais fundas, o semblante se acentuando, quando eu escuto: "ah, você tá revoltada com ISSO (ênfase ao pronome demonstrativo que carrega uma surpresa, como se estivéssemos tratando da liquidação que acabou antes do que eu desejava)?"; "Isso não me surpreende mais, foi só mais um."

Tudo bem que não surpreenda mais, mas... não faz nem cócegas em você saber que o dinheiro que você ou que seus pais suam para ganhar, ao invés de voltar pra vocês próprios e pra quem precisa, vai parar nos bolsos de quem já esbanja filhodaputamente? Em mim dá uma dor no juízo ver o descaso que os políticos brasileiros olham para quem os elegeu, colocando debaixo do próprio colchão o dinheiro que ia pro "leite dur minino" de um monte de pai de família vivendo abaixo da linha da miséria; de outro monte que queria estudar, trabalhar, e não precisar roubar e matar pra poder comer.

A galera se decepcionou e perdeu o poder de se indignar. Cruzou os braços para sempre, achando que fazer isso e chegar no domingo de outubro votando nulo é ato de protesto. Estamos TODOS desacreditados, não é só você não, meu fi, mas acontece se você perder o último poder de que ainda pode ter em mãos... é, de fato, o futuro (incerto ou não) se torna um tanto mais catastrófico.

Não se desfaça do poder de revoltar-se, porque é isso que os políticos querem e torcem! (Foi bem pra isso que Renan saiu do plenário dizendo que ia "rezar"...) Revolte-se mesmo que seja no seu íntimo, mesmo que seja numa mesa de bar, conversando seriamente sobre futuro dos filhos que você ainda não tem. Não perca de vista o grupinho que se tranca feito maçonaria para resolver problemas que interessam ao povo todo; eles estão errando e você precisa saber disso! Não deixe esvair a esperança... Acredite naquele ditado (clicherizado) que fala sobre a esperança, e pense no que ainda há por fazer de nossa parte. Não julgue se é cedo ou tarde demais. Esse poder você não tem.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

"Agarra-me! Agarra-me!"

Está lá, no conto de Drummond, quando ele tem Dasdores como protagonista, e o relógio da sala como antagonista. Observou bem demais, esse poeta e prosador, que, quanto ao tempo e ao objeto pendurado na parede da sala de Dasdores, "se nos esquecermos dele, talvez pule meia hora, como um prestidigitador furta um ovo, mas, se nos pusermos a contemplá-lo, os números gelam, o ponteiro imobiliza-se, a vida parou rigorosamente".

Então sempre foi assim. (Suspiro um pouco aliviado). Levemente aliviado. Quase nada aliviado. Por que urge dessa forma, hein? Por que os crepúsculos e as primaveras acontecem e a gente, quando se dá conta, tem só as lembranças do que já foi? Lembranças, lembranças, e mais lembranças. "O filme que passa", "a música que fala por momentos", "o cheiro que traz à tona velhas histórias". É sempre assim também. E odeio dizer "sempre".

A mãe de um professor meu dizia, quando viva: o homem tem a impressão de que o tempo está passando cada vez mais rápido porque, a cada dia que passa, ele se ocupa com mais e mais coisas. Então é assim? Quando eu ficar velhinha, e estiver somente me dedicando às costuras e às panelas (suposição, claro), vou saborear mais vagarosamente cada pôr-do-sol e cada estação? Esses momentos não serão exatamente só lembranças? Será que é assim mesmo?

Acredito que não. Se Drummond, quando falava de Dasdores, que tinha como grandes preocupações a missa e o presépio daquele Natal, já aplicava à sua personagem a raiva (concluo eu) que ela tinha da velocidade dos ponteiros do relógio, numa época em que não se falava em internet e os veículos eram escassos, então é porque essa sensação é intrínseca do ser humano, que tem medo do fim da linha.

Eu tenho medo (mentira, eu morro de medo) do fim dessa linha. Não acho tão aventuroso assim o fato de não saber quando ele chega, ao mesmo tempo que acho que esse é o melhor modo de se viver. (E mesmo que este achismo não existisse, eu não teria opção.) Tenho pedido à Deus, nas minhas orações diárias de toda noite, que afaste de mim o pensamento constante sobre a efemeridade da vida e do tempo. As perguntas sem resposta estão começando a me dar insônia, e umas apreensões gigantes. E depois, como é que fica? E depois ainda serei eu, Bia Madruga, olhando para trás e fazendo análises do que passou? E depois haverá consciência e as mesmas sensações que tenho hoje? Por que é desse jeito? Qual o sentido, por que não me dizem antes/logo?

É triste. Avassalador, sabe? Não dá pra afastar por vontade própria, nem preenchendo a cabeça com qualquer futilidade divertida. Pior é chegar a conclusão de que tudo foi conceituado (um minuto equivaler a 60 segundos, um dia corresponder a 24 horas, um ano ser 12 meses, e cada mês 30 dias), e que mesmo assim esses conceitos de nada servem: é tudo abstrato e subjetivo demais.

Está passando, está correndo... Não posso mais me questionar sobre nada, que não há tempo para isso. (Um estalo de 'literalidade'.)