quinta-feira, 6 de setembro de 2007

"Agarra-me! Agarra-me!"

Está lá, no conto de Drummond, quando ele tem Dasdores como protagonista, e o relógio da sala como antagonista. Observou bem demais, esse poeta e prosador, que, quanto ao tempo e ao objeto pendurado na parede da sala de Dasdores, "se nos esquecermos dele, talvez pule meia hora, como um prestidigitador furta um ovo, mas, se nos pusermos a contemplá-lo, os números gelam, o ponteiro imobiliza-se, a vida parou rigorosamente".

Então sempre foi assim. (Suspiro um pouco aliviado). Levemente aliviado. Quase nada aliviado. Por que urge dessa forma, hein? Por que os crepúsculos e as primaveras acontecem e a gente, quando se dá conta, tem só as lembranças do que já foi? Lembranças, lembranças, e mais lembranças. "O filme que passa", "a música que fala por momentos", "o cheiro que traz à tona velhas histórias". É sempre assim também. E odeio dizer "sempre".

A mãe de um professor meu dizia, quando viva: o homem tem a impressão de que o tempo está passando cada vez mais rápido porque, a cada dia que passa, ele se ocupa com mais e mais coisas. Então é assim? Quando eu ficar velhinha, e estiver somente me dedicando às costuras e às panelas (suposição, claro), vou saborear mais vagarosamente cada pôr-do-sol e cada estação? Esses momentos não serão exatamente só lembranças? Será que é assim mesmo?

Acredito que não. Se Drummond, quando falava de Dasdores, que tinha como grandes preocupações a missa e o presépio daquele Natal, já aplicava à sua personagem a raiva (concluo eu) que ela tinha da velocidade dos ponteiros do relógio, numa época em que não se falava em internet e os veículos eram escassos, então é porque essa sensação é intrínseca do ser humano, que tem medo do fim da linha.

Eu tenho medo (mentira, eu morro de medo) do fim dessa linha. Não acho tão aventuroso assim o fato de não saber quando ele chega, ao mesmo tempo que acho que esse é o melhor modo de se viver. (E mesmo que este achismo não existisse, eu não teria opção.) Tenho pedido à Deus, nas minhas orações diárias de toda noite, que afaste de mim o pensamento constante sobre a efemeridade da vida e do tempo. As perguntas sem resposta estão começando a me dar insônia, e umas apreensões gigantes. E depois, como é que fica? E depois ainda serei eu, Bia Madruga, olhando para trás e fazendo análises do que passou? E depois haverá consciência e as mesmas sensações que tenho hoje? Por que é desse jeito? Qual o sentido, por que não me dizem antes/logo?

É triste. Avassalador, sabe? Não dá pra afastar por vontade própria, nem preenchendo a cabeça com qualquer futilidade divertida. Pior é chegar a conclusão de que tudo foi conceituado (um minuto equivaler a 60 segundos, um dia corresponder a 24 horas, um ano ser 12 meses, e cada mês 30 dias), e que mesmo assim esses conceitos de nada servem: é tudo abstrato e subjetivo demais.

Está passando, está correndo... Não posso mais me questionar sobre nada, que não há tempo para isso. (Um estalo de 'literalidade'.)

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