segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Assaltante rouba relógio de brasileiro em São Paulo.

Com esse título digam todos: ooooohhh!

Adianto que não vou ficar do lado dos que acusam do que Luciano Huck é (elite, mauricinho, mimado, playboy, ex-trancafiado de bolha de isolamento (coisa de gente rica, sabe), etcétera), nem ficarei do lado daqueles que o defendem com seu grito de gurra de que ele-é-igual-a-todo-mundo-e-por-isso-pode-reclamar-cadê-a-democracia-? Não. "Vai ficar em cima do muro, Bia?" Quem sabe. Vamos brincar de analisar? Pseudopsicologizar.

De fato, o Luciano é cidadão brasileiro e tem todo o direito de espernear após terem roubado seu relógio de camelô (presente da esposa; dependendo do modelo, pode ter custado seus cinqüenta mil). Se ele teve o meio, isto é, onde espernear, bom pra ele. Está lá, na Folha de São Paulo, ele mandando chamar o Capitão Nascimento e dizendo que no outro dia acordou envergonhado de ser... o que foi mesmo que ele disse hein?

Lembro não. Eu esqueci aquele artigo e esqueci de propósito. Porque ele é ruim, é bobo, é pueril demais. Vem cá, aquele cara saiu de casa pela primeira vez em mais de 30 anos foi? Não, por favor me diga que sim. (E essa é a parte que mais me entristece.) O texto-manifesto do rapaz parece tratar de algo nunca visto, uma aberração, algo atípico, absurdo tamanho. A gente sabe que não é.

A gente sabe que, infelizmente, roubar relógio e muitas outras coisas no Brasil, é rotina. Relógio, celular, carteira, carro, bancos, casas... vidas. Roubar, furtar, assaltar, talvez sejam os verbos mais citados nos jornais locais. Luciano não lê?! Não sabe disso?! Outra não-surpresa.

É infeliz que se escute a notícia de um roubo sem levar o menor susto. Assim como é infeliz ouvir que as favelas do Rio continuam sua guerra de traficantes; assim como é infeliz ler nas tarjas do canal 60 a nova quantidade de mortos na guerra do Iraque; assim como dói no coração de alguns brasileiros com consciente operante e um pouco de cidadania saber que, todos os dias, os políticos estão tirando mais uma pá de dinheiro nosso e usando em prol dos seus bens, das suas vidas e dos seus ternos e carros importados. Tudo isso é doloroso - pelo menos pra mim - e não é novidade.

Eis que não me incluo nem no grupo dos que estão do lado dele porque acham que isso é aplicação democrática e um cara como ele (?) deve fazer isso, como também não me incluo no grupo daqueles que falam uns desaforos e acham que o cara não deve reclamar porque já tem muito ou porque ele acha que por ser quem é, está imune a esse tipo de coisa. Meu grupo é o dos que ficaram pasmados com o "desabafo" huckiano: ei, por que o susto, Luciano? Todos os dias, milhares de brasileiros passam por situação pior ou mais traumática que a sua. Nunca paraste pra pensar nisso? Num é você que é dono de ONG?

Manda o marido da Angélica ver noticiário, comprar o jornal do dia, ter mais consciência das coisas. Manda o cara virar adulto e parar de chamar a tropa de elite ou a tropa da elite. Manda ele, e todo cidadão brasileiro, se assustar e se indignar mais ainda a cada roubo, assalto, ou morte. A gente não merece isso, NINGUÉM merece isso - seja quem seja e venha de onde vier. Vamos brincar agora de outra coisa: de ser conscientes, de parar de criticar quem roubou e quem foi roubado, quem tem direito ao o que aqui. O buraco desse país é mais em baixo. Esqueçam o rolex, o artigo, e o chororô do narigudo. Pense como anda a sua vontade de fazer a diferença. Perdoem o clichê, mas é desse tipo de reflexão que a gente anda precisando.

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