quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Joana e Amiga 2 (parte II)

Ah, essas culpas. Tanto que uma quis mostrar à outra (várias vezes) que “as coisas não são como você pensa que são”. O juízo que essa fazia era errado, quase sempre errado. Ela tinha culpa e a colocava nos outros, uma mania horrível da qual nunca se livrou. Mas sua companheira não cansava de ensinar e de repetir. Não achava ruim; tinha paciência de Jó e já havia agüentado e confortado muito choro.

Mas tinha um detalhe que uma delas não insistia em mudar na outra: a aversão por aniversário. Pelo próprio aniversário, é lógico. Achava vazio comemorá-lo, simplesmente porque tinha como filosofia existencial comemorar a vida todos os dias, e não apenas um dia ao ano. Você também não acha isso um pouco idiota e... pequeno demais? Todos os amigo compreendiam e é tanto que, no aniversário dessa, restringiam-se aos pequenos gestos, aos “eu sei que você odeia esse dia, mas feliz aniversário, amo você”. Porém, ela lembrava que nessa data viria um dos melhores abraços, e os melhores dizeres: o da sua amiga-diferente.

Eram os melhores dizeres porque eram os mais sinceros de todos. Os mais verdadeiros. Ela falava aquelas coisas bonitas das quais todo mundo (ou pelo menos a maioria do mundo) tem vergonha de dizer ao pé do ouvido, ou olhando nos olhos, e sem estar bêbado. Dizia com a maior naturalidade e isso confortava as duas, mas principalmente a aniversariante. Era esse era um dos poucos motivos que faziam-na acordar no dia do seu nascimento, no ano que fosse, e aguardar por aqueles dizeres melhores. Era uma das poucas expectativas que criava. Afinal, para ela era a melhor parte do dia (ouvir os votos mais sinceros).

Até que houve o ano em que a amiga esqueceu do aniversário dessa outra. Não houve abraço apertado nem agradecimentos ao pé do ouvido. Ficou um vazio enorme, um parênteses sem palavras, literalmente. Sumiram os sorrisos. Não se falaram mais.

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