terça-feira, 12 de agosto de 2008

Apenas um ponto de vista.

É mais ou menos assim. Você, em sua casa, manhã de uma quinta-feira qualquer, sua única preocupação é o que será o almoço. Blém. Campainha.
- Bom dia! Eu faço parte de uma construtora, quero comprar sua casa para destruí-la e fazer um prédio. Tudo bem pra você?

O cara entra e conta que os vizinhos (as outras casas que também precisariam ser derrubadas para construir uma monstruosa caixa de sapatos subdividida em compartimentos de iguais tamanhos) já concordaram. Só falta você, que, em troca, terá alguns aparamentos desse prédio e uma casa alugada pela construtora durante o período da construção.

Seus devaneios começam nas lembranças que você tem da sua infância naquela casa, jogando bola sem companhia, almoçando em família, comemorando aniversários ali, e terminam na possibilidade de enricar se aderir a essa proposta - o que possivelmente vai acontecer. ("Digamos que essa casa valha R$100 mil... que o apartamento, na planta, R$150 mil... ele pronto, R$380 mais ou menos... Quase 300 mil de lucro! Puta que pariu!...).

Assim começa. Assim vai. E o fim todo mundo já conhece. Não quero nem ouvir as estatísticas sobre casas sendo derrubadas para construir prédios. Senão adoeço.

Em Natal (e no mundo todo, Bia, deixe de ser idiota), erguer concreto é uma moda que veio pra ficar. Como se já não bastasse as nossas temperaturas amenas atravessando as quatro estações, construir prédios imensos, um ao lado do outro, tem sido o objetivo de todas as construtoras da cidade.

Eu sou avessa às torres de mais de 6 andares. Porque sou avessa ao sufocamento e à claustrofobia - não sei se você gosta delas. Sou avessa às ilhas de calor, a olhar pro céu e ver mais janelas que nuvens, e, principalmente, sou avessa a me sentir observada. Dois prédios num mesmo quarteirão, um do lado do outro, imagine as novelas que surgem...

Tem gente que não liga pra isso, certo? Certo. Tem gente que não é incomodado pelas mesmas coisas que eu sou, normal; que concorda e acha maravilhosa a tendência de "crescer para cima". Os lados não contam, então.

Eu sei que a população aumenta, a cidade cresce, e absolutamente tudo gira em torno de dinheiro. Os gringos vão continuar triplicando os preços dos nossos imóveis, e os engenheiros vão continuar verticalizando essa antiga província, poluindo nossa vista e piorando nossa qualidade de vida (quanto mais prédios próximos, mais gente concentrada, mais engarrafamento, mais violência, etcétera).

Minha vontade era só que, se tivesse de subir, que subisse pouco (quatro, seis andares). E que quem tiver sua casinha, segure-a. (Pedido inocente detectado.)








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pê ésse: Moro em um prédio de 12 andares. Meu bairro é dotado de ilha de calor. Tem assaltos à luz do dia. Aqui, as casas valem mais do que todos os apartamentos de um prédio antigo. Derrubando e crescendo, derrubando e crescendo....