terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Comédia em pé.

Eu gosto mesmo é de falar dos outros.

Sexta-feira fomos eu e meu namorado, e mais centenas de pessoas ao Centro de Convenções assistir Oscar Filho fazendo comédia dele mesmo, de nós, do Brasil, do comportamento feminino e de exames ginecológicos.
Eu juro que não esperava tanto. Pra falar a verdade, eu não esperava nada. Ele não é meu preferido e o humor dele parece meio... simples, não é não? E o fato de ele ser bonito o torna menos engraçado. Desculpa, mas isso funciona pra mim. Não é à toa que o Anderson é o meu preferido dos Barbixas e de todo mundo que participa do Improvável.*

Foi curto, quente, desconfortável e atrasado, mas valeu a pena. Nessas horas a gente vê que pra ser engraçado... basta ser engraçado. Acho que ninguém riu até chorar, saiu com dores abdominais que valem por uma manhã na academia, muito menos derramou um pouco de xixi nas próprias roupas, mas foi bom, muito bom.

Eu vi que a beleza do humor está, antes de tudo, em ser inteligente e detalhista. Você precisa ver o que ninguém vê; e precisa ser crítico em cima disso. Se você for um cronista rabugento (complexo de Édipo se manifestando!), você repara e faz os outros pensarem sobre o absurdo do fato, sobre a inescrupulosidade fugindo aos nossos olhos!, oh não!. Se você for um cara gente boa, engraçado e inteligente (o que não impede que o tipo anterior seja isso também, calma), você vai subir num palco e fazer as pessoas rirem de si mesmas, e ainda saírem de lá satisfeitas. Aliás, minto. Vai fazer saírem de lá querendo um pouco mais dessa besteira toda que faz bastante sentido...

Eu nunca tinha reparado o espanto do nome do exame "ultrassonografia transvaginal", muito menos que parecia frase dita pelo Corcunda de Notre Dame. Nunca tinha reparado no absurdo íntimo de emprestar sutiã e/ou de pegar sutiãs emprestados das amigas. Muito menos de se trancar no banheiro pra ver o implante de silicone da outra. Também não tinha me perguntado o por quê de dar um tiro pro alto ao invés de dizer "JÁ" na corrida de atletismo. Nem que ator chinês demora uma vida inteira pra conseguir morrer em qualquer filme que seja. Interpretações oscarfilhianas à parte, pensar nisso já começa a ser engraçado pra mim.

Pode fazer pouco caso, mas foi foda. Principalmente porque serviu pra muita gente ver que rir de si mesmo é melhor que parar para rir dos outros...







(*) Como ponho o link no nome da pessoa? Esqueci!

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Vem acontecendo uma overdose de sentimentos, uma alteração intensa e colorida demais de emoções opostas, uma miscelânia de fatos, imagens, e de frases e memórias de efeito. Tudo que eu não aguento. Tudo intenso demais.
É uma felicidade sem explicações seguida de uma tristeza cheia de justificativas, as quais há dois minutos passados não eram mais justificativas coisa nenhuma! Basta aquela sensação de que o tempo está passando, e o meu tempo, principalmente, passando também. Aquele vazio, aquele oco, e esse vai-e-vém tão estranho que eu não gosto, que eu abomino. Eu sinto falta é da felicidade normal, comum. Das crises existenciais também normais, comuns. Essa coisa profunda, intensa... eu não gosto disso. Eu não entendo isso.
Há poucos dias atrás eu tinha encontrado todas as respostas! Mais ainda, eu tinha esquecido de todas as perguntas sem respostas, de todas as perguntas que não valiam à pena e que eram só mesmo uma grande perda de tempo. E aí, pá-pum, volta tudo outra vez. As mesmas perguntas e outras novas, uma escuridão perversa e sem controle, e, putz, inexplicável demais. Não tem pra quê isso. As novas e outras perguntas são iniciadas por "comos" e "por ques". E, mais do que sempre, ou mais do que nunca, sei lá, eu não faço a mínima idéia a quem socorrer (eu mesma?), como começar, e, pior, SE devo começar, e SE devo continuar tudo isso...

Prefiro o constante animador ao intenso imprevisível, porque esse imprevisível é uma moedinha: dois lados, duas caras. E uma delas pode estar viciada...

domingo, 16 de agosto de 2009

Ai, ai.

Muita gente diz, né: a internet veio pra facilitar nossas vidas, aproximar pessoas, reduzir distâncias, enfim. Que facilita, facilita. Acelera bastante também. Mas essa história de aproximar pessoas só vale pra quem mora em cidades ou países diferentes. Quando você e mais meia dúzia de amigos moram na mesma cidade, e todos usam o orkut, a chances de a internet distanciar vocês é muito maior.
Não se usa mais telefone para conversar. A gente manda depoimento, joga um recado dizendo que a pessoa sumiu, que nunca mais se viram... Também é pela internet que se convida amigos pra sair, pra ir pro seu aniversário, pra comparecer à festa surpresa do Fulano que tu nem sabia que ia passar 12 meses fora do país! E as chances de você só receber o convite dias depois do ocorrido são, tipo, enormes. A gente acompanha a vida dos outros olhando as fotos, e não participando dela. A gente recebe os cumprimentos pelo nosso aniversário e o Natal também pela tela, nunca mais por cartão. Até quando um parente seu morrer, a mensagem de luto chega por ali. Nem mesmo um abraço...

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Tanto assim.

Saí da aula de clínica psicológica querendo trancar o curso. Voltei para a de metodologia amando psicologia de novo. Hoje foi a vez do Jornalismo. Mas ontem eu queria mesmo era ser médica.
Cortei o cabelo e não ficou bom. Corto mais ou trato mais? Vou abandonar a escova progressiva e assumir os meus cachos que nunca foram bem cachos - e as pessoas educadas só queriam me agradar. Ou continuo escrava dessa química mesmo. Foi depois dela que veio o namorado; que chegou, viu, gostou e se apaixonou. Tá até hoje. Não que ele vá embora junto com ela. Mas, você me entende né.
Não sei se é melhor ser professora e pesquisar. Não sei se é melhor arriscar os meus putos em uma clínica supermegabigauber nova e revolucionária. Acho melhor pegar um bronze na sexta, mas eu talvez tenha que adiantar uns compromissos - aqueles que me rendem poucas centenas de putos no fim do mês.
Eu fico aqui por mais 40 minutos esperando meu pai ou vou embora? Depois do fim dessa música eu vou. Eu vou. Eu vou... bem devagar... o elevador tá no 11! Chega, pai! Não, não veio. Pois eu que fui.
Como a droga do doce sem vontade de comer doce? Me entupo de feijão porque, afinal de contas, estou malhando feito homem com vigorexia? Mas não cabe mais, puta que pariu. Cabe o doce; o doce cabe.
Eu estudo ou trabalho nesses minutos? Arrumo só o meu quarto ou o dos outros também? Gasto todo o meu dinheiro da poupança? Metade dele? Porra nenhuma? Paro de falar palavrão?

Eu vi que era tempo de mudança. Comecei pelo cabelo. E o restante das coisas eu não sei... Ou sei e não assumo que sei. Porque eu acho que tô meio em dúvida, sabe?

domingo, 19 de julho de 2009

Estampa

Ela tinha um cabelo curto e azul, que já havia sido verde, que já havia sido grande. Saiu de casa com as roupas que gostava, com o tênis preferido e com uma só estampa em todo o modelito: felicidade.
Lá vinha ela de mãos dadas com ele. Também despojado, também com o tênis preferido, uma camiseta que tinha uma dessas frases engraçadas do tipo "morro de vergonha dos meus amigos". Eram com eles que eles estavam até então.
Aquele grupo grande, unido e de sempre. A programação: a de sempre. Cinema em dia de semana, lanche barato, conversas intermináveis. E lá estavam eles dois: ela com seu cabelo azul que chamava a atenção de todas as pessoas que acham estranho um cabelo que não seja loiro, preto ou ruivo, e ele com sua camiseta bem-humorada, barbicha no queixo e estampado de felicidade também.
Era um daqueles casais que têm tudo pra dar certo. Suas roupas combinavam. Seus amigos combinavam. Suas conversas tinham o mesmo teor, e o gosto musical nem se fala. Eu não sei dizer direito o que escutavam. Mas tinham bom gosto, isso dava para desconfiar.
Encontrando um outro amigo, ele soltava uma piada, sorria de lado com cara de quem não quis dizer algo engraçado intencionalmente, e ela ria mais ainda. Todo mundo ria mais ainda. Aquele carinho mútuo, discreto, sincero e de dar inveja em qualquer um, apaixonado ou desiludido, não cessava. A forma como sua suas mãos estavam entrelaçadas dizia tudo. O fato de andarem devagar, sem pressa, conversando animadamente enquanto a turma toda ia mais à frente, com certa pressa por causa do ônibus por chegar, também dizia muita coisa. Olhando pra eles, dava pra ver uns balõezinhos de pensamento no estilo das histórias em quadrinhos. Enquanto eles conversavam, esses balões estavam ali. Tinham os sonhos, coraçõezinhos vermelho-vivo, e talvez mais alguns pensamentos que não nos cabe saber.
Hora da despedida. Amanhã se veriam novamente: talvez para um filme na casa de alguém, para uma cerveja ou um show de música alternativa para onde só iriam umas 300 pessoas no máximo. Mas iriam se ver. E mesmo assim, quando ele se foi, deu-lhe um beijo e falou algo bem próximo da sua boca, olhando nos olhos dela, ela ainda ficou com o olhar perdido por alguns segundos, observando se ele ia bem, se estava tudo bem com ele, e pensando no quanto de saudades já sentia. Os olhos dela brilhavam, e imploravam, com todo esse brilho, que chegasse logo o próximo encontro. A estampa da felicidade que eu vi na menina se misturou à da sinceridade do sentimento, e eu já não sabia se havia diferença entre essas duas.

terça-feira, 14 de julho de 2009

- Eu disse à você que as pessoas nunca vão ser do jeito que você quer!

- Mas, porra, era pedir muito? Dava pra pelo menos ela ser assim!

- Se ela não é, talvez seja porque não consiga ser!

- Idiota.

- Você que é.

- Eu não, ela! Tu não vê? Ela é muito idiota, bicho.

- Por que você quer tanto que ela seja assim? Cem por cento? Eu aposto que os cento e cinco por cento dela ela já está sendo, todo mundo vê, menos você.

- Eu não vejo porra nenhuma. É exatamente isso que eu vejo: porra nenhuma. Porque ela não se esforça porra nenhuma. Mas aí todo mundo defende a idiota, e eu sou o vilão da história - só porque eu digo que ela é idiota e não faz porra nenhuma.

- Ela não vai ser como você quer que ela seja.

- Ela tem que ser! Puta que pariu, ela só fode a vida dos outros e você ainda a defende? Porra!

- Ela não vai ser.

- Ela tem que ser.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Faz de conta que ainda estou aqui. Faz de conta que vim, passei, e não fui. Faz de conta que fiquei. Deixe os quatro últimos dedos daquele vinho na mesa do centro. Os meus biscoitos integrais preferidos na despensa e, por favor, um monte de pizzas congeladas. Deixe a escova de dentes todo dia molhada, e o tubo de pasta apertado em vários pontos. Deixe a escova de cabelos com alguns fios secos, e o pente de madeira do lado do creme de hidratar. A cama fica mesmo por fazer, os livros de mais uso em cima da mesa, e as literaturas por ler deixe "em fila" na estante. Pelo menos duas bolsas penduradas na minha cadeira, como se eu as tivesse usado ontem; o restante, guardadas no lugar em que está. Deixe a desordem de sempre, a fraqueza demonstrada e a impessoalidade que for necessária pairar. Faça de conta que ainda estou aqui.

sábado, 20 de junho de 2009

Cá entre nós.

Eu sou bem fútil e ninguém sabe. Eu reparo em roupas, sapatos, cabelos. Eu detesto ir à manicure, mas eu sempre sei quem está com as unhas feitas. Eu gosto de carros, eu acho que entendo de carros - e essa é a pior parte em ser fútil: achar que entende algo sem realmente entender.
Eu quero ter tudo. Eu quero ter tudo agora. Eu tenho quarenta e oito mil vontades ao mesmo tempo e não consigo saciar nada. Então me dá uma depressão e eu esqueço.
Eu gosto de ver desfiles de moda. Eu folheio todas as revistas paparazzi quando vou ao salão ou a qualquer consultório que seja. Evito as sérias. Mal ligo a televisão na hora do jornal. Às vezes minha vontade de ver um filme bobo é até incontrolável. Tipo agora. ("Diabo Veste Prada, Diabo Veste Prada, Diabo Veste Prada". Não tá passando, urgh.)
Eu falo bem rápido quando me irrito e eu me irrito porque a circunferência da minha cintura é 67cm e isso é completamente desproporcional ao restante do meu corpo. Ah, um silicone! Da cintura pra baixo, bastante. Eu juro que levo a sério essa idéia.
Eu sonho com uma casa bem bacana, um marido bem legal e filhos lindos. E eu sempre estou linda dos meus sonhos. Minhas roupas são de grife, vou ao salão todos os finais de semana, e, pasmem, sou sempre uma mulher gostosa depois de duas gravidezes.
Ha. Sou fútil, esconda meu segredo.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Abriu a porta para ela e deu aquele sorriso sem querer dar. Ela retribuiu, mostrando os dentes amarelos, a cara de cansaço com feições de domingo-à-noite. Tinha sido mais um final de semana igual a todos os outros. Festa sexta. Festa sábado. Casa da amiga, roupas emprestadas, conversas sobre qualquer coisa, saudade do ex-namorado e uma não-vontade de continuar a semana. Por favor, que ficasse ali.

Seria a mesma ladainha outra vez. Uma faculdade particular e uma vida dedicada ao não-emprego e ao estudo. Que estudo? Ele ia dizer. Dava para fazer os dois. E como dava! Ah, no meu tempo... No tempo dele, tudo podia, tudo era possível. Era tudo muito diferente, a gente sabe. E o mundo dele que se exploda. Ela gostava de estudar. Mas, ultimamente, estava mais para fumante-álcoolatra desenfreada e perdida do que para estudante. Havia mudado de "profissão".

E não fale nessa palavra... Eram só os dois, pai e filha, dentro de casa, que absurdo. Não havia ninguém por ela. Não ali, entre as paredes do apartamento, onde o barraco rolava solto. Um namorado responsável e bacana tinha ido embora, as amigas do colégio estavam se formando e casando e tendo filhos e se separando (tinham entrado na faculdade antes dela). Ah, Cecília, ficasse pra trás nessa de não conseguir uma federal e um emprego meio-expediente que não te acrescentasse em muita coisa. Bastava dizer que trabalhava - o lema em casa era esse.

Era observada, investigava. Seu pai sabia do blog, do tal do orkut, de como tinha acabado o namoro (coisa que ela nunca havia dito à ninguém - se livrava com o 'não deu certo...') - ela odiava ele saber tudo isso. Sabia das notas (boas, sim, boas), da sua paixão pelo curso e da vontade de ter sua própria vida. Mas nem adiantava se ela (de novo!) não trabalhava. E aqueles empregos de escritório que ele arranjava, hein? Não servia. E os concursos que a mandava fazer? Também não. Menina-mimada-que-não-ajuda-em-casa. Passa na cara, vai.

Ouviu tudo pela enésima vez. Se deitou. Fumou um último cigarro da noite, e esperou, com raiva, que o dia amanhecesse...

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Piada, para descontrair.

Revista ÉPOCA, 26 de janeiro de 2009.

(Manchete: Fabio Faria, deputado e gato
Lead: A trajetória e os desafios de um parlamentar que é um fenômeno político no Rio Grande do Norte e se tornou famoso pelas conquistas amorosas.)*

"Há uma injustiça na fama do deputado federal Fabio Faria. (...) ficou conhecido como o ex-de-Galisteu."

"(...) jeito de bom-moço"

"(...) injustiçado"

"(...) se tornou um fenômeno político no Rio Grande do Norte..."

"(...) deputado federal mais votado de seu Estado [195 mil votos], sem nunca ter ocupado um cargo eletivo."

"(...) jovem, (...) partido pequeno, beleza."

"No interior, é tratado como pop star." "(...) autógrafo e fotos (...)"

"(...) fazer do Fabio o deputado federal mais votado do Estado foi uma demonstração de força de Robinson (...)"

"(...) pequeno empresário." Lanchonete; comércio de camarão; Atlética Club.

"(...) camarote mais disputado do carnaval fora de época de Natal."

"(...) sócio de Marcos Buaiz (...) e empresário de entretenimento do eixo Rio-São Paulo."

"(...) com seu terno italiano.."

"(...) suas principais bandeiras: levar os jogos da Copa de 2014 para Natal e rever as regras do Ecad, o órgão que arrecada direitos autorais de shows e festas. O deputado ainda não conseguiu aprovar nenhum projeto de lei, mas aposta em um: o que isenta os CDs de música de cobrança de impostos como forma de combater a pirataria."

Olha aí! Nossos principais interesses na Câmara!

As informações supracitadas não merecem um outro comentário.

*E isso foi realmente apenas um parênteses.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Até onde deficiente?

Dia desses fui ao banco. Não no caixa rápido, mas na agência mesmo, onde fiquei esperando sentada pelo meu atendimento. Cheguei e só tinham três ou quatro pessoas na minha frente. Quinze minutos depois, eis que surge um atendimento preferencial. Até aí tudo bem. Ele está aí pra isso, para deixar os 'normais' aguardando mais um pouco. Mas a preferência, a qual deve ser dada a um idoso, gestante, ser humano com criança de colo ou a um portador de necessidades especiais, foi dada a uma mulher jovem, saudável, que tinha engessado um pé (na verdade, colocado uma daquelas botas azuis marinhos bonitinhas que dá até vontade de usar de vez em quando) e se sustentava sobre muletas compridas. Sabe, ela estava aparentemente bem. Sorria, brincava com uma criança, conversava com ela. Não mostrava dificuldades ao andar, não parecia necessariamente estar em desvantagem (apesar da sua efêmera e não convencional condição). Você, se bom senso tiver, faria uso do atendimento preferencial?

Então uma colega minha fez uma cirurgia no joelho. Rompeu ligamento. Ou foi algo no menisco, minisco, silício, sei lá. Mas aquelas coisas de joelho as quais quando você ouve o faz pensar que algo se esticou até torar, ou que vai torar a qualquer momento se estirar mais um pouco. É a sensação que eu tenho, desculpe. E agora ela está com uns esparadrapos na região, porta uma moleta das curtas (se apóia sobre o punho; não incomoda a axila), e precisa tomar cuidado ao sentar, levantar, se abaixar para apanhar a tarraxa que caiu, enfim. Mas seu aspecto também é saudável, alegre, jovial. Ela não reclamou de dores enquanto estava comigo. Não mostrava sofrimento, depressão, tendência suicida. E comentou: estava usando as vagas de deficientes dos shoppings e supermercados.

Parece radicalismo meu. Eu não estou no corpo dessas pessoas nem sei como está sendo ter muletas debaixo do sovaco ou o joelho prestes a se esfarelar. Talvez elas se sintam muitíssimo prejudicadas diante dos obstáculos da sociedade (?!). Mas, no lugar delas, você, com bom senso (mais uma vez), não sente vontade de pensar no idoso de bengala enfraquecido? Ou no cadeirante, que realmente passa por dificuldades para estacionar, descer do carro e dirigir-se às lojas? Não pensa na gestante com as pernas inchadas e as costas latejando de dor? Ou é melhor pensar no seu mísero sofrimento e utilizá-lo da melhor forma possível? Você pode ser esperto. Deixando de ser humano também.

Para mim, não se passa de exagero. Acredito que as vagas para portadores de necessidades especiais são para portadores de necessidades especiais. Necessidades permanentes. Limites físicos eternos, que façam de você imperfeito por toda vida - e não por um mês ou mais. Se lhe faltar um braço, vai também querer passar na frente na fila do banco? Mas está doendo em você esperar? Onde? Se torcer o pé, o caixa preferencial do supermercado é seu? Peraí, aquela fila curta ali não serve? Deixa o velhinho passar. Ele, sim, se não estiver disposto nem saudável, merece "passar na frente". Você não, esperto. Você não.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

A gente é muito otário né, bicho?

Eu acho. Uma vez, conversava com uma amiga minha, a qual estava prestes a fazer vestibular para Direito. O primeiro. Eu perguntando "por que queres Direito, hein?" (essa pergunta eu fazia constantemente; nunca consegui enxergar o que há de atrativo nesse campo), e ela: ah, eu vou fazer Direito porque eu quero terminar o curso, fazer um concurso, passar e pronto.

Ah, é. Ela vai fazer Direito porque, aparentemente, é uma forma fácil e sem rodeios de atingir uma boa vida. Boa vida: dinheiro. Claro, claro, ela tá certa. Mas, peraí, e o romantismo de "fazer o que eu quero; cursar a faculdade dos meus sonhos; amar o próprio trabalho"? Tem coisa mais bonita do que amar o ofício? Acordar feliz na segunda-feira? Na terça, quarta, quinta e sexta? Eu sei que o cansaço bate e às vezes tudo enche; mas vamos colocar o romantismo em voga.

Eu não consigo me imaginar fazendo uma escolha assim. Eu não consigo conceber uma escolha assim. Pensando dessa forma, esse alguém está sacrificando anos da sua vida! Sério. Vamos exagerar, porque vale. Como assim você não pensa na satisfação do seu trabalho, mas apenas nas roupas de marca, no carro do ano e na casa mais bonita da cidade? Isso é muito pouco, bicho. E é por isso que eu digo que a gente é otário.

Eu não suportaria acordar numa casa de mil metros quadrados, vestir boas grifes, dirigir pela cidade no Honda Civic top de linha, se o meu destino depois dessa rotina era um trabalho maçante, chato, que eu não escolhi pra mim; o qual eu apenas fui parar ali porque passei em uma prova. A busca da felicidade parou bem na superfície assim...

E eu faço parte desse clube! (Por isso falo mal dele com tanta propriedade). Eu não faço Direito, muito menos almejo para o meu futuro salas de cursinhos preparatórios (já bastaram os do pré-vestibular). Mas escolhi minha faculdade por status profissional, e porque me proporciona uma segurança financeira maior se comparada à dos meus (antigos?) sonhos. Gosto muito do que estudo, e acredito que amarei minha profissão; mas duvido um pouco se gosto de estudar muito mais isso do que o sonho antigo, e duvido um pouco mais se serei mais realizada no que estou traçando agora do que seria no que eu gostaria de ter começado a traçar.

A Psicologia é apaixonante, acreditem. Não me arrependo de ter entrado nela, mas me arrependo da forma como decidi seguir esse caminho. Nunca vou saber se foi o correto - não terei duas vidas para isso. Talvez eu me arrependa de ter sido racional demais e de não ter sido nem um pouco passional. Talvez eu mude. Desista. Comece tudo de novo. Talvez não tenha coragem para isso. Fazer parte desse clube, eu te garanto, não é nada bom. E ter certeza de ser um integrante, garanto mais, é pior ainda...

Pense. Ame. Aja. Aliás, ame, pense, aja. Aquela ordem primeira, só para o clube, só para o clube...!

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Cada um na sua

Somos diferentes mas somos um só, meu bem. E a mim nem interessa se o que está nos teus pés vale quatrocentos ou 29 reais. Pouco me importa os defeitinhos, aquela "boça" de homem bonito - em tu eu até gosto, as conversas repetitivas, a falta de memória, aliás (a culpada da repetição, eu entendo). Eu entendo tudo. Eu entendo bem. Mais que isso! Compreendo-te. E te abraço com todo esse meu entender e compreender.

Eu me acho, né? Eu sei. Eu acho que eu entendo tudo, puf. Que sou a compreensiva da história. A flexível do momento. Top de linha em paciência, espécie em extinção para o romantismo. Sou e não sou nada disso. Eu detesto entender algumas coisas. Pior ainda, compreender algumas coisas (essas mesmas aí). Não recebo bem as críticas. Quero me revoltar. Quero ser diferente, sei lá por quê. Eu já sou, sei que sim! Me tremo de impaciência, às vezes. E, ah, não sou fria, mas também não sou carente de amores.

Você pode grudar em mim, se quiser. Não acredito que estou dizendo isso! Não me reconheço. Mas, sim, você pode. Outra pessoa, nunca. Mudei com você. A personalidade é a mesma; certas coisas, não mudo. Vou continuar dando chilique a cada "não ligo para o meio-ambiente" dos outros; vou continuar não consumindo muita carne vermelha e dizendo não aos refrigerantes. Não sei até quando, mas vou. Meus amigos serão os que eu quiser que sejam. Será tudo assim. Algumas coisas, permanentes. Outras mudando, tudo bem?

Olha, hoje em dia já adoro comédias românticas! Até penso num salto alto de vez em quando. Relaxo mais nas frituras e nos doces. Prendo um palavrão. Solto um pum. Ops.

E cá estamos nós. Eu cedi. Tu cedeu. Andamos um bocado, hein? Daqui não saio mais. Tu também não. Mas continuo sendo eu, mesmo um pouco diferente, e tal sentença também vale para ti. Foi bom pra você? Continuará a ser. Somos diferentes, mas somos um só. (E cabe por aqui a ambigüidade...).


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Ei! Eu gosto do trema! Não quero que ele se vá!