quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Até onde deficiente?

Dia desses fui ao banco. Não no caixa rápido, mas na agência mesmo, onde fiquei esperando sentada pelo meu atendimento. Cheguei e só tinham três ou quatro pessoas na minha frente. Quinze minutos depois, eis que surge um atendimento preferencial. Até aí tudo bem. Ele está aí pra isso, para deixar os 'normais' aguardando mais um pouco. Mas a preferência, a qual deve ser dada a um idoso, gestante, ser humano com criança de colo ou a um portador de necessidades especiais, foi dada a uma mulher jovem, saudável, que tinha engessado um pé (na verdade, colocado uma daquelas botas azuis marinhos bonitinhas que dá até vontade de usar de vez em quando) e se sustentava sobre muletas compridas. Sabe, ela estava aparentemente bem. Sorria, brincava com uma criança, conversava com ela. Não mostrava dificuldades ao andar, não parecia necessariamente estar em desvantagem (apesar da sua efêmera e não convencional condição). Você, se bom senso tiver, faria uso do atendimento preferencial?

Então uma colega minha fez uma cirurgia no joelho. Rompeu ligamento. Ou foi algo no menisco, minisco, silício, sei lá. Mas aquelas coisas de joelho as quais quando você ouve o faz pensar que algo se esticou até torar, ou que vai torar a qualquer momento se estirar mais um pouco. É a sensação que eu tenho, desculpe. E agora ela está com uns esparadrapos na região, porta uma moleta das curtas (se apóia sobre o punho; não incomoda a axila), e precisa tomar cuidado ao sentar, levantar, se abaixar para apanhar a tarraxa que caiu, enfim. Mas seu aspecto também é saudável, alegre, jovial. Ela não reclamou de dores enquanto estava comigo. Não mostrava sofrimento, depressão, tendência suicida. E comentou: estava usando as vagas de deficientes dos shoppings e supermercados.

Parece radicalismo meu. Eu não estou no corpo dessas pessoas nem sei como está sendo ter muletas debaixo do sovaco ou o joelho prestes a se esfarelar. Talvez elas se sintam muitíssimo prejudicadas diante dos obstáculos da sociedade (?!). Mas, no lugar delas, você, com bom senso (mais uma vez), não sente vontade de pensar no idoso de bengala enfraquecido? Ou no cadeirante, que realmente passa por dificuldades para estacionar, descer do carro e dirigir-se às lojas? Não pensa na gestante com as pernas inchadas e as costas latejando de dor? Ou é melhor pensar no seu mísero sofrimento e utilizá-lo da melhor forma possível? Você pode ser esperto. Deixando de ser humano também.

Para mim, não se passa de exagero. Acredito que as vagas para portadores de necessidades especiais são para portadores de necessidades especiais. Necessidades permanentes. Limites físicos eternos, que façam de você imperfeito por toda vida - e não por um mês ou mais. Se lhe faltar um braço, vai também querer passar na frente na fila do banco? Mas está doendo em você esperar? Onde? Se torcer o pé, o caixa preferencial do supermercado é seu? Peraí, aquela fila curta ali não serve? Deixa o velhinho passar. Ele, sim, se não estiver disposto nem saudável, merece "passar na frente". Você não, esperto. Você não.

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