quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Abriu a porta para ela e deu aquele sorriso sem querer dar. Ela retribuiu, mostrando os dentes amarelos, a cara de cansaço com feições de domingo-à-noite. Tinha sido mais um final de semana igual a todos os outros. Festa sexta. Festa sábado. Casa da amiga, roupas emprestadas, conversas sobre qualquer coisa, saudade do ex-namorado e uma não-vontade de continuar a semana. Por favor, que ficasse ali.

Seria a mesma ladainha outra vez. Uma faculdade particular e uma vida dedicada ao não-emprego e ao estudo. Que estudo? Ele ia dizer. Dava para fazer os dois. E como dava! Ah, no meu tempo... No tempo dele, tudo podia, tudo era possível. Era tudo muito diferente, a gente sabe. E o mundo dele que se exploda. Ela gostava de estudar. Mas, ultimamente, estava mais para fumante-álcoolatra desenfreada e perdida do que para estudante. Havia mudado de "profissão".

E não fale nessa palavra... Eram só os dois, pai e filha, dentro de casa, que absurdo. Não havia ninguém por ela. Não ali, entre as paredes do apartamento, onde o barraco rolava solto. Um namorado responsável e bacana tinha ido embora, as amigas do colégio estavam se formando e casando e tendo filhos e se separando (tinham entrado na faculdade antes dela). Ah, Cecília, ficasse pra trás nessa de não conseguir uma federal e um emprego meio-expediente que não te acrescentasse em muita coisa. Bastava dizer que trabalhava - o lema em casa era esse.

Era observada, investigava. Seu pai sabia do blog, do tal do orkut, de como tinha acabado o namoro (coisa que ela nunca havia dito à ninguém - se livrava com o 'não deu certo...') - ela odiava ele saber tudo isso. Sabia das notas (boas, sim, boas), da sua paixão pelo curso e da vontade de ter sua própria vida. Mas nem adiantava se ela (de novo!) não trabalhava. E aqueles empregos de escritório que ele arranjava, hein? Não servia. E os concursos que a mandava fazer? Também não. Menina-mimada-que-não-ajuda-em-casa. Passa na cara, vai.

Ouviu tudo pela enésima vez. Se deitou. Fumou um último cigarro da noite, e esperou, com raiva, que o dia amanhecesse...

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