domingo, 19 de julho de 2009

Estampa

Ela tinha um cabelo curto e azul, que já havia sido verde, que já havia sido grande. Saiu de casa com as roupas que gostava, com o tênis preferido e com uma só estampa em todo o modelito: felicidade.
Lá vinha ela de mãos dadas com ele. Também despojado, também com o tênis preferido, uma camiseta que tinha uma dessas frases engraçadas do tipo "morro de vergonha dos meus amigos". Eram com eles que eles estavam até então.
Aquele grupo grande, unido e de sempre. A programação: a de sempre. Cinema em dia de semana, lanche barato, conversas intermináveis. E lá estavam eles dois: ela com seu cabelo azul que chamava a atenção de todas as pessoas que acham estranho um cabelo que não seja loiro, preto ou ruivo, e ele com sua camiseta bem-humorada, barbicha no queixo e estampado de felicidade também.
Era um daqueles casais que têm tudo pra dar certo. Suas roupas combinavam. Seus amigos combinavam. Suas conversas tinham o mesmo teor, e o gosto musical nem se fala. Eu não sei dizer direito o que escutavam. Mas tinham bom gosto, isso dava para desconfiar.
Encontrando um outro amigo, ele soltava uma piada, sorria de lado com cara de quem não quis dizer algo engraçado intencionalmente, e ela ria mais ainda. Todo mundo ria mais ainda. Aquele carinho mútuo, discreto, sincero e de dar inveja em qualquer um, apaixonado ou desiludido, não cessava. A forma como sua suas mãos estavam entrelaçadas dizia tudo. O fato de andarem devagar, sem pressa, conversando animadamente enquanto a turma toda ia mais à frente, com certa pressa por causa do ônibus por chegar, também dizia muita coisa. Olhando pra eles, dava pra ver uns balõezinhos de pensamento no estilo das histórias em quadrinhos. Enquanto eles conversavam, esses balões estavam ali. Tinham os sonhos, coraçõezinhos vermelho-vivo, e talvez mais alguns pensamentos que não nos cabe saber.
Hora da despedida. Amanhã se veriam novamente: talvez para um filme na casa de alguém, para uma cerveja ou um show de música alternativa para onde só iriam umas 300 pessoas no máximo. Mas iriam se ver. E mesmo assim, quando ele se foi, deu-lhe um beijo e falou algo bem próximo da sua boca, olhando nos olhos dela, ela ainda ficou com o olhar perdido por alguns segundos, observando se ele ia bem, se estava tudo bem com ele, e pensando no quanto de saudades já sentia. Os olhos dela brilhavam, e imploravam, com todo esse brilho, que chegasse logo o próximo encontro. A estampa da felicidade que eu vi na menina se misturou à da sinceridade do sentimento, e eu já não sabia se havia diferença entre essas duas.

terça-feira, 14 de julho de 2009

- Eu disse à você que as pessoas nunca vão ser do jeito que você quer!

- Mas, porra, era pedir muito? Dava pra pelo menos ela ser assim!

- Se ela não é, talvez seja porque não consiga ser!

- Idiota.

- Você que é.

- Eu não, ela! Tu não vê? Ela é muito idiota, bicho.

- Por que você quer tanto que ela seja assim? Cem por cento? Eu aposto que os cento e cinco por cento dela ela já está sendo, todo mundo vê, menos você.

- Eu não vejo porra nenhuma. É exatamente isso que eu vejo: porra nenhuma. Porque ela não se esforça porra nenhuma. Mas aí todo mundo defende a idiota, e eu sou o vilão da história - só porque eu digo que ela é idiota e não faz porra nenhuma.

- Ela não vai ser como você quer que ela seja.

- Ela tem que ser! Puta que pariu, ela só fode a vida dos outros e você ainda a defende? Porra!

- Ela não vai ser.

- Ela tem que ser.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Faz de conta que ainda estou aqui. Faz de conta que vim, passei, e não fui. Faz de conta que fiquei. Deixe os quatro últimos dedos daquele vinho na mesa do centro. Os meus biscoitos integrais preferidos na despensa e, por favor, um monte de pizzas congeladas. Deixe a escova de dentes todo dia molhada, e o tubo de pasta apertado em vários pontos. Deixe a escova de cabelos com alguns fios secos, e o pente de madeira do lado do creme de hidratar. A cama fica mesmo por fazer, os livros de mais uso em cima da mesa, e as literaturas por ler deixe "em fila" na estante. Pelo menos duas bolsas penduradas na minha cadeira, como se eu as tivesse usado ontem; o restante, guardadas no lugar em que está. Deixe a desordem de sempre, a fraqueza demonstrada e a impessoalidade que for necessária pairar. Faça de conta que ainda estou aqui.