sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Uma, duas, três alegrias. Mil abraços. Sonhos realizados. Sucesso aqui, sucesso ali. No trabalho. Família unida. Amigos presentes. Festas. Grandes sorrisos. Gratidão de si e para si. Para todo mundo. De todo mundo. Presença garantida dos especiais. Distância dos não-especiais. Confiança mútua que sempre exista. Um grande amor. Saúde. Disposição na segunda-feira. Serenidade. "Paz". Pulos de felicidade. Viagens. Aumento do salário. Uma promoção no trabalho. Às boas notícias que hão de chegar! Tim-tim. Um brinde. Muitos brindes. Muito "tudo-de-melhor".

A mim, somente o fim dessa dor.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Ei!

Feliz Natal!

Que os presentes, a comida, a bebida e as luzes de hoje sejam meros detalhes. Que você seja capaz de abraçar e sorrir com vontade e sinceridade para aqueles que estejam compartilhando essa noite com você. Que seu sentimento de bondade e gratidão prevalesça, independente de como esteja hoje sua vida, sua cabeça, seu espírito. Que o RO de amanhã seja tão ou mais divertido que a noite de hoje, quando todos estiverem informalmente à mesa da cozinha, comendo salgadinho frio com os pés em cima da cadeira. Sem cerimônias. Que, aliás, a noite de hoje seja muito feliz. Que sua família, pequena, grande, divertida, chata, seja ainda mais família, e tocada por esse espírito de Natal que dizem existir e que devia existir entre nós o ano inteiro - se ele é tão bom assim. Que ele permaneça entre nós, então!

De novo, que o material e o comestível sejam meros detalhes. Que as pessoas sejam hoje, e para sempre, aquilo que realmente te importa.

Fiquem com Deus. E com o bom velhinho também.

Do zero.

E não se lembrava, mas havia adormecido chorando na última noite. Mais uma vez, mas uma vez que há muito não acontecia. Se antes era um hábito, isso agora não era usual. A tristeza invadiu e inebriou. O espanto também tomou conta. As lágrimas vieram e banharam todo o sono. Não se lembrava disso quando acordou no dia seguinte.
E nesse mesmo dia, só foi lembrar-se quando deu conta do andar catatônico que também se repetia. Dos membros rígidos, da dificuldade de movimentar-se com a leveza de antes, pois o corpo doía, não se movia, pensava-se, até, não existia. E, principalmente, quando se deu conta do olhar vazio com que se deparou diante do espelho. A névoa dentro dos olhos amendoados fez lembrar-se de tudo.
Reviveu e perguntou por quê. Desistiu. Quis se justificar. Não entendeu. Pensou não merecer, e começou a sentir o vazio outra vez. Tudo outra vez. Está aí, então, seu recomeço(!).

domingo, 19 de dezembro de 2010

The Baixo

Começou dia 15. Termina hoje. Teve um grande dia ontem. E grande em todos os sentidos.

Saindo da rua João Pessoa, indo para a Ribeira, parando de tempos em tempos, assistindo e aplaudindo aos artistas locais que poucos conhecem, mas que muito fazem pelo que chamamos de "cultura". Teve Pau e Lata do começo ao fim. Teve teatro, dança, performance, e circo. Adoro circo. Teve rua interditada, e o manifesto a céu aberto, com os artistas comunicando defronte aos órgãos públicos e, principalmente, diante das pessoas, o que eles querem: reconhecimento e incentivo.

O espetáculo intinerante durou cerca de três horas. Em dois atos, atores encenaram nossos artistas indo embora daqui: "vou embora da cidade pra poder viver de arte", enquanto ironizavam todos os aspectos dessa cidade que cultua o Carnatal, que contém a cultura esquecida, e cujos artistas se espremem em uma Lei de Incentivo para tentar (e somente tentar) divulgar o seu trabalho.

O trajeto foi longo, e a variedade artística atendeu à necessidade de um espetáculo com quase três horas de duração. A revolta quanto ao não incentivo governamental permanece, e é o que está nas linhas e entrelinhas do projeto. E eu não diria nem incentivo, mas o simples retorno do dinheiro que direcionamos, honestamente, ao governo sob a forma de impostos. Ou seja, exigimos o que não passa de uma simples obrigação para eles.

Porém, não basta que a União, estado, município e sei-lá-mais-o-quê, destinem seus 1%, meio por cento, zero vírgula vinte e cinco por cento para a cultura. Nem que destinem impossíveis 10%, 50%, 100% para tanto. O espetáculo de ontem, e todo o Baixo de Natal, foi de entrada franca. São cinco dias de cultura grátis, para quem quiser. Cinco dias de música, de teatro, de dança, de todas essas coisas aí que eu já citei, para todas as idades e classes sociais. E cinco dias tomando conta de uma cidade, permeando as praças, as ruas, os bares daqui.

E, sabe o que, apesar dessa proposta 0800, e da produção e empenho em torno do evento, o público ontem era pequeno. Grande, de certa forma, pois contava com algumas centenas de pessoas; pequeno para o tamanho do evento, para a grandiosidade da proposta. Cadê os espectadores? Os nossos artistas estavam lá, aliás, estão aí todos os dias do Baixo de Natal, e o público não vai ao seu encontro.

Pra fazer arte, não adianta dinheiro público, se não houver público! Não adianta a rosa, a borboleta, ou a pessoa(?) que seja prometer e fornecer o devido incentivo. A população precisa ir prestigiar! Precisa sair de suas casas, deixar de frequentar o shopping center diariamente, e consumir um pouco da cultura. Ela existe por aqui! E a qualidade da arte que eu vi ontem é diretamente proporcional à um público de multidão.

O principal incentivo para o artista somos nós, (não) meros espectadores. Lembremos-nos disso.

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http://baixodenatal.blogspot.com

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É que tudo que eu tive nos últimos tempos me escorreu pelas mãos. Os sonhos, as lembranças, e, principalmente, as pessoas. Aqueles abraços apertados e intermináveis que se tornaram meros acenos, simples cumprimentos, e nada mais do que isso. Aquele sorriso largo e sincero que se transformou num movimento sutil dos meus lábios, sem dentes à mostra. Os planos que faziam sentido, e a existência em que se vivia o presente e o futuro sem dor. E o passado já foi. Aquela vontade de ser alguém, e agora a vontade de não ser mais nada.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

E vamos em frente.

E lá estava eu. No meio de dezenas deles. Muitas dezenas, talvez até uma centena da categoria. Aquela galera contando a história do seu 2010. Do 2010 acadêmico, que vai se repetir em 2011 para nós. A maravilhosa ida-a-campo, os desafios encontrados, as dificuldades impostas, o lugar-social-e-o-imaginário-popular dessa profissão, a angústia generalizada, a vasta aprendizagem. Foi uma experiência muito rica. Foi um trabalho muito rico. Foi um projeto muito enriquecedor, sabe. Disse, para ser diferente.

Olha, gente, olha como foi legal. Quanta coisa a gente fez. Tudo que a gente aprendeu na teoria, quando a gente viu, uau!, a gente pôs em prática! Mas, claro, com ressalvas né. Um milhão delas. Quase todas possíveis, na verdade. Porque na prática, a teoria é outra. Na prática, e teoria não existe, pra falar sério.

E quantas dúvidas, e quantos sonhos. E quantas pessoas querendo entender melhor o que tinha acontecido, pois a sua hora estava chegando - ela vem dentro de poucos meses. A minha também, vejam só. (Grande bosta.)

Vamos planejar melhor. Vamos ver o que podemos fazer diferente. Vamos proporcionar um experiência "muito rica", para ser tudo "muito rico" e, também, para não soar repetitivo, "enriquecedor". Tá todo mundo empolgado por aqui. Todos com borboletas no estômago. Prestes a se formar - porque, afinal de contas, dois anos passam assim! Que maravilha.

Os olhos da platéia brilhavam, as sinapses em suas cabeças enfureciam com tanta informação, planos e sensações prévias de felicidade, e as discussões vinham acaloradas, acompanhadas de sorrisos. Eu abri um livro qualquer. Imaginei um futuro díspare, e completamente distante de tudo que se assemelhe à Psicologia. Esperei o coffe break e fui embora.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Passeata vadia das almas vazias

É hoje! Chegou!

Ontem, ainda quarta-feira, estava eu do outro lado da cidade, dirigindo pela Rodrigues Alves, quando lá mesmo fui acometida pelo que, parece ser assim nomeado, "movimento cultural" do Carnatal. Eu peguei a avenida porque queria atingir logo a Romualdo, queria agilizar o meu caminho. E então eu me aproximo do cruzamento com a Maxaranguape e... O trânsito do Carnatal começa lá, tinha me esquecido! E começa antes do Carnatal.
A entrega da mortalha é ali no América, a venda do camarote mais caro e burguês do Corredor da Folia é ali naquela esquina e, claro, os cambistas começam a brotar do chão a cada cinco minutos, à medida que o começo da festa se aproxima.
Como se já não bastasse a galera estacionando em ambos os lados da rua, aquela fila-de-SUS arrodeando o quarteirão, as pessoas atravessando a rua como se estivessem em suas casas, andando do seu quarto pro banheiro, sem olhar se vem carro ou não, afinal, isso não importa, é o seu abadá que está em jogo!, e os cambistas achando que qualquer ser humano que passe por ali está realmente a fim de comprar uma de suas mortalhas, e por isso abordando carros, motoqueiros e pedrestes, os carros ainda paravam naturalmente no meio da rua. No meio da rua. No MEIO da rua. Na faixa do meio. Tinham que debater o preço do abadá com o tal vendedor-de-rua, né verdade? Nada mais importante do que isso. O trânsito (que já devia estar chegando até Petrópolis) que se dane. E temos, meros-mortais-não-foliões, que respeitar o momento do cidadão (nota 10).
Eu fiz o retorno. Eu fugi da entrega da fantasia para a festa que não vou. E minha vida continuou tranquilamente, até as 24 horas seguintes, é claro.
O trânsito já existia hoje de novo, agora na Prudente, com dezenas (eu vi centenas, mas acho que só existiam mesmo uns cinco) de caminhões estacionados nas margens das ruas, levantando as iluminações e as estruturas necessárias para o grande dia. Era só dez horas da manhã, e a cidade já diminuía seu ritmo para vinte quilômetros por hora.

Pois é. Eu já pulei Carnatal. Três dias seguidos. Encravei todas as unhas dos meus pés. Tomava uma bebida alcoólica misturada com refrigerante, porque na época em que eu gostava de Carnatal, era assim que eu (e minhas amigas semi-adolescentes) bebia. Achei o máximo, falo a verdade. Mas, o tempo passou, eu cresci, construí minha identidade e meu self, como aprendi na Psicologia, e mudei de gosto. Experimentar, tentar, não saber exatamente do que gosta e o que quer, faz parte de ser adolescente - aprendi na faculdade também.

Não sou a favor do fim do Carnatal. No fim das contas, bem ou mal, movimenta por aqui o comércio, o turismo, e chama um pouco de atenção pra cidadedosol. Porém, ter que sucumbir ao movimento, ao trânsito lento, às ruas interditadas, às músicas sem consoantes, com sílabas formadas apenas por vogais, ao mau cheiro da sexta, do sábado, do domingo, e dos sete dias posteriores à festa, é sempre um pouco demais. Eu posso reclamar. Todo mundo pode. E posso não gostar do Carnatal também.

Boa festa pra quem vai. Sossego e silêncio pra quem não vai. (Eu juro, eu desejo isso à vocês - especialmente para os últimos...).



P.S.: O título do texto não é meu: @lincolnwerner.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Eu tô sem saco. Tô sem ânimo. Tô sem caminho. Tô sem vontade. Tô com tristeza. Estou sem audácia. Estou por demais vencida. Estou cansada. Tô com o medo. Tô com o cansaço. Tô com a fraqueza. E não sou mais uma só. Tô sem fome. Tô sem nada. Estou à toa. Estou sem saber de nada. Estou sem saber por quê. Estou só o desgaste. Estou sem ser mais nada. Estou sem ser mais tudo. Estou no limbo. E tô no sonho. Ou é pesadelo. Eu já não sei. Estou sem saber. Estou sem vida. Estou com pena. Estou sem mim. E mais cansada. Cansada não sei do quê. Estou assim, sem nada, porque não há o tudo, mas somente o nada. Estou sem meio. Estou só o fim. Sou o fim. Isso é o fim. Estou vazia. E assustada. Estou com caminho e sem os passos. Estou sem pés. Estou com preguiça. Estou com raiva. Estou sem mais nada. Não sou mais nada. E(u) não sou mais nada.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Caim

"É um sinal de nascença, respondeu caim, Não deves ser boa gente, Quem tu disse, como o sabes, respondeu caim imprudentemente, Como diz o refrão antigo, o diabo que te assinalou, algum defeito te encontrou."

"Almocreves somos e pela estrada andamos."

"(...) é inevitável, fatal como a morte. E a vida."

"Como tudo, as palavras tem os seus quês, os seus comos e os seus porquês. Algumas, solenes, interpelam-nos com ar pomposo, dando-se importância, como se estivessem destinadas a grandes coisas e, vai-se ver, não eram mais que uma brisa leve que não conseguiria mover uma vela de moinho, outras, das comuns, das habituais, das de todos os dias, viriam a ter, afinal, conseqüências que ninguém se atreveria a prever, não tinham nascido para isso, e contudo abalaram o mundo."

"O tempo, esse grande igualador (...)"

"Vale mais tarde que nunca, respondeu o anjo com prosápia (...), Enganas-te, nunca não é o contrário de tarde, o contrário de tarde é demasiado tarde."

José Saramago.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Maldito seis de outubro.

Eu podia muito bem ter ficado aqui, com aquele meu platonismo infantil, com todas aquelas fantasias bobas as quais, achava eu, nunca haveria de vir nada parecido com aquilo. Eu sonhava e não doía. Eu vivia noutro mundo, e ao mesmo tempo na "realidade de verdade". E era bom. Era tudo bom.
Eu podia ter ficado com aquilo. Imaginando o segundo-primeiro-beijo que jamais chegaria. A troca de olhares que nunca aconteceria, e que não passaria do "oi, tudo bom?". Pra mim, era o suficiente. Viver com isso. Com essa esperança de mentirinha. Esse sonho que eu não queria ir atrás não. Só queria viver com ele. Era bom; era engraçado, pelo menos.
Eu podia ter ficado com isso.
Você veio. Você apareceu novamente. Pôs seu nome no meu dia-a-dia. Pôs nossa conversa em pauta, e provocou as longas risadas. A falta de ar de tanto rir. O cotidiano onde tudo parecia ter sentido - de verdade. Podia ser tudo banal; a felicidade era verdadeira até demais.
O sonho virou realidade. É clichê, mas foi isso mesmo. E essa realidade foi melhor ainda. Inesperada, e mais completa, e mais alegre do que qualquer sonho que exista, do que qualquer platonismo que exista também. Mas foi você que veio. Porque quis.
E também se foi.

Eu estou disposta. Eu não estou disposto. Eu consigo levar isso adiante. Eu não vou poder levar isso adiante. Minha vida parou. Muita coisa mudou na minha vida no último mês. Eu não vou conseguir melhorar. Eu estou bem.

Eu podia ter ficado aqui, com o sonho que não me causava dor, sem conviver com essa realidade, que dói cada dia mais. Cada dia mais.
Maldito seis de outubro. Ele não devia ter chegado.

domingo, 31 de outubro de 2010

Ei, meu filho.

Vem cá. Vou te ensinar um negócio.

Aqui, no mundo de gente grande, a teoria da evolução também vale. Vive o mais forte. Morre o mais fraco. E eis a regra principal: você não pode sofrer.

Tudo tem um tempo certo pro seu sofrimento. E um jeito adequado. As pessoas que dizem como é, certo? São as expectativas delas, e o julgamento que elas fazem da sua dor, que vão definir por quanto tempo você vai poder ficar triste. Se vai poder ficar chorando em público ou não. Se vai poder afundar no sofá ou não. Se vai deixar de comer, ou se vai comer demais até engordar visivelmente. Se você vai ter o direito de parar de trabalhar e estudar, por uns dias, semanas, ou até meses. Ou se você não vai ter esse direito.

Se você passar do limite, por favor, se esconda. Não deixe ninguém saber que você sofre demais. A mais. Só chore escondido. Escreva para si mesmo ao invés de falar para os outros. Vá para a terapia, e diga que tá se ausentando toda semana naquele mesmo dia e horário para fazer tai chi chuan na praça da cidade. Minta. Não deixe ninguém saber o quanto você sofre e pelo que você sofre se não for o quanto e como os outros acham que deve ser. Enfim, se não for "coerente".

Também não sofra de menos, viu? A galera fala mal de quem supera as coisas muito fácil, que se conforma rapidamente com os trancos e barrancos da vida. Tem que sofrer pelo menos um pouquinho. Sempre. E demonstrar um pouco também. Deixe pelo menos as pessoas mais próximas de você saberem que você tem um coração. Tipo isso.

Pois é, meu filho. Não sofra demais. Mesmo que sua dor seja grande, desproporcional ao que "deveria ser". Ninguém vai aceitar. Ninguém vai compreender. Os fenomenologistas, talvez, quem sabe, pode ser, acolham e entendam isso, mas o restante do mundo não. Engula o choro. Ria sem vontade. Se distraia sem conseguir. Encha a cara. Acenda um cigarro. Foi assim que eu aprendi. Parece que é assim que tem que ser.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Tragédia total.

Eu não sei. Mas eu lembro que, desde que eu comecei a me entender por gente (e isso não faz muito tempo nem a pau), os horários políticos já eram muito chatos. Demoravam uma eternidade para acabar, naquela época em que não existia internet que não fosse discada (leia-se, não se "navegava" se não fosse final de semana ou madrugada das férias), poucas pessoas tinham televisão à cabo (no máximo uma antena parabólica com poucos canais que se aproveitavam - ShopTime era o máximo, pra gente ter noção), e eu, coitada, não tinha maturidade intelectual nem pra ler a Veja, avalie um livro ou revista de verdade. Ficava lá, de cara na tv. No máximo montava o quebra-cabeça com o meu avô, mas isso conseguia ser mais entediante. (Desculpa, vô, onde quer que o senhor esteja!)

Mas eu sempre vi a galera ir pra frente da tv e dizer exatamente o que ia fazer se fosse eleito. Tim tim por tim tim. Todas suas propostas. Quantas escolas ia construir, quantas ia reformar, o que ia fazer nos hospitais, no trânsito e afins. Eles diziam mesmo. Nem que fosse pra dizer que iam construir uma ponte de Natal até Fernando de Noronha, eu lembro muito bem que eles falavam pra gente o que é que iam fazer.

Sempre foi assim. E por que não é mais, hein? Eu não consigo assistir um horário eleitoral até o fim. Pra falar a verdade, eu vi muito pouco por toda essa campanha (uns 20 minutos reunindo todos os dias), mas eu vi que a galera "se desvirtuou". Eles só falam por alto que "vão fazer muito pela saúde e educação do país", e todo o restante do tempo que têm na tv, eles detonam o adversário.

Ontem mesmo eu vi o pessoal de Serra fazer um SAMBA para a Dilma. Um pandeiro tocando, uma voz irritante, só a dizer que a candidata é isso ou aquilo, mente e desmente, e que não pode ser eleita. O cara ainda teve a coragem de começar a levantar a bandeira "meio ambiente". Sem comentários. Depois, eles demonstram o tamanho do tempo de sobra que eles têm em vida ao trazer, na televisão, uma "pesquisa" que fizeram com as pessoas na rua na qual elas diziam que não podiam votar em Dilma porque ela nunca teve cargo político nenhum. (Mas o Serra foi prefeito, governador, etcétera e tal).

Aí depois me aparece a coitada da Dilma, que nesses dias vai explodir dentro das próprias bochechas, praticamente dizendo que Lula foi, é, e sempre será um ótimo presidente. E SÓ. Termina aí tudo que ela tem pra dizer.

Eu sei que as propostas existem, e que a gente vai saber de todas elas se formos atrás. Mas me diga, por que o horário político precisou virar essa guerra de disse-me-disse? E até que ponto isso faz as pessoas pensarem e repensarem seus votos, e até que ponto isso nos enche ainda mais de nojo e tira toda nossa esperança neles? Não sei. Só sei que eles não se importam com isso. Parece que o ataque ao adversário surte efeito. Saudades dos anos noventa.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Igual ao filme?

Eu já tinha todo o texto pronto ontem, em minha cabeça, quando tudo deu-se por ponta cabeça e eu perdi o prumo. Mas perdi de novo. O texto se foi.
Então é assim? A gente termina aqui? Tem que ser. Igual ao filme que passou na tv, da trilha sonora tão buscada, e da simplicidade que fazia sentido. A alterância da universidade e daquele quarto, das conversas sérias e nada sérias na mesma cama de casal. Universidade. Quarto. Quarto. Universidade. Na mesma variação. Com a mesma simplicidade lá e cá, porque foi assim, do jeito que tem que ser, simples, sem dramas.
Então é assim? O lugar que significa. A música que faz lembrar. As viagens que não aconteceram. O frio na barriga. O coração disparando. O beijo com carinho. Os dedos por dentro do cabelo, e os devaneios que coubessem. Simples, como tinha que ser.
"Pois é", diz a música. Então fica assim. "Apenas o fim".

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Eu, nós.

Eu fiquei aqui, aproveitando os últimos instantes da bateria do aparelho que me dava aquela música... Os últimos instantes da bateria da celular e uma fria e distante possibilidade de você me ligar, pra falar de saudade, como antigamente. Ou pra falar do outdoor engraçado, do shopping lotado e irritante, dos minutos que tu tava contando pra gente se ver logo logo. Fiquei nisso.
Me detive nesses instantes e nesse momento porque não havia outra alternativa. Comecei pelos piores, espontaneamente, mas depois escolhi os melhores pensamentos sobre você. Uma nostalgia parece que coube bem nessa solidão exagerada, nesse momento eu-tu que era mesmo eu-eu, que explique-se lá a fenomenologia.
Mais que saudade, a angústia, e o imprevisível. Pois parece que só você quem sabe o (nosso) dia de amanhã.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Conselho

Ei, vocês, quando baterem em carros alheios, por favor tenham a mesma classe que eu tive de bater no carro de gente importante. E não de anônimos.

Ticiano D'Amore foi quem recebeu a minha carimbada sábado à noite. Segue, na íntegra, o e-mail por último recebido:

Lendo o seu post, pude imaginar a situação ao vivo, como se estivesse lá, como se o Peugeot 207 fosse meu hehehehehe
Bom, eu dirijo faz 10 anos (tenho 28) e te digo, só fui aprender a fazer baliza de verdade mesmo de uns 4 anos pra cá. De repente veio um estalo e finalmente aprendi. Não era um estalo de batida e sim um mental. Uma hora todo mundo aprende!
Não compre um desses carros modernos que estaciona sozinho se não você nunca pegará o jeito e não vivenciará a maravilhosa sensação de fazer uma baliza perfeitinha :)
Para terminar, o marketing: Quinta e Sexta meu grupo (e o de Henrique) "Diogo Guanabara & Macaxeira Jazz" toca no TCP às 20:00 em um show instrumental só tocando Beatles. A propaganda do show no link abaixo.
Ps: se você for, tenta estacionar a uns 2 carros de distância de qualquer 207 preto... ; )
Tudo de bom,
Ticiano D´Amore
www.ticianodamore.com


Fica a dica. ;)

domingo, 8 de agosto de 2010

Parabéns por não ser corrupta?

Eu não sei se vocês sabem, mas meus amigos próximos, meus parentes, a STTU e os postes emborrachados da cidade já avisam que sou cangueira de verdade. Se o assunto for só a locomoção eu até me garanto, mas eis que se torne necessário estacionar... Sou uma negação. A última vez que fiz uma baliza foi na prova prática do Detran, onde só me arrisquei (?) porque eram dois cones e não dois carros. Depois daquele dia eu nunca mais tentei. Aliás, nunca mais me atrevi a imaginar-me balizando um veículo. Já pensou?! Quem me conhece dirigindo já produziu uma careta involuntária lendo isso.

E lá vou eu pro Sargent Peppers de Ponta Negra ontem à noite, 23h. Sozinha. Eu, comigo mesma, tossindo os dois pulmões e cheia de sono e cansaço que dava pra contar uma história. Mas em consideração à amiga aniversariante, tudo vale. Até Sargent (eca) em Ponta Negra em dia de Desventura e Seu Zé.

Me aventurei por uma rua estreita com carros estacionados dos dois lados. Enquanto eu ia, um carro lá na frente manobrava para voltar, mas era possível eu passar por ele enquanto ele manobrava. Acontece que o cara desse carro, que era um quatroporquatro, manobra o veículo completamente, põe seu carro de frente para o meu, e, na maior educação que existe, começa a vir em minha direção, exigindo que eu desse ré e fosse embora pra ele passar. Porém, ele só estava me fazendo um favor, desistindo de um atoleiro que tinha ali, e me avisando pra eu não ir, pois certamente eu ia afundar na areia movediça.

Comecei a suar frio, olhando a quantidade de carros estacionados, a estreiteza da rua, a escuridão, e, pior de tudo, a minha solidão no momento. Fui, fui, fui... até que desisti. Desliguei o carro, saí com a chave na mão, e ia pedir para o primeiro maloqueiro tirar meu carro dali, correndo o risco de ser roubada. Mas pra mim isso parecia bem mais feliz do que bater em algum dos carros.

Porém, claro que, diante de todas minhas habilidades manobrísticas, eu JÁ tinha encostado em um dos carros da rua. O rapaz do quatroporquatro perguntou o que tinha acontecido, ofereceu ajuda, você quer que eu guie ou quer que eu tire?, quero que você tire, por favor. E ele foi. Te digo: foi trabalhoso para ele também. Mas, quando eu vi, tinha realmente arrancado uns milímetros de tinta do Peugeot 207 ali tão bem estacionado.

Quem já bateu no carro dos outros por pura cangueirisse (mesmo que a situação exigisse de você habilidades de piloto de fórmula um) sabe que a sensação posterior é um mal-estar por imaginar o dono do carro encontrando o seu veículo "violado", e pensar, com todo o direito: aaaah, cangueiro feladaputa. E eu não tinha papel nem caneta na minha bolsa, tinha um maloqueiro ridículo no meio da rua dizendo que não foi nada, mas fazendo cara de quem adora ver desgraça alheia, falando que "vai da sua consciência, né, não foi nadinha, não foi nadinha". E foi muito pouco mesmo. Mas minha burrice em entrar naquela rua é que foi grande, então eu tinha de assumir toda culpa e prejuízo.

Dei duas voltas naquele quarteirão. No fim das contas, estacionei (muito mal, como sempre) meu carro onde ficava a antiga Curva do Vento. Escrevi um bilhete para o dono do carro, pus meu telefone e pedi que por favor me ligasse. Fui andando barra correndo, numa verdadeira marcha atlética, até a rua malassombrada. Cheguei. Vi o carro. Identifiquei o pára-choque. Puxei o pára-brisa e lá deixei o meu bilhete. Desisti do bar (claro, né, bicho) e voltei pra casa ainda me sentindo mal, mas sabendo que fiz o mínimo que deveria ter feito... E torci pro dono do peugeot ser um cara ou "uma cara" gente boa, paz e luz.

Hoje de manhã, o dono do carro me telefonou, me agradecendo muito pelo bilhete deixado, e combinamos os próximos passos dessa dor de cabeça que estou causando a ele. Mas, sabe o que, à qualquer pessoa que eu conte isso, me dizem que fui extremamente bacana ontem, que fui uma pessoa amirável, muito legal, que outro no meu lugar teria ido embora facilmente e sem deixar bilhete algum. E olhe que foi realmente um pouco de tinta arrancada. Nada demais.

Eu fiz o mínimo. Eu fiz apenas (apenas mesmo) o correto, o adequado para a situação. Não fiz mais, não fiz nada além. Não existe nenhum "plus" na minha ação de ontem. Ela não é boa nem correta. É uma ação em si mesma, pois é o que todo mundo deve fazer quando algo assim acontece.

Eu estou viajando mais uma vez, mas eu recebi elogios por ter sido honesta, por não ter sido corrupta, e o que eu fiz ontem é visto como um fato isolado. Mas não é para ser assim! A gente tem que fazer o certo, tem que pensar nos outros, tem que se imaginar voltando da festa e encontrando seu carro batido, amassado, com tinta a menos no pára-choque dianteiro, e imaginar toda a raiva que você sentiria se fosse você a vítima. A gente tem que zelar pelo dos outros também, pois é de boa em boa ação que um dia melhora. Eu poderia não ter recebido ajuda do cara da quatroporquatro; poderia ter batido no carro de uma pessoa que me ligaria em plena madrugada perguntando se eu tinha comprado minha carteira de motorista e pedindo que eu nunca mais saísse de casa dirigindo; eu poderia ter sido sacana. Mas as boas ações acontecem à quem as pratica. E as ações corretas em si mesmas também.

Não seja corrupto. E não espere elogios em troca. Não vamos enaltecer o minimamente correto só porque todos (e principalmente os que governam o país em que vivemos) são adeptos do errado.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Desisti do Gabriel.

Foi, desisti. Achei melhor assim. Foram muitos meses com ele, estávamos então desde pouco antes do Carnaval. Foi difícil. O início, como sempre, mil maravilhas. Tinha todo o entusiasmo, os sorrisos dos amigos próximos quando eu dizia que estava com ele, e minhas amigas que o conheciam, e, principalmente, aquelas que o conheciam bem, vibravam! "Você vai amar"; "perfeito!"; "o melhor da minha vida".

Mergulhei de cabeça mesmo, e não estava nem aí. Se todo mundo (todo mundo mesmo) dizia que ia ser bom, que valeria à pena, por que começar pondo os pés na água, afundar até a cintura, depois ombros, para só então pensar em molhar a cabeça? Eu não. Fui com tudo.

Ele estava comigo o tempo inteiro. Fisicamente falando ou não, também, ele estava lá. Uma certa felicidade me inebriou, mas também não demorou muito para eu ver que não era bem aquilo tudo que eu esperava. Ou que, pelo menos, não era aquilo que eu queria para mim. Fui vendo que não tinha a tal da química. Nem mesmo a física! Aquela com a qual a gente se satisfaz quando a química não existe (se é que vocês me entendem).

E então comecei a empurrar com a barriga, e a decepção começou a tomar conta de mim. Ao invés do contato três vezes por dia, uma vez apenas; ao invés de diariamente, dia sim dia não; ao invés de dia sim dia não, a cada vinte ou trinta dias a gente se encontrava... E já aí sem vontade. Sem nenhum tesão. Foi difícil. E eu me perguntava por que, logo comigo, aconteceu desse jeito. Porque eu não tecia os elogios que todo mundo dizia que seriam inevitáveis ao estar com ele - durante e depois. Tenso.

Deixei-o esquecido, pus de lado mesmo. Tive vergonha de dizer às pessoas que o idolatravam e que garantiram minha felicidade para com ele o quanto eu estava desapontada, sem a menor disposição para seguir adiante com o rapaz. Escondi isso de mim, e de quase todo mundo. Cheguei a trocar essa idéia com meu pai (!), quem me mandou ter um pouco de paciência, pois isso às vezes acontecia. Mas tive que me abrir com outras pessoas, pensar em novas possibilidades, pensar em desistir de verdade, e passá-lo adiante. Ele faria a próxima feliz. Sei que sim. Se não haveria de ser comigo, haveria de ser com outra pessoa. Por que não?

Um amigo disse-me que eu poderia tentar de novo futuramente. Que algo parecido aconteceu com ele uma vez, e que, nessa segunda tentativa, tudo correu melhor que o esperado. Uma amiga me disse para eu desistir mesmo. Se não existia a vontade, se o abraço não era mais o mesmo, e se o desapontamento era tão sincero assim, eu devia parar por ali mesmo.

Pensei. Pensei por dias a fio. Nunca havia tido tamanha decepção. Nunca havia ido com tanta sede ao pote e esperando tamanho êxtase e tido, então, a frustração... Eu me estranhei nisso tudo. Me garantiram como ele seria bom! Mas não foi. Achei justo retirá-lo da minha estante, enfiar numa sacola, e, com carinho e muito agradecimento, devolvê-lo à sua dona.

Foram 300 páginas, 200 das quais me arrastei sem vontade e sem crer que aquilo não me satisfazia. Desculpa, mas Cem Anos de Solidão não é o melhor livro de Gabriel García Márquez. Suas putas tristes me fizeram muito mais feliz.

E agora eu estou só na espera daquele Escafandro... Certo, Solino? ;)))

domingo, 11 de julho de 2010

Festival Mormaço

Fui de última hora. No sábado, o dia que eu não pretendia ir. A amiga de fora tá na cidade. A amiga da cidade tá fazendo aniversário. A amiga de fora e a amiga da cidade são muito minhas amigas... e aí, o roque ficou para segundo plano.

Mas eis que a balada (?) terminou cedo. E a carona existiu. Então fui.

Foi interessante estar ali. Foi engraçado ter passado aquela noite naquele lugar... sóbria, refletindo sobre a vida. Me lembou, é claro, as dezenas de shows já idos no DoSol Rock Bar. Sábado à tarde. Domingo à tarde. Sexta-feira à noite. Festivais. Shows de bandas que começavam a ficar famosas, e que vinham pra cá tocar em cima de um palco pequeno, comparado aos palcos que eles tocariam mais tarde... Acho que vi, por ali na Ribeira, Dead Fish, Aditive, Fresno, e até Los Hermanos, que ocuparam o palco do até então Blackout (!). Pois foi.

Sabe o que. A noite de ontem foi a prova viva de duas coisas: que o tempo passa e as coisas não mudam; que o tempo passa e as coisas mudam. Assim. Como naquela época, as pessoas de ontem eram as mesmas no mesmo lugar. Rostos conhecidos, agora uns com barbas, com as marcas das espinhas (e não mais as espinhas), de roupa mais discreta (porque chocar não é mais uma necessidade), menos piercings, mais tatuagens, e assim por diante. Os grupos de amigos se repetem também. As tribos ainda estão juntas. "As galeras" estão de bem ainda. E os sorrisos dos encontros inesperados, mas na verdade esperados e corriqueiros, porque sempre nos encontrávamos ali, aconteceram mais uma vez. A música era boa. As guitarras eram altas. O estilo emo ainda predominava. Mas as pessoas também estavam crescidas. Estavam mudadas.

E, por outro lado, a galera "jovem jovem" (assim, duas vezes, porque jovens somos nós - haha), circulava ali também. Do mesmo jeito que eu e meus amigos há uns 6 ou 7 anos atrás. Com suas dúvidas, com seus questionamentos sobre quem são eles próprios, se perguntando inconscientemente se eles gostam mesmo de estar ali ou se estão apenas por necessidade de inserção num grupo. Se a roupa que estão vestindo é de total agrado ou responde à outras necessidades. Se a cerveja que bebem é porque apreciam o gosto ou se é um jeito forçado de crescer e ser adulto em meio àquela multidão. Porque eu, à tal época, forçava a cevada, as munhequeiras, o som por vezes pesado demais pro meu gosto. E mais um monte de gente que ia comigo fazia o mesmo.

A gente cresce. E mesmo que ainda sejamos poucos, pequenos e jovens, é bom de ver o ciclo e a perpetuação de algumas coisas. Os mais novos vêm. E vêm igual à nós de um tempo atrás. E a gente fica. Porque o tempo passa, a gente se descobre de verdade e passa a ter certeza de quem somos e do que queremos para nós. Vai muito longe essa filosofia? Vocês entendem todo o valor semântico que o show de Móveis Coloniais de Acaju teve pra mim? Não pelos Móveis, mas por todo o resto? Não sei se fui clara.

O calor se tornou suportável depois da primeira gota de sur nas costas. Foi bom rever muita gente, ouvir uma orquestra de guitarras e pout-porri do Strokes. E os rapazes de Brasília são jóia mesmo. Só fui contra a Nova Schin por 3 reais. (É, crianças, quando você fica velho, começa a gostar mesmo de cerveja, e não a bebê-la só pra parecer adulto. E até Nova Schin por três reais você tá topando...)

terça-feira, 6 de julho de 2010

Eu sou não sou...(?)

Eu sou aquela comunidade do orkut que diz "Amor próprio." Com esse ponto final, ou não, eu sou a comunidade com o ponto final. Eu sou aquela criança sorrindo com vontade, de si mesma e dos outros, os quais não sabem rir de si mesmos e acham que é idiotice rir de quem não sabe rir de si. Eu sou o sorriso espontâneo, de dentes à mostra e boca mais pra aberta que pra fechada, como quem diz que está a fim de ser feliz ali.
Eu sou aquela música contente em si mesma. Que faz as pessoas dançarem, mesmo que em pensamento, imaginando como dançariam se estivessem sozinhas ali agora, ou como dançariam se estivessem com outras pessoas que também estivessem imaginando e dançando de um jeito que somente sozinhas o fariam.
Eu sou o agora. Eu vivo o agora e desisti de abraçar o antes que até ontem mesmo eu segurava pela ponta dos dedos, suplicando não soltar nunca mais aquilo lá. Eu sou o agora porque só esse presente presente (2x) me deixa esse Amor Próprio só meu, pra mim, todinho, completo. Eu sou o agora porque ser o antes é gostar dele e não de mim. É. E ninguém se interpõe no meu caminho de abraçar a mim mesma.
Eu sou, então, a tal comunidade, a menina, o sorriso, a música. Eu sou dois braços que se abraçam o tempo todo, a boca que beija a própria bochecha, o espelho que reflete o que está dentro de si. Sou eu.

E tudo que eu disse acima... está dito ao contrário.

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Quer dizer que tem Mombojó na sexta, Natiruts dia 17, Zeca Baleiro dia 25 (esse aqui de graça)...
E Cranberries e Los Hermanos vêm aí também, né verdade?

sábado, 12 de junho de 2010

Síndrome de baixa auto-estima.

Minha mãe havia feito uma cirurgia na Promater, e eu fui lá visitá-la no mesmo dia pela manhã e à tarde. Como a realidade de Natal agora é pagar os dois olhos do seu rosto para conseguir estacionar em um lugar decente, eu mesma pus o carro lá bem longe, e fui e voltei a pé. Uma caminhada matinal.

Daí, de manhã, lá vem o pastorador (outro lugar-comum nessa cidade) prostar-se ao lado do meu vidro, exigindo - sem dizer nada - o seu pagamento. Disse à ele: "à tarde volto aqui!". E realmente voltei, e realmente faria o pagamento do rapaz.

Acontece que eu estacionei a uns quatro quarteirões do hospital, havia carros demais, estava claro e ainda um pouco movimentado, e eu não vi o danado do pastorador quando cheguei. Aliás, a gente nunca vê esse pessoal quando chegamos aos lugares, mas apenas quando estamos de saída. Enfim, fato é que eu venho voltando, entro no carro, passo a chave, aperto o freio de mão, engato a ré, não boto nem o cinto, que é pra eu ir embora logo e o fajuto pastorador não vir, mas, CLARO, eles SEMPRE aparecem com a habilidade de super hérois, bem ao seu lado, bem na hora que você ACHA que estava tudo ganho...

A contra gosto abri o vidro, estirei o braço e coloquei cinquenta centavos na mão do cara. Aproveitei as minhas feições antipáticas e o óculos escuros enorme para enfeitar uma raiva ainda maior daquele momento. O jovem percebeu minha indignação, e quis ser simpático comigo (!).

- A senhora trabalha aí nesse hospital, trabalha?
- Não, senhor.
- É que tem uma moça aí que trabalha aí, no hospital, todo dia ela passa aqui... Ela tem uma roupa igual a essa sua aí.
- (...)
- Igualzinha. É merminha assim. Essa blusa aí, igual a tua que tu tá usando. Ela usa uma roupa merminha assim.
- Não, mas eu não trabalho aí não...
- É uma blusa cor de rosa assim, desse jeito aí. Ela parece com a senhora e tudo. Todo dia ela passa aqui. A moça que trabalha aí... Eu a vejo, ela passa aqui todo dia pra ir trabalhar.
- E é?
- É, é! A merminha roupa da senhora assim, parece com a senhora ela...
- É? É bonita ela?!
- Cooom certeza! E a senhora também! Cooom certeza!

(...)

Quando você começa a pedir elogios de desconhecidos cujo padrão de beleza é provavelmente bastante inferior ao USUAL e tido como NORMAL, sua carência e baixa auto-estima já se tornaram patológicas há muito tempo.

É tipo deixar de comer para dormir na hora do almoço. (É. Hipersonia é outra síndrome na minha vida.)

terça-feira, 8 de junho de 2010

Natal?

Me diz uma coisa: ONDE fica a cidade de Natal que o comercial da Prefeitura está mostrando na televisão essa semana? Não, sério! ONDE fica todo aquele verde, todas aquelas árvores? Sem ironias. QUE Natal é aquela que a prefeitura da nossa cidade está mostrando?!

Em 20 anos debaixo desse sol, eu mesma nunca vi. Tu já viste? Me mostra. Quero saber, de verdade. Quero encontrar essa cidade. De novo: sem ironias.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Doce lar?

Eu moro em um prédio de 12 andares, com dois apartamentos em cada nível. São umas 24 famílias que circulam por aqui, usando dois elevadores, o mesmo hall de entrada, e os dois níveis de garagem. Certo. Eu acho que os dedos da minha mão direita nem se levantam todos quando eu vou contar as pessoas cuja educação é de fato sincera.

Eu moro em um prédio onde as pessoas não te cumprimentam se não te conhecem, ou se pelo menos se teu carro não é um utilitário importado ou se a roupa que você estiver usando não valer, por baixo, um salário mínimo (no valor atual, por favor). Acho que elas têm acesso ao seu contra cheque ou coisa do tipo. Descobrem seu nome e sobrenome, toda a sua linhagem familiar, e então selecionam: para o vizinho do 201, vou dar bom dia. Para o do 11º andar, puxo até conversa. A senhora do 302, dou bom dia, sorrio, comento sobre o tempo... A do 401 não vale a pena. A família que mora do meu lado também não. E por aí vai.

Se sua roupa é simples, se seu pai não é um dos caras mais ricos ou pelo menos mais famosos da cidade, se você nem mora aqui, mas trabalha aqui, vish, nem espere muitos cumprimentos. Eu já entrei no elevador, disse um olá e um bom dia, abri um grande sorriso, e a resposta foi um belo de um silêncio. Já dei boa tarde que o "vizinho" só respondeu porque eu falei tão alto que não haveria como ignorar. Se eu cumprimento uma babá, uma empregada doméstica, ou até os pedreiros que cantam o Grafith na janela do meu quarto (eles voltaram!), esse pessoal se assusta. Entra em um êxtase. Ficam inertes, sem acreditar que podem ser notados e que as pessoas educadas ainda nascem e sobrevivem à essa dura humanidade, interesseira e mal educada.

Assim como os pobres e anônimos, as crianças também são ignoradas. Os porteiros, ao invés de ouvirem "por favor", chegam a ouvir um "abre aqui!" com o mesmo timbre e tom de voz que eu uso para falar com a minha cachorra nas vezes que ela faz xixi fora do lugar certo.

Vocês entendem isso? A falta de educação? A falta de civilidade? A desconsideração pela sua presença? Toda essa futilidade que ronda as pessoas, que as impedem de falar com quem "elas não conhecem"(!)? Ou, pelo menos, com quem para elas não parece ser interessante conhecer? Eu não entendo. E sei que já estou julgando esse bando de mal educados (a história do "ele pode estar tendo um dia ruim..."). Mas há dez anos no mesmo lugar, eu me dou esse direito. Principalmente quando existem pessoas que em dez anos de inúmeros encontros no elevador, ou à espera dele, me cumprimentaram, assim, uma única vez. Não sei nem por que! Acho que estavam pagando uma promessa, sei lá.

Amanhã, logo cedo, vou dar meus bom dias, e os melhores sorrisos também. Vocês façam o mesmo, por favor. Por mais que a pessoa ganhe o equivalente ao que você está usando nos seus pés, por mais que o seu dia não esteja bom, por mais que seja o filho da puta do seu ex namorado que te chifrou. Cumprimente o sujeito. Seja um humano. Seja educado.

E bom dia pra você também.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Tudo história

Até parece que de muito adianta essa história de te apagar daqui. Do celular, do computador, das fotos do mural, do livro dado com dedicatória e de todo o mais. Até parece que banir tudo isso vai surtir efeito. A memória tá aqui oh. As lembranças todas, inteiras, de todos os dias, momentos, em suas linhas e entrelinhas, tudo comigo. Não existe um dia sem você com isso tudo que me lembro. Não existe uma noite sem sonho nosso, porque todo mundo na minha cabeça se organiza e traz você pra mim. Apesar de você ter ido de mim, assim, com fim. Pois é. Apaguei tudo mesmo. Joguei fora as cartas com tua letra garranchuda. Rasguei as fotos em quatro partes. Também dei aquele vestido de flores que tu me deu dizendo que era a minha cara. Nem era. E dei. Dei mesmo. Mas daí de que adianta se eu ainda vejo, bem na minha frente, o seu rosto me presenteando aquele dia? Se eu vejo seus olhos me olhando enquanto a gente se beijava. Se eu escuto sua gargalhada. Se eu ouço você chamando meu nome, sua voz rouca de bom dia, acompanhada daquele sorriso preguiçoso, que só você tinha. Que só você tem...

Eu não me esforço mais. A lembrança não vai. A lembrança fica. A lágrima é só minha, a dor é só minha. Aquele momento foi nosso. Agora é só meu.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Do guarda-chuva sim.

Morro de medo de guarda-chuvas. Guarda-chuva, sombrinhas e afins. Não que eu inicie um ataque de pânico ao ver qualquer coisa parecida pelo meio da rua (guarda-sol de carrinho de sorvete, chapéu de mexicano, entre outros), mas não gosto de ter um em minhas mãos, muito menos de precisar usá-lo.

Todo ano é a mesma coisa. Chega maio, mês de dilúvios, início do nosso típico e rigoroso inverno, e lá vem minha mãe com um guarda-chuva novo pra mim. Isso porque eu já perdi o anterior no "inverno" passado, e o anterior ao anterior eu tinha perdido no inverno retrasado... Meu inconsciente é poderosíssimo, sempre soube. E com toda essa força do esconderijo mais secreto da minha mente, eu esqueço o danado do guarda-chuva todos os dias antes de sair de casa. Pode estar o toró que for. E aí ouço quinze minutos de sermão, depois levo um banho de chuva nada providencial, e fim, estou tranquila.

Eu sempre acho que aquela porra vai explodir na minha mão! Que em algum momento eu vou apertar aquele botão sem querer e o guarda-chuva vai abrir de repente, no meio de todas as pessoas, dentro do ônibus, do carro, cegar meus dois olhos ao mesmo tempo com aquelas partes pontiagudas das extremidades, assustando todo mundo e fazendo as pessoas gritarem e acharem que eu sou louca, muito louca.

Sempre acho também que na hora de fechá-lo, nunca conseguirei. Confio toda vez que será um martírio fazer isso, e quase sempre o é. Fico tensa só enquanto começo a pensar que vou ter de fechar o guarda-chuva de volta daqui a pouco... Minhas mãos suam, e isso piora tudo! Elas escorregam por aquele cabo de ferro, não conseguem apertar aquela "alavanca assassina" da forma que deveriam, e aí, meu deus, será a morte, vou imprensar meus cinco dedos dentro desse negócio preto que arrodeia o cabo de ferro, vou perder o movimento da minha mão direita, logo a direita!, e com isso vou assustar todo mundo e fazer as pessoas acharem que além de incompetente sou louca, muito louca. Pois é. Aconteceu isso quando eu tinha quatro anos e praticamente perdi a minha mão ao fechar aquele meu guarda-chuva dos três porquinhos.

Prefiro a chuva a usar minha própria sombrinha, tendo que abri-la e fechá-la. Jogo um casaco por cima da cabeça, pratico um cooper imediato... Mas evito esse objeto na minha mão e ao mesmo tempo sobre a minha cabeça. Então, quando chover, me dá uma carona debaixo do seu guarda-chuva?

terça-feira, 11 de maio de 2010

Quem, eu?

Sou um pouco esquisita. Os fenomenologistas chamariam isso de autenticidade. Mas sou. Não gosto de carne vermelha. Não tomo refrigerantes. Tenho medo de guarda-chuvas. Não estudo nem durmo com a porta do guarda-roupa aberta (jamais!). Sinto uma vontade dramática de organizar objetos. Rio sozinha. Falo sozinha. Penso escrevendo. Não gosto de pipoca. Não gosto de sorvetes.
Gosto das pessoas. Mas só das boas pessoas. E por isso sou intolerante. Mas só um pouco, juro. Tenho medo da solidão. Tenho (muito) medo de gatos. Não gosto de gente efusiva, nem de quem fala demais. Não tenho um botão stand by (não procure!). Sou de poucos amigos. Tropeço nos meus próprios pés. Sou contra a covardia. A favor da sinceridade. Escrevo por escrever. Escrevo para dizer algo a alguém. Leio sem sede. Mas só falo se tiver vontade. Observo. E, sim, classifico. Infelizmente, ponho rótulos. Mas só em quem aparentemente já vestiu uma embalagem sobre si mesmo. Adoro abraços. Já fui eclética. Preciso estudar a mesma coisa várias vezes para conseguir aprender. Sinto saudades de quem está perto. Sou carente. Sou presente, e falo com o olhar. Minha risada é alta. Meus espirros também. Aprendi que a melhor qualidade que alguém pode ter é ser leal. E voto no sorriso.

sábado, 8 de maio de 2010

A melhor parte de ser gente grande: ainda não ser.

Pois então. Fui na praia hoje, né. Sexta-feira, dez horas da manhã, mês de não-férias, então só havia em Ponta Negra os turistas, os desocupados (e aqui incluem-se os turistas), os vendedores ambulantes e, por que não, pessoas com provas, trabalhos e congressos pela frente, mas que, como quem escolhe entre a carne ou o peixe, optou pela praia.

Mas a melhor coisa a se fazer na praia é, sério mesmo, observar as pessoas. Aprendi com minha professora de Processos Psicossociológicos nas Organizações. É diferente. Parece que ali circula um pouco mais de autenticidade de cada um.

Desci as ladeiras. Desci as escadas. Olhei para a esquerda, para onde sempre vou, e quando percebi a vala de esgoto que media seus cinco metros trocando de fluidos com o mar, fui para a direita. Caminhei um pouco, os donos das barracas me abordavam (!) oferecendo suas espreguiçadeiras (eca, Ponta Negra não era isso), procurei por um lugar melhor, me deparei com outra vala de esgoto, mas agora com sete metros, e voltei para antes mais um pouco.

Sentei. Do meu lado esquerdo, duas moças e duas crianças. Atrás, o cara da barraca com seu isopor. Do meu lado direito... Hum. Quatro adolescentes, mas adolescentes mesmo, com seus 15 anos no máximo. Três meninas e um menino. Duas delas usavam a farda(!), sim, a farda da escola, calça comprida e camiseta. E usaram essa mesma roupa para tomar banho de mar umas três vezes só enquanto eu estive lá. Entre um banho e outro, pediam uma cerveja (!). E, visivelmente, todos eles não gostavam do que bebiam. Mas bebiam com uma vontade! Aquele falso grito de independência e liberdade, sabe como é? Eu já senti isso, já dei esse grito falso. Mas não enquanto usava a farda da minha escola e tomava banho de mar com ela... Claro que não. Depois, passou o cara do carrinho de bebidas. E elas: "sabe aquela bebida que vem em um abacaxi e tal?"; "pois é, moço, eu quero aquela que vem em um abacaxi cortado assim pelo meio"...

Quer dizer que as coisas estão assim? No meu tempo, eu também ia à praia, também tomava cervejas achando o gosto ruim, também gazeava aulas. Mas nunca fiz tudo isso ao mesmo tempo! Coitados. Imaginei a confusão generalizada que existe na cabeça daquelas criaturas, que estavam fazendo tudo isso de uma só vez, atravessando ou se adentrando em uma provável crise de identidade, tão característica dessa fase, mas nunca tão embaralhada dessa forma. Será que aquelas meninas chegaram em casa com as calcinhas cheia de areia, as camisetas brancas molhadas e semi-transparentes, bêbadas e rindo à toa como estavam?... E eu achando que deixando de ler minhas xerox de Psicofarmacologia e indo para a praia em plena sexta-feira estava sendo rebelde! Tsc tsc.

Sei não. Lembro do tempo em que eu só queria ser grande, justamente para ter essa liberdade que tive hoje para escolher entre estudar ou ir à praia, e decidir pela última simplesmente por quis... E, sabe, nem teve o gosto especial que eu achei que pudesse ter. Foi bom ter ido à praia, ter estado lá, principalmente porque gosto tanto de fazer isso. Mas o fato de ter ido, o simbolismo que, por muito tempo, eu achei que existiria em uma escolha como a de hoje... Não houve.

Boa mesmo é a época em que a gente ainda quer ser o que seremos um dia. Quando esse um dia chega, perde a graça. E então migramos de volta pra casa, junto com os problemas, as responsabilidades, e uma agenda ainda mais cheia pela frente...

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Pois é. Aproveitei a constatação do meu envelhecimento precoce, e quando fui à ótica encomendar meus novos óculos, não titubeei: pedi uma armação "mais jovem".

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Vai saber

Foi das noites insones e cheias de pesadelos para a alternância entre elas. Hoje é dia de insônia. Amanhã, sonho ruim. Depois, insônia de novo. E assim a vida segue. Desistiu de terminar de ler aquele livro enorme que todos diziam que era ótimo. Mentira. Meses e meses se esforçando para sair do mesmo capítulo, já perto do fim, e o esforço não aguenta mais. Cansou mais que o próprio cansaço sob domínio da preguiça. E foi tudo em vão. Vai se lembrar das páginas de antes, vai. Impossível.

Impossível mesmo não se lembrar de outras coisas. Estava mais impossível ainda não se arrepender. E então ter paciência. Parece que aproveitou as noites insones para escrever textos. E aproveitou os pesadelos para escrever textos também. Pudera eu ter tamanha vontade de tantas letras.

Diz-se que desistiu da aula e foi embora. O professor chamou sua atenção, a sandália descolou mais uma vez, não conseguiu agendar a consulta que gostaria, e a solidão aplacava seus dias, suas semanas, sua história de agora. Já não tinha mais a vontade de dormir porque sabia que seria uma noite ruim. E quando acordava, nunca sair da cama, porque o dia é que seria ruim então.

Parece que vagou para a praia. Acendeu três cigarros. Não tragou nenhum. Chorou quatro lágrimas inteiras. Deixou por lá mesmo a sandália sem sola que dias depois alguma pessoa de bom humor ia dizer pro amigo "pega, Fulano, tua sandália!", ao que o amigo ia dizer "eita, mesmo, esqueci!", tomou o último ônibus seu daquele dia e foi pra casa.

Não se soube mais de nada no outro dia. Nem nos outros. E nem mais depois ainda. Nem se soube se ainda haviam as noites insones, os textos inteiros e pela metade, o desesquilíbrio completo, a falta de vontade. Não se soube para onde foi. Tinha apenas uma conversa de Buda. Uma história de Peste.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Conversa de cantina.

Ela:
- Na minha primeira vez doeu muuuito. Saiu lágrima dos meus olhos. Eu não chorei, assim... Mas saíram as lágrimas só por causa da dor, sabe? Eu sentia a dor e a lágrima escorria...

Ele:
- Caramba, sério?

Ela:
- Foi, mas foi só na primeira vez. Hoje já acostumou...


O assunto era depilação com cera quente.

domingo, 18 de abril de 2010

Ei, veio errado...

Quando foi decidida (ou não) a minha concepção, um espermatozóide de lá teve que se encontrar com um óvulo de cá para então formar alguma coisa. De lá, tinha que trazer o X ou o Y, pra dizer se eu seria menine ou menine, sabe? Se fosse outro X, seria moça, tipo Beatriz agora; se fosse um Y, aí seria um rapaz, né, tipo nãoseiquenomeeuteriasetivessesidomenino. Veio o X. Mas, bicho, veio por engano. Ou pelo menos, veio um X meio enganado.

Eu tenho várias teorias para explicar a pessoa que eu sou como eu sou hoje. Uma delas é esse espermatozóide que é duvidoso ou que está em dúvida. A outra é que fui homem em todas as minhas vidas passadas. E a última... nem sei. Minha mãe tomou litros de testosterona durante a gravidez. E colocou mais litros ainda na minha mamadeira.

Olha, eu não tenho praticamente nenhuma habilidade tipicamente feminina que eu encontro nas minhas amigas. Eu não sei me maquiar. Fazer um traço preto na pálpebra do meu olho, meu Deus!, é tão difícil quanto foi tirar aquele 10,0 em trigonometria no segundo grau. Esse jogo de cores que as meninas usam para as sombras, e essa história de a base ser um "tom acima", "um tom abaixo", "um tom em qualquer outro lugar"... Não sei. Não faço. Minha mão é tão pesada que eu devia era me maquiar com carvão toda vida. E aí o resultado seria o mesmo de usar um lápis para olhos.

Não sei cozinhar. Não tenho a menor habilidade, não consigo, não "me viro sozinha mesmo sem saber de nada". Não sei costurar. De novo: minha mão é muito pesada, não dá. Eu me furaria em dez segundos mais o que Cristiane F. se furou em dez anos.

O salto alto é um desafio pra mim. Eu sempre acho que vou tropeçar. Que vou enfiar o salto dentro de um buraco, e quando levantar a perna vai vir só a sandália sem o alto embaixo; que vou escorregar nos pisos de granito que existem no shopping; que a probabilidade de o salto quebrar e eu cair por cima das minhas próprias pernas é imensa.

Detesto uma roupa apertada, principalmente calça jeans. Juro, acredite, eu não gosto de calça jeans. Depois de mim, a única pessoa que eu conheci que também não gostava dessa maldita foi ninguém. E mulheres adoram calças jeans espremendo sua bunda, coxas e pernas. Eca.

Se deixar, eu uso gírias sem parar, falo palavrões de verdade, converso sobre qualquer assunto sem o menor constrangimento (e vocês entendem o que eu quero dizer com isso), e teria praticamente apenas amigos homens.

Digo que uma mulher é "gostosa" quando ela de fato o é, mesmo que eu não sinta nenhuma atração pelo sexo feminino. (E aí, no caso, se eu tivesse nascido com o cromosso Y no lugar do segundo cromossomo X, eu seria um "cara homossexual". Mas seria um "cara" mesmo.) Detesto discutir relação; passo mal quando essa necessidade aparece e o assunto surge. E tenho um cromossomo X tão Y que minha própria genética favorece um corpo masculino. Três meses de musculação moderada, e eu sou capaz de ter os ombros do Michael Phelps. Verdade, "bróder".

E além de tudo isso, meu pensamento é permeado por um machismo intenso. Eu acho mesmo que mulher dirige mal, que não deve falar palavrão nem usar gírias à vontade; não pode beber demais, não pode chamar a atenção. Tem que ser pudica. Tem que ser discreta. Não pode praticar "esportes masculinos". E, sim, o homem tem uns direitos a mais do que nós. Desculpa, mas eu acho.

Inclusive, é esse mesmo machismo que me permite achar que esses cromossomos estão no lugar certo. Bati um carro em uma ré desproposital semana passada; nunca consegui fazer uma baliza; tenho dificuldade de conduzir até o carrinho de supermercado na garagem por falta de noção de espaço; combino minhas unhas cor de rosa com as ligas do aparelho inferior, cor de rosa também; isso sem falar no romantismo/ausênciaderealismo que circundam sempre minha cabeça e meu coração. (Oh, viram? Fofo. #))

Pronto. Começo a diluir minha crise existencial.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Semana light.

Uma prova na segunda-feira; uma prova de estatística na terça-feira; seminário quarta-feira de manhã e trabalho para quarta à tarde; prova de psicofarmacologia na quinta-feira de manhã; trabalho para sexta-feira. Visitas freqüentes à UTI desde a ligação da segunda de madrugada; animal de estimação com cegueira e com a doença do carrapato desde então.

Hoje foi segunda-feira e as olheiras já estão no queixo. A acne povoou o que um dia já foi um rosto, e perdi metade do volume do meu cabelo na primeira escovada da manhã.

Assim tá bom assim.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Conversa em parada de ônibus.

Quarta-feira, 31 de março, eu na solidão da espera do 45. A conversa por trás dos meus ombros era sobre "nossa" prefeita, e sua última aberração administrativa. Mas eu não consegui captar a conversa inteira, porque devia estar pensando como seria bom se eu já estivesse em casa descansando de camisola em cima da minha cama há trinta minutos já passados.

Sei que tangia o meio-ambiente, e havia indignação.

Daí a menina:
- Pois é, isso porque ela é do Partido Verde!....
E o cara:
- PartiNdo o Verde, você quer dizer, né?...


Hahaha. Desculpa, mas eu achei muito bom.




sábado, 27 de março de 2010

Teus olhos meus.

Ao dormir fecho os olhos, e os olhos que vejo são os seus. Aquela claridade verde, azul, verde e azul dependendo do brilho do sol, a limpidez cotidiana, e a luz própria que emanava dos dois. A sensação de paz que tu me passava ao me olhar com eles, ao beijar minha mão e olhar nos meus olhos logo em seguida, ao sorrir e me chamar de boneca, com o mais sincero dos amores.

Sinto falta de deitar do seu lado e cochilar enquanto você cochilava. De te acordar depois, dar um sorriso, fazer uma careta e ver aqueles olhos rasos de lágrimas felizes dizendo "olá". E dizendo, meio sem querer e meio de propósito-com-vergonha-de-dizer que tinha sentido minha falta nas últimas vinte e quatro horas.

Não vou me esquecer deles nunca. Não vou me esquecer de tê-los visto numa quarta-feira à tarde, suplicando de saudades que não se sabia se seriam eternas então. Não vou me esquecer deles dizendo "não vá, não sei até quando esse verde do meu rosto vai existir assim". Do meu tchau sincero, do seu tchau saudoso de "até amanhã", da esperança e da certeza boas. E no outro dia você se foi...

Saudades, vô.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Argh

Não, não, não. Mentira que eu vou me levantar agora pra assistir a porra da aula de Psicofarmacologia na porra daquele CB dentro da porra da universidade às 09 horas da manhã. E ainda preciso me levantar às 06h pra conseguir levantar pelo menos dois quilos de peso ali na academia, voltar pra casa e seguir pra essa aula infeliz. Eu sei que não vai servir de nada. Eu sei que eu não vou entender nada mais uma vez. Eu sei que depois do "bom dia" tudo será névoa na minha frente, e será mais uma manhã em vão.

Parti com dor de cabeça, sentindo ódio nas entranhas por saber que não vou poder voltar em casa tomar banho e almoçar entre as aulas da manhã e as aulas da tarde, e que, consequentemente, vou ter que me anular um dia inteiro dentro daquela universidade de clima agradável, de pessoas bonitas e de ausência felina.

Nenhuma surpresa. Aula infeliz. Pessoas infelizes. Professores infelizes. Eu infeliz porque à medida que o tempo passava, o meu conhecimento ia de 0 a -2 e a dor de cabeça só piorava. Mais e mais. Tive que rumar para um almoço sozinha com a vida, onde duas pessoas desconhecidas pedem para sentar-se comigo (normal, em se tratando do enorme restaurante do Centro de Convivência), e onde eu passo mais tempo mastigando o suco do que o feijão por causa das dezoito colheradas de açúcar que o pessoal da cozinha colocou no meu copo.

Aula de uma da tarde. Serão quatro aulas seguidas só com apresentação de seminários. Então você caminha para a sala sabendo que a tarde será bem em vão e que o máximo de atividade intelectual que você conseguirá ter será se conversar com o colega do lado sobre... Enfim, você não terá atividade intelectual nenhuma durante a apresentação de dez seminários que tratem de infância e adolescência. Esqueça.

Isso tudo pra depois vir mais duas aulas de estatística onde, claro, será pior que a situação psicofarmacológica da manhã. Onde, claro, eu também só entendo o "boa tarde" e nada mais que a professora diga. Ai, saudade da trigonometria...

Fui salva por uma carona que precisou sair aos quinze minutos da aula, pra quando eu estar em cima da minha casa descobrir que estava sem a chave! Claro que, para um dia como esses, não tinha ninguém em casa fora Hanna, minha cocker spaniel da terceira idade. Ainda consegui um café e uma fatia de bolo enquanto a dona das chaves não chegava em casa para me salvar do dia meio-terrível. E aí chegar em casa e descobrir a internet sem funcionar, enfiar o cabo de rede em um buraco um pouco maior do que ele, chorar ao telefone com a telefonista do suporte tentando me instruir em alguma coisa, cortar o polegar, conseguir tirar o cabo de volta, pra depois descobrir que a internet voltou "sozinha". E então, com cinco minutos em frente ao computador, e já de banho tomado e vestindo meu pijama da noite (porque eu tenho outros para o dia, sabe? Uso um de dia, outro de noite...), ponho a mão na cabeça assim e ME SAI UM PERCEVEJO ENTRE MEUS DEDOS.

Puta que pariu, que chegue logo a meia-noite.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Coisas de UFRN.

A gente tá lá, alocado no bloco F do setor II. Do lado do famoso cajueiro, da famosa xerox, próximo ao famoso banheiro do estabelecimento.

A gente tava lá, né. Aula na F3, 40 pessoas para três ventiladores de teto, janelas basculantes, sala bem próxima do cajueiro, e bem próxima do banheiro (que vem depois da F5). Você vai caminhando pra sala de aula, e já na segunda porta do corredor, segura a lombra!, pode ser que você não alcance o final do bloco apenas com o cheiro e a visão esfumaçada que te apresenta.

Do nosso lado esquerdo, no início das duas últimas aulas da tarde, começaram três. Três rapazes, assim, daqueles do mundo-alternativo-sabe-lá-de-onde-e-se-existe, de boa jogando sua peteca. Depois já eram cinco. E aí oito. E aí uns dez. Sem cerimônias, alguns tatuados e sem camisas, calçando suas chinelas, e achando muito saudável e natural jogar uma petequinha no intervalo de quem dá uma bola, por que não. A favor, voto a favor.

O jogo emocionante, a aula de estatística acontecendo, as pessoas entrando para a fila da xerox, e parecia que não havia nada mais divertido. Daí que alguém rebola a peteca para cima da xerox. E AGORA? Acabou-se o mundo. Como nada mais natural que possa existir, um cara pegou uma carteira da sala de aula, outro cara foi pra cima da carteira, mais uns três caras agarraram as pernas da carteira, e aí o cara que tinha ido em cima da carteira subiu para o teto da xerox. Pegou a peteca. Jogou a peteca para baixo, a turma de psicologia aplaudiu. Depois, os três caras que agarravam a carteira, ergueram a carteira de novo, o cara que tinha jogado a peteca de volta pôs os pés em cima da carteira, os três caras desceram ele outra vez, no braço, a turma de psicologia que assistia aula sobre como manusear o SPSS aplaudiu de novo. E a peteca voltou pro ar outra vez.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Dia da mulher o que, omi.

Cheguei hoje de manhã na academia né, com aquela preguiça costumal e aquela vontade de chegar logo a melhor parte do treino (o término). Mal entro e lá vem a dona da academia, em trajes não-típicos de donas de academias (jeans mais justo impossível, salto agulho e ouro, muito ouro): "parabéns!, meus parabéns! Parabéns pelo seu dia!"

Aaah, sim. Era Dia Internacional da Mulher. Se ela não tivesse dado os parabéns para a outra senhora que estava do meu lado, com a mesma falsidade com que fez comigo, eu não teria me lembrado. Me diga aí, você se não for machista, faz sentido pra você toda essa comemoração?

A gente faz filhos, beleza. A gente toma de conta deles. A gente é foda. Tudo certo. Mas, você (se for mulher), não se irrita quando fica todo mundo te dando os parabéns dia 08 de março só porque você nasceu mulher? Pra mim não faz o menor sentido. Já existe o Dia das Mães (e quando eu for mãe, vou merecer os parabéns nesse dia); já existe nossos respectivos aniversários... A depilação não sai de graça nesse dia, o salão de beleza e a manicure não ficam mais baratos, e as lojas de sapatos nem ensaiam liquidação. Qual o propósito, então? Além de tudo isso, nem é feriado, nem os nossos cabelos amanhecem todos felizes conosco, muito menos a TPM ou a menstruação deixam de aparecer. Tudo igual. Tudo normal.

E eu reclamaria mais se a noite não tivesse terminado com um show de Roberta Sá, de grátis, em plena Praça das Flores. Por favor, se o impossível for possível, não deixem de me avisar no dia que essa mulher(!) deixar de ser ótima...

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Quarta-feira de cinzas abençoada.

Foi só chegar e sentir o mormaço, o calor, a quentura, os 44ºC que nem cerveja gelada e banho de bica dessem jeito. Foi só chover, receber de presente maizena, farinha de trigo, e até graxa no alvo do decote. E ainda se virar com a roupa e os chinelos que fediam cada dia mais.
Foi só o elevador quebrar e ser preciso subir 7 andares à pé. Um rapel teria sido mais fácil aí então. Foi só mesmo faltar água, todos os dias, várias vezes por dia, para permanecermos no calor insuportável com nossos pijamas e lençóis úmidos por causa do clima seridoense enquanto rezávamos por água, limpa e gelada, descendo chuveiro abaixo. Foi só beber demais e ser bom. Beber demais e não ser tão bom. Beber de menos e ser pior ainda. Passar 6 dias à base de xis tudo e filé à parmegiana, porque só havia mesmo essas duas opções.

Depois de um Carnaval em Caicó, você volta para casa dando mais valor às coisas simples. Beber água, tomar banho, fazer pelo menos três refeições por dia e dormir em um quarto com menos de 6 pessoas e que contenha, além de uma cama, um chão limpo e um cheiro bom. Até os eletrodomésticos e os móveis da casa ganham uma cor diferente, um apreço especial. E as necessidades fisiológicas fluem com maior facilidade. O silêncio, então, é a melhor parte. E a ausência do "Rebolation" e do "E não importa o que vão dizer, eu quero só você", nem se fala.

Mas, olha, foi bom. Valeu a pena.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Os desafios da tensão...

pré-menstrual.

Não entendo por quê, mas essa moça de nome TPM só começou a vir me visitar mensalmente depois que eu passei dos 18. Dos 12 aos 14, eu não tinha as cólicas nem as tpm's. Mas em compensação eu também não tinha calendário menstrual: apenas um caos institucionalizado. Dos 14 aos 18, conheci as cólicas, e depois as dores nas costas imobilizantes. E, desde então, o pacote completo com a tensão do que está prestes a acontecer.

Não precisa correr, tá? Eu não começo a morder as pessoas, nem bato a cabeça na parede por causa de um ódio inexplicável. Eu simplesmente... choro o tempo inteiro! Tudo começou na sexta-feira de manhã, quando na sessão de tortura conhecida como Depilação Completa, a mulher de mãos de aço me desafiou dizendo que o que eu tinha até então denominado "pêlo encravado" seria um furúnculo. Primeiro: essa é a pior palavra já dita e inventada no nosso vocabulário. Segundo: eu morro de nojo de furúnculos - e olhe que eu nunca tinha visto um! Por que uma coisa tão nojenta precisa de um nome à altura? Até "gonorréia" fica bonito perto disso. E por que logo EU, às vésperas da minha menstruação, tinha que ter um furúnculo?

Depois que a depilação ficou mais dolorida por causa da má notícia, voltei para casa e no caminho passei em uma loja de sapatos em liquidação. Prato cheio para "aqueles dias", hein? Se não fosse o meu cartão de crédito que NÃO PASSAVA!, prato cheio sim. Por que logo COMIGO, às vésperas da menstruação, tinha que acontecer isso? O cartão salvador da minha mãe estava na carteira, e então eu passei como se fosse meu.

À tarde: dermatologista. Diagnóstico: furúnculo, viu, minha filha... Ele falou isso como quem diz que o termômetro está marcando 31ºC e eu, com os olhos cheios de lágrimas, quase abri um berreiro no consultório. Mas ele me garantiu: antes do Carnaval, você vai estar 100%. Vou mesmo, se esse desespero tpminal terminar antes.

Parti de lá para o banco pagar as contas da minha mãe, com o minguado dinheiro após o rombo do sapato do mesmo dia de manhã. Ai, Deus. Acho que no Banco do Brasil da Afonso Pena existem uns 15 caixas eletrônicos. E havia uma fila considerável quando eu cheguei e enquanto eu permaneci no caixa fazendo os pagamentos. Mas esse não foi o problema! Dentre todas as pessoas que estavam, simultaneamente, usando os caixas para fazer pagamentos e outras operações, e dentre todas as outras que estavam na fila esperando a sua vez, repentinamente me surge uma mulher, em cima do meu cangote, perguntando com a mesma naturalidade do dermatologista quando me disse do furúnculo, só que em uma voz aguda e pouco polida:

- Tu sabe fazer pagamento, é?
(...)
- Eu não sei não. Eu queria saber. Eu não sei como é que faz, e à essa hora já fechou tudo...


E, mantendo a naturalidade, até porque isso é muito normal, fungar o cangote de um desconhecido enquanto ele utiliza o caixa eletrônico para fazer seus pagamentos pessoais, ela continuou do meu lado me observando. Por que logo EM MIM, às vésperas da minha menstruação, que ela vem se escorar? Claro que eu interrompi os pagamentos pela metade, não saquei o dinheiro que ia sacar, arranquei o cartão da boca do caixa eletrônico e fui embora. Entendam: ela podia estar querendo me assaltar ou me sequestrar ao invés de apenas querer aprender a pagar contas. Tinha um cara "posso te ajudar?" quando eu estava na fila. EU VI ESSE CARA! Ele era bem bonito até... Mas enfim. Ela podia me atacar quando eu fosse embora do banco, ou decorar minha senha, ou arrancar o cartão da minha mão e me fazer de refém dentro de um grande assalto àquele banco. Tudo isso passou pela minha cabeça, e eu precisava vir para casa e não sair nunca mais, porque a minha TPM me dizia o tempo todo para eu fazer isso.

E então, de sexta à domingo, me dediquei à arte de não fazer nada, não sair, e, principalmente, não encontrar pessoas. E usei todo esse tempo para chorar sem motivos, ter uma insônia doentia, cuidar da e uma raiva do mundo que se transformava ora em desespero, ora em depressão profunda.

Mês que vem tem mais.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Obrando

Meu apartamento tem sido um ótimo lugar pra se viver e, principalmente, para dormir nos últimos dias. Desde não sei nem quando, começou a troca de pastilhas daqui. São 12 andares. Eles primeiro vão de baixo para cima, tirando tudo à pau e pedra, pra depois descer colocando os azulejos.
Às 8 horas, eles chegam. Agora que estão na altura do meu andar, eles chegam literalmente, passando por dentro da minha casa e pulando a janela da sala. E então tudo começa. Eles começam a martelar sempre, de preferência, a minha janela. Eu aposto que a parte externa do prédio correspondente ao meu quarto tem as pastilhas mais bem grudadas da história da construção civil, e por isso todos os dias eles se dedicam, de preferência o mais cedo possível, à minha parede.
Concomitantemente, eles cantam! Primeiro vem Grafith, depois vem um outro chamando "Ô Olga, ô Olga; Alaíde, Alaíde!", e, em sintonia, mais um assobia outra melodia impossível de ser identificada. Sempre na minha janela. São aquelas músicas que quando se está na praia durante o mês de janeiro, você escuta todos os dias na mesma ordem e qualquer casa por onde se passe. E as mesmas que no Carnaval se repetem, só que numa freqüência maior e em um espaço de tempo menor.
À tarde, se eu for para outro quarto da casa, dormir, a sinfonia recomeça. Se eu estiver na sala, recomeça na sala. Eles passam o dia seguindo minha sombra através das cortinas para poderem fazer o seu trabalho. Porque pedreiro só faz trabalho bem feito quando demora mais que o planejado e quando incomoda bastante.
E fora a musicalidade da marreta e do Grafitão, o apartamento ficou em uma clima bem agradável de estufa. Não se pode abrir a janela durante os dias porque os pedreiros ficam praticamente dentro da minha casa, se isso for feito. Fecham-se as cortinas, então, para que alguma privacidade exista. E à noite? À noite a gente se alivia com uma brisa né, porq... À noite tem que continuar tudo fechado, trancado e lacrado. Nenhuma janela aberta. Se abrir um dedinho, a quantidade de poeira que cobre os móveis, a louça, a comida, a minha cama e minhas almofadas é capaz de dobrar de tamanho o Morro do Careca. E é daquelas poeiras ótimas de se limpar: fina, pequena, quase invisível, que tem uma cola poderosa em todos os seus grãos.
Argh. Eu não quero estar aqui pra ver esse martírio terminar...