quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Obrando

Meu apartamento tem sido um ótimo lugar pra se viver e, principalmente, para dormir nos últimos dias. Desde não sei nem quando, começou a troca de pastilhas daqui. São 12 andares. Eles primeiro vão de baixo para cima, tirando tudo à pau e pedra, pra depois descer colocando os azulejos.
Às 8 horas, eles chegam. Agora que estão na altura do meu andar, eles chegam literalmente, passando por dentro da minha casa e pulando a janela da sala. E então tudo começa. Eles começam a martelar sempre, de preferência, a minha janela. Eu aposto que a parte externa do prédio correspondente ao meu quarto tem as pastilhas mais bem grudadas da história da construção civil, e por isso todos os dias eles se dedicam, de preferência o mais cedo possível, à minha parede.
Concomitantemente, eles cantam! Primeiro vem Grafith, depois vem um outro chamando "Ô Olga, ô Olga; Alaíde, Alaíde!", e, em sintonia, mais um assobia outra melodia impossível de ser identificada. Sempre na minha janela. São aquelas músicas que quando se está na praia durante o mês de janeiro, você escuta todos os dias na mesma ordem e qualquer casa por onde se passe. E as mesmas que no Carnaval se repetem, só que numa freqüência maior e em um espaço de tempo menor.
À tarde, se eu for para outro quarto da casa, dormir, a sinfonia recomeça. Se eu estiver na sala, recomeça na sala. Eles passam o dia seguindo minha sombra através das cortinas para poderem fazer o seu trabalho. Porque pedreiro só faz trabalho bem feito quando demora mais que o planejado e quando incomoda bastante.
E fora a musicalidade da marreta e do Grafitão, o apartamento ficou em uma clima bem agradável de estufa. Não se pode abrir a janela durante os dias porque os pedreiros ficam praticamente dentro da minha casa, se isso for feito. Fecham-se as cortinas, então, para que alguma privacidade exista. E à noite? À noite a gente se alivia com uma brisa né, porq... À noite tem que continuar tudo fechado, trancado e lacrado. Nenhuma janela aberta. Se abrir um dedinho, a quantidade de poeira que cobre os móveis, a louça, a comida, a minha cama e minhas almofadas é capaz de dobrar de tamanho o Morro do Careca. E é daquelas poeiras ótimas de se limpar: fina, pequena, quase invisível, que tem uma cola poderosa em todos os seus grãos.
Argh. Eu não quero estar aqui pra ver esse martírio terminar...

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