terça-feira, 25 de maio de 2010

Doce lar?

Eu moro em um prédio de 12 andares, com dois apartamentos em cada nível. São umas 24 famílias que circulam por aqui, usando dois elevadores, o mesmo hall de entrada, e os dois níveis de garagem. Certo. Eu acho que os dedos da minha mão direita nem se levantam todos quando eu vou contar as pessoas cuja educação é de fato sincera.

Eu moro em um prédio onde as pessoas não te cumprimentam se não te conhecem, ou se pelo menos se teu carro não é um utilitário importado ou se a roupa que você estiver usando não valer, por baixo, um salário mínimo (no valor atual, por favor). Acho que elas têm acesso ao seu contra cheque ou coisa do tipo. Descobrem seu nome e sobrenome, toda a sua linhagem familiar, e então selecionam: para o vizinho do 201, vou dar bom dia. Para o do 11º andar, puxo até conversa. A senhora do 302, dou bom dia, sorrio, comento sobre o tempo... A do 401 não vale a pena. A família que mora do meu lado também não. E por aí vai.

Se sua roupa é simples, se seu pai não é um dos caras mais ricos ou pelo menos mais famosos da cidade, se você nem mora aqui, mas trabalha aqui, vish, nem espere muitos cumprimentos. Eu já entrei no elevador, disse um olá e um bom dia, abri um grande sorriso, e a resposta foi um belo de um silêncio. Já dei boa tarde que o "vizinho" só respondeu porque eu falei tão alto que não haveria como ignorar. Se eu cumprimento uma babá, uma empregada doméstica, ou até os pedreiros que cantam o Grafith na janela do meu quarto (eles voltaram!), esse pessoal se assusta. Entra em um êxtase. Ficam inertes, sem acreditar que podem ser notados e que as pessoas educadas ainda nascem e sobrevivem à essa dura humanidade, interesseira e mal educada.

Assim como os pobres e anônimos, as crianças também são ignoradas. Os porteiros, ao invés de ouvirem "por favor", chegam a ouvir um "abre aqui!" com o mesmo timbre e tom de voz que eu uso para falar com a minha cachorra nas vezes que ela faz xixi fora do lugar certo.

Vocês entendem isso? A falta de educação? A falta de civilidade? A desconsideração pela sua presença? Toda essa futilidade que ronda as pessoas, que as impedem de falar com quem "elas não conhecem"(!)? Ou, pelo menos, com quem para elas não parece ser interessante conhecer? Eu não entendo. E sei que já estou julgando esse bando de mal educados (a história do "ele pode estar tendo um dia ruim..."). Mas há dez anos no mesmo lugar, eu me dou esse direito. Principalmente quando existem pessoas que em dez anos de inúmeros encontros no elevador, ou à espera dele, me cumprimentaram, assim, uma única vez. Não sei nem por que! Acho que estavam pagando uma promessa, sei lá.

Amanhã, logo cedo, vou dar meus bom dias, e os melhores sorrisos também. Vocês façam o mesmo, por favor. Por mais que a pessoa ganhe o equivalente ao que você está usando nos seus pés, por mais que o seu dia não esteja bom, por mais que seja o filho da puta do seu ex namorado que te chifrou. Cumprimente o sujeito. Seja um humano. Seja educado.

E bom dia pra você também.

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