sábado, 8 de maio de 2010

A melhor parte de ser gente grande: ainda não ser.

Pois então. Fui na praia hoje, né. Sexta-feira, dez horas da manhã, mês de não-férias, então só havia em Ponta Negra os turistas, os desocupados (e aqui incluem-se os turistas), os vendedores ambulantes e, por que não, pessoas com provas, trabalhos e congressos pela frente, mas que, como quem escolhe entre a carne ou o peixe, optou pela praia.

Mas a melhor coisa a se fazer na praia é, sério mesmo, observar as pessoas. Aprendi com minha professora de Processos Psicossociológicos nas Organizações. É diferente. Parece que ali circula um pouco mais de autenticidade de cada um.

Desci as ladeiras. Desci as escadas. Olhei para a esquerda, para onde sempre vou, e quando percebi a vala de esgoto que media seus cinco metros trocando de fluidos com o mar, fui para a direita. Caminhei um pouco, os donos das barracas me abordavam (!) oferecendo suas espreguiçadeiras (eca, Ponta Negra não era isso), procurei por um lugar melhor, me deparei com outra vala de esgoto, mas agora com sete metros, e voltei para antes mais um pouco.

Sentei. Do meu lado esquerdo, duas moças e duas crianças. Atrás, o cara da barraca com seu isopor. Do meu lado direito... Hum. Quatro adolescentes, mas adolescentes mesmo, com seus 15 anos no máximo. Três meninas e um menino. Duas delas usavam a farda(!), sim, a farda da escola, calça comprida e camiseta. E usaram essa mesma roupa para tomar banho de mar umas três vezes só enquanto eu estive lá. Entre um banho e outro, pediam uma cerveja (!). E, visivelmente, todos eles não gostavam do que bebiam. Mas bebiam com uma vontade! Aquele falso grito de independência e liberdade, sabe como é? Eu já senti isso, já dei esse grito falso. Mas não enquanto usava a farda da minha escola e tomava banho de mar com ela... Claro que não. Depois, passou o cara do carrinho de bebidas. E elas: "sabe aquela bebida que vem em um abacaxi e tal?"; "pois é, moço, eu quero aquela que vem em um abacaxi cortado assim pelo meio"...

Quer dizer que as coisas estão assim? No meu tempo, eu também ia à praia, também tomava cervejas achando o gosto ruim, também gazeava aulas. Mas nunca fiz tudo isso ao mesmo tempo! Coitados. Imaginei a confusão generalizada que existe na cabeça daquelas criaturas, que estavam fazendo tudo isso de uma só vez, atravessando ou se adentrando em uma provável crise de identidade, tão característica dessa fase, mas nunca tão embaralhada dessa forma. Será que aquelas meninas chegaram em casa com as calcinhas cheia de areia, as camisetas brancas molhadas e semi-transparentes, bêbadas e rindo à toa como estavam?... E eu achando que deixando de ler minhas xerox de Psicofarmacologia e indo para a praia em plena sexta-feira estava sendo rebelde! Tsc tsc.

Sei não. Lembro do tempo em que eu só queria ser grande, justamente para ter essa liberdade que tive hoje para escolher entre estudar ou ir à praia, e decidir pela última simplesmente por quis... E, sabe, nem teve o gosto especial que eu achei que pudesse ter. Foi bom ter ido à praia, ter estado lá, principalmente porque gosto tanto de fazer isso. Mas o fato de ter ido, o simbolismo que, por muito tempo, eu achei que existiria em uma escolha como a de hoje... Não houve.

Boa mesmo é a época em que a gente ainda quer ser o que seremos um dia. Quando esse um dia chega, perde a graça. E então migramos de volta pra casa, junto com os problemas, as responsabilidades, e uma agenda ainda mais cheia pela frente...

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Pois é. Aproveitei a constatação do meu envelhecimento precoce, e quando fui à ótica encomendar meus novos óculos, não titubeei: pedi uma armação "mais jovem".

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