domingo, 31 de outubro de 2010

Ei, meu filho.

Vem cá. Vou te ensinar um negócio.

Aqui, no mundo de gente grande, a teoria da evolução também vale. Vive o mais forte. Morre o mais fraco. E eis a regra principal: você não pode sofrer.

Tudo tem um tempo certo pro seu sofrimento. E um jeito adequado. As pessoas que dizem como é, certo? São as expectativas delas, e o julgamento que elas fazem da sua dor, que vão definir por quanto tempo você vai poder ficar triste. Se vai poder ficar chorando em público ou não. Se vai poder afundar no sofá ou não. Se vai deixar de comer, ou se vai comer demais até engordar visivelmente. Se você vai ter o direito de parar de trabalhar e estudar, por uns dias, semanas, ou até meses. Ou se você não vai ter esse direito.

Se você passar do limite, por favor, se esconda. Não deixe ninguém saber que você sofre demais. A mais. Só chore escondido. Escreva para si mesmo ao invés de falar para os outros. Vá para a terapia, e diga que tá se ausentando toda semana naquele mesmo dia e horário para fazer tai chi chuan na praça da cidade. Minta. Não deixe ninguém saber o quanto você sofre e pelo que você sofre se não for o quanto e como os outros acham que deve ser. Enfim, se não for "coerente".

Também não sofra de menos, viu? A galera fala mal de quem supera as coisas muito fácil, que se conforma rapidamente com os trancos e barrancos da vida. Tem que sofrer pelo menos um pouquinho. Sempre. E demonstrar um pouco também. Deixe pelo menos as pessoas mais próximas de você saberem que você tem um coração. Tipo isso.

Pois é, meu filho. Não sofra demais. Mesmo que sua dor seja grande, desproporcional ao que "deveria ser". Ninguém vai aceitar. Ninguém vai compreender. Os fenomenologistas, talvez, quem sabe, pode ser, acolham e entendam isso, mas o restante do mundo não. Engula o choro. Ria sem vontade. Se distraia sem conseguir. Encha a cara. Acenda um cigarro. Foi assim que eu aprendi. Parece que é assim que tem que ser.

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