quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Passeata vadia das almas vazias

É hoje! Chegou!

Ontem, ainda quarta-feira, estava eu do outro lado da cidade, dirigindo pela Rodrigues Alves, quando lá mesmo fui acometida pelo que, parece ser assim nomeado, "movimento cultural" do Carnatal. Eu peguei a avenida porque queria atingir logo a Romualdo, queria agilizar o meu caminho. E então eu me aproximo do cruzamento com a Maxaranguape e... O trânsito do Carnatal começa lá, tinha me esquecido! E começa antes do Carnatal.
A entrega da mortalha é ali no América, a venda do camarote mais caro e burguês do Corredor da Folia é ali naquela esquina e, claro, os cambistas começam a brotar do chão a cada cinco minutos, à medida que o começo da festa se aproxima.
Como se já não bastasse a galera estacionando em ambos os lados da rua, aquela fila-de-SUS arrodeando o quarteirão, as pessoas atravessando a rua como se estivessem em suas casas, andando do seu quarto pro banheiro, sem olhar se vem carro ou não, afinal, isso não importa, é o seu abadá que está em jogo!, e os cambistas achando que qualquer ser humano que passe por ali está realmente a fim de comprar uma de suas mortalhas, e por isso abordando carros, motoqueiros e pedrestes, os carros ainda paravam naturalmente no meio da rua. No meio da rua. No MEIO da rua. Na faixa do meio. Tinham que debater o preço do abadá com o tal vendedor-de-rua, né verdade? Nada mais importante do que isso. O trânsito (que já devia estar chegando até Petrópolis) que se dane. E temos, meros-mortais-não-foliões, que respeitar o momento do cidadão (nota 10).
Eu fiz o retorno. Eu fugi da entrega da fantasia para a festa que não vou. E minha vida continuou tranquilamente, até as 24 horas seguintes, é claro.
O trânsito já existia hoje de novo, agora na Prudente, com dezenas (eu vi centenas, mas acho que só existiam mesmo uns cinco) de caminhões estacionados nas margens das ruas, levantando as iluminações e as estruturas necessárias para o grande dia. Era só dez horas da manhã, e a cidade já diminuía seu ritmo para vinte quilômetros por hora.

Pois é. Eu já pulei Carnatal. Três dias seguidos. Encravei todas as unhas dos meus pés. Tomava uma bebida alcoólica misturada com refrigerante, porque na época em que eu gostava de Carnatal, era assim que eu (e minhas amigas semi-adolescentes) bebia. Achei o máximo, falo a verdade. Mas, o tempo passou, eu cresci, construí minha identidade e meu self, como aprendi na Psicologia, e mudei de gosto. Experimentar, tentar, não saber exatamente do que gosta e o que quer, faz parte de ser adolescente - aprendi na faculdade também.

Não sou a favor do fim do Carnatal. No fim das contas, bem ou mal, movimenta por aqui o comércio, o turismo, e chama um pouco de atenção pra cidadedosol. Porém, ter que sucumbir ao movimento, ao trânsito lento, às ruas interditadas, às músicas sem consoantes, com sílabas formadas apenas por vogais, ao mau cheiro da sexta, do sábado, do domingo, e dos sete dias posteriores à festa, é sempre um pouco demais. Eu posso reclamar. Todo mundo pode. E posso não gostar do Carnatal também.

Boa festa pra quem vai. Sossego e silêncio pra quem não vai. (Eu juro, eu desejo isso à vocês - especialmente para os últimos...).



P.S.: O título do texto não é meu: @lincolnwerner.

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