sábado, 31 de dezembro de 2011

Menina, vou te dizer, esse meu ano novo vai me dar muito trabalho. Era pra eu ter começado a pensar nele no reveillón passado.

Essa história das calcinhas coloridas... Escolher a cor pra "decidir" como vai ser seu ano, né. Já tive a máxima das idéias. Vou usar várias. Uma por cima da outra. De quebra, ainda vou parecer ter a bunda grande. Uma amarela pra ter dinheiro, uma vermelha pra me apaixonar, uma rosa para eu amar, então é melhor a vermelha vir por baixo da rosa, né? porque aí acontece antes, ou será que a ordem seria de fora para dentro? Ai não. Agora vou ter que pensar nas prioridades.

Quando virar o ano, na contagem regressiva, eu vou comer lentilha, ervilha, uva passa, até azeitona, preta e verde, que é pra garantir a sorte no amor. Quer dizer, no dinheiro. Já não sei.

Vou pular umas quatorze ondas, talvez vinte e uma, e se achar que não houve lentilha suficiente e eu tiver esquecido uma das calcinhas quando fui ao banheiro, 49. Tá decidido.

Também vou assoprar a vela do bolo fazendo um pedido. Vou pendurar uma figa como pingente no meu colar, na pulseira, e na tornozeleira. Vou usar um anel daqueles que a pedra muda de cor dependendo do seu humor. Então, vou usar um em cada dedo, pra... nem sei pra que. Mas vou usar. Também vou pendurar o Santo Antônio de cabeça pra baixo, jogar flores brancas ao mar, desenhar um sol de farinha em cima de um pires, lá no quintal.

Quê mais? Vou providenciar um trevo de quatro folhas, outro de cinco, e um de nove. Vou tomar três banhos de sal grosso no dia 31 e mais três no dia primeiro de janeiro. E não passarei debaixo de escadas, perto de gatos pretos (não estarei por perto da universidade nos próximos cinco dias), nem ficarei muito tempo de frente ao espelho, pra ele não quebrar.

Agora sim, 2012, pode vir! Vou fazer tudo isso mesmo. E mais o que eu lembrar. (Esqueci de mencionar ir à missa! Será que adianta? Já assumi o pecado de ter esquecido e tudo.) Mas ó, te juro, é só pra garantir um pouco mais (!) o que já tenho certeza (?), porque o ano que vem vai ser bom, vai ser jóia, quem sabe, até, "inesquecível". As boas vibrações vêm aí, estão aqui. Eu descobri, menina, que tudo isso só depende de mim. De você! E mais nada ou ninguém. Te juro! Experimenta :)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Resposta

Como eu falei no post anterior, e como os três leitores desse blog devem saber, eu faço Psicologia. Não que eu ache isso grande coisa, porque não é, mas dizer que está em um curso desses arranca uns suspiros de admiração da galera, de vez em quando. Não sei por que. Acreditem, a gente não lê a mente de ninguém. Não somos todos, cem por cento, amantes da vida e da natureza, apaixonados por diálogos, crianças e velhinhos. Até que eu sou paciente e compreensiva, mas não porque vou ser psicóloga, mas porque sou assim mesmo. E quando não sou, não tenho obrigação de ser - a não ser que a pessoa que mereça minha compreensão seja meu paciente.

E foi por notar toda essa admiração, receber sorrisos espontâneos de algumas pessoas quando eu dizia o que fazia, e por estar diariamente naquelas salas de aula, que eu me perguntava realmente por que eu estava ali. Ou melhor, por que eu continuava ali. Sem gostar tanto.

A escolha se deu por acaso, quando eu paquerei com o capítulo de O Mundo de Sofia que falava sobre Freud, numa época em que meus pais fervorosamente se empenhavam em me fazer desistir da carreira de jornalista. Uma coisa puxava a outra, e, enquanto eu desistia de Nutrição e Ecologia, fiquei pela Psicologia mesmo. Pura eliminação.

Na teoria, como tudo na vida, ser psicólogo parecia quase um êxtase, de tão interessante, de tão "rico", como depois eu viria aprender a falar (e a ouvir frequentemente). E na teoria sobre a prática, lá dentro da faculdade... nem tanto. Vou desistir. Não vou. Vou. Não vou. Tô quase. Espera. Pensa. Se acovarda e fica.

O tempo passa e eu continuo sem saber se quero essa história de Psicologia na minha vida. Se vou fazer Letras, Jornalismo, ou concurso público. Essa estudante-de-psicologia continua se perguntando porque continua sendo isso, porque nunca desistiu. Nunca encontrei resposta... Na verdade, acho que não fiz as perguntas corretas, mas, mais ainda, não fui confrontada com as perguntas e os fatos corretos.

Essa semana, então, assisti um documentário que um amigo psicólogo (antes do meu vestibular) já havia recomendado: Estamira. Quatro anos depois, baixei o arquivo, e três semanas depois de baixá-lo, assisti. E aí, pronto, encontrei os motivos. Continuei estudante de Psicologia porque descobri que a vida só faz sentido porque somos muito diferentes, por mais clichê que isso pareça. Porque descobri que é do Outro (sem elementos psicanalíticos) que eu gosto, que me interesso, só porque ele não sou eu. E, mais ainda, é do Outro esquisito, bizarro, excêntrico e autêntico, que eu gosto mais, do qual eu mais quero me aproximar, ouvir, sem esforço em compreendê-lo, porque esse Outro tão excêntrico já é compreensível em si mesmo. Eu gosto desses monólogos infinitos, que começam do nada e terminam de repente, cheios de lucidez em um discurso aparentemente confuso. Em uma pessoa aparentemente confusa.

Não se iludam. Psicologia não é ciência, não é filosofia, não é uma teoria ou um conjunto de teorias sobre o ser humano. Não é uma composição de prismas para ver esse Outro, como alguns divulgam. Não é o exercício de escutar e compreender. Tudo isso são meros detalhes. Fazer Psicologia e ser psicólogo é simplesmente viver e aceitar o diferente, o absurdo, e, mais ainda, gostar de fazer isso, quase-se apaixonando por toda essa esquisitice.

P.S.: E é obrigatório! Todo mundo deve assistir Estamira.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Quem não queria escrever um livro?

Eu tô pensando, tô pensando. Eu queria muito escrever um livro. Não sempre-quis não, sabe. O povo daqui de casa e os amigos do povo daqui de casa já diziam que eu ia ser escritora. Não sei porque. Eu gosto de escrever trinta linhas assim, e só. E só e sempre pra reclamar de alguma coisa. Se uma criança me pedir pra contar uma história pra ela dormir, coitada, não vou conseguir nem lembrar o início-meio-fim da Chapeuzinho Vermelho, menos ainda inventar algo todo novo. Não tenho capacidade intelectual de escrever umas cem páginas. É criatividade demais. Ou muita capacidade de enrolar quem está lendo. Mas hoje em dia, graças a Deus, mentira, graças a falta de tempo e ao capitalismo que faz parte da vida de livreiros e escritores, tu tem todo direito de fazer um livro só de crônica. Ou de conto. Ou conto e crônica. E não tô falando mal não! Eu mesma acho massa. Dá pra ler num instante, mata o tempo, diverte, e faz a gente pensar numa porrada de coisas que nunca prestamos atenção.

Eu vou fazer um, então. Só de texto. Porque o que eu escrevo eu chamo de texto. Crônica é coisa pra profissional. Vários textos e um tema só, decepções amorosas. BEM original, né não?
E por que tu vai fazer isso?
Porque mulher jovem só ganha dinheiro com livro se escrever um sobre home. Falando mal dos home. Mas tem que ter bom humor. Parecendo, assim, que você tá rindo da própria da desgraça, parecendo não!, sendo assim mesmo, quando na verdade você tá rindo pra não chorar (de novo).
Que conversa é essa.
É. Você quer que eu fale do que? Aquelas coisas de como-vencer-na-vida e ser alguém-de-sucesso é pra homem. Empresário. Bem sucedido, que venceu na vida. Ou que mente, fingindo que venceu, quando na verdade não se esforçou de nada.
Escreve um romance.
Já disse que não consigo. E romance é coisa de escritor renomado, amadurecido, velho, em todos os sentidos, mas capaz, né. O Zé, o Gabriel...
Mas o tema decepção amorosa é clichê demais. Vai ficar uma merda.
Vai. Vai mesmo. Tudo que eu faço é uma merda. E um a cada dois relacionamentos que eu tive, terminaram uma merda.
Claro, se terminou.
Pois é.
Mas eu poderia começar dizendo que tive parceiros com problemas psicológicos.
E daí?
Mas é que eu faço Psicologia.
E daí?
Que merda. Eram transtornos de verdade.
Tipo?
Transtorno de déficit de atenção.
Haha. Ele não te dava atenção. Dã...
Seu cu.
Tá vendo? Foi por isso que terminou. As decepções foram dos seus namorados-pacientes (duplosentido!).
Por quê?
Porque você mandou eu ir a merda e mandou eu tomar no cu. Em cinco segundos de diálogo.
Não foi isso que eu disse não. Mas foi o que eu quis dizer, então vá. Mas, claro! Eu trabalhando de graça. E tendo de ser namorada e psicóloga. Quer o que?
Só não escreva um livro sobre isso, por favor.
Por que?
Porque aí você não vai ter mais namorado nenhum. Nem psicótico grave vai te querer.
Já pensou? É mesmo.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Com a sua licença, mas...

Hoje eu vou falar sobre cocô. E se você for uma pessoa educada, de etiqueta, e sensata, tudo que não sou, então, nem continue a ler. Mas é que faz muitos dias que eu queria escrever sobre cocô. O meu, em especial. ((L)).

Já está perto de completar dois meses que ele tem saído não-saudável, se é que vocês me entendem. Também achava que era verme. Mas os dez dias de vermífugos (?) não deram jeito. Nem o soro caseiro. Nem evitar a lactose! Ela só ajudou um pouquinho. Mas o cocô ainda tá me dando trabalho.

E aí, depois de muita resistência, porque eu já sabia o que estava por vir, fui na médica especialista. Esperei só três horas na sala de espera, ela me atendeu em cinco minutos, e falou ao telefone celular nesse meio tempo, mas esse é assunto para outro post, e passou o maldito exame de fezes. E de sangue.

Eu n-ã-o faço cocô no potinho por nada nesse mundo. Nada! Só pelo dinheiro. Meu amigo Daniel disse que me pagaria, mas, ainda assim, eu teria de pensar sobre (menos de cinco reais não vale). Eu não lembro de já ter feito essa exame, mas não gosto nem de me imaginar colhendo FEZES. E me disseram que você tem que fazer direto ali, no potinho mesmo! Como pode?! Por que o laboratório não te dá um penico? O diâmetro do negócio é quase a boca de uma garrafa PET. Não sei que teste de motricidade é esse. Eu não faço!

Então só mais uma semana resistindo... E fui hoje ao laboratório saber se eu tinha de fazer alguma dieta específica antes de colocar as fezes no potinho. Tem. Tem a dieta. Mas, antes fosse um potinho! SÃO TRÊS.

Em um deles, você tem que fazer o cocô e levar direto ao laboratório, no máximo, duas horas depois de fazê-lo! As fezes têm que estar "frescas", o atendente me disse. Aí tem outro, da tampinha vermelha, que já me esqueci que tipo de fezes que eu tenho de colocar nele. Tem um dedinho de uma gelatina transparente dentro dele. Mas acho que esse é para fezes frescas também. E tem o último, o pior de todos, onde você tem que acumular três cocôs que você tenha feito, e levar lá no laboratório pra galera! TRÊS cocôs. Você faz cocô uma vez, e coloca um pouquinho no potinho. Aí faz cocô outra, mais um pouquinho no potinho. E mais outra. Aí, agora sim, pode levar lá no laboratório! "Não precisa guardar na geladeira, esse líquido aqui dentro conserva as fezes!" Bóe, puta que pariu. Eu não queria mais ouvir aquilo. E eu não iria guardar meu cocô na geladeira da minha casa, nem se para isso dependesse a minha saúde. Eu ia parar de comer e de beber água, né, por favor! Só de abrir a porta da geladeira e saber que tinha cocô ali dentro. COCÔ. O meu cocô! Nan.

E, me diga, se eu fizer cocô três vezes no mesmo dia, coloco tudo ali dentro? E levo logo no laboratório? E se o pote é pequeno, minúsculo, do tamanho de uma xicrinha de café, COMO eu só vou colocar um pouquinho de cocô de cada vez? E se vier demais? Vou ter que interromper, é?

Me digam. Expliquem.

Eu não vou fazer isso. Só por dinheiro. E se me arranjarem um penico.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Não era verdade

E eu que achava que havia endurecido e amadurecido, para ser mais sutil. Que as lágrimas já não me desciam porque não é mais do meu feitio, essa história de sentir uma melancolia que tanto arde. Eu que tinha um texto pronto, na cabeça, no papel, na ponta do lápis e da língua, estava eu pronta para dizer a todo mundo o quanto tinha "melhorado", que, segundo eu mesma, significa esse endurecimento por dentro de si; essa superação (que hoje vejo ser apenas um esquecimento fingido, fingidíssimo); esses dias que ficaram para trás; essa dor que não mais existe.

"Mentira!", disse Chico depois da decepção do amor perdido. Tão iludido e investido da parte dele. "Mentiras", digo eu.

E lá se vai o coração amolecendo e as lágrimas não sutis outra vez. Que amadureci que nada. Mentira!

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Eu estava só pensando.

Eu agora estava pensando, assim. Na verdade, acho que cheguei a falar sozinha também, o dia em que a nossa prefeita será incluída no folclore da cidade, no folclore do estado, do Nordeste. Ou se vai só virar lenda urbana. Mas isso daqui a um século eu penso, sabe, quando não vai haver muitos de nossos contemporâneos vivos para atestar o que liam e viam com seus próprios olhos. Os que estiverem vivos, ninguém vai ouvir o que dizem, porque vão dizer que é caduquice. Ou então, os de bom senso chamarão as crianças para ouvir a história antiga que o vovô vai contar!

Imagino os filhos dos nossos biznetos, ouvindo as histórias que seus pais dizem ter ouvido dos pais deles, os quais já pegaram o telefone-sem-fio dos próprios pais, os quais, estes sim, afirmam com veemência que é tudo verdade!

E as crianças, confusas, perdidas, coitadas, indagando os absurdos. Mas como assim, mãe, ela dizia na eleição que era mãe e mulher, e foi assim que muita gente votou nela? Por quê? (...) Ahn? Mas que coisa! E qual o problema o povo via se a pessoa fosse mulher e não fosse casada? E tinha de ser com um homem? Tia Lúcia né mulher, casada com mulher, mas né mulher?! E o pai do meu amigo é homem, só que casado com homem, mas é homem. E meu amigo é filho do pai e do outro pai, ele diz. Quer dizer que tia Lúcia ou o pai do Lucas (no futuro, todas as crianças se chamarão Lucas) não podiam ser prefeito da gente? (...) POR QUÊ? E ela ainda tava só adivinhando era, mãe? Fazendo fofoca? Feia.

E o que tem a ver ter filho, hein? Aquela irmã de vovó nem teve filho. O irmão da senhora também nem tem, né. E minha tia da escola... Todas minhas tias da escola, elas têm filho não! Elas dizem que querem só trabalhar, trabalhar, trabalhar, aí não teve tempo de ter filho. Aí elas não iam poder ser prefeita também não? MAS, MÃE!

E como era que as pessoas faziam, pai? Se toda rua da cidade tinha buraco?! Não saíam de casa, né? Eu que não ia brincar com meu carrinho se o chão daqui de casa fosse cheio de buraco. Já pensou? Meus carrinhos tudo quebrado! E o senhor ia me dar outro? Ia não. Ia dizer que eu não tive cuidado!

Quem era pobre não tinha dentista pra ir? Por quê?! Ela não dava material pro Dr. Dentinho no posto de saúde? E aí, mãe? (...) Vije, ficava todo mundo com cárie? E se doesse? E se caísse? E se desse dor de dente em toooodo mundo pobre da cidade, ela fazia o que? NADA? Não pode! Ninguém tinha uma estrelinha igual a essa minha aqui? Nem uma escova-de-dente-eletrônica-que-borrifa-flúor-na-boca? Nem uma escovinha bem simplezinha do Ben3758?! Nada?

Ow. Então por que ela mandou derrubar o estádio de futebol da cidade, mãe? Se não tinha material nenhum pro dentista das crianças pobres? Era todo mundo com cárie e ela derrubou o campo, foi?! Por quê? Também não tinha soro no hospital? Nem luva nem máscara? Não tinha NADA? E o médico fazia o quê assim? E por que ela não comprou luva pro médico e deixou o campo lá? Eu queria ver, mãe, aquele estádio torto assim. Era legal? Muito legal? Não precisava, né, ter derrubado tudo. Podia ter deixado lá e ter deixado as crianças ter estrelinha no dente, igual a mim. E os velhinhos tomar soro, igual ao vovô.


Sim, meu mundo do futuro é um pouco cor-de-rosa. As coisas são melhores do que hoje, bem melhoers, e muito do que a gente vive agora vai parecer absurdo, incompreensível. Mas é que eu acho que essa é a única saída para, a cada dois anos, a gente se dê ao trabalho de pensar e analisar com cuidado sobre quem queremos para tomar conta da nossa cidade, do nosso estado, e país, que são nossos, não deles.

E, enquanto vire folclore ou lenda urbana, acho que ainda está bom. O problema é quando vira piada. E nesse estágio a gente já chegou.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Indiferença e hostilidade,

Praticadas na capital do meu país... Dava uma música. Sarcástica e ao mesmo tempo triste. Mas aí iriam falar mal de mim, por falar mal dos outros, e por ter péssimas habilidades musicais e artísticas em geral.

É que eu estava lá no shopping, sozinha, quando dei que tinha esquecido do celular. Que merda, José, ops, e agora, José? Mas, tudo bem, depois de lanchar eu procuro um orelhão e telefono a cobrar pro meu irmão. Então, na praça de alimentação, depois de comprar o lanche à tão simpática atendente, cujos dentes deviam ser brancos, mas não consegui nem ver se existiam de fato, tal era sua envolvente conversa e simpatia, vou lá no homezinho que serve os pedidos. "Moço, onde tem telefone público aqui no shopping?". "Não sei não. Não sei nem se tem. Próximo!".

Vou lá no quiosque do café. "Oi. Por favor, você sabe me dizer onde tem telefone público aqui no shopping?", "Não tem". "Não tem?!?!?" (cara de pavor, tristeza, desolação). Enquanto isso, a mulher faz cara de reticências (é, tipo quando você faz um comentário idiota e/ou dispensável no msn, e seu interlocutor só põe '...'). "E agora, eu esqueci meu celular..." (cara de pavor, tristeza, desolação, de turista perdido e sozinho em cidade desconhecida em um domingo à noite). A cara de reticências se mantém. "Mas não tem nenhum aqui perto?". "O mais próximo que tem fica depois do Big Box". O que dá tipo andar do Praia Shopping ao Campus, cruzando avenidas sinuosas, e andando sobre gramados. Nada de calçadas nem faixa de pedestres entre um ponto e outro.

Enchi os olhos de lágrimas e saí de perto. Vai que eu começava a chorar de verdade e a moça me dava as costas ou, quem sabe, até suspirava, entediada. Enquanto isso eu segurava um troço quadrado nas mãos, que a atendente simpática da sanduicheria tinha me dado após eu pedir minha janta. Ele era de um preto fosco, com uma luz vermelha dentro, que piscava de vez em vez. E tinha escrito o número quatro. Eu não sabia se era para eu prestar atenção em um letreiro eletrônico, de onde surgiria o número quatro (e eu procurei muito esse letreiro, mas não encontrei), se teria de reparar quando a luz vermelha disparasse, ou, sei lá, parasse, ou se alguém gritaria da cozinha: QUATRO! Mas, claro, fiquei com vergonha e medo de perguntar como eu deveria proceder. Nunca tinha segurado um troço daqueles, e, tem mais, o pessoal dessa cidade não parece gostar de dizer o óbvio, repetir o que acabou de falar, ou, pior!, não entender o que você diz e ser obrigado a perguntar: "oi?!", franzindo todo o lado direito do rosto, para mostrar deveras aborrecimento.

"Com licença, você poderia me informar...", "OI?!", cara de quem acabou de ficar puto. "É que, por favor, eu gostaria de saber...", "COMO?!", ficou puto de verdade. Quando você já sabe o óbvio, mas comenta-o, e faz outra pergunta sobre isso, eles falam logo o óbvio achando que era isso que você queria perguntar. E o fazem aborrecidos, eu acho (puf). Mas aí você explica que não é isso que você deseja saber, mas... Aí eles explicam logo de uma vez como se deve fazer. Sem detalhes, sem gentilezas. Frios e indiferentes, como toda relação amistosa deve ser.

Não sei. Mas eu vivo em uma cidade onde as pessoas se importam demais com quem você é, o que você faz, quem são seus amigos. Qual a marca da sua roupa, do seu carro, em que faculdade você estuda e se seu namorado é maconheiro (o que não significa necessariamente ser usuário convicto, mas somente ter um estilo despojado). É, eu sei. As pessoas julgam bastante por aqui, e julgam pela aparência, é fato. Mas... se importam. Bem ou mal, elas sabem que você existe, ou melhor, vêem que você existe, e, por algum motivo, talvez devido a essa aura provinciana que nos paira, elas te vêem, te observam.

Eu fiquei imaginando que se eu, naquele shopping, sem celular, sem amigos, sem família, sem nem saber dizer ao táxi que caminho tomar para voltar para onde eu estava hospedada, chorasse desesperadamente, tivesse delírios persecutórios, espasmos epiléticos, ou, para ser suave, um ataque de asma brônquica repetino, alguém iria me ver. Perceber. Só reparar!. Ou se eu iria continuar assim por segundos, minutos. Horas. Até o segurança me avisar displicentemente que o shopping estava fechando.

Prefiro a província. Prefiro a sensação (fato?) de ser observada e avaliada todo o tempo, do que a certeza de que sou totalmente dispensável à todas as pessoas ao meu redor. Que sensação mais ruim de indiferença. Me olha aqui!, finge que se importa comigo.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Então, hoje.

Hoje é onze do onde do onze. Onze do onze de dois mil e onze, né. Eu não sei se o mundo vai acabar, se as marés dobrarão de tamanho, se a lua vai ser a mais esplendorosa das mais esplendorosas já vistas, ou se é dia para "abraçar, ser gentil, dar bom dia (!), e acender uma vela (!)" - li isso no Estadão de hoje, te juro. (Mas era uma mística falando tá, gente. Uma "bruxa", é como ela mesma se apresenta.) Também não sei se vou meditar às onze e onze da manhã (já passou), ou às onze e onze da noite - talvez eu segure o sono. Mas eu nem sei meditar. Ou não sei se sei. Na verdade, acho que não sei bem nem o que é meditar. Só acho que sei, entende. E finjo que entendo, entende?

Eu podia ter feito um negócio massa, irado, diferente, inesquecível nessa data massa, irada, diferente, inesquecível (...). Ou talvez eu tenha esperado que tenha acontecido algo surpreendente assim, na tal data tão merecida de coisas boas (?) (que na verdade, é a 11ª dos últimos 11 anos(!)). Não sei em que o 11 é mais especial que os números passados, que estiveram nas datas de dez do dez de dois mil e dez, nove do nove de dois mil e nove, oito do oito de dois mil e oito (aqui foram as Olimpíadas! Eu lembro! Foi massa. Irado. Semi-inesquecível).

Eu leio o jornal, pego carona com minha mãe, abro minha caixa de e-mails, e em todas essas situações, as pessoas eufóricas e radiantes, com essa data. Que, é verdade, é legal você ter vivido uma data numerologicamente-legal assim. Ou não. Mas eu penso se eu deveria realmente achar grande coisa. E, por não achar (hoje), imagino se daqui a 30 anos vou me lamentar por não ter vibrado com o onze do onze, nem com o dez do dez, e os demais para trás... Será que vou sentir uma amargura por não ter vibrado tanto, nem ter feito algo fantástico, diferente, nesse dia tão... E então vou me despedir da vida esperando que as próximas gerações não sejam tão lugar-comum como eu fui com as datas, os números, e o calendário?

Mas, ó. Te conto que hoje meu dia poderia ter sido angustiantemente normal, o que se resumiria a ir para a faculdade e terminar minhas lições do inglês. Mas não foi. Me levantei às quatro horas da manhã desse onze do onze, fui para o aeroporto, e vim embora para Brasília. Comi aquele café da manhã suculento e exagerado do avião, li um livro inteiro (Diário de Um Magro, de Mário Prata - autografado, han han!), fui ao Ministério da Previdência, onde fiz xixi em um banheiro com vista panorâmica para toooda a esplanada dos ministérios (algum de vocês já viveu isso?! Hein, hein?), sentei na cadeira do ministro, dormi à tarde ao invés de assistir aula, senti frio (!!!), não terminei minhas lições do inglês, e estou postando, depois de várias semanas em jejum.

É. Até que foi irado, diferente, surpreendente esse dia. Pra mim.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Greves

Fez o que hoje? Fui ao banco resolver umas coisas. Fui ao "banco", "resolver" umas coisas.

Uma força superior, aquela que conspira para o caos total, programou greve dos correios e dos bancos ao mesmo tempo. Sério, se o objetivo era o caos e pessoas frenéticas em filas enormes, tendo enxaquecas só de pensar nos juros altos a pagar no próximo mês, nada mais genial. Só a conta de luz conseguiu chegar na minha casa. Todas as outras ficaram hospedadas nos Correios.

A melhor parte, claro, é lutar nos labirintos virtuais para conseguir imprimir sua segunda via - o que nem sempre é simples - e então respirar fundo, contar até 10, e entrar na fila para pagar a maldita.

A lotérica não é vinculada ao Banco do Brasil, o Banco do Brasil só aceita depósitos até uma hora da tarde, as máquinas não têm comprovantes, e, há!, a melhor melhor (2x) parte: o sistema sai do ar o tempo inteiro.

Eu hoje de manhã fui à Unimed pagar a conta de outubro que não recebi, e, num espaço de seis metros quadrados, comportando 46 pessoas, das quais 30 eram idosas, o sistema resolveu cair. Quem ia entrando pela porta, o segurança avisava: "o sistema está fora do ar". E, do lado de fora, as pessoas (eu): "fora do aaaarrr?!?!?", e virava de costas em tom de desespero. Mais juros, meu Deus, mais juros! E lá dentro, todos resmungam. Quando resolvo ir embora, afinal não me cabia muito ali dentro, e eu não ia me apertar numa fila à espera da boa vontade do sistema em voltar, todos, lá de dentro, falam em voz alta: "voltou, o sistema voltou!", o segurança grita para fora da porta giratória, as pessoas ali no saguão chamam umas às outras: "voltou, voltou! Voltou!". Todo mundo frenético e ansioso por pagar uma conta (?!).

Parte 2. Vou ingenuamente ao Banco do Brasil, na Afonso Pena. Não sei onde estava com a cabeça! Eu, ingenuamente, gostaria de fazer um depósito. A fila tinha só umas cinquenta pessoas. Enquanto isso, então, vou aqui pagar uma conta. Vou nesse caixa aqui. Sem papel. Vixe, vou nesse outro. Impressora com problemas, comprovante não pode ser emitido. Próximo caixa, ufa!, começo a fazer a operação, ainda bem, vou pelo menos pagar a conta hoje, TRAVOU!. Sá porra. Próximo? Tá, senhor, espero. E uma vida inteira depois, paguei uma conta.

Fila do depósito então. As pessoas (eu) pegando envelopes de dinheiro e cheque para estocar em casa ao longo da greve, porque uma hora vai faltar!, mais ou menos nos moldes do pessoal roubando o supermercado em Ensaio Sobre a Cegueira. Não parava de chegar gente, e o boato de que os depósitos só aconteceriam até uma hora da tarde. Vinte minutos na fila, e, adivinha!, sistema fora do ar! As pessoas começam a ficar nervosas, frenéticas, falam cada vez mais alto. Aqui, ninguém resmunga; grita mesmo, porque não tem ninguém do banco trabalhando, só nós, devedores, lisos e mal educados, que não podemos decretar greve de pagamentos. Seis minutos depois, o sistema volta! O primeiro anuncia: "voltou!", e todo mundo: "voltou!", "voltou o sistema! Ave maria, graças a Deus". Evidente que, dez minutos depois, o sistema cai outra vez, se aproximava de uma hora da tarde, as pessoas continuavam frenéticas, suadas e cansadas, perdendo a paciência e o que lhes restava de gentileza.

Eu já estava entrando no clima, então achei melhor ir embora, tomar banho, almoçar e assistir aula, fingindo que minha vida é só isso, uma ausência de preocupações. Amanhã, meu nome está mais sujo, e eu devendo mais na praça. Uma pena.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Espere sentado, se não cansa.

À espera das boas notícias. À espera dos sorrisos espontâneos, dos abraços apertados, da cerveja na sexta-feira à noite com cara de descanso, de descaso, de desopilar e esquecer um pouco os problemas. À espera da correria que até faz bem. Faz bem porque rende, porque nos faz reclamar, porque nos faz querer correr mais e ao mesmo tempo parar; para ver alguém importante. À espera das ligações inesperadas (!), desse cinema no sábado à noite que vai ser regado a risadas - não importa o gênero. A piada sempre cabe, isso a gente já aprendeu. À espera do cotidiano de corações tranquilos, de mentes aquietadas, apenas com vontade de trabalhar, mas cientes de que estamos bem; de que estamos no nosso melhor. Espero por isso. À espera das nossas festinhas e festanças que duram até muito mais que o amanhecer, quando a gente acha que tem o poder de parar o tempo quando na verdade só ficamos fingindo que encompridamos a noite mesmo diante do raiar do dia. À espera do aconchego, da normalidade, do prazer de estar aqui. À espera das boas notícias. À espera dos milagres.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Feeling

Ontem, no início da noite, eu, minha avó e minha tia em uma loja... A vendedora, para minha avó e minha tia:
- As senhoras aceitam uma água, um refrigerante? 

Se vira para mim e:
- Você, aceita um energético? 

(...)

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Trânsito bom!

Eu gosto do trânsito em Natal. Eu acho massa aqui! A galera é sempre gentil, sabe? Nunca bota o carro na sua frente na hora do retorno. Nunca faz o retorno na contra mão também, e não reclama de quem faz, obviamente. Anda rápido na esquerda, o que é ótimo!, e os ônibus sempre respeitam o cidadão à esquerda deles. Nunca que ligam a sinaleira e enfiam o veículo deles na frente do seu. Imagine!

As pessoas sempre dão a sua vez para o outro passar. Não tem essa de competir para ver quem chega na frente. E não é porque não têm pressa. As pessoas até que correm aqui, mas é questão de gentileza mesmo. Sempre esperam você passar; não colam os seus carros no carro da frente para impedir os colegas de entrarem na fila. É um sentimento de irmandade que todo mundo compartilha...

A paciência é uma virtude nossa. A gentileza, a humildade, o respeito às vagas de deficientes, vixe!, nunca vi nada igual. Todos respeitam os pedestres - e estes também são ótimos!, só atravessam na faixa e sempre agradecem. Nunca vi um pedestre se jogar na frente do meu carro. Nem flanelinha. Nem ciclista. A galera aqui respeita o trânsito mesmo.

Ai, ai. Desse jeito, não tem quem não goste de dirigir. Dá até vontade de sair de casa para passear! Aproveitar a gasolina, com seus preços sempre baixos e justos, e deslizar pelas avenidas da cidade, tão bem calçadas e sempre bem cuidadas, feitas especialmente para esse trânsito, só nosso, maravilhoso assim.

Tchau. Estou de saída! :)

quarta-feira, 20 de julho de 2011

No dia deles.

É que nessa hora eu escuto e vejo Chico ao vivo, como resultado até pouco tão impossível, que agora então só acontece por conta dessa tal de internet, dos nossos dias, desses dias, coisas que não compartilhávamos (eu e você) há uns 10 ou 15 anos atrás, e me lembro de ti. Tu ainda queres casar com ele? Acho graça. Essa semana ouvi diversas vezes a sua preferida, aquele onde ele fala de tristeza, lágrimas e sofrer, e que tu adora; apesar da letra, que não é compatível a sua alegria e vontade intensa de ser feliz (sendo), é a que tu mais gosta. É a dele mais bonita mesmo.

E daí eu lembrei também dessa sua mania de me apresentar músicas novas e antigas - aquelas dos tempos dos nossos pais; recitando as letras, cantando em tom maior, como diria ele!, me fazendo pensar sobre aquilo que me dizes. Tu sempre querendo me ensinar a viver de um jeito melhor, um assim, parecido com o seu.

E você e seu celular sempre a postos. Te ligo (e te acordo) na madrugada, ou, mais possivelmente acordo-o se de manhã for. Eu quero agradecer por todas as horas que esse outro advento moderno, o celular, junto com os pacotes infinitos da minha operadora, nos proporcionou. Eu ainda não acredito que consigamos duas horas e meia, com orelhas ardendo, fazer parecer 15 minutos. E falta mais história. E falta mais conselho. Me diga aí sua opinião, mas não diga toda, se for me doer. Perdoe minha fraqueza.

Tu. Vou te ligar logo mais pra gente dar umas quatro gargalhadas - em três minutos. Vou aí te ver e te abraçar, assistir um filme, que é o que tu mais gosta de fazer na vida, minto, retiro, uma das coisas que você mais gosta de fazer na vida, e vamos filosofar a vã filosofia sobre isso que a gente tem: nossa história. Tu me fazes rir de mim mesma toda vez. E só me deixa chorar até um pouco, porque não aguenta e logo me abraça. Eu te agradeço por não me aguentar sofrendo assim pertinho, nem mesmo longe, se milhares de quilômetros estiverem nos separando. A recíproca é toda verdadeira.

O fim de semana será nosso outra vez. A sexta, especialmente. Pode até faltar dinheiro, mas não vai faltar a cerveja. Não vai faltar história repetida, contadas de outro modo a cada vez, por cada um de nós, que somos um grupo grande e que temos opiniões tão diferentes sobre tudo e todo mundo! E eu vou fingir mal humor das pessoas lugar-comum que passaram e continuam passando em nossas vidas; vou dizer que tenho preguiça delas, a gente vai rir, tomar mais cerveja, brindar, e lembrar de mais uma história do século passado.

Eu recebo uma mensagem sua e sorrio. Passo um café e lembro de você. Podia te ligar, fazer o convite, mas na verdade eu ando ocupada com esse computador minúsculo na minha frente exigindo trabalho, e você passando horas na frente de outro computador, papéis, documentos e um relógio que tique-taca devagar - porque tu queres mesmo é vir tomar esse café. Sinto sua falta. Todos os dias. Se eu ligar, será que você vem?

E na próxima semana, minto, daqui para o fim do ano, vamos na agência organizar logo essa viagem. Que não sei se será de férias, de compras (puf), ou de estudos (pufff), mas que há tanto tempo a gente planeja (somente em nossas cabeças ocas, sem muito mérito nem sobre os países que queremos visitar). Realmente, dentre esses propósitos aí, não sei qual será o da nossa viagem, mas escolho outro: celebrar que somos amigos, que precisamos um do outro, e que não comunicamos nem assumimos isso conscientemente porque não faz sentido. Não é preciso. Aqui estamos, há tempo tempo, e/ou com tantas histórias e abraços, prontos para vários Nossos Dias.

O café tá pronto.

~

Esse texto eu tentei escrever com bastante esmero e cuidado, coisa que nunca faço, porque coloquei não um, mas vários (senão todos) dos meus amigos nas linhas e entrelinhas dele. Alguns talvez se identifiquem com parágrafos específicos. Outros, com o texto inteiro.

Feliz Dia do Amigo. Por mais boba que a invenção desse dia pareça, nele, nós temos muito o que comemorar.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Um estudante de Psicologia

Existem algumas pistas para se reconhecer um estudante de Psicologia, antes mesmo de você perguntar o que a pessoa faz da vida e dela dizer "Psicologia" com um sorriso no rosto (porque a maioria dos estudantes de Psicologia acham o máximo fazer e dizer que fazem Psicologia), e de você imaginar coisas trágicas, cômicas e improváveis sobre ela. Eu imagino que no imaginário (!) das pessoas, ao ouvir a declaração de que seu interlocutor faz Psicologia, perpassam coisas absurdas, sinistras, e, apenas eventualmente, positivas. Foi o que eu consegui decifrar a partir das expressões faciais que já vi. ("Eita, ele está me analisando!"; "nossa, ele entende tudo sobre pessoas"(?!); "ele entende muito de comportamento humano"; "vou agradá-lo, não sei o que pode acontecer comigo - que tipo de coisas ele pode dizer sobre mim, analisando-me e entendendo tanto de pessoas e de comportamento - caso não o faça!". Vai nessa ordem?)

Um estudante de Psicologia sempre refere a toda e qualquer coisa desse mundo (pessoas, fatos, livros, filmes, festas, idéias) usando o termo "a questão". É bem verdade que isso é mais evidente em sala de aula, mas você pode pescar isso no discurso dele além da academia.

Para começar uma frase, é normal que assim seja: "A questão que eu acho é que...". Ele não diz, jamais, "fato é que" ou "a minha opinião sobre isso". A frase sempre começa por uma "questão". Para referir-se à greve dos professores: "a questão da greve é que ela..." e então fala algo que não seja realmente sobre a questão, motivo, da greve, mas faz mesmo qualquer comentário aleatório sobre a mesma. Acerca da gestão da prefeita: "a questão da gestão de Micarla é que ela realmente não supre as necessidades...". E quanto aos temas da psicologia: "a questão da hospitalização"; "a questão da temática saúde-doença"; "a questão do contexto social (!!!)"... Enfim. O termo "a questão" é sempre colocado no início, meio e fim de uma frase, mas sempre enquanto termo acessório. Se você tirá-lo do discurso, não se perde nenhuma idéia. É possível entender o que o tal estudante fala sem todas as "questões" que ele elenca, até porque, ele não elenca questão nenhuma, mas se refere a fatos, idéias, pessoas, livros, filmes, etc. E tirando a "questão" do discurso desses sujeitos, perdemos umas 500 palavras do seu discurso vespertino (considerando apenas um estudante, veja bem).

"Contexto" é outra máxima. Acho que essa é a palavra que vem em segundo lugar na freqüência. E o "contexto" não precisa ser explicitado, descrito, identificado nem ter sua relevância justificada. O estudante de psicologia sempre refere-se sempre ao "contexto" das coisas - de todas elas: pessoas, fatos, filmes, idéias... Mas é mais pelo hábito.

Todo estudante de psicologia refere-se às boas experiências acadêmicas usando a expressão "muito rico". Não existe possibilidade de dizer somente que foi interessante, que valeu à pena, que atendeu ou superou as expectativas. Eles sempre começam contando uma experiência de estágio, disciplina, ida à campo ou até mesmo seminário com um "foi muito rico".

Quando você contar um episódio qualquer sobre qualquer (!) criança, ele sempre solta: "Hm, qual a idade dela?". A pessoa responde sem dar a mínima, continua a história engraçada, envolvente, curiosa ou preocupante (e é mais comum que, para um estudante de Psicologia, se já souber que ele o é, conte porque a história é curiosa ou preocupante), atinge um ápice, o sujeito (eita, outra máxima!, me entreguei) dá suas opiniões, repete o que acha mais curioso, engraçado, importante ou de se preocupar, mas enquanto isso o danado do estudante tá tentando reviver suas aulas de Desenvolvimento Humano para ver se encaixa o que a pessoa diz na idade que a criança tem; se as práticas parentais, a escolarização precoce ou tardia, o CONTEXTO, e a QUESTÃO da personalidade da criança (olha aí!) podem estar implicadas como alguma coisa. Mas não consegue ter certeza se acessou a aula certa (isso acontece na segunda ou terceira infância? Quem diz isso é Piaget ou Vygotsky? De quem eu gosto mais, de Piaget ou Vygostsky?), não conseguiu prestar a atenção devida enquanto rememorava as falas da professora, os slides e os capítulos do livro, e não tem segurança se fez a conexão correta. Mas, ainda assim, é provável que ele não tenha a resposta, mesmo que tenha conseguido acessar a aula correta, saiba se gosta mais de Piaget ou de Vygotsky, e tenha prestado a atenção devida porque fez suas conexões teoria-e-prática muito rapidamente. Mas aí ele vai dizer: depende.

Na Psicologia, para estudante de psicologia, para o psicólogo, enfim, tudo depende. Por segurança, não vou te dizer que seu filho tem desenhos de criança psicótica, é burro, ou sofre de fobia social, por mais que eu tenha os indícios. Vou dizer que "depende", porque não se pode ter certeza somente com sua mãe me contanto alguns episódios. Também não vou dizer que a culpa é dela, da mãe da criança, que está errando nas suas práticas parentais (!), porque, além de não ser simpático à Psicanálise, também "depende". Afinal, qual o contexto dessa mãe, dessa criação, dessa dinâmica familiar (outra máxima!)? Não vou dizer que seu problema é TOC. Depende. Preciso analisar mais a fundo. E, nesse caso, se eu tiver paciência, talvez possa dizer: "fale mais sobre isso", e ainda assim não garanto dar-lhe nenhum diagnóstico. Meus professores não me aconselham fazê-lo. Mas uma "escuta", uma "suspensão fenomenológica" para tentar compreender melhor essa "pessoa em sofrimento" está valendo! Vou continuar a dizer "depende", para tudo que você me diga ou pergunte. No máximo, vou te aconselhar procurar alguma ajuda. E termina aí a intervenção (apesar de o maldito estudante já ter imaginado as melhores e mais utópicas intervenções psicológicas para a pessoa da história que lhe contam).

É provável também que você identifique essa raça vendo pessoas que são extremamente solícitas às crianças, que olham demais para as pessoas à sua volta, que escutam mais do que falam, e que são os ouvidos que os amigos buscam - sempre. Mas essas são coisas mais difíceis de identificar, e menos evidentes, como aquela roupa arrumada que nunca se sabe se é pelo hábito, ou se é uma fantasia que o estudante coloca em dia de triagem ou atendimento.

P.S.: Só para deixar claro: nós NÃO estamos sempre analisando as pessoas. Aliás, nós pouco fazemos isso deliberadamente e de graça. Obrigada.

terça-feira, 28 de junho de 2011

O caminho. O fim. A dor. A perda. A saudade. O sorriso. Os sorrisos que eram. Os que foram. Os que se foram. O domingo. O amanhã. O ontem ainda mais. Que viver no passado. O amarelo. O sem cor. Sem cores. A expectativa. A frustração. A frustração. A frustração. Várias vezes. O desprazer. A solidão. O nefasto e o incompleto. O inteiro. Eu sem mim. O vazio. Oco. Completamente oco. O livro. A menina do livro que não era nada e que existiu somente no fim. Da história. E que história sem graça. E que livro bom que fora. Que é. Aconselho. Conselho. Não. Negação. Decepção. Destino ou não. Sem rima, por favor. A dor outra vez. A repetição. O processo. O continumm. Não quer mais o existir. Dê adeus.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Espelho

Ela aproximou-se e pediu para sentar de frente pra mim. A disposição das mesas e cadeiras do restaurante, obrigam, direta ou indiretamente, que amigos, colegas e desconhecidos, interajam entre si, nem que seja através do por favor ou muito obrigado.

Aquela voz baixa, que sumia nas últimas palavras, pois para aquele que se propõe a ouvir e o que não tem vontade de falar, o início da frase e a gesticulação adequada bastam para comunicar e conseguir o que quer, e aquele olhar de olhos negros e amendoados, os quais podiam ser expressivos, mas que estavam rasos em si mesmos, contidos e calados. Eles pareciam olhar para dentro dela, que conversava com eles, os olhos. Mas aposto em um diálogo silencioso. Aquele momento quando o assunto termina, o sorriso não vem, a conclusão é óbvia e por isso ambos interlocutores nada dizem; o silêncio reina e, se há a intimidade, não constrange. Era o que acontecia entre ela e seus olhos.

O cansaço já tão cedo na semana e no dia e na vida. A dificuldade em levantar por demais a cabeça, em erguer o queixo, de um modo que parece comunicar aos outros que estamos nos colocando no mundo (!). Por que? Também não entendo. Não acho que seja assim. Mentira, acho. Só não quero.

A alma já vinha vazia. O branco, o claro, o límpido, pelo menos. Não era a escuridão, que bom, vejam só. Mas sim a claridade - porque não havia mais nada.

A alma inócua, os olhos rasos e inexpressivos, os gestos contidos, calmos, sem nem serem calculados, pois não há necessidade disso quando não se tem vontade de mostrar-se nem aparecer; o existir em si mesmo, com essa fala que some, que não faz questão em ser ouvida pelo mundo. Era eu de frente para mim mesma. E não sabia.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Mode on

E vou vivendo desse modo automático, que seja. Um dia após o outro e uma semana depois da outra, também, porque não há outro jeito, e o que acontece nesses espaços de tempo eu já nem sei mais.

Acordar e pensar na hora do próximo dormir. Dormir e não querer acordar. O que acontece nesse interím que chamam de dia, eu também já não sei, não vejo, não faço. Não sei se vivo. Simplesmente existo.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Redes sociais sociais.

Eu cresci sentindo um pouco de inveja dos caras pintadas da década retrasada. Achei que nunca ia fazer nada parecido na vida; achei inclusive que nunca conseguiria ter ideologia suficiente para gritar por algo que não fosse somente meu, mas de todo mundo. O egoísmo e a vida superficial que a gente acaba levando, por levar, meio sem escolher deliberadamente esse caminho, eu pensei que eram coisas que já haviam me afetado.

Achei que nunca iria para as ruas gritar por nada. E depois comecei a ter certeza. Quando vi os preços sempre subirem e nunca o contrário; quando vi os impostos cada dia mais altos e com menos retorno; quando vi os melhores políticos mostrando-se na verdade como os piores possíveis... Quando vi tudo isso e olhei para mim, no sofá, assistindo ao jornal e me indignando, né, dizendo "que absurdo!", e no dia seguinte comentando no colégio e depois na faculdade, sempre acompanhada dessa interjeição, cheia de classe e travestida de conscientização política.

Pior, ainda, eram as notícias ruins se multiplicando e eu nem no sofá mais estava. Mas sim enfiada em uma biblioteca lendo artigos científicos sobre qualquer-coisa-exceto-nosso-comprometimento-político-e-social, lendo literatura (da boa e da ruim) deitada numa rede, ou tomando cerveja, que seja. Não, que idiota.

E até que os meus olhos voltaram-se novamente para isso. Fazia sentido de novo. Fazia mais sentido, aliás. Apesar do comodismo em ler e ouvir as más (péssimas) notícias, em sentir-se um perfeito otário, do tipo corno, e depois discutir as más notícias sentados nas (não muito) confortáveis cadeiras da universidade, sob ar condicionado e com cafezinho, isso já emoldurava um real sentido e ideologia. Pouco, mas pelo menos o "absurdo!" diminuiu um pouco sua freqüência. Quando a discussão ia para outro não lugar, o da internet, já fazia algum sentido também. Mas vá lá, vamos discutir, dizer que estamos putos, fazia piadas e sarcasmos, rir de nossa desgraça, gritar muitas vezes "que absurdo!" (aqui a freqüência retorna um pouco), tentar fazer algo lá pelos meados de outubro, nas urnas, e sentir-se cidadãos por isso. Não digo que todos são assim. Mas eu, sim. E outros montes também, sabemos.

Havia momentos do "quase": a raiva profunda, a revolta, a vontade de fazer muito... Mas a gente continuava, então, discutindo, inflamando, pensando, diagnosticando situações. Uns poucos corajosos de arriscavam, mas eu, e tantos outros, acamados na pior doença dos nossos dias: o comodismo.

E quando achei que os artifícios que essa doença usa para nos atingir, sejam eles a internet e suas redes sociais, a universidade e seus professores letrados, inteligentíssimos, promovendo debates vigorosos (?) sobre tantas questões (sic), a gente inverteu a tendência!, e usou deles a nosso favor. A universidade, a rede, as pessoas envolvidas, agora sim, depois de tanto debater e se indignar, vamos lutar. Assim, no clichê, no demodê anos oitenta, no sentido literal mesmo do verbo.

E fomos. Foi. Com cartazes, apitos, narizes vermelhos, mega fones, ou sem nenhuma dessas coisas, mas com  um senso de justiça, de ideal político, de vontade de gritar não por si, mas por todos, principalmente, aliás, por aqueles que não podem gritar, tão distantes que se encontram desse poder de voz e da conscientização.

Era o Fora Micarla finalmente/realmente posto em prática, acontecendo para o trânsito e a cidade (e a prefeita?) verem. Éramos tantos e iguais. Éramos dois mil sob chuva e sobre as ruas. E foi graças a eles, artifícios do comodismo, os possibilitadores da mobilização: as redes online. E, guardando o duplo sentido, as redes sociais. Venceram.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Um motorista filhodaputa.

E aqui vai um manual.

Existem muitas formas de você se tornar um motorista filhodaputa. Um dia, aliás, um turno circulando no trânsito bacana de nossa cidade, e você já compreende tudo.

Pra começar, é bom parar de respeitar as rotatórias. Nunca espere o carro que está circulando o balão, e que, você sabe, tem toda a preferência, terminar o seu trajeto. Fure a fila. Coloque o seu carro no meio da rotatória, de preferência quando o carro (com a preferência) estiver bem à sua frente.

Nunca, jamais, sob hipótese alguma, deixe alguém entrar na sua frente nas filas do trânsito, onde quer que seja: ruas, avenidas, shopping, supermercado, etc. Se o cara liga a sinaleira, VUPT!, acelere. Vá pra frente. Cole no carro da frente e não tire o pé do acelerador. Ninguém entra na sua frente. E se o bicho estiver tentando fazer um retorno, vixe, nem pense duas vezes. Acelere e cole no carro da frente também.

Quero deixar claro aqui que se o seu carro for um desses cujo valor e tamanho seja, no mínimo, quatro vezes mais que de um carro popular, isso ajuda bastante. O fato de você ter um carro bem grande, de preferência com tração nas quatro rodas, e importado, justificará suas atitudes. Também não sei por que, mas, nas ruas, é assim que funciona. Você terá mais razão, tipo isso.

Estacionar, sempre em vagas de idosos e/ou deficientes, ou ocupando duas vagas. Se você vir alguém sinalizando que vai estacionar na vaga de onde está saindo um carro, não respeite, principalmente se essa pessoa esperançosa estiver dirigindo um veículo de valor muito inferior ao seu. Ah, e se for uma mulher, também. Vá em frente. Fure.

Quando for fazer um retorno, à esquerda ou à direita, mesmo que tenha aquela baia, a que estreita o canteiro central para facilitar o seu retorno e o fluxo de carros, nunca entre nela! Deixe o seu carro na faixa da esquerda (quando o retorno for à esquerda, então, facilitará sua filhadaputice), não vire nem um pouquinho sua direção; diminua consideravelmente sua velocidade, porque, nesse momento, você não está com pressa; e, então, quando chegar no retorno, estando fora da baia, é claro, e na fila da esquerda, faça o seu movimento para a outra pista. Aqui, também, bem lentamente, e, se quiser melhorar o seu grau de filhodaputa, puxe um pouco mais o seu carro para a direita (sim, para o lado oposto ao retorno), para que atrapalhe ainda mais o trânsito e facilite (!) o seu retorno.

No meio do trânsito, quando for deixar alguma carona sua, pare repentinamente à direita (sim, aqui pode ser à direita, pela segurança do seu carona, e não porque você se importa com o trânsito), não ligue o pisque-alerta, e se despeça do sujeito ainda dentro do carro, com beijos, abraços e recomendações. Demore uns cinco minutos. Você é filhodaputa, você pode.

Eu disse que nunca permitisse alguém mudar de faixa entrando na sua frente. Sim. Mas quando você quiser mudar a faixa que está, simplesmente ligue a sinaleira e vire logo a direção. Não se importe se buzinarem ou frearem forte atrás de você, muito menos se reclamarem levantando o braço pra fora do carro e gritando palavrões. Entre. Enfie o seu carro (e aqui, mais uma vez, se ele for grande e caro facilita e justifica tudo) na frente do carro do outro, e não se importe com mais nada.

Não pare na faixa de pedestres. Aliás, pare, mas só se for em cima da faixa; nunca antes, com boa vontade, querendo que eles passem. Buzine em frente a hospitais, escolas, universidades. Dirija com farol alto na estrada, e não baixe-o quando o motorista em sentido oposto "piscar" para você, sinalizando que está difícil de enxergar.

Acho que é isso. Esqueci de algo?

P.S.: O "filhodaputa" tudo junto é por conta da reforma ortográfica, que mandou tirar os hífens. Aí achei que ficava bem unir as palavras...

domingo, 1 de maio de 2011

Quis esquecer o rosto, os olhos, o sorriso de sempre. Quis esquecer o abraço, o carinho, a gargalhada, a sintonia dos pensamentos e dos telefonemas. Quis esquecer as piadas infames, os constrangimentos engraçados, os desencontros que sempre geravam encontros, aquela mão pesada que derrubava tudo. Desastres. Quis esquecer o toc de bater o polegar na mesa enquanto não fazia nada. Enquanto pensava. Enquanto conversava algo meio desagradável. Quis esquecer o espirrar o tempo inteiro, os olhos lacrimejantes, enfim, aquelas alergias que sufocavam e deixava impossível até de conversar. Quis esquecer o gostar, tão sincero, tão simples, e tão sutil. Quis esquecer os momentos, todos eles. Quis esquecer a saudade. Quis esquecer a lembrança.

Pulou. Saltou. Caiu. Foi a coragem para esquecer.

terça-feira, 26 de abril de 2011

A frase do rei.

Ele ordenou que todos os servos selecionassem a frase para sua coroa. Teria de ser uma frase que, quando ele estivesse muito triste, pudesse olhar para ela e ficar feliz novamente; e quando ele estivesse bastante feliz, lesse-a novamente e lembrasse que não seria sempre assim, tudo tão bom.
Recolheu-se na certeza de que servo algum conseguiria esse feito. Essa frase não existe. Olhar triste e ficar feliz; olhar estando feliz e deixar de sentir a felicidade? Impossível.
E o mais leigo dos servos se aproximou e disse: "Achei a frase. Tudo passa."

Tudo passa?
Também me disseram, ene pessoas e ene vezes, que ia passar. Que tudo fica bem. Tudo acontece por um ou vários porquês, e o tempo faz a gente ficar bem de novo. O tempo faz passar.
E no conforto desse tudo-passa eu me detive. Na espera, no aguardo, na esperança, isso sim, eu abri um espaço entre as cobertas e me acomodei. E fui buscar enquanto o tudo-passa não vinha. E não veio. E a busca e a espera não têm um fim. O objetivo.

Que passa. Não passa.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Vocêtambém!

A gente se encaminhou para o estádio muitas horas antes. Pegou um certo trânsito muitas horas antes. E ainda deve ter andado pouco mais de um quilômetro, a pé, meio que em marcha atlética, porque sabe-se lá dessas filas. Isso depois de ter comprado a senha mais barata, já tão cara, no primeiro dia; há uns seis meses atrás. Chegara o dia! Era ali. Era agora. Ia ser o máximo?

Entramos no Morumbi e a estrutura do palco chegava aos cinquenta metros de altura. Uma nave espacial. Uma aranha gigante. Um troço enorme que nem importava o que ele tinha de ser. Era o palco. De onde sairia o Bono Vox, se de cima, de baixo, jogado de um helicóptero, ninguém sabia. Não dava pra acreditar no tamanho daquilo tudo.

O lugar era longe e era perto. Meu 1,61m só me permitia vê-los se pulasse bem forte; o que me dava um milésimo de segundo olhando realmente para os caras. O som era alto; as pessoas cantavam ainda mais alto; pulavam de verdade, e todo mundo sentia uma emoção que não se conta. Subir nos ombros de alguém te dava a melhor e mais emocionante das visões: aquele mar de gente vivendo a mesma experiência indescritível e inebriante.

A cada música, uma surpresa. A consciência social, a pobreza, a conscientização de que cada um, se pensando igual, pode muito, pode tudo. Um telão de 360º na melhor das definições. Mostrava a banda. Mostrava a pobreza, o desejo de paz, a importância da democracia, a homenagem à crianças inocentes, os trezentos e sessenta graus desse mundo - que éramos nós. Os isqueiros acesos. As mãos para cima. Até as lágrimas de alguns. E a risadaria que Bono provocava. "Pizza de jaca", ele falou. E "balada", pois era sábado à noite, em São Paulo.

"City of Blinding Lights" pôs luzes no céu da cidade. E depois duplicou o telão, deixando os músicos dentro de um funil, e a galera em maior êxtase, sem acreditar no que estava vendo - ninguém imaginou que tudo isso seria possível. Depois apareceu pendurado no microfone. Ele levou gente ao palco. Repetiu em português "serei feliz", e cantou Beautiful Day.

Isso tudo não está na ordem. A memória é detalhada e ao mesmo tempo difusa, confusa. Foram muitas informações, emoções, e mais coisas indescritíveis, que a impossibilidade de relatar sobre elas, com propriedade, me deixa até nervosa. Não houve cansaço nem chuva que freasse ninguém. U2 trouxe e fez o inacreditável. E ainda encheu nossas almas de alegria e de muita esperança.

Eu só espero pela próxima vez.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Divórcio

Sentada no chão, chorou com a garganta. Usou toda a força e a verdade da dor que sentia, e expulsou as lágrimas com vontade. Expôs. Jogou pra fora todo o possível. Se questionou novamente sobre o desencontro, a impossibilidade, a explicação fajuta. Por que?, não haveria de merecer, ela sabia. Se perguntou por que com ela, por que assim, e, principalmente, por que tão rápido. Ainda havia felicidade naquele caminho. (Interrompido).

Chorou mais. Pelos olhos, pela garganta, pelo peito que começava a sofrer um peso sobre ele. Pelas costas que, curvadas, fingiam anuviar tamanha dor, pois, fechada em si mesma, parecia que Alice podia se consolar. Cortou-se. Usando a mão esquerda, e nessas mesmas costas que curvadas pareciam diminuir alguma coisa, cortou-se. Quanto mais fundo e quão mais firme fosse a ferida formada, maior o alívio. A cada corte, um "por quê" a menos. A cada vez que a lâmina perpassava, uma lágrima a menos. A cada mutilação, enfim, menos de si.

Continuou expulsando toda a dor quanto fosse possível, e o fazia produzindo em si mesma mais dor. Essa metalinguagem, paradoxo, contradição, ah, o que fosse, mostrava-se o verdadeiro remédio. A panacéia. O fim em si mesmo.

Doer mais para doer menos. Arrancar, de si, seus pedaços, sua pele, e seu sangue, que eram, na verdade, a dor e o sofrer desmerecidos, e vivenciados agora escondido dos outros. Que outros, se não entendiam o que era isso; não havia outros. A cada filete de sangue, sulco, arranhão proposital, o divórcio sendo consumado. De novo: mais dor para menos dor. Em algum momento, não haveria mais a lágrima nem a saudade. Em algum momento, não haveria mais dela mesma. Divorciar-se de si.Cumpriu.

sábado, 19 de março de 2011

E mais.


Já não chorava, mas os seus olhos nunca mais voltarão a estar secos, que esse é o choro que não tem remédio, aquele lume contínuo que queima as lágrimas antes que elas possam surgir e rolar pelas faces. Disse-lhe Saramago na última página de um dos seus capítulos. E se era exatamente assim que ela estava hoje, agora, e também ontem, ao adormecer, e a cada sonho ruim que acompanhou sua insônia na madrugada. Parou de chorar. Mas não parou de doer.

À terapia então não foi. Telefonou e falou que na semana que vem apareceria. Talvez, disse para si em pensamento. Ensaiou por mais de três horas, porque disseram-lhe que ocupar o corpo ocuparia-lhe também a mente. É tudo mentira, que fique muito claro. O passo, a ponta, a expressão correta; nada saiu. Os olhos marejados e ao mesmo tempo secos e duros, as costas latejando do cansaço da dor (da dor alma) nada permitiram. O banho morno, o filme triste (porque as comédias não te deixavam melhor; essa era outra mentira que te contaram), até que trouxeram o sono tranquilo. E enquanto adormecia, embaralhando pensamentos, lembrou das páginas anteriores do mesmo lembro: a questão estaria em divorciar-me de mim, e isso não é coisa que se possa.

Poderia. Seria o próximo passo.

quarta-feira, 16 de março de 2011

(Inacabado?)

Chegou em tempo, como sempre. Alice nunca se atrasava. Chegava antes para a aula da faculdade, para o ensaio, para o encontro com as amigas, para a hora no cabeleireiro. Não adiava o despertador quando ele tocava de manhã, mesmo se a insônia a tivesse desesperado durante toda a madrugada.

Menos horas de sono a cada noite; menos disposição para ler tantos textos inúteis da faculdade (os quais ela lia todos, um por um, mais de uma vez cada, com direito a marca-texto de cores distintas para destacar o muitíssimo importante do apenas importante); para ensaiar, ouvir, e pensar. Menos disposição para organizar, doentiamente, obsessivo-compulsivamente, seus livros na estante e todos os seus objetos dentro do guarda-roupa, coisas que fazia semanalmente, crendo ser normal.

O dia seguinte era de terapia e ela já com medo de como iria ser. Saíra correndo da última sessão; dez minutos antes do fim. Desgastou-lhe a alma em menos do que seria o primeiro tempo de um jogo de futebol.

A semana passava com pensamentos tranqüilos, sonhos (Alice gostava muito de sonhar!), e com conversas superficiais que até te faziam bem. O encontro marcado com a poltrona e aquele rapaz (senhor?) é que não te faziam bem. Era quando percebia que a semana não fora tranqüila, mas conflituosa, e ela somente escondeu aquilo de si. Na verdade, os piores sentimentos e as lágrimas mais pesadas tinham te acometido naqueles dias, mas Alice não percebera: nada saíra de dentro dela mesma. E aí tudo foi vomitado de uma vez só, entre aquelas quatro paredes, sentada meio corcunda naquela cadeira, observando pelo canto do olho aquela pessoa que dizia compreendê-la em sua dor, por mais inocente que ela considerasse essa idéia.

Que se danem os insights. Ela não aguentava mais aquilo. Pedira para encerrar a sessão dez minutos antes dos já-conhecidos-cinqüenta na semana passada. Já era quinta, e talvez amanhã isso acontecesse outra vez.

Sentou-se na cama. Com a coluna ereta e as pernas enlaçadas, a trança frouxa, e escreveu seis páginas dum caderno com frases de bons presságios. Rezou não sabe para quê. Pediu sonhos bons. Agradeceu por tudo o que tinha - sem esquecer de nada, segundo ela. Camuflou seu pijama cor de rosa no edredon de mesma cor, deixou rolar uma lágrima e, diz ela, dormiu.

segunda-feira, 14 de março de 2011

(Parte um?)

Nesse dia correu para a estante do quarto e fuçou na revista o horóscopo da semana. Da quinzena. Do mês. Qualquer coisa. Procurava uma notícia boa, uma previsão que lhe desse esperanças de um dia mais parecido com o que vinha desejando para si. Nada muito claro escrito ali. Qualquer coisa como conhecer-se-melhor-por-dentro-e-refletir-sobre-as-pessoas-ao-redor-para-ser-feliz. Algo bom estava por vir? Nada bom estava por vir?

Não aguentava mais. Já se passaram meses, e Alice continuava naquele esforço eterno de sorrisos não amarelados, de abraços apertados que fossem sinceros, e que disfarçassem o pedido de ser abraçada mais forte. Um sufoco todas as noites. A dor no coração, que era real. Digo em todos os sentidos. Real, literal. Sufocando-a de verdade, a cada choro, a cada lágrima, que ela aprendeu a controlar em público. Já não era sem tempo.

Seis meses quase. Um segredo ela começara a guardar, então. Além desse, outros como os livros de auto-ajuda que vinha lendo. Agora eram uma constante. Sua melhor amiga te disse: se não te atrapalha, se não piora, então lê. E além de lê-los, escrevia sem parar uma espécie de auto-auto-ajuda. As palavras positivas, que não vinham de dentro, mas de fora e bem de longe, mas que, sei lá, podia te dar um pouco mais de esperança. Dias melhores viriam. Alice tinha certeza disso.

Procurou pelas sapatilhas, prendeu o cabelo. Quinze minutos para a aula de balé.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Que cesse.

Cansou. Cansou o fracasso, a dor da derrota, do esforço em vão. Cansou a promessa de que iria passar. Cansou a pergunta, o por quê, e pra quê. Já deu. Cansou da saudade. Cansaram as promessas. Os odores, os olhares, as conversas. E mais esforço em vão. O livro de auto-ajuda, a terapia, o pensar diferente. Cansou da idéia. Cansou a lembrança. Cansou a dor, o sofrer, o dormir com dó. De que? Por que?

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Mês dois.

Eu gosto de fevereiro. Ele tem uma aura diferente, uma energia maior, um clima de recomeço... Vocês não acham, não? As pessoas voltaram a trabalhar, as aulas recomeçaram, os bares estão vazios nas terças, quartas, e semi-cheios nas quintas-feiras. Tem mais gente caminhando na rua, correndo na Afonso Pena por volta das sete da noite. Há mais conversas nos cafés. Não muitos paletós e gravatas, porque, afinal, é Natal, mas há mais camisas de botão e sapatos sociais andando por aí, no lugar das bermudas e chinelos do mês passado.

A cidade está respirando de novo. O trânsito aumentou, que delícia, mas pelo menos há mais movimento numa segunda à noite, por exemplo. Pra mim, há uma energia própria desse mês circulando, sim. O ano começou. Quem se garante, não espera o Carnaval, e na primeira semana de fevereiro já ligou suas baterias. Quem começou antes, me desculpe, não se garante, porque se fez isso nem brasileiro é.

Meu estômago manifestou uma vontade de dar largada a 2011, então. Perguntou pelas aulas à uma da tarde, pelos intervalos de 15 minutos que sempre duravam 30 por causa do cansaço que já se pronunciava, pelo café matutino, vespertino, noturno, e pela jarra de café da madrugada. Cadê os pacientes, os questionários, as xerox empilhadas que nunca serão lidas nem em sua metade? Os quatro horários seguidos de uma aula interminável, os dois últimos horários da tarde ainda mais intermináveis e cansativos. O relatório pro mês que vem, o estudo de caso inventado pra depois de amanhã. E a prova em dupla e com consulta que, absolutamente, não será fácil. Bateu a fome. Bateu a vontade.

É fevereiro. Eu tô querendo tudo isso e muito mais.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Ei.

Pare de pensar. E vá viver. Pare de refletir sobre tanta coisa. De imaginar como seria se tivesse sido, como seria se não tivesse sido, ou como não seria se tivesse sido. Pare de achar que é tudo tão determinante assim. Que a causa e a consequência estão aí como grandes irmãs. Elas nem existem na vida real!, esqueceram de te contar. E de contar a mim também. Eu que só percebi ante-ontem.

Deixe de devaneios. Sempre. Deixe de "e se", e de danar a palma da mão na testa pra demonstrar e mostrar a si mesmo algum arrependimento. Deixe de lado as decisões demoradas, que são justamente aquelas que começam com essa expressão de condição. Esqueça.

Esqueça a idéia. Esqueça os porquês, os poréns e os talvez. Esqueça de pensar as palavras. Fale-as. Viva-as. E tu tens só o dia de hoje para tanto.

(...)