sábado, 19 de março de 2011

E mais.


Já não chorava, mas os seus olhos nunca mais voltarão a estar secos, que esse é o choro que não tem remédio, aquele lume contínuo que queima as lágrimas antes que elas possam surgir e rolar pelas faces. Disse-lhe Saramago na última página de um dos seus capítulos. E se era exatamente assim que ela estava hoje, agora, e também ontem, ao adormecer, e a cada sonho ruim que acompanhou sua insônia na madrugada. Parou de chorar. Mas não parou de doer.

À terapia então não foi. Telefonou e falou que na semana que vem apareceria. Talvez, disse para si em pensamento. Ensaiou por mais de três horas, porque disseram-lhe que ocupar o corpo ocuparia-lhe também a mente. É tudo mentira, que fique muito claro. O passo, a ponta, a expressão correta; nada saiu. Os olhos marejados e ao mesmo tempo secos e duros, as costas latejando do cansaço da dor (da dor alma) nada permitiram. O banho morno, o filme triste (porque as comédias não te deixavam melhor; essa era outra mentira que te contaram), até que trouxeram o sono tranquilo. E enquanto adormecia, embaralhando pensamentos, lembrou das páginas anteriores do mesmo lembro: a questão estaria em divorciar-me de mim, e isso não é coisa que se possa.

Poderia. Seria o próximo passo.

quarta-feira, 16 de março de 2011

(Inacabado?)

Chegou em tempo, como sempre. Alice nunca se atrasava. Chegava antes para a aula da faculdade, para o ensaio, para o encontro com as amigas, para a hora no cabeleireiro. Não adiava o despertador quando ele tocava de manhã, mesmo se a insônia a tivesse desesperado durante toda a madrugada.

Menos horas de sono a cada noite; menos disposição para ler tantos textos inúteis da faculdade (os quais ela lia todos, um por um, mais de uma vez cada, com direito a marca-texto de cores distintas para destacar o muitíssimo importante do apenas importante); para ensaiar, ouvir, e pensar. Menos disposição para organizar, doentiamente, obsessivo-compulsivamente, seus livros na estante e todos os seus objetos dentro do guarda-roupa, coisas que fazia semanalmente, crendo ser normal.

O dia seguinte era de terapia e ela já com medo de como iria ser. Saíra correndo da última sessão; dez minutos antes do fim. Desgastou-lhe a alma em menos do que seria o primeiro tempo de um jogo de futebol.

A semana passava com pensamentos tranqüilos, sonhos (Alice gostava muito de sonhar!), e com conversas superficiais que até te faziam bem. O encontro marcado com a poltrona e aquele rapaz (senhor?) é que não te faziam bem. Era quando percebia que a semana não fora tranqüila, mas conflituosa, e ela somente escondeu aquilo de si. Na verdade, os piores sentimentos e as lágrimas mais pesadas tinham te acometido naqueles dias, mas Alice não percebera: nada saíra de dentro dela mesma. E aí tudo foi vomitado de uma vez só, entre aquelas quatro paredes, sentada meio corcunda naquela cadeira, observando pelo canto do olho aquela pessoa que dizia compreendê-la em sua dor, por mais inocente que ela considerasse essa idéia.

Que se danem os insights. Ela não aguentava mais aquilo. Pedira para encerrar a sessão dez minutos antes dos já-conhecidos-cinqüenta na semana passada. Já era quinta, e talvez amanhã isso acontecesse outra vez.

Sentou-se na cama. Com a coluna ereta e as pernas enlaçadas, a trança frouxa, e escreveu seis páginas dum caderno com frases de bons presságios. Rezou não sabe para quê. Pediu sonhos bons. Agradeceu por tudo o que tinha - sem esquecer de nada, segundo ela. Camuflou seu pijama cor de rosa no edredon de mesma cor, deixou rolar uma lágrima e, diz ela, dormiu.

segunda-feira, 14 de março de 2011

(Parte um?)

Nesse dia correu para a estante do quarto e fuçou na revista o horóscopo da semana. Da quinzena. Do mês. Qualquer coisa. Procurava uma notícia boa, uma previsão que lhe desse esperanças de um dia mais parecido com o que vinha desejando para si. Nada muito claro escrito ali. Qualquer coisa como conhecer-se-melhor-por-dentro-e-refletir-sobre-as-pessoas-ao-redor-para-ser-feliz. Algo bom estava por vir? Nada bom estava por vir?

Não aguentava mais. Já se passaram meses, e Alice continuava naquele esforço eterno de sorrisos não amarelados, de abraços apertados que fossem sinceros, e que disfarçassem o pedido de ser abraçada mais forte. Um sufoco todas as noites. A dor no coração, que era real. Digo em todos os sentidos. Real, literal. Sufocando-a de verdade, a cada choro, a cada lágrima, que ela aprendeu a controlar em público. Já não era sem tempo.

Seis meses quase. Um segredo ela começara a guardar, então. Além desse, outros como os livros de auto-ajuda que vinha lendo. Agora eram uma constante. Sua melhor amiga te disse: se não te atrapalha, se não piora, então lê. E além de lê-los, escrevia sem parar uma espécie de auto-auto-ajuda. As palavras positivas, que não vinham de dentro, mas de fora e bem de longe, mas que, sei lá, podia te dar um pouco mais de esperança. Dias melhores viriam. Alice tinha certeza disso.

Procurou pelas sapatilhas, prendeu o cabelo. Quinze minutos para a aula de balé.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Que cesse.

Cansou. Cansou o fracasso, a dor da derrota, do esforço em vão. Cansou a promessa de que iria passar. Cansou a pergunta, o por quê, e pra quê. Já deu. Cansou da saudade. Cansaram as promessas. Os odores, os olhares, as conversas. E mais esforço em vão. O livro de auto-ajuda, a terapia, o pensar diferente. Cansou da idéia. Cansou a lembrança. Cansou a dor, o sofrer, o dormir com dó. De que? Por que?