quarta-feira, 16 de março de 2011

(Inacabado?)

Chegou em tempo, como sempre. Alice nunca se atrasava. Chegava antes para a aula da faculdade, para o ensaio, para o encontro com as amigas, para a hora no cabeleireiro. Não adiava o despertador quando ele tocava de manhã, mesmo se a insônia a tivesse desesperado durante toda a madrugada.

Menos horas de sono a cada noite; menos disposição para ler tantos textos inúteis da faculdade (os quais ela lia todos, um por um, mais de uma vez cada, com direito a marca-texto de cores distintas para destacar o muitíssimo importante do apenas importante); para ensaiar, ouvir, e pensar. Menos disposição para organizar, doentiamente, obsessivo-compulsivamente, seus livros na estante e todos os seus objetos dentro do guarda-roupa, coisas que fazia semanalmente, crendo ser normal.

O dia seguinte era de terapia e ela já com medo de como iria ser. Saíra correndo da última sessão; dez minutos antes do fim. Desgastou-lhe a alma em menos do que seria o primeiro tempo de um jogo de futebol.

A semana passava com pensamentos tranqüilos, sonhos (Alice gostava muito de sonhar!), e com conversas superficiais que até te faziam bem. O encontro marcado com a poltrona e aquele rapaz (senhor?) é que não te faziam bem. Era quando percebia que a semana não fora tranqüila, mas conflituosa, e ela somente escondeu aquilo de si. Na verdade, os piores sentimentos e as lágrimas mais pesadas tinham te acometido naqueles dias, mas Alice não percebera: nada saíra de dentro dela mesma. E aí tudo foi vomitado de uma vez só, entre aquelas quatro paredes, sentada meio corcunda naquela cadeira, observando pelo canto do olho aquela pessoa que dizia compreendê-la em sua dor, por mais inocente que ela considerasse essa idéia.

Que se danem os insights. Ela não aguentava mais aquilo. Pedira para encerrar a sessão dez minutos antes dos já-conhecidos-cinqüenta na semana passada. Já era quinta, e talvez amanhã isso acontecesse outra vez.

Sentou-se na cama. Com a coluna ereta e as pernas enlaçadas, a trança frouxa, e escreveu seis páginas dum caderno com frases de bons presságios. Rezou não sabe para quê. Pediu sonhos bons. Agradeceu por tudo o que tinha - sem esquecer de nada, segundo ela. Camuflou seu pijama cor de rosa no edredon de mesma cor, deixou rolar uma lágrima e, diz ela, dormiu.

Um comentário:

vanessa disse...

certamente inacabado.