terça-feira, 26 de abril de 2011

A frase do rei.

Ele ordenou que todos os servos selecionassem a frase para sua coroa. Teria de ser uma frase que, quando ele estivesse muito triste, pudesse olhar para ela e ficar feliz novamente; e quando ele estivesse bastante feliz, lesse-a novamente e lembrasse que não seria sempre assim, tudo tão bom.
Recolheu-se na certeza de que servo algum conseguiria esse feito. Essa frase não existe. Olhar triste e ficar feliz; olhar estando feliz e deixar de sentir a felicidade? Impossível.
E o mais leigo dos servos se aproximou e disse: "Achei a frase. Tudo passa."

Tudo passa?
Também me disseram, ene pessoas e ene vezes, que ia passar. Que tudo fica bem. Tudo acontece por um ou vários porquês, e o tempo faz a gente ficar bem de novo. O tempo faz passar.
E no conforto desse tudo-passa eu me detive. Na espera, no aguardo, na esperança, isso sim, eu abri um espaço entre as cobertas e me acomodei. E fui buscar enquanto o tudo-passa não vinha. E não veio. E a busca e a espera não têm um fim. O objetivo.

Que passa. Não passa.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Vocêtambém!

A gente se encaminhou para o estádio muitas horas antes. Pegou um certo trânsito muitas horas antes. E ainda deve ter andado pouco mais de um quilômetro, a pé, meio que em marcha atlética, porque sabe-se lá dessas filas. Isso depois de ter comprado a senha mais barata, já tão cara, no primeiro dia; há uns seis meses atrás. Chegara o dia! Era ali. Era agora. Ia ser o máximo?

Entramos no Morumbi e a estrutura do palco chegava aos cinquenta metros de altura. Uma nave espacial. Uma aranha gigante. Um troço enorme que nem importava o que ele tinha de ser. Era o palco. De onde sairia o Bono Vox, se de cima, de baixo, jogado de um helicóptero, ninguém sabia. Não dava pra acreditar no tamanho daquilo tudo.

O lugar era longe e era perto. Meu 1,61m só me permitia vê-los se pulasse bem forte; o que me dava um milésimo de segundo olhando realmente para os caras. O som era alto; as pessoas cantavam ainda mais alto; pulavam de verdade, e todo mundo sentia uma emoção que não se conta. Subir nos ombros de alguém te dava a melhor e mais emocionante das visões: aquele mar de gente vivendo a mesma experiência indescritível e inebriante.

A cada música, uma surpresa. A consciência social, a pobreza, a conscientização de que cada um, se pensando igual, pode muito, pode tudo. Um telão de 360º na melhor das definições. Mostrava a banda. Mostrava a pobreza, o desejo de paz, a importância da democracia, a homenagem à crianças inocentes, os trezentos e sessenta graus desse mundo - que éramos nós. Os isqueiros acesos. As mãos para cima. Até as lágrimas de alguns. E a risadaria que Bono provocava. "Pizza de jaca", ele falou. E "balada", pois era sábado à noite, em São Paulo.

"City of Blinding Lights" pôs luzes no céu da cidade. E depois duplicou o telão, deixando os músicos dentro de um funil, e a galera em maior êxtase, sem acreditar no que estava vendo - ninguém imaginou que tudo isso seria possível. Depois apareceu pendurado no microfone. Ele levou gente ao palco. Repetiu em português "serei feliz", e cantou Beautiful Day.

Isso tudo não está na ordem. A memória é detalhada e ao mesmo tempo difusa, confusa. Foram muitas informações, emoções, e mais coisas indescritíveis, que a impossibilidade de relatar sobre elas, com propriedade, me deixa até nervosa. Não houve cansaço nem chuva que freasse ninguém. U2 trouxe e fez o inacreditável. E ainda encheu nossas almas de alegria e de muita esperança.

Eu só espero pela próxima vez.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Divórcio

Sentada no chão, chorou com a garganta. Usou toda a força e a verdade da dor que sentia, e expulsou as lágrimas com vontade. Expôs. Jogou pra fora todo o possível. Se questionou novamente sobre o desencontro, a impossibilidade, a explicação fajuta. Por que?, não haveria de merecer, ela sabia. Se perguntou por que com ela, por que assim, e, principalmente, por que tão rápido. Ainda havia felicidade naquele caminho. (Interrompido).

Chorou mais. Pelos olhos, pela garganta, pelo peito que começava a sofrer um peso sobre ele. Pelas costas que, curvadas, fingiam anuviar tamanha dor, pois, fechada em si mesma, parecia que Alice podia se consolar. Cortou-se. Usando a mão esquerda, e nessas mesmas costas que curvadas pareciam diminuir alguma coisa, cortou-se. Quanto mais fundo e quão mais firme fosse a ferida formada, maior o alívio. A cada corte, um "por quê" a menos. A cada vez que a lâmina perpassava, uma lágrima a menos. A cada mutilação, enfim, menos de si.

Continuou expulsando toda a dor quanto fosse possível, e o fazia produzindo em si mesma mais dor. Essa metalinguagem, paradoxo, contradição, ah, o que fosse, mostrava-se o verdadeiro remédio. A panacéia. O fim em si mesmo.

Doer mais para doer menos. Arrancar, de si, seus pedaços, sua pele, e seu sangue, que eram, na verdade, a dor e o sofrer desmerecidos, e vivenciados agora escondido dos outros. Que outros, se não entendiam o que era isso; não havia outros. A cada filete de sangue, sulco, arranhão proposital, o divórcio sendo consumado. De novo: mais dor para menos dor. Em algum momento, não haveria mais a lágrima nem a saudade. Em algum momento, não haveria mais dela mesma. Divorciar-se de si.Cumpriu.