quarta-feira, 6 de abril de 2011

Divórcio

Sentada no chão, chorou com a garganta. Usou toda a força e a verdade da dor que sentia, e expulsou as lágrimas com vontade. Expôs. Jogou pra fora todo o possível. Se questionou novamente sobre o desencontro, a impossibilidade, a explicação fajuta. Por que?, não haveria de merecer, ela sabia. Se perguntou por que com ela, por que assim, e, principalmente, por que tão rápido. Ainda havia felicidade naquele caminho. (Interrompido).

Chorou mais. Pelos olhos, pela garganta, pelo peito que começava a sofrer um peso sobre ele. Pelas costas que, curvadas, fingiam anuviar tamanha dor, pois, fechada em si mesma, parecia que Alice podia se consolar. Cortou-se. Usando a mão esquerda, e nessas mesmas costas que curvadas pareciam diminuir alguma coisa, cortou-se. Quanto mais fundo e quão mais firme fosse a ferida formada, maior o alívio. A cada corte, um "por quê" a menos. A cada vez que a lâmina perpassava, uma lágrima a menos. A cada mutilação, enfim, menos de si.

Continuou expulsando toda a dor quanto fosse possível, e o fazia produzindo em si mesma mais dor. Essa metalinguagem, paradoxo, contradição, ah, o que fosse, mostrava-se o verdadeiro remédio. A panacéia. O fim em si mesmo.

Doer mais para doer menos. Arrancar, de si, seus pedaços, sua pele, e seu sangue, que eram, na verdade, a dor e o sofrer desmerecidos, e vivenciados agora escondido dos outros. Que outros, se não entendiam o que era isso; não havia outros. A cada filete de sangue, sulco, arranhão proposital, o divórcio sendo consumado. De novo: mais dor para menos dor. Em algum momento, não haveria mais a lágrima nem a saudade. Em algum momento, não haveria mais dela mesma. Divorciar-se de si.Cumpriu.

2 comentários:

Kursch disse...

Muito triste esses posts, seja mais alegre.

André Palhano disse...

Poxa, Bia... Espero que você não esteja se sentindo assim de verdade. Saiba que pode contar com seus amigos, ok?