quinta-feira, 26 de maio de 2011

Redes sociais sociais.

Eu cresci sentindo um pouco de inveja dos caras pintadas da década retrasada. Achei que nunca ia fazer nada parecido na vida; achei inclusive que nunca conseguiria ter ideologia suficiente para gritar por algo que não fosse somente meu, mas de todo mundo. O egoísmo e a vida superficial que a gente acaba levando, por levar, meio sem escolher deliberadamente esse caminho, eu pensei que eram coisas que já haviam me afetado.

Achei que nunca iria para as ruas gritar por nada. E depois comecei a ter certeza. Quando vi os preços sempre subirem e nunca o contrário; quando vi os impostos cada dia mais altos e com menos retorno; quando vi os melhores políticos mostrando-se na verdade como os piores possíveis... Quando vi tudo isso e olhei para mim, no sofá, assistindo ao jornal e me indignando, né, dizendo "que absurdo!", e no dia seguinte comentando no colégio e depois na faculdade, sempre acompanhada dessa interjeição, cheia de classe e travestida de conscientização política.

Pior, ainda, eram as notícias ruins se multiplicando e eu nem no sofá mais estava. Mas sim enfiada em uma biblioteca lendo artigos científicos sobre qualquer-coisa-exceto-nosso-comprometimento-político-e-social, lendo literatura (da boa e da ruim) deitada numa rede, ou tomando cerveja, que seja. Não, que idiota.

E até que os meus olhos voltaram-se novamente para isso. Fazia sentido de novo. Fazia mais sentido, aliás. Apesar do comodismo em ler e ouvir as más (péssimas) notícias, em sentir-se um perfeito otário, do tipo corno, e depois discutir as más notícias sentados nas (não muito) confortáveis cadeiras da universidade, sob ar condicionado e com cafezinho, isso já emoldurava um real sentido e ideologia. Pouco, mas pelo menos o "absurdo!" diminuiu um pouco sua freqüência. Quando a discussão ia para outro não lugar, o da internet, já fazia algum sentido também. Mas vá lá, vamos discutir, dizer que estamos putos, fazia piadas e sarcasmos, rir de nossa desgraça, gritar muitas vezes "que absurdo!" (aqui a freqüência retorna um pouco), tentar fazer algo lá pelos meados de outubro, nas urnas, e sentir-se cidadãos por isso. Não digo que todos são assim. Mas eu, sim. E outros montes também, sabemos.

Havia momentos do "quase": a raiva profunda, a revolta, a vontade de fazer muito... Mas a gente continuava, então, discutindo, inflamando, pensando, diagnosticando situações. Uns poucos corajosos de arriscavam, mas eu, e tantos outros, acamados na pior doença dos nossos dias: o comodismo.

E quando achei que os artifícios que essa doença usa para nos atingir, sejam eles a internet e suas redes sociais, a universidade e seus professores letrados, inteligentíssimos, promovendo debates vigorosos (?) sobre tantas questões (sic), a gente inverteu a tendência!, e usou deles a nosso favor. A universidade, a rede, as pessoas envolvidas, agora sim, depois de tanto debater e se indignar, vamos lutar. Assim, no clichê, no demodê anos oitenta, no sentido literal mesmo do verbo.

E fomos. Foi. Com cartazes, apitos, narizes vermelhos, mega fones, ou sem nenhuma dessas coisas, mas com  um senso de justiça, de ideal político, de vontade de gritar não por si, mas por todos, principalmente, aliás, por aqueles que não podem gritar, tão distantes que se encontram desse poder de voz e da conscientização.

Era o Fora Micarla finalmente/realmente posto em prática, acontecendo para o trânsito e a cidade (e a prefeita?) verem. Éramos tantos e iguais. Éramos dois mil sob chuva e sobre as ruas. E foi graças a eles, artifícios do comodismo, os possibilitadores da mobilização: as redes online. E, guardando o duplo sentido, as redes sociais. Venceram.

2 comentários:

Kursch disse...

Bacana. Fotos? Vídeos? Ilustre seu post.

Você acha que ser chamado de Brasileiro é um xingamento?

Clarisse disse...

eu também não acreditava em todo o poder do povo dessa cidade até vê para crer, muito bom!! vamos continuar!

PS: Júlio não tem jeito.