quarta-feira, 20 de julho de 2011

No dia deles.

É que nessa hora eu escuto e vejo Chico ao vivo, como resultado até pouco tão impossível, que agora então só acontece por conta dessa tal de internet, dos nossos dias, desses dias, coisas que não compartilhávamos (eu e você) há uns 10 ou 15 anos atrás, e me lembro de ti. Tu ainda queres casar com ele? Acho graça. Essa semana ouvi diversas vezes a sua preferida, aquele onde ele fala de tristeza, lágrimas e sofrer, e que tu adora; apesar da letra, que não é compatível a sua alegria e vontade intensa de ser feliz (sendo), é a que tu mais gosta. É a dele mais bonita mesmo.

E daí eu lembrei também dessa sua mania de me apresentar músicas novas e antigas - aquelas dos tempos dos nossos pais; recitando as letras, cantando em tom maior, como diria ele!, me fazendo pensar sobre aquilo que me dizes. Tu sempre querendo me ensinar a viver de um jeito melhor, um assim, parecido com o seu.

E você e seu celular sempre a postos. Te ligo (e te acordo) na madrugada, ou, mais possivelmente acordo-o se de manhã for. Eu quero agradecer por todas as horas que esse outro advento moderno, o celular, junto com os pacotes infinitos da minha operadora, nos proporcionou. Eu ainda não acredito que consigamos duas horas e meia, com orelhas ardendo, fazer parecer 15 minutos. E falta mais história. E falta mais conselho. Me diga aí sua opinião, mas não diga toda, se for me doer. Perdoe minha fraqueza.

Tu. Vou te ligar logo mais pra gente dar umas quatro gargalhadas - em três minutos. Vou aí te ver e te abraçar, assistir um filme, que é o que tu mais gosta de fazer na vida, minto, retiro, uma das coisas que você mais gosta de fazer na vida, e vamos filosofar a vã filosofia sobre isso que a gente tem: nossa história. Tu me fazes rir de mim mesma toda vez. E só me deixa chorar até um pouco, porque não aguenta e logo me abraça. Eu te agradeço por não me aguentar sofrendo assim pertinho, nem mesmo longe, se milhares de quilômetros estiverem nos separando. A recíproca é toda verdadeira.

O fim de semana será nosso outra vez. A sexta, especialmente. Pode até faltar dinheiro, mas não vai faltar a cerveja. Não vai faltar história repetida, contadas de outro modo a cada vez, por cada um de nós, que somos um grupo grande e que temos opiniões tão diferentes sobre tudo e todo mundo! E eu vou fingir mal humor das pessoas lugar-comum que passaram e continuam passando em nossas vidas; vou dizer que tenho preguiça delas, a gente vai rir, tomar mais cerveja, brindar, e lembrar de mais uma história do século passado.

Eu recebo uma mensagem sua e sorrio. Passo um café e lembro de você. Podia te ligar, fazer o convite, mas na verdade eu ando ocupada com esse computador minúsculo na minha frente exigindo trabalho, e você passando horas na frente de outro computador, papéis, documentos e um relógio que tique-taca devagar - porque tu queres mesmo é vir tomar esse café. Sinto sua falta. Todos os dias. Se eu ligar, será que você vem?

E na próxima semana, minto, daqui para o fim do ano, vamos na agência organizar logo essa viagem. Que não sei se será de férias, de compras (puf), ou de estudos (pufff), mas que há tanto tempo a gente planeja (somente em nossas cabeças ocas, sem muito mérito nem sobre os países que queremos visitar). Realmente, dentre esses propósitos aí, não sei qual será o da nossa viagem, mas escolho outro: celebrar que somos amigos, que precisamos um do outro, e que não comunicamos nem assumimos isso conscientemente porque não faz sentido. Não é preciso. Aqui estamos, há tempo tempo, e/ou com tantas histórias e abraços, prontos para vários Nossos Dias.

O café tá pronto.

~

Esse texto eu tentei escrever com bastante esmero e cuidado, coisa que nunca faço, porque coloquei não um, mas vários (senão todos) dos meus amigos nas linhas e entrelinhas dele. Alguns talvez se identifiquem com parágrafos específicos. Outros, com o texto inteiro.

Feliz Dia do Amigo. Por mais boba que a invenção desse dia pareça, nele, nós temos muito o que comemorar.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Um estudante de Psicologia

Existem algumas pistas para se reconhecer um estudante de Psicologia, antes mesmo de você perguntar o que a pessoa faz da vida e dela dizer "Psicologia" com um sorriso no rosto (porque a maioria dos estudantes de Psicologia acham o máximo fazer e dizer que fazem Psicologia), e de você imaginar coisas trágicas, cômicas e improváveis sobre ela. Eu imagino que no imaginário (!) das pessoas, ao ouvir a declaração de que seu interlocutor faz Psicologia, perpassam coisas absurdas, sinistras, e, apenas eventualmente, positivas. Foi o que eu consegui decifrar a partir das expressões faciais que já vi. ("Eita, ele está me analisando!"; "nossa, ele entende tudo sobre pessoas"(?!); "ele entende muito de comportamento humano"; "vou agradá-lo, não sei o que pode acontecer comigo - que tipo de coisas ele pode dizer sobre mim, analisando-me e entendendo tanto de pessoas e de comportamento - caso não o faça!". Vai nessa ordem?)

Um estudante de Psicologia sempre refere a toda e qualquer coisa desse mundo (pessoas, fatos, livros, filmes, festas, idéias) usando o termo "a questão". É bem verdade que isso é mais evidente em sala de aula, mas você pode pescar isso no discurso dele além da academia.

Para começar uma frase, é normal que assim seja: "A questão que eu acho é que...". Ele não diz, jamais, "fato é que" ou "a minha opinião sobre isso". A frase sempre começa por uma "questão". Para referir-se à greve dos professores: "a questão da greve é que ela..." e então fala algo que não seja realmente sobre a questão, motivo, da greve, mas faz mesmo qualquer comentário aleatório sobre a mesma. Acerca da gestão da prefeita: "a questão da gestão de Micarla é que ela realmente não supre as necessidades...". E quanto aos temas da psicologia: "a questão da hospitalização"; "a questão da temática saúde-doença"; "a questão do contexto social (!!!)"... Enfim. O termo "a questão" é sempre colocado no início, meio e fim de uma frase, mas sempre enquanto termo acessório. Se você tirá-lo do discurso, não se perde nenhuma idéia. É possível entender o que o tal estudante fala sem todas as "questões" que ele elenca, até porque, ele não elenca questão nenhuma, mas se refere a fatos, idéias, pessoas, livros, filmes, etc. E tirando a "questão" do discurso desses sujeitos, perdemos umas 500 palavras do seu discurso vespertino (considerando apenas um estudante, veja bem).

"Contexto" é outra máxima. Acho que essa é a palavra que vem em segundo lugar na freqüência. E o "contexto" não precisa ser explicitado, descrito, identificado nem ter sua relevância justificada. O estudante de psicologia sempre refere-se sempre ao "contexto" das coisas - de todas elas: pessoas, fatos, filmes, idéias... Mas é mais pelo hábito.

Todo estudante de psicologia refere-se às boas experiências acadêmicas usando a expressão "muito rico". Não existe possibilidade de dizer somente que foi interessante, que valeu à pena, que atendeu ou superou as expectativas. Eles sempre começam contando uma experiência de estágio, disciplina, ida à campo ou até mesmo seminário com um "foi muito rico".

Quando você contar um episódio qualquer sobre qualquer (!) criança, ele sempre solta: "Hm, qual a idade dela?". A pessoa responde sem dar a mínima, continua a história engraçada, envolvente, curiosa ou preocupante (e é mais comum que, para um estudante de Psicologia, se já souber que ele o é, conte porque a história é curiosa ou preocupante), atinge um ápice, o sujeito (eita, outra máxima!, me entreguei) dá suas opiniões, repete o que acha mais curioso, engraçado, importante ou de se preocupar, mas enquanto isso o danado do estudante tá tentando reviver suas aulas de Desenvolvimento Humano para ver se encaixa o que a pessoa diz na idade que a criança tem; se as práticas parentais, a escolarização precoce ou tardia, o CONTEXTO, e a QUESTÃO da personalidade da criança (olha aí!) podem estar implicadas como alguma coisa. Mas não consegue ter certeza se acessou a aula certa (isso acontece na segunda ou terceira infância? Quem diz isso é Piaget ou Vygotsky? De quem eu gosto mais, de Piaget ou Vygostsky?), não conseguiu prestar a atenção devida enquanto rememorava as falas da professora, os slides e os capítulos do livro, e não tem segurança se fez a conexão correta. Mas, ainda assim, é provável que ele não tenha a resposta, mesmo que tenha conseguido acessar a aula correta, saiba se gosta mais de Piaget ou de Vygotsky, e tenha prestado a atenção devida porque fez suas conexões teoria-e-prática muito rapidamente. Mas aí ele vai dizer: depende.

Na Psicologia, para estudante de psicologia, para o psicólogo, enfim, tudo depende. Por segurança, não vou te dizer que seu filho tem desenhos de criança psicótica, é burro, ou sofre de fobia social, por mais que eu tenha os indícios. Vou dizer que "depende", porque não se pode ter certeza somente com sua mãe me contanto alguns episódios. Também não vou dizer que a culpa é dela, da mãe da criança, que está errando nas suas práticas parentais (!), porque, além de não ser simpático à Psicanálise, também "depende". Afinal, qual o contexto dessa mãe, dessa criação, dessa dinâmica familiar (outra máxima!)? Não vou dizer que seu problema é TOC. Depende. Preciso analisar mais a fundo. E, nesse caso, se eu tiver paciência, talvez possa dizer: "fale mais sobre isso", e ainda assim não garanto dar-lhe nenhum diagnóstico. Meus professores não me aconselham fazê-lo. Mas uma "escuta", uma "suspensão fenomenológica" para tentar compreender melhor essa "pessoa em sofrimento" está valendo! Vou continuar a dizer "depende", para tudo que você me diga ou pergunte. No máximo, vou te aconselhar procurar alguma ajuda. E termina aí a intervenção (apesar de o maldito estudante já ter imaginado as melhores e mais utópicas intervenções psicológicas para a pessoa da história que lhe contam).

É provável também que você identifique essa raça vendo pessoas que são extremamente solícitas às crianças, que olham demais para as pessoas à sua volta, que escutam mais do que falam, e que são os ouvidos que os amigos buscam - sempre. Mas essas são coisas mais difíceis de identificar, e menos evidentes, como aquela roupa arrumada que nunca se sabe se é pelo hábito, ou se é uma fantasia que o estudante coloca em dia de triagem ou atendimento.

P.S.: Só para deixar claro: nós NÃO estamos sempre analisando as pessoas. Aliás, nós pouco fazemos isso deliberadamente e de graça. Obrigada.