sexta-feira, 15 de julho de 2011

Um estudante de Psicologia

Existem algumas pistas para se reconhecer um estudante de Psicologia, antes mesmo de você perguntar o que a pessoa faz da vida e dela dizer "Psicologia" com um sorriso no rosto (porque a maioria dos estudantes de Psicologia acham o máximo fazer e dizer que fazem Psicologia), e de você imaginar coisas trágicas, cômicas e improváveis sobre ela. Eu imagino que no imaginário (!) das pessoas, ao ouvir a declaração de que seu interlocutor faz Psicologia, perpassam coisas absurdas, sinistras, e, apenas eventualmente, positivas. Foi o que eu consegui decifrar a partir das expressões faciais que já vi. ("Eita, ele está me analisando!"; "nossa, ele entende tudo sobre pessoas"(?!); "ele entende muito de comportamento humano"; "vou agradá-lo, não sei o que pode acontecer comigo - que tipo de coisas ele pode dizer sobre mim, analisando-me e entendendo tanto de pessoas e de comportamento - caso não o faça!". Vai nessa ordem?)

Um estudante de Psicologia sempre refere a toda e qualquer coisa desse mundo (pessoas, fatos, livros, filmes, festas, idéias) usando o termo "a questão". É bem verdade que isso é mais evidente em sala de aula, mas você pode pescar isso no discurso dele além da academia.

Para começar uma frase, é normal que assim seja: "A questão que eu acho é que...". Ele não diz, jamais, "fato é que" ou "a minha opinião sobre isso". A frase sempre começa por uma "questão". Para referir-se à greve dos professores: "a questão da greve é que ela..." e então fala algo que não seja realmente sobre a questão, motivo, da greve, mas faz mesmo qualquer comentário aleatório sobre a mesma. Acerca da gestão da prefeita: "a questão da gestão de Micarla é que ela realmente não supre as necessidades...". E quanto aos temas da psicologia: "a questão da hospitalização"; "a questão da temática saúde-doença"; "a questão do contexto social (!!!)"... Enfim. O termo "a questão" é sempre colocado no início, meio e fim de uma frase, mas sempre enquanto termo acessório. Se você tirá-lo do discurso, não se perde nenhuma idéia. É possível entender o que o tal estudante fala sem todas as "questões" que ele elenca, até porque, ele não elenca questão nenhuma, mas se refere a fatos, idéias, pessoas, livros, filmes, etc. E tirando a "questão" do discurso desses sujeitos, perdemos umas 500 palavras do seu discurso vespertino (considerando apenas um estudante, veja bem).

"Contexto" é outra máxima. Acho que essa é a palavra que vem em segundo lugar na freqüência. E o "contexto" não precisa ser explicitado, descrito, identificado nem ter sua relevância justificada. O estudante de psicologia sempre refere-se sempre ao "contexto" das coisas - de todas elas: pessoas, fatos, filmes, idéias... Mas é mais pelo hábito.

Todo estudante de psicologia refere-se às boas experiências acadêmicas usando a expressão "muito rico". Não existe possibilidade de dizer somente que foi interessante, que valeu à pena, que atendeu ou superou as expectativas. Eles sempre começam contando uma experiência de estágio, disciplina, ida à campo ou até mesmo seminário com um "foi muito rico".

Quando você contar um episódio qualquer sobre qualquer (!) criança, ele sempre solta: "Hm, qual a idade dela?". A pessoa responde sem dar a mínima, continua a história engraçada, envolvente, curiosa ou preocupante (e é mais comum que, para um estudante de Psicologia, se já souber que ele o é, conte porque a história é curiosa ou preocupante), atinge um ápice, o sujeito (eita, outra máxima!, me entreguei) dá suas opiniões, repete o que acha mais curioso, engraçado, importante ou de se preocupar, mas enquanto isso o danado do estudante tá tentando reviver suas aulas de Desenvolvimento Humano para ver se encaixa o que a pessoa diz na idade que a criança tem; se as práticas parentais, a escolarização precoce ou tardia, o CONTEXTO, e a QUESTÃO da personalidade da criança (olha aí!) podem estar implicadas como alguma coisa. Mas não consegue ter certeza se acessou a aula certa (isso acontece na segunda ou terceira infância? Quem diz isso é Piaget ou Vygotsky? De quem eu gosto mais, de Piaget ou Vygostsky?), não conseguiu prestar a atenção devida enquanto rememorava as falas da professora, os slides e os capítulos do livro, e não tem segurança se fez a conexão correta. Mas, ainda assim, é provável que ele não tenha a resposta, mesmo que tenha conseguido acessar a aula correta, saiba se gosta mais de Piaget ou de Vygotsky, e tenha prestado a atenção devida porque fez suas conexões teoria-e-prática muito rapidamente. Mas aí ele vai dizer: depende.

Na Psicologia, para estudante de psicologia, para o psicólogo, enfim, tudo depende. Por segurança, não vou te dizer que seu filho tem desenhos de criança psicótica, é burro, ou sofre de fobia social, por mais que eu tenha os indícios. Vou dizer que "depende", porque não se pode ter certeza somente com sua mãe me contanto alguns episódios. Também não vou dizer que a culpa é dela, da mãe da criança, que está errando nas suas práticas parentais (!), porque, além de não ser simpático à Psicanálise, também "depende". Afinal, qual o contexto dessa mãe, dessa criação, dessa dinâmica familiar (outra máxima!)? Não vou dizer que seu problema é TOC. Depende. Preciso analisar mais a fundo. E, nesse caso, se eu tiver paciência, talvez possa dizer: "fale mais sobre isso", e ainda assim não garanto dar-lhe nenhum diagnóstico. Meus professores não me aconselham fazê-lo. Mas uma "escuta", uma "suspensão fenomenológica" para tentar compreender melhor essa "pessoa em sofrimento" está valendo! Vou continuar a dizer "depende", para tudo que você me diga ou pergunte. No máximo, vou te aconselhar procurar alguma ajuda. E termina aí a intervenção (apesar de o maldito estudante já ter imaginado as melhores e mais utópicas intervenções psicológicas para a pessoa da história que lhe contam).

É provável também que você identifique essa raça vendo pessoas que são extremamente solícitas às crianças, que olham demais para as pessoas à sua volta, que escutam mais do que falam, e que são os ouvidos que os amigos buscam - sempre. Mas essas são coisas mais difíceis de identificar, e menos evidentes, como aquela roupa arrumada que nunca se sabe se é pelo hábito, ou se é uma fantasia que o estudante coloca em dia de triagem ou atendimento.

P.S.: Só para deixar claro: nós NÃO estamos sempre analisando as pessoas. Aliás, nós pouco fazemos isso deliberadamente e de graça. Obrigada.

2 comentários:

Kursch disse...

"Vou continuar a dizer "depende", para tudo que você me diga ou pergunte. No máximo, vou te aconselhar procurar alguma ajuda. E termina aí a intervenção (apesar de o maldito estudante já ter imaginado as melhores e mais utópicas intervenções psicológicas para a pessoa da história que lhe contam)."

UAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHAUHAU

Anônimo disse...

Desse jeitinho...