segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Eu estava só pensando.

Eu agora estava pensando, assim. Na verdade, acho que cheguei a falar sozinha também, o dia em que a nossa prefeita será incluída no folclore da cidade, no folclore do estado, do Nordeste. Ou se vai só virar lenda urbana. Mas isso daqui a um século eu penso, sabe, quando não vai haver muitos de nossos contemporâneos vivos para atestar o que liam e viam com seus próprios olhos. Os que estiverem vivos, ninguém vai ouvir o que dizem, porque vão dizer que é caduquice. Ou então, os de bom senso chamarão as crianças para ouvir a história antiga que o vovô vai contar!

Imagino os filhos dos nossos biznetos, ouvindo as histórias que seus pais dizem ter ouvido dos pais deles, os quais já pegaram o telefone-sem-fio dos próprios pais, os quais, estes sim, afirmam com veemência que é tudo verdade!

E as crianças, confusas, perdidas, coitadas, indagando os absurdos. Mas como assim, mãe, ela dizia na eleição que era mãe e mulher, e foi assim que muita gente votou nela? Por quê? (...) Ahn? Mas que coisa! E qual o problema o povo via se a pessoa fosse mulher e não fosse casada? E tinha de ser com um homem? Tia Lúcia né mulher, casada com mulher, mas né mulher?! E o pai do meu amigo é homem, só que casado com homem, mas é homem. E meu amigo é filho do pai e do outro pai, ele diz. Quer dizer que tia Lúcia ou o pai do Lucas (no futuro, todas as crianças se chamarão Lucas) não podiam ser prefeito da gente? (...) POR QUÊ? E ela ainda tava só adivinhando era, mãe? Fazendo fofoca? Feia.

E o que tem a ver ter filho, hein? Aquela irmã de vovó nem teve filho. O irmão da senhora também nem tem, né. E minha tia da escola... Todas minhas tias da escola, elas têm filho não! Elas dizem que querem só trabalhar, trabalhar, trabalhar, aí não teve tempo de ter filho. Aí elas não iam poder ser prefeita também não? MAS, MÃE!

E como era que as pessoas faziam, pai? Se toda rua da cidade tinha buraco?! Não saíam de casa, né? Eu que não ia brincar com meu carrinho se o chão daqui de casa fosse cheio de buraco. Já pensou? Meus carrinhos tudo quebrado! E o senhor ia me dar outro? Ia não. Ia dizer que eu não tive cuidado!

Quem era pobre não tinha dentista pra ir? Por quê?! Ela não dava material pro Dr. Dentinho no posto de saúde? E aí, mãe? (...) Vije, ficava todo mundo com cárie? E se doesse? E se caísse? E se desse dor de dente em toooodo mundo pobre da cidade, ela fazia o que? NADA? Não pode! Ninguém tinha uma estrelinha igual a essa minha aqui? Nem uma escova-de-dente-eletrônica-que-borrifa-flúor-na-boca? Nem uma escovinha bem simplezinha do Ben3758?! Nada?

Ow. Então por que ela mandou derrubar o estádio de futebol da cidade, mãe? Se não tinha material nenhum pro dentista das crianças pobres? Era todo mundo com cárie e ela derrubou o campo, foi?! Por quê? Também não tinha soro no hospital? Nem luva nem máscara? Não tinha NADA? E o médico fazia o quê assim? E por que ela não comprou luva pro médico e deixou o campo lá? Eu queria ver, mãe, aquele estádio torto assim. Era legal? Muito legal? Não precisava, né, ter derrubado tudo. Podia ter deixado lá e ter deixado as crianças ter estrelinha no dente, igual a mim. E os velhinhos tomar soro, igual ao vovô.


Sim, meu mundo do futuro é um pouco cor-de-rosa. As coisas são melhores do que hoje, bem melhoers, e muito do que a gente vive agora vai parecer absurdo, incompreensível. Mas é que eu acho que essa é a única saída para, a cada dois anos, a gente se dê ao trabalho de pensar e analisar com cuidado sobre quem queremos para tomar conta da nossa cidade, do nosso estado, e país, que são nossos, não deles.

E, enquanto vire folclore ou lenda urbana, acho que ainda está bom. O problema é quando vira piada. E nesse estágio a gente já chegou.

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