quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Indiferença e hostilidade,

Praticadas na capital do meu país... Dava uma música. Sarcástica e ao mesmo tempo triste. Mas aí iriam falar mal de mim, por falar mal dos outros, e por ter péssimas habilidades musicais e artísticas em geral.

É que eu estava lá no shopping, sozinha, quando dei que tinha esquecido do celular. Que merda, José, ops, e agora, José? Mas, tudo bem, depois de lanchar eu procuro um orelhão e telefono a cobrar pro meu irmão. Então, na praça de alimentação, depois de comprar o lanche à tão simpática atendente, cujos dentes deviam ser brancos, mas não consegui nem ver se existiam de fato, tal era sua envolvente conversa e simpatia, vou lá no homezinho que serve os pedidos. "Moço, onde tem telefone público aqui no shopping?". "Não sei não. Não sei nem se tem. Próximo!".

Vou lá no quiosque do café. "Oi. Por favor, você sabe me dizer onde tem telefone público aqui no shopping?", "Não tem". "Não tem?!?!?" (cara de pavor, tristeza, desolação). Enquanto isso, a mulher faz cara de reticências (é, tipo quando você faz um comentário idiota e/ou dispensável no msn, e seu interlocutor só põe '...'). "E agora, eu esqueci meu celular..." (cara de pavor, tristeza, desolação, de turista perdido e sozinho em cidade desconhecida em um domingo à noite). A cara de reticências se mantém. "Mas não tem nenhum aqui perto?". "O mais próximo que tem fica depois do Big Box". O que dá tipo andar do Praia Shopping ao Campus, cruzando avenidas sinuosas, e andando sobre gramados. Nada de calçadas nem faixa de pedestres entre um ponto e outro.

Enchi os olhos de lágrimas e saí de perto. Vai que eu começava a chorar de verdade e a moça me dava as costas ou, quem sabe, até suspirava, entediada. Enquanto isso eu segurava um troço quadrado nas mãos, que a atendente simpática da sanduicheria tinha me dado após eu pedir minha janta. Ele era de um preto fosco, com uma luz vermelha dentro, que piscava de vez em vez. E tinha escrito o número quatro. Eu não sabia se era para eu prestar atenção em um letreiro eletrônico, de onde surgiria o número quatro (e eu procurei muito esse letreiro, mas não encontrei), se teria de reparar quando a luz vermelha disparasse, ou, sei lá, parasse, ou se alguém gritaria da cozinha: QUATRO! Mas, claro, fiquei com vergonha e medo de perguntar como eu deveria proceder. Nunca tinha segurado um troço daqueles, e, tem mais, o pessoal dessa cidade não parece gostar de dizer o óbvio, repetir o que acabou de falar, ou, pior!, não entender o que você diz e ser obrigado a perguntar: "oi?!", franzindo todo o lado direito do rosto, para mostrar deveras aborrecimento.

"Com licença, você poderia me informar...", "OI?!", cara de quem acabou de ficar puto. "É que, por favor, eu gostaria de saber...", "COMO?!", ficou puto de verdade. Quando você já sabe o óbvio, mas comenta-o, e faz outra pergunta sobre isso, eles falam logo o óbvio achando que era isso que você queria perguntar. E o fazem aborrecidos, eu acho (puf). Mas aí você explica que não é isso que você deseja saber, mas... Aí eles explicam logo de uma vez como se deve fazer. Sem detalhes, sem gentilezas. Frios e indiferentes, como toda relação amistosa deve ser.

Não sei. Mas eu vivo em uma cidade onde as pessoas se importam demais com quem você é, o que você faz, quem são seus amigos. Qual a marca da sua roupa, do seu carro, em que faculdade você estuda e se seu namorado é maconheiro (o que não significa necessariamente ser usuário convicto, mas somente ter um estilo despojado). É, eu sei. As pessoas julgam bastante por aqui, e julgam pela aparência, é fato. Mas... se importam. Bem ou mal, elas sabem que você existe, ou melhor, vêem que você existe, e, por algum motivo, talvez devido a essa aura provinciana que nos paira, elas te vêem, te observam.

Eu fiquei imaginando que se eu, naquele shopping, sem celular, sem amigos, sem família, sem nem saber dizer ao táxi que caminho tomar para voltar para onde eu estava hospedada, chorasse desesperadamente, tivesse delírios persecutórios, espasmos epiléticos, ou, para ser suave, um ataque de asma brônquica repetino, alguém iria me ver. Perceber. Só reparar!. Ou se eu iria continuar assim por segundos, minutos. Horas. Até o segurança me avisar displicentemente que o shopping estava fechando.

Prefiro a província. Prefiro a sensação (fato?) de ser observada e avaliada todo o tempo, do que a certeza de que sou totalmente dispensável à todas as pessoas ao meu redor. Que sensação mais ruim de indiferença. Me olha aqui!, finge que se importa comigo.

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