quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Resposta

Como eu falei no post anterior, e como os três leitores desse blog devem saber, eu faço Psicologia. Não que eu ache isso grande coisa, porque não é, mas dizer que está em um curso desses arranca uns suspiros de admiração da galera, de vez em quando. Não sei por que. Acreditem, a gente não lê a mente de ninguém. Não somos todos, cem por cento, amantes da vida e da natureza, apaixonados por diálogos, crianças e velhinhos. Até que eu sou paciente e compreensiva, mas não porque vou ser psicóloga, mas porque sou assim mesmo. E quando não sou, não tenho obrigação de ser - a não ser que a pessoa que mereça minha compreensão seja meu paciente.

E foi por notar toda essa admiração, receber sorrisos espontâneos de algumas pessoas quando eu dizia o que fazia, e por estar diariamente naquelas salas de aula, que eu me perguntava realmente por que eu estava ali. Ou melhor, por que eu continuava ali. Sem gostar tanto.

A escolha se deu por acaso, quando eu paquerei com o capítulo de O Mundo de Sofia que falava sobre Freud, numa época em que meus pais fervorosamente se empenhavam em me fazer desistir da carreira de jornalista. Uma coisa puxava a outra, e, enquanto eu desistia de Nutrição e Ecologia, fiquei pela Psicologia mesmo. Pura eliminação.

Na teoria, como tudo na vida, ser psicólogo parecia quase um êxtase, de tão interessante, de tão "rico", como depois eu viria aprender a falar (e a ouvir frequentemente). E na teoria sobre a prática, lá dentro da faculdade... nem tanto. Vou desistir. Não vou. Vou. Não vou. Tô quase. Espera. Pensa. Se acovarda e fica.

O tempo passa e eu continuo sem saber se quero essa história de Psicologia na minha vida. Se vou fazer Letras, Jornalismo, ou concurso público. Essa estudante-de-psicologia continua se perguntando porque continua sendo isso, porque nunca desistiu. Nunca encontrei resposta... Na verdade, acho que não fiz as perguntas corretas, mas, mais ainda, não fui confrontada com as perguntas e os fatos corretos.

Essa semana, então, assisti um documentário que um amigo psicólogo (antes do meu vestibular) já havia recomendado: Estamira. Quatro anos depois, baixei o arquivo, e três semanas depois de baixá-lo, assisti. E aí, pronto, encontrei os motivos. Continuei estudante de Psicologia porque descobri que a vida só faz sentido porque somos muito diferentes, por mais clichê que isso pareça. Porque descobri que é do Outro (sem elementos psicanalíticos) que eu gosto, que me interesso, só porque ele não sou eu. E, mais ainda, é do Outro esquisito, bizarro, excêntrico e autêntico, que eu gosto mais, do qual eu mais quero me aproximar, ouvir, sem esforço em compreendê-lo, porque esse Outro tão excêntrico já é compreensível em si mesmo. Eu gosto desses monólogos infinitos, que começam do nada e terminam de repente, cheios de lucidez em um discurso aparentemente confuso. Em uma pessoa aparentemente confusa.

Não se iludam. Psicologia não é ciência, não é filosofia, não é uma teoria ou um conjunto de teorias sobre o ser humano. Não é uma composição de prismas para ver esse Outro, como alguns divulgam. Não é o exercício de escutar e compreender. Tudo isso são meros detalhes. Fazer Psicologia e ser psicólogo é simplesmente viver e aceitar o diferente, o absurdo, e, mais ainda, gostar de fazer isso, quase-se apaixonando por toda essa esquisitice.

P.S.: E é obrigatório! Todo mundo deve assistir Estamira.

2 comentários:

Bárbara Teixeira Campos disse...

Eu entrei agora para psicologia na UFRN e de certa forma sou sua caloura e Parabéns pelo o que escreveu, gostei muito! :D

Andréia Lucynara disse...

Nossa, sério, quase chorei vendo esse post. Vou começar, nesse semestre, a cursar Psicologia - eu que já venho de outro curso e já tive tantas dúvidas com relação ao que escolher - e me deparar com um texto desse me fez dar uma clareada em algumas questões que eu já vinha refletindo e que você mencionou muito bem, com realismo, eu diria. Muito bom, parabéns.