sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

"Para o ano"

Daquelas expressões que se criam sem sabermos como e que fazem sentido nenhum. 'Para o ano' quer dizer 'para o próximo ano'. Então vamos.

Que 2012 foi ano para se escrever histórias. Infinitas histórias, de um ano grande, às vezes infinito, às vezes mentiroso, de muitas caras e desdéns. Parece que pegou muita gente de surpresa. Parece que não deu trela pra muitos sonhos e notícias de fantasia, nem estórias. De novo, só histórias.

2012 me provou que Seu Newton contou meia verdade. Que ação reação nem sempre procede. Só no mundo físico, concreto, e olhe lá, dando-se direito a ressalvas. Na vida real metafísica ou nada física, cheia daquelas impalpáveis emoções e sentimentos, ação e reação não são diametralmente opostas, como se prega. Há de se acreditar que elas nem se conhecem.

Suas boas ações não precedem as boas reações. Não sempre. Não pode-se esperar do outro o que damos a ele. Não pode-se esperar importância no lugar de indiferença. Não pode-se esperar demais, é verdade.

O maior desafio que a coitada da minha terapeuta enfrenta comigo (talvez ela esteja perto de desistir) é me convencer da brutalidade das expectativas. Como elas ferem quando são criadas. Quando criamo-nas, deliberada e involuntariamente, ao mesmo tempo. E como elas ferem, de novo, quando têm que ir embora.

Foi preciso aprender que seus amores e seus cuidados são seus. Que podem ou não haver mais deles pra você - de volta. É mais fácil, veja só, que eles apareçam de súbito, sem a expectativa prévia (!), do que na contrapartida de nossas ações. A contrapartida de nossas ações podem ser cruéis, não sempre, às vezes sempre, às vezes por um ano quase inteiro, e tá proibido lamentar.

2012 me ensinou a não esperar demais, em tempo, em atitude e fato. 2012 me colocou no centro das minhas expectativas e do meu reconhecimento. Me disse que o outro às vezes pisa, machuca, sai cantando, e que também tá proibido lamentar em cima dele.

Só que ao mesmo tempo segredou: persista. Valorize sua integridade (clichê) e aja com os outros como você gostaria que eles agissem com você (clichê). Independente desses outros (Hum...). Vê o paradoxo: fazer "como se" pensando nos outros; esperar um "como se não", pensando nesses outros. E assim viva. E os respeite e não os abandone. Não pague com essa mesma moeda, doída, a sua dor 'inlamentável'. A física e a metafísica não vão colaborar todas as vezes, mas algumas sim. E você não vai precisar temer represálias. Só vai precisar não expectar recompensas.

E, se, não cabendo a expectativa, mas encontrando a ressalva da esperança, que se encaixa sempre quando pensamos nos bons presságios, eu me dou o direito de, esperançosamente, desejar algo para 2013. Para não criar expectativa, mas confiar na novidade, se eu tenho um desejo para 2013, é somente esse: empatia.

O resto a gente dá conta.

Feliz 2013.

Santiago e a recepção antibrasileira

A gente chegou lá e a moça da imigração danou o carimbo na nossa cara. Não aguenta mais ver brasileiro passar por ali, coitada. A gente chegou naquele pessoal da agricultura que não deixa você entrar com pacote de feijão nem de arroz Tio João, e eles chamaram a gente de filhos da puta infelizes. Começaram a gritar "la cartera!, la cartera!", esbravejando que tinham explosivos na minha bolsa, com a polícia chegando de algemas abertas pra me levar embora. Pegou meu saco de lixo (la cartera), apontou o dedo e gritou na minha cara para abrir. Encontrou o sabonete antisséptico e agitou os braços: que porra é essa?! Respondi e autorizei que abrisse. Ele respondeu se eu achava que ele era algum idiota que não sabia que podia arreganhar minhas bolsa e minhas pernas, se quisesse. Afinal, era a profissão dele fazer isso humilhando os estrangeiros.

No hotel tiveram de falar devagar para a gente conseguir entender melhor, e ficaram putos. Respiraram fundo e contaram até dez. E lamentaram mais dois brasileiros analfabetos no país. "Caralho", pensaram.

E os analfabetos pensando que, falando devagar, eles também entenderiam o que a gente diria. Quando a gente fazia o pedido em português, o garçom franzia a testa e pensava alto (ou a gente ouvia os pensamentos dele): de novo não. E falava os palavrões - que acho que sempre começavam com um puta que pariu. E depois de revelada toda a preguiça em se esforçar para nos entender, desgostava mais ainda quando não entendíamos. Porque eles só vão conhecer o Brasil depois de fazerem seis semestres de português em escola de idiomas. Se não, não.

E eles têm uma mania engraçada por lá, que quando querem passar por nós, pisam nos pés e nas cabeças e empurram a gente com os ombros, falando que sai da frente, gorda brasileira, que tô passando. É o tal do "permiso".

Deu saudade do Brasil.

Mas foi bom. Valeu.

Talvez tenha sido

Faltava só mesmo uma injeção de autoestima mentirosa, falseada, forçada. Mas uma injeção. Faltava o impulso e o empurro, a volta dada por cima aos tropeços. Dar a volta por cima tropeçando. Mas fazê-lo. Faltava só mesmo a realidade sem traumas, o desencontro esperado desesperado. E mais coragem e mais sorriso. E, principalmente, mais coragem no sorriso. Faltava amor por si. Faltava de si mesma. E foi só.

Parece que venceu.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Ses

Se eu pudesse eu teria guardado todas as mensagens comprobatórias do então amor. Mas isso teria dado muito trabalho. Se eu pudesse eu teria questionado as palavras e os fatos, e os abraços. Mas isso teria sido tão constrangedor. Se eu pudesse eu teria dito o que eu pensava, e, principalmente, o que eu queria. Mas isso não daria em nada. Tá, que não daria em nada. Se eu pudesse eu teria evitado. Mas isso não seria eu. Se eu pudesse eu não teria evitado depois o que evitei. Mas então não haveria nós.

A vida é feita de "ses". Ou pelo menos o que a gente pensa dela.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Obrigado por escolher a TAM!

A gente tava na segunda fila de seis da primeira etapa da viagem, que foi até a oitava, e a pobre da criança implorava por uma resposta: "Mãe, a gente não ia viajar?". "Mãe, a gente não vai viajar?". "Mãe, quando a gente começa a viajar?".

Quase nunca, meu filho. Sua mãe deveria ter te dito. Antes de viajar de verdade, existe a sessão pré-tortura aerotraumática pela qual você vai passar, e de onde nunca vai sair bem.

Depois de passar por tanta gente bonita e simpática pra despachar nossas bagagens, passar pelo detector de metais, ir e voltar, ir e voltar, tirar os sapatos e coisa e tal, e depois de esperar em sala de embarque, sentado, depois em pé, na fila, você finalmente entra na aeronave.

É quando tudo começa. Não a viagem, claro.

Os aviões hoje em dia obedecem a um rigor behaviorista de provocar claustrofobia, asfixia e cãimbras em todos os passageiros ao mesmo tempo. Você entra e já se sente assim, associa rapidamente, via condicionamento clássico, e depois segue na tortura.

Se você é obeso mórbido, obeso leve, ou tem peso de um ser humano normal, sente-se gordo e deprimido. Não consegue entrar, né, na tríade de poltronas para miss universos.

Aí, vários seres humanos com peso ou sobrepeso, não anoréxicos, debatem-se em cãimbras e desconfortos, sentem as fobias relacionadas à impossibilidade de não mexer os membros do seu corpo, respirar pouco, receber choros de crianças dentro dos ouvidos, tudo ao mesmo tempo. É a prova de resistência do big brother. Mas ninguém vira líder nem ganha um milhão. No máximo, um panetone da Bauducco no sorteio jeito tam de voar.

A prova de resistência começa, se estende... O comissário Bial não diz por quanto tempo vamos estar ali, mesmo que a previsão seja de alguns minutos. Passam dez, quinze, quarenta minutos. Passa uma hora e meia. Algum problema, produção. Mas não fala pros candidatos, é todo mundo filho da puta aí dentro, não importa, termina de fazer suas compras ou o seu cocô que a gente te espera.

Depois de quase duas horas, mais da metade do tempo previsto para o vôo dessa gente feia, vamos tirar nossa onda, que nessa época de Natal felicidade demais enche o saco. Se levanta, negada, a gente vai mudar de avião. Foi que deu problema no motor. Na embreagem, sei lá.

Mais de duas horas depois, no silêncio absoluto da prova de resistência, dos pescoços doloridos e os choros intermináveis, porque todas as crianças guardaram seus choros de ao longo do dia para a hora dentro do avião, um pedidozinho de desculpa,  vai lá, na falsidade maior que o inglês proficiente do aeromoço.

Isso tudo é só pra quase perder a conexão. Quase.

Na volta, vamos lá. Ao invés de duas horas, só uma hora dentro do avião, sem ninguém saber o que está acontecendo! O importante é o mistério!, veja só. Mais de uma hora depois, a gente fala que se atrapalhou guardando as bagagens... Tem muita mulher aqui, o pessoal vai entender.

O quê? Perdeu a conexão porque a gente atrasou? Menina, corre lá. Você agora só tem a fila da receita federal, depois aquela organização pra pegar sua mala, com velhos e crianças e adultos educados à beira da esteira, impedindo que você veja e pegue seus pertences, depois você passa pela alfândega, coisa rápida, e sua até a fila do novo check-in. Lá, passando dez minutos após entrada no embarque, o que significa cinquenta minutos antes da decolagem, ninguém vai ter deixar entrar no avião e voltar pra casa. Porque a gente tá com preguiça, veja bem. E eficiência e boa vontade não são bem o nosso propósito, por mais que você pague por isso.

Então vamos lá. A gente se atrapalhou guardando as malas, apesar de fazermos isso todos os dias há muitos anos, e, por causa disso, você perdeu seu avião pra sua casa, mentira, você não perdeu, a gente só não quer te colocar nele agora. Porque, assim, você não esperou nada por ele. Você não ficou na fila do check-in, na fila para o detector de metais, para o embarque, nem vai ficar tanto tempo assim preso dentro da aeronave. Que viagem seria essa? Assim tão rápida? Não, de jeito nenhum! Vamos te colocar no próximo vôo, que sairá daqui a quatro horas.

Mas claro que não temos corações tão ruins assim. Sabe o que a gente vai te dar de consolo? Uma refeição! Para cada um de vocês, passageiros, que além de panacas, estão cansados e com fome, e ainda vão ficar em Guarulhos, um lugar agradável para se estar, teremos esse presentão, que a gente finge ser o mínimo que poderíamos lhes dar.

Na refeição, eu escolho o restaurante, que será obrigatoriamente self-service, e, hoje, às oito da noite, o cardápio vai ser feijão marrom, arroz branco, purê de batatas, que acabou, e três carnes diferentes não identificáveis (visualmente, pelo sabor, nem como foram preparadas). Tá ótimo.

Senhora e senhor, vocês têm quatro horas para desfrutar de um aeroporto que, como nós, é esculhambado e desorganizado, de um jantar cortesia da casa!*, e de uma dose de cansaço extra da qual não cobraremos nenhum adendo. Todo mundo no aeroporto vai te tratar mal, e ninguém da companhia vai te pedir desculpa alguma, porque já foram desculpas demais (duas) de lá pra cá (sete dias).

Boa viagem, e obrigado por escolher a Tam!




*Não é meu hábito fazer pouco de comida, desprezar 'o que tem na mesa'. Mas a qualidade do restaurante, somada ao desrespeito da companhia, me deu a liberdade de reclamar do que eles tiveram a nos 'oferecer'. Foi só dessa vez.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Essa é a minha galera!

Todo mundo em clima de Carnatal. 

Todo mundo em clima de cidade suja, de ser sujo, de mijar na rua, no asfalto, no canteiro. Mijar mesmo, porque xixi é coisa de gente civilizada. Todo mundo suado, respirando cerveja, borrifando suor do suvaco, do buço. Beijando todo mundo! Manifestando suas herpes, suas dsts preferidas, transmitindo para todo mundo que for possível, porque Carnatal é Amor e Prazer. Sorria. Todo mundo gostando do trânsito. Achando normal, achando legal, aplaudindo Paulinho Freire, aquele que fez as crianças da Casa de Passagem I se mudarem de uma casa compatível com a quantidade de trinta crianças para uma com dois quartos e dois banheiros, sem janelas, só pra ele poder fazer suas reuniões. Ele devia estar planejando o Carnatal! Essa festa massa, necessária, que atrai turistas do mundo inteiro e promove a cultura potiguar!, a cidade do Natal! Essa festa de baianos potiguares, porque todo baiano que canta axé tem cidadania potiguar. Quem não tem sou eu, você, e 99,9% da população que mora aqui, que não tem o retorno dos impostos, o lixo recolhido, a merenda na escola, respeito, dignidade e essas coisas desnecessárias que os políticos empresários ficam de nos dar. Só quem tem cidadania é quem vai pra Carnatal. Ali sim. Respirar a urina e sujar a cidade, desrespeitar os horários de trabalho, invadir milhares de casa com barulho, como se as casas estivessem dentro dos trios elétricos, recebendo mais lixo e dsts, ai que coisa boa, esses, sim, que são cidadãos de verdade. 

Você aí que fica reclamando do Carnatal não tá com nada. Desligue seu bloguinho, e venha!, a festa é sua meu amor, sorria. 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Ainda em defesa dos não atendedores

(Pensei sobre o não atendimento dos celulares como uma falha de caráter, atenção, ou consideração (!). Pensei.)


Percebi que telefone, pra mim, é troca de intimidade muito grande.

Vai dizer. Eu não saio ligando para semi-conhecidos ou pouco conhecidos com intuitos não claros nem urgentes nem imprescindíveis de contato voz a voz. Você gosta de contato voz a voz? Seu promíscuo. Eu não. Deter-me a só ouvir e só falar, assim, perto do ouvido do outro (falar no celular é falar dentro do ouvido do outro, vai dizer que porque é telefone você acha que não?) eu não faço com qualquer um. Cadê sua seletividade?

Não, minha voz não é absurdamente sexy, nem pouco sexy, nem normal, ela provavelmente é feia. Nem eu fico excitada com vozes alheias. Não é bem isso. A intimidade que falo é do nível social.

Se você não é meu amigo, com quem eu converso quase diariamente, cuja voz eu, além de conhecer, devo gostar, afinal, fiquei sua amiga, ouço sua voz quase sempre reclamando de si e dos outros, você não tem o direito de me ligar sem motivos claros urgentes e imprescindíveis de áudio. Eu não quero cochichar no seu ouvido. Não me sinto à vontade. E falar ao telefone é cochichar no seu ouvido.

Eu preciso entender qual a das pessoas que, depois de insistirem por três ligações, receberem uma mensagem com "fala aí", "oi, flor", quando sou feliz, ou até o óbvio "manda mensagem", insistem em ligar. É cognitivo ou emocional, o seu problema? Pode ser uma dislexia ou uma carência absurda. Pode ser uma falta de bom senso também.

Não gosto de pessoas dadas. Não venha ser "dado" pra cima de mim. As pessoas que insistem em ligar mesmo recebendo mensagem sugerindo, pedindo, implorando, que o outro escreva, e não fale ao ouvido, quase sempre estão em condições de mandar mensagem, mas não o fazem. E o conteúdo? Urgente de cochicho? Nunca. As mesmas pessoas que insistem na ligação, cochicham sem necessidade.

Também não reclame que eu não atendo celular dirigindo, mas mando mensagem dirigindo. Pra mim, que não gosto de cochichos, de vozes dentro da minha cabeça (não tenho esquizofrenia), selecionar toda a minha atenção para uma voz é ato impossível. Quando estou falando ao telefone, sempre, sempre, eu, sempre, sempre é todas as vezes, certo?, me distraio e perco algo que você falou. Não reclame. Eu perco. Eu não te vejo nem te leio em palavras. Eu me perco. Eu vou ler umas palavras enquanto você fala desnecessidades dentro da minha cabeça. Eu vou dividir a minha atenção, que nunca vai ser exclusiva pra uma só voz. E, se estiver dirigindo, o que é pior, eu vou errar o caminho e te dirigir (!) todo o meu ódio. Vou criar uma antipatia com você, já pensou?

Então, é mais fácil (vamos lá, ano de estágio!) ter atenção alternada para mensagem/trânsito, do que atenção simultânea, que não existe, para voz/trânsito. Como é que eu vou ouvir e entender o que você me diz, e dirigir? E os buracos? E os limpadores de para-brisa? É mais fácil parar de dirigir enquanto dirige, parar de olhar para a frente enquanto dirige, e olhar para o que eu ou você escrevemos. Porque eu faço uma coisa de cada vez, entendeu? E, pra você que não me conhece, eu mal consigo andar e contar uma história ao mesmo tempo. Eu esqueço partes da história e tenho que parar de andar, pra poder lembrar.

E você ainda me exige um ouvido só seu?

Nunca. Só dentro de um castelo de intimidade, em condições ótimas de humor e silêncio.

Achando, perdi

E eu que achei que a mudança pra distante faria bem. A mudança pra distante daqui, dos outros, de mim, do que sou. A mudança do ar e da imagem, da rotina, da paisagem inteira, até dos sonhos. Isso mudaria os sonhos. E o outro tipo de sonhos. Tudo.

Eu que achei que a solidão era merecida e necessária. Era urgente, sóbria, deveria ser intensa. Eu deveria comprar um mundo só meu. Comprar o que era meu. Eu deveria fechar-me.

Eu que achei que distância e solidão era combinação melhorada, era combo feito aos moldes, situação perfeita e posta. Correndo, fui. Eu que achei que de diálogos bastara, não adiantava, fugiram, engoli.

Eu que achei que não tinha nada meu. Que tinha posto tudo fora, tudo pra fora, que tinha expulsado de mim, mais o que, corações e amores. Amores bons e certos e inteiros. Que se quebraram em prantos, aos prantos.

Eu que fugi na covardia e no desdém, na desistência completa, na amargura das indagações feias e burras. Eu que deixei tudo pra trás na esperança da melhora. Para ser só eu, e então saber: falta eu em mim mesma.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Minha vida social aos 22

É assim. Você é pré-adolescente, e a vida é injusta demais. A infância ficou longe demais, e as possibilidades de adolescente mais ainda. Tinham de ter cuidado com isso. De não deixar a gente nesse limbo por tantos anos (são cerca de dois). A gente vive uma angústia pueril de ser adulto (!), e logo.

Me lembro do tamanho do alívio ao chegar aos quatorze e, agora sim, havia vários lugares, e filmes no cinema aos quais eu poderia ir, sem risco de ser barrada. E mais ainda aos dezesseis. Mais um ano de idade era mais um ano de independência, de finais de semana com noites em claro e dias apagados (apagada), com expectativas baladeiras, roqueiras, festeiras, planos de uma vida social agitada, e ligeiramente fútil, vê-se.

Com os dezoito, o carro, a faculdade, e o status desadolescentizador, você com o mundo a seus pés (mentira), a liberdade te abraçando (mentira), te chamando pra beber a partir da quarta (sim), a tendência absoluta e esperada é a vida de um jovem comum: que sai de casa. Que vai pra náite. Que sorri e bebe. Que aguenta o tranco.

Não sei se foi 2012 que me envelheceu doze anos (pois durou cinco e porque foi 2012), se foram os quatro anos pra trás de faculdade, se é a desesperança com o desastre que é a humanidade, mais ainda a que vejo por aí, na semana, e, em estado pior, no fim de semana, mas essa festança inteira só foi minha realidade até os dezenove (ah, meus dezenove anos...). E olhe lá.

Minha sexta-feira é um anseio e comemoração pelo lugar mais cativo que tenho hoje: minha cama. Minha sexta-feira é um desespero por descanso. Meus pedidos de aniversário e Natal e em orações são por noites de sono. E minhas trocas favoritas são: o bar pela noite de sono. Meu passeio preferido: que eu não saia de casa. Que me tragam o jantar, eu coma e durma. Sem televisão, porque desvirtua o descanso, e porque tv é passatempo de gente jovem. Meu passatempo é o sono, o livro, o sonho. Que sonho.

Eu falseio uma expectativa pela sexta-feira, pela noite, pela banda. Eu ouço música alta, danço como uma bicha, chamo os amigos bichas, agito o agito. Mas isso ainda às sete da noite. Às dez, entro no carro e adormeço. Às dez, dirigir, só se for pra voltar pra casa, ou dentro do sonho.

O descaso (ou o fim?) com a vida social aumenta se você estiver namorando. Piora se o namorado trabalhar no bar e você tiver a desculpa: "é que acho que acordo bem cedo pra buscá-lo, então vou dormir cedo e...".  É o mote. O descaso também pode aumentar quando você está solteiro(a) gostando de estar. De estar só com você, claro. Porque, nesse estágio da solteirice (de pessoas estranhas e não-jovens*), não estar acompanhado não significa ir para qualquer lugar que você queira; significa ir para lugar nenhum, significa não precisar esforçar-se em manter os olhos abertos e se extenuar num esforço para ficar bonita em uma sexta-feira à noite. Não cabe na minha saúde isso. Você, nesse estágio, escolhe entre sair ou não. E, sendo não-jovem*, não sai. Retira a obrigatoriedade do cinema, do açaí, do jantar com casais. E elimina a melhor parte: não precisar explicar que você não necessariamente não quer ver o outro. Você só não quer ver ninguém. (O que inclui o outro, e atesta sua assexualidade.)

Em termos de ser não-jovem*, e o asterisco é pra dizer que não-jovem não significa ser velho, pois um velho, em qualquer idade, gosta mais da vida social do que eu, uma não-jovem, esse sábado à noite com silêncio virou deleite, exclusividade. Virou amor, noivado (não posso casar com essa situação, que sabemos ser vulnerável à puladas de cerca), troca recíproca de olhares ao longo da semana. E, em breve, vamos encarar uma lua de mel: férias longas, em um aposento deserto, sem programação, com cama, silêncio, e edredons.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

De tanto fazer

Entrou no status tanto faz. Então tanto faz. Fomos do intenso ao médio ao morno ao ausente. E tanto faz. Agora eu já reclamei. Reclamei até demais. Agora já me queixei e já tive raiva, explodi em ciúmes, em discursos, em nós. É capaz de ter feito algum estrago. Poderia ter feito.

Agora não tem mais de bom dia. Não tem mais de bons sonhos, de abraço bem terno. Agora os presentes viraram obrigação. Ser presente, se fez obrigação, aquele outro dia. Porque eu fui? Insisti.

Agora tanto faz. Agora não sei se quero saber como você está. Só espero que você esteja bem. Num espero de superfície, de quem se importa mas nem tanto. Eu não me importo mais tanto.

Agora não tem mais telefonema. Agora não tem mais presente surpresa pelo correio, envelope cor de rosa, meia calça esquecida aqui em casa. Agora que os livros e os dvds foram trocados de volta, não tem mais o que trocar. Nem mensagem nem sinal. Logo a gente que trocava olhares - e travava longos discursos e conclusões só com eles. A gente que trocava planos.

Trocamos o nosso lugar. Cada um na sua, agora tanto faz.

Mas, ela.

Eu vivo cheia de saudade. Eu venho de transbordá-la e queixar-me de ser tanta, e acostumar-me a ter tanta. Eu alimento saudades e notícias, velhas notícias, mentirosas notícias. Notícias que invento para o presente para alimentar essa saudade passada. Passado.

Eu penso sobre a saudade, e penso.

A saudade vale mais a pena do que o amor. O amor pode ser platônico. O amor pode ser sem correspondência. Nada mútuo, nada recíproco. E não perde seu valor. É amor, ainda: soma tristeza, soma mágoa, mas ainda se ama. Mas saudade não se soma a esses amores sozinhos. Não pode, não deixe.

Saudade só vale a pena se forem duas. Se encontrarem-se no meio do caminho para papear, para dizerem uma a outra que estão ali, existindo porque a outra existe. Saudade só vale a pena se for a dois.

Não sinta saudade do amor que não existe mais. Não sinta saudade do tempo que já foi, do tempo que não é mais seu. Porque há tempos que já foram que ainda são nossos. Mas há outros que não. Não dê saudade para quem se reinventou e, quando tropeçou no seu nome, esqueceu. Não lembrou. Saudade é lembrar-se demais. É pôr o passado no presente, sem nostalgia necessária, menos ainda mágoa. Saudade precisa vir sem mágoa.

Não desperdice a palavra sem tradução. Não faça pouco de sua exclusividade. Não faça dela sua exclusividade; divida-a quando for... real. E para ser real, os loucos disso sabem, é preciso que mais gente veja e sinta. É preciso que mais gente seja de saudades.

domingo, 25 de novembro de 2012

Não era ele. É ele.

Porque ele era o cara que eu queria pra mim. Porque ele tinha em qualidades e defeitos, em proporção de qualidades e defeitos, o que eu queria. Porque o tamanho do sorriso era o idêntico ao que eu pensei. O olhar e as piadas, os trejeitos e os mal gostos. Vinha na dosagem certa. E não era.

O seu cara certo não é, até então, o cara certo que você criara. O seu cara certo não tem qualidades e defeitos em proporções exatas, não tem trejeitos parecidos com o do ator do seriado, não tem a piada pronta do jeito que você gosta. Não se veste da forma mais bonita - pra você. Não ouve as músicas estranhas e os filmes estrangeiros que você gostaria. Esse cara existe. E, eventualmente, você vai cruzar (no sentido figurado, em outros, em tantos) com ele por aí. Mas não é o seu.

O seu cara tem qualidades que você não espera, tem defeitos que você não suporta. Não tem nada de proporcional. A começar pelo amor dele por você. O seu cara é capaz de te olhar com desejo e com ternura, ao mesmo tempo, o tempo inteiro. Sem se esforçar para isso. O seu cara troca o tempo dele pelo seu, porque quer, porque estava ansioso por isso. O seu cara tem orgulho de você, e quer você do lado dele, a sós, mas, principalmente, na frente de todos, na frente do mundo. O seu cara fixa os olhos em você, te acompanha pela casa, com os olhos, e com uma pré-saudade de fim de domingo. E te ouve sem críticas, até quando não concorda. E quase nunca concorda. Mas te quer assim mesmo, tão diferente e teimosa. E faz como o autor que uma vez disse, que melhor que o amor feito, é o sono compartilhado - ele quer o sono de vocês como um só, toda noite.

Ele é o seu. Sem idealizações, seu.

Ele não tem perfil pré-determinado, não tem indumentária específica, não vem com gostos exóticos nem o equilíbrio exato entre a independência e a dependência (uma fórmula que muita mulher busca, em nível tal). Ele é diferente, é outro, não é 'o cara certo'. É o amor da sua vida. Só precisa da sua outorga.

sábado, 24 de novembro de 2012

Se eu fosse você, eu tivesse ido

Se eu fosse você, eu tivesse ido para o festival literário. Se eu fosse você, eu não perdia mais, eu não perdia nunca, eu espremia a agenda, cancelava os compromissos canceláveis que a gente diz serem inadiáveis. Inadiável é encontro de escritores, que, antes de tudo, são leitores, que, mais ainda, são pessoas de História e histórias.

Encontro de escritor não é para intelectual, não é para pseudointelectual, nem para afortunados vagabundos que dispensam o trabalho em troca da praia, disfarçada de literatura. Ou em troca da literatura disfarçada de praia. Encontro literário é para eles também, sejamos democráticos. Vamos parar de achar que não cabe ali quem não é cult, quem não tem biblioteca em casa, quem não faz Letras ou Jornalismo, e, pior, quem não lê vorazmente.

Encontro de literatura é pra te injetar um ânimo, te dar fome de leitura, de livros, de autógrafos para posteridade. Não é para conversar sobre os tempos literários. Isso escritor nenhum conversa, vou te contar. Nem sobre métrica ou rima, poesia ou prosa. É pra trocar uns dedos de prosa. Não é chato; é uma graça, cheio de graças.

Tem algumas verdades que você cria na vida, na sua, sem o menor fundamento, mas que fazem todo o sentido, e que, quando você vê, elas já existiam porque muitos outros criaram-na antes de você (em separado). Literatura é vida. Essa é a minha verdade. O encontro é para falar sobre ela: a vida. Disfarçada de literatura. Ou sobre a literatura disfarçada de vida. É pra respirar uma história diferente, ouvir, imaginar. É só uma experiência de breve fascínio, que te acrescenta em alguma coisa que você não sabe o que é, nem sabe como.

É festa de ressaca boa. De memória, pois é ressaca sem perda de memória. E para você, que além de falso ocupado inventa desculpa péssima: é de graça. É só ir.

Literatura é vida. Já tá lá, é só ir.

Não falei?!

domingo, 18 de novembro de 2012

Troque por vintém

Eu troquei. Porque tem um dia que você esbarra em batente ou tamburete ou muro que não esperava fazê-lo. Você encontra um oportunismo, um interesse inautêntico, uma indiferença braba, bruta, letal, e um narcisismo fútil disfarçado de amor-próprio. Você recolhe o pé, o joelho, a testa que danou no muro, alisa, olha, e quer mudar o caminho.

Mas e se o batente, o tamburete, a mureta, às vezes muralha, está personificada em alguém de quem você não esperava isso. Nada disso, nem um pouco disso. Às vezes, infelizmente, um tudo disso, que vem em avalanche, te digo que vem.

Não era para partir desse alguém. Esses atos maldosos, essencialmente humanos!, deveriam partir de outros. Daqueles que você espera, acredita, não se surpreende, até deseja que esses muros logo se ponham, pra você ao menos pensar "pelo menos já foi", e "eu já sabia".

O problema é que, como todos os eventos mundanos, e humanos, o "eu já sabia" quase sempre dá lugar ao "não esperava". E por quê? Pense bem.

Nessas horas, em frente à topada, ao grande muro, você vê que caiu junto com sua ficha um montante de algo demodê: seus valores. Você tem uns valores antigos, idosos, encapsulados em suas entranhas, que você construiu não sabe bem como nem por quê, sem os quais você não existe, e dos quais você não consegue se livrar. Porque são seus. É o que te define, é o que te engrandece - ou te faz menor.

Você julga porque os valores entranhados do outro são diferentes demais. São poucos, são frouxos, digo, são outros, lá vou eu julgando. Não foi compatível. Os cromossomos desses valores aqui foram se juntar e rolou uma aberração, uma anomalia, um negócio feio de se ver. Não vai sobreviver. Não é compatível nem nunca será. E, te digo, os cromossomos antigos se extinguirão. Você só tem a perder.

E quando você se dá conta disso, vê que tu viraste um telégrafo, uma máquina de escrever, um rapaz bem apessoado que escreve poesias e quer se casar virgem (com a única mulher que conheceu). Não dá. Dá? A extinção te persegue e você só tem duas opções. Aceitá-la, e casar esses cromossomos estranhos com a solidão; ou pôr os valores no off, ou pelo menos no stand by. Os cromossomos ficam quietos, em silêncio. Eles aprenderam a fazer isso.

E aí você segue. Sem grandes progressos, sem manifestações fenotípicas de novos valores (indiferença e narcisismo e mais). Você, assim, sem sal, vai andando, vai pra frente. Faz de conta que tuas entranhas ficaram só cansadas. E assim, pra vida, deu.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Nós

É que fiquei com menos textos e com mais palavras. Fiquei com esses pensamentos desconexos. Com esses planos longos demais, só que possíveis demais, e bons. E não fáceis, e bons, e nossos. E fiquei com as certezas nossas e as dúvidas minhas, porque eu sou cheia de dúvidas, hoje eu errei o caminho tantas vezes por causa das dúvidas, e porque não sei dirigir atendendo o celular. Porra.

Fiquei com seus ombros de sobra, com suas costas à altura do afago, e com olhares de ternura incessantes e sinceros. Eternos. E mais de calmaria e de conforto, de zona de conforto. Com corações bem quentes, alegres. Meu coração vai bem alegre, saudoso, inquieto. Ansioso.

Vem mais ansiedade por aí. E assim começam a sobrar as certezas minhas.

É preciso parar de inventar estórias. De contar contos. De mergulhar textos mal feitos em passados já feitos.  É preciso abandonar a ficção, ou recriar os ocorridos. Pior ainda, recriar e reformar o ocorrido, à guisa de elaboração. É preciso abandonar isso, e falar de verdades. É preciso eu contar sobre hoje, e viver. Porque é real, e é meu. E é sua culpa. Outra certeza.

Um trecho ruim

Eu estava a caminho de casa, e agora dirijo atrás de você. Entraste no meu caminho. Eu vinha do meu caminho. E agora estás na minha frente. Agora, vão você, e a direção e o seu rumo, nada meu, não mais meus. Meu estômago esfriou e ferveu. A garganta secou, ficou muda, gritando, em um pranto para as entranhas. Deu show nesse dia. Eu sigo e você não me foge (não era essa a palavra que eu ia dizer!). Foge. Mas vai. Não me vê nem me sente nem tem garganta que pranteie. Você entrou no meu caminho, entrou no meio do caminho, não saiu mais do caminho. Interrompeu o meu, mas seguiu seu percurso. Tive de mudar meu percurso. Primeiro me adaptei ao caos do novo veículo. Segundo me adaptei a ausência do velho veículo. Vagou a garagem, o espaço e o caminho. E minha direção saiu do prumo.

Exbarro

Ela não falou comigo. Ela virou com pressa, eu subi com pressa, e os narizes quase toparam-se, como antes. Mas não. Nada como antes. Ela nem me olhou nos olhos, profundamente, como antes fazia. Ela nem vislumbrou mexer os lábios, esboçar sorriso, especialmente o falso sorriso do desconforto. Nem cumprimento. Nem disfarce. Divulgou seu ego inflado massacrado pela mágoa. Mas encoberto de orgulho. Não piscou, não reteve, não andou para trás, machucou-se com o encontro, machucou-me com a indiferença irreal, arrumou o óculos e foi. Caiu a caneta. E foi. Caiu a ficha, e então. O passado é presente, mas foi.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

A favor dos não atendedores de celular

Eu venho aqui falar em favor deles. De mim, claro. Meu negócio é sempre falar a favor de mim.

Nos dias de hoje, quem não atende celular costumeiramente do tipo sempre, é hostilizado, estigmatizado. "Vai ligar para Beatriz? Coitado. Força no send." "Nem ligue, que ela não atende." "Eu nunca liguei pra você pra você me atender de primeira." E a queixa campeã: "E se tivesse acontecido alguma coisa comigo?! E se acontecer alguma coisa comigo?! E se eu precisar de você em uma emergência?! Como é que faz, se você não atende o celular?!".

Meu filho, primeiro. Necessariamente, você é uma pessoa muito interesseira. A sua maior necessidade em falar comigo é para quando você precisar de alguma coisa? Por isso o seu desespero em eu não atendê-lo?

Agora que não atendo mesmo.

Eles nunca dizem "eu querendo te dar uma boa notícia, e você não me atende!". "Eu querendo ter notícias suas, saber de você, aqui chorando de saudade, e você não atende minha ligação." Ou, mais: "se eu estiver na emergência real de precisar tomar uma cerveja, você não vai me atender? Me atenda, pô". Isso não. Apesar de que eu já ouvi essas "queixas", autênticas queixas. Mas o negócio é a pessoa precisar de você.

Meu filho, segundo. Que tipo de pessoa eu sou pra você que, em uma emergência, você vai ligar logo pra mim? Eu não sou médica, nem tenho porte de armas, nem dirijo rápido, nem sou chefe de banca examinadora de períodicos científicos, responsável pelo prazo de envio do seu resumo. Por que, filho, seria tão emergente assim me ligar? Não posso te salvar de uma morte iminente, matar o assaltante da sua casa, nem invadir o computador do chefe da banca (porque também não sou hacker). Então, onde está a urgência escrita nas costas da minha camiseta?

Hoje, o fato de um telefone ser portátil significa que você deve atendê-lo em todo lugar e circunstância, e rápido, e logo, antes que a pessoa do outro lado comece a ter palpitações e reproduza o comportamento humano mais irritante no universo das telecomunicações: ligar euforicamente, repetidamente, como sob efeito de anfetamina, para o sujeito do outro lado da linha. Se a pessoa estiver no dentista, atende! No trânsito, atende! No banho, óbvio, atende!, quem é você para não carregar o celular junto contigo no banho? No meio do sexo, atende. É só parar e continuar depois, porque vai que é uma urgência!, e na sala de aula, claro, não existe essa desculpa. Afinal, você faz Psicologia. O que sua aula tem de tão importante para aprender?

Eu não ia nem rimar

Eu tinha um texto na minha cabeça, mas perdi. Não sei onde guardei. Em qual lobo ou giro ou cavidade misteriosa ele se enfiou. Ninguém da avaliação neuropsicológica para me ajudar a procurar. Não recomendam fazer a avaliação em estado absoluto de sonolência. Eu não me importo. Queria achar o texto. Onde estão esses parágrafos cheios de palavras para uma idéia só, que eu também não sei mais qual era? Eram dois textos, e eu só cuspi um. Tá faltando. Será que ficou na estante enquanto eu arrumava, compulsiva-obsessiva-tocniamente, os livros, quando eu troquei aqueles dois livros de lugar, acho que o texto se enfiou ali. Ou quando escrevia-o em minha cabeça, o paciente chegou, atendi, voltei, e saí bem rápido, e quando entrei apressada no carro, o texto caiu do bolso. Talvez guardei na geladeira, abrindo e fechando-a, decididindo o jantar, e, gelado, já era. Não era um texto para o gelo, nem para a frieza (simbólica) de um eletrodoméstico. Isso acho que lembro... Não salvei no pen drive mnemônimo, nem no bloco de notas que guardo dentro da minha bolsa, que é, concretamente, um bloco de notas. Nem na pauta da prova. Ah. Ficou na pauta da prova, no assunto, na questão, e na pauta da folha da prova onde eu tinha de escrever o assunto, a questão. Era um texto sobre esse assunto e aquela questão?

Perdi o texto que estava na minha cabeça. Dentro ou fora dela, o danado se escondeu. E quando isso acontece, irreversível, eu perdi o texto que era meu.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Divido

Até parece. Até parece que vou continuar sendo idiota assim, até parece que vou continuar sendo idiota demais. Eu antes era idiota demais por conferir culpa demais a outrem. Nunca pra mim, pra mim nem a culpa nem o crédito, nem a audácia, o ousar, nem o que tivesse vencido. Mas tudo começava pela culpa. Do outro. E depois tudo de bom e ruim que a precedia, e que sucedia-se a ela, ao outro.

Dei-me a chance da responsabilização, leia-se, da terapia. Do novo olhar. Ver de novo. Verde novo. Trocadilho desrepeitoso, para minhas condições de idiota. É um trocadilho idiota. Não. Não é. Me inflei com as responsabilidades. Me deitei sobre um colchão delas, coberta de culpas e expectativas alimentadas sozinhas, por mim e para mim, com o intuito único de me desagradar. E causar sofreguidão. Finalmente consegui usar a palavra sofreguidão em algum texto meu.

Parou. A culpa não é só minha dessa vez. As expectativas não foram só minhas, não foram sozinhas, nem sozinhas estão. Metade da culpa é sua. Mentira. Te dou mais da metade, pois foi você quem começou. Te dou minha culpa porque eu não mereço assim tanto, mas você sim. Te dou minha culpa porque as palavras prometem mais que os gestos. As palavras, junto com a saudade, prometem mais que a verdade, que o real. E quando elas vêm com gestos e verdade e muito do real, prometem o mundo.

Te devolvo a minha culpa. Não te dou inteira, porque, assumo, aceito, permiti o engano. Pois não sou forte assim, nem hei de ser. O que seria da minha vida e desse coração culpado, não eu acreditasse em palavras e em sonhos (nos meus sonhos)? Não seria nada demais: seria culpa.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Agora eu entendo a Síndrome de Underground

Agora eu entendo o "gostava quando ninguém gostava", ou quando era desconhecido, ou quando era "só a gente".

A síndrome de underground, já publicada nos anais do youtube, entendam por anais o termo estrito acadêmico, por favor, e também já veiculada e manjada (ficou tão manjado que eu não gosto mais do vídeo?), por outras redes sociais. Antes disso, isso, nas profundezas undergroundianas!, antes disso, do vídeo e da discussão desnecessária, o fato já era real e claro. Trata-se somente daquele cara que põe em palavras certas uns fatos que ninguém descreve, mas todo mundo vive. E vive faz tempo.

Todo mundo ri, certo, dos hipsters chilicando. Todo mundo também concorda que esse tipo de gente deveria materializar seu desejo pela profundeza underground e se trancar em um porão, é certo. Parando de falar "eu conheço faz tempo", "eu gostava como era antes".

Acontece que, eu, hoje, aqui, agora, preciso desse porão. Confesso. (Salga.)

A Síndrome de Underground pode te acometer quando a popularidade (urgh) ataca sua banda preferida, seu aplicativo de aifone, pois então, ou, o que me foi dolorido, o seu bar preferido.

A popularidade do seu bar preferido (e aqui também cabem os restaurantes) machuca a sua zona de conforto. Veja só como sou hipster. E sebosa. Mas ela cutuca e arregaça seu espaço não-privado que é só seu, dá uma valorizada, e, por fim, como fim, tira o que era seu. Entraram no seu quintal. Já era.

O bar muda. Ficou com cara de bar. Não me sinto mais em casa. O povo muda. Eu que gosto de ver sempre as mesmas pessoas no mesmo lugar com as mesmas companhias (que se intercambiam, vale o comentário) escorado na mesma pilastra ou sentadas à mesma mesa. Tem gente diferente. Tem muita gente diferente, e tem gente diferente demais. Desculpa, orkutizou. (Desculpa!) A comida não vem. O garçom é outro. Agora tem segurança na porta. E por quê? Orkutizou. Agora tem flanelinha (!). Não pode. O que é isso? Acabaram comigo, digo, com meu bar.

Vou ligar pra minha mãe, pra ela me levar pra casa. Ou é o de antes ou não é. Roubaram meu lugar, e me deixaram com síndrome hipster que envergonha.

Desculpa tamanha sinceridade. Mas eu gostava mais quando era antes.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Já se passaram cinco anos (?).

Faz cinco anos que estou em 2012. Faz tempo demais que a gente tá em 2012. E todo mundo ainda acha que o tempo passa rápido? Tá passando rápido? E todo mundo ainda acha que tá em 2012? Eu já cheguei em 2017, tenho certeza, ora essa.

Faz tempo demais que pulei quatorze (ou foram vinte e uma, talvez quarenta e nove) ondas na praia de Cotovelo. Tomando banho de Cidra velha que jogavam na gente. Faz tempo. Faz mais tempo ainda de eu ter mandado as mensagens para minhas colegas de curso, nessa mesma madrugada: "a gente se forma esse ano". Até porque nem era, seria só no próximo ano (2018). Quantos séculos faz isso?

Aquele meu primeiro paciente de 2012 deve ter virado adolescente. Aposto que namora (há cinco anos) aquela menina-mais-bonita-da-escola, que ele dizia ser apaixonado. Era lindo quando ele falava isso, na sala. Sinto a nostalgia aqui, agora, lembrando dele criança, pensando nele lembrando dele criança, apaixonado por outra criança. Hoje eles já são adolescentes, aposto que sim.

O livro que eu lia no começo de 2012 eu não sei mais qual era. Não tem como saber, né, afinal, cinco anos atrás, como eu poderia lembrar? Mas acho que eu estava vivendo dentro de um Guerra dos Tronos, ao longo do veraneio.

Esse veraneio, então, nossa, faz tempo demais. É tanto que o biquíne desse verão, óbvio, não cabe mais em mim. Não cobre mais o que deve cobrir, e eu tive de me desfazer dele. Cinco anos é tempo suficiente para o biquíne não caber mais, a barriguinha fazer vergonha, e, também, de se desfazer de mais roupas.

Eu devo ter feito umas seis faxinas no meu guarda-roupa desde então. É roupa demais para a caridade. Então é óbvio que não estamos ainda no mesmo ano...

De lá pra cá, atendi tantos pacientes, tive tantas reuniões, tantas supervisões, duas, três, por semana, me desfiz de tantos laudos, e contemplei tantos futuros diferentes... Meu futuro mudou várias vezes do início de 2012 pra cá. Umas quatro ou cinco. Mais. Mais! Eu fui de neuropsicóloga para psicóloga clínica para livreira para editora de livros para escritora para professora de literatura para neuropsicóloga novamente para desistir de ser psicóloga e não saber mais o que eu quero fazer. Tudo isso em um ano? Mentira.

Desde o início de 2012, menina, luto para escrever um artigo que seja referente ao meu estágio. Acho que fiz três páginas, nesses cinco anos. Nada além. Foram cinco anos muito ocupados, não sei bem do quê, porque eles passaram logo, e foram difíceis, me deram uma amnésiazinha, que também me deixa confusa na minha orientação temporal... Agora acho que fazem dez, dez anos.

Eu fui inúmeras vezes ao mesmo bar. Comi inúmeras vezes os mesmos pratos do mesmo bar, e olhe que eu variava, e vi inúmeras vezes as mesmas pessoas nesse mesmo bar, deu para saborear um estudo antropológico longitudinal nesse tempo.

Eu escrevi demais. Eu fiquei bêbada uma vez (para cinco anos, tá na média). Eu tive mais de um episódio depressivo. Eu perdi quilos. Eu engordei quilos. Eu escrevi dois projetos de mestrado. Eu perdi uma pessoa. Eu ganhei muitos amigos - muitos, bons, novos, grandes amigos. E além dos amigos eu encontrei parceiros. Eu fiz um aniversariozão de namoro (por que comemoramos só um ano?; são cinco!). Eu planejei cinco viagens. Eu vou fazer uma viagem. Tive um amigo que foi morar longe. Tenho mais amigo que deve ir pra longe. Eu fiquei anos sem ver algumas pessoas. Eu tive cabelo longo e curto. Não fiquei gripada. Tive dezenas de diarréias por ansiedade (em cino anos, você me conhece, jamais eu conseguiria mensurar uma coisa dessas), e outras dezenas por comer coisa suja. Não doei sangue, tirei o piercing, fiquei calva novamente, e mais de quarenta e uma vezes, gargalhei até chorar; outras vinte e seis, gargalhei até fazer um pouquinho de xixi. Não tomei banho de mar.

Lá se vão cinco anos.

Que porra é essa, ainda ser 2012?

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

É normal

Começa com pouca pretensão. Começa com loucura. Começa com propósito. Ou porque dois acasos absurdos levam a um caminho em comum. Não importa como comece. Importa por que tantas vezes há término sem haver um fim. E de quem é a culpa?

Fomos reunindo palavras e gargalhadas e pensamentos iguais. E planos para o futuro, e cafés e cervejas. Fomos reunindo destroços desnecessários, fazendo-os desnecessários, chamando-os assim, e então limpando nossa aura. Fomos contando dias para um grande dia, colecionando viagens, também decepções que viraram piadas, pois não há boa decepção nem boa vida que não seja repleta de piadas.

E algum dia o cosmos sofreu desalinho e a gente também. Ou a gente dormiu do lado errado, levantou com o pé errado, trocou de gênio, e já era. Ou a gente guardou para a distância e a comodidade um lugar maior do que deveriam ter. Elas que nem merecem lugar nessa nossa órbita.

E as conversas cessam e se remetem aos problemas. E os problemas cessam e viram um só. E o só problema vira recorrente e a amizade recorrente para tanto. E então quem sabe uma cerveja. E a gente não se conhece mais.

O comodismo e a dúvida tomaram o nosso lugar, antes tão certo, e tornou a saudade uma estranha, a conversa um alienígena. Fez o abraço desnecessário ou pouco real. Pouco sincero. Agora é assim que a gente se conhece. Acabou, sem ninguém ter dito ou notado que era chegado o fim. Era um amigo, agora é uma pessoa querida - porque fora um amigo.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Fala-se

Falou para mim que tinha o medo da troca. Falei que era o medo da traição, por conhecer a traição. Falou que era o medo de ser abandonado repentinamente, sem motivo, sem sorte, como sempre havia feito. Como sempre havia feito? E sem motivo? E com desdém? Quase. Era esse o novo medo, agora sim, era possibilidade. Falei que entendia. Falei que já havia sido deixada num repente, envolta em fumaça de desmotivos, de não vestígios, e só dúvidas, que manipularam toda a minha dor. Falei que doeu. Falei que não o fizesse, que pensasse antes do primeiro passo, pois o primeiro passo e os poucos próximos são de causar alvoroço, expectativa. Lembrei-lhe da minha dor, que, só de ouvir falar, de ouvir ser falada, me deu, me doeu doendo.  Lembrou-se. Sabia. E falou-me: não iria fazê-lo.

E se o falar fosse assim sempre fazer, a vida tinha mais de alegrias e jus.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

É que sou eu

Eu tiro os óculos para comer. Eu evito de abrir e fechar guarda-chuvas, eu não gosto, eu tinha medo. Eu passo cinco vezes desodorante antes de sair de casa. E do elevador volto e tiro toda a roupa e passo mais uma vez. Pra garantir. Eu não gosto de emprestar livros. É contra minha religião. As poucas exceções que abri (três?) me trouxeram arrependimentos quase todas (cinco das três). Eu não sei fazer uma coisa de cada vez. Eu não sei fazer várias coisas ao mesmo tempo, esse gene feminino me faltou. Sofro de síndrome de perseguição. Alguém me persegue. Muitos me perseguem. Eu não gosto que me chame de Beatriz se você não tem muita intimidade comigo. Então você tem que me chamar de Bia. Mas pode me chamar de Bia também tendo intimidade comigo. À escolha. Só que intimidade é um conceito muito relativo, que a cada dia eu mudo. E, dependendo do dia, você não tem intimidade comigo, ou tem. E nunca me pergunte "no que você está pensando?". Se eu estou só pensando, e não dizendo, é porque eu não quero compartilhar. Não me faça perguntas se você só aceita "sim" ou "não". "Responda, responda". "É porque...". "Não. Diga sim ou não. Sim ou não?". "Eu acho que...". "Sim ou não?". Tome no cu. E aprenda a conversar. Mas eu não gosto de conversar. Só às vezes. Tem vezes que eu vejo alguém conhecido e desvio o caminho. Se o alguém conhecido não for tão conhecido assim, e exigir mais esforço em habilidades sociais (sorrisos, criatividade em iniciar e manter diálogo), eu fujo. Eu fujo! É preciso organizar meu quarto pela terceira vez hoje, senão não é possível dormir. É preciso fechar as portas do guarda-roupa, senão não é possível estudar. Não é possível! É preciso enfileirar os livros ainda melhor, e logo, e todos, para que eu consiga desfocar minha atenção. E por falar em atenção, eu poderia ter anotado... Esqueci o desodorante?

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Feliz um ano do primeiro beijo

Feliz um ano do primeiro beijo. Feliz um ano do deixar-se envolver. Feliz um ano do apostar, da nova aposta, concomitante a grande torcida. Feliz um ano do alcance, da novidade, do esperado, do desejo. De novos e tantos desejos, também antigos desejos. Feliz um ano do que fora consumado, agora reinventado, renovado, límpido e nosso. Feliz um ano de felicidade. Feliz um ano para quem acredita, para quem cultiva, e, então, conserva, sem reserva, vive de cuidar. Se cuide. E você me cuide. Ok. Feliz um ano de novos anos, de novos beijos. Beijos. Amor.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Com Carito,

Foi mais com curiosidade que entusiasmo que me dei a ler meu livro novo: Atestado de Órbita, de Carito Cavalcanti. Pesquei um comentário positivo sobre o livro enquanto escolhia qual dos muitos comprar. Como eu sei que, comprando o livro, não compraria também o tempo em lê-lo (não a essa altura do ano), me dignifiquei a ficar somente com um. Fui experimentar.

E enquanto atolo e furo a fila de livros em espera, desrespeitando, por exemplo, um Mario Prata e ainda os Monterroso, me dispus a folhear o Atestado e... não consegui mais parar. É livro de se ler de um fôlego só, de rir, às vezes até alto, e de compartilhar com quem estiver por perto o que o autor te diz, se diz (sem trocadilho caritês).

É um livro livre, de palavras bem escolhidas, ou pouco escolhidas, porque livres, e mais, é um livro belo. Eu achei. Me surpreendi com a escrita solta, as galhofas, as verdades, o sincero Carito. Não conheço, assim, de conhecer mesmo, o autor, só de autógrafo de lateralidade suspeita (igual à minha), mas é um livro que te faz pensar sobre quem o escreveu - tanto quanto ou mais que as próprias historietas.

E fiquei a adivinhar se ele tem um bloco de anotações nervoso, onde faz anotações nervosas, porque a cada palavra, ele vê poesia, e escreve. Ou se ele usa algum eletrônico do tipo ipad (?) para ajudá-lo em ser mais rápido. Duvido. Ele tem aura de poeta autêntico, não modernoso para assuntos de sua própria literatura. Imaginei um Carito que enquanto está numa conversa, não está. Porque a cada palavra, sua cabeça cria poemas e textos inteiros, e trocadilhos e quebras em letras, e novas palavras e neologismos que ele vai... Seria o Carito uma espécime de Transtorno de Déficit de Atenção, com hiperfoco nas palavras e seus sons? Não, nas palavras e sua semântica, e mais, nas palavras e seus sons e semântica e seus grafismos. Um TDA com suposta alta habilidade. Eu vejo.

O livro é surpreendente, leve, gostoso de se ler. Tem gente que não gosta quando você usa adjetivos próprios para outra categoria de substantivos (alimentos - gostoso), mas é que eu tentei ser mais concreta. É um livro de poesia concreto.

Seguem trechos. (Aviso de alerta para leitores disléxicos.)

~
Minha poesia nasce do espanto. Minha poesia nasce do ex-pranto. (...)

~
Aparelho de barbear para peles sensíveis, pasta
de dentes para dentes frágeis e gengivas delicadas...
Mas não há nada para corações sensíveis, frágeis,
delicados...
Supermercado reieira.

~
poeta é assim mesmo triste
ao morrer de desgosto
o poema cai
no meu gosto.

~
Tenho medo de objetos cortantes. 
Principalmente palavras.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Não mais adiar

Sim, o livro, é preciso terminar de escrevê-lo. É preciso correr com ele, cuspi-lo e vomitá-lo, nos sentidos honestos e desonestos dessas palavras. Porque é preciso ser honesta comigo mesma. É preciso percorrer toda a história e repeti-la, e cansá-la, até ficar exausta - a história. Eu já não estou mais exausta. Se quando estive isso não me ajudou, então não vou estar. E se essa regra aplicar-se ao mal estar, melhor, mas não, não se aplicou. Então retiro alguma vantagem disso, que não há, porque é um fim sem vantagens, uma lembrança sem propósito. E falar e ouvir traz convidados indesejáveis. Pois se há vantagem na não infelicidade, que seja o livro. É preciso terminá-lo, e fim.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

A ressaca e o depois

Demorei para escrever sobre a eleição porque pensei demais sobre escrever sobre a eleição. Pois não entendo de política. Não acompanho, me dá preguiça, às vezes, não sei das informações vindas da fonte, mas só do ouvir falar. Eu acompanhava quando a redação do vestibular me ameaçava com esse tema, e eu tinha de me garantir na prova. Cinco anos depois, estou na mesma situação, mas nem isso. Meu mundo cor-de-rosa de psicologuismos me prende e me traz confortos, muitos confortos.

Acontece que, em determinadas circunstâncias e momentos de sua vida (você se torna adulto e um pouco responsável e um pouco consciente), ao menos um pouco de política você tem de provar, tem de tirar uma mordida. Isso equivale a ler, votar, e, principalmente, pensar.

Eu hoje dirigia pelas bê erres 101 e 304 para mais um dia de estágio curricular. E com a ressaca de ontem, extremamente surpreendida ainda, pois eu vi o placar se inverter só porque subi para tomar banho e voltei (não era para eu ter tomado banho), em um curto e inacreditável intervalo de tempo. Eu lembrei que, por quase cinco anos, eu não almejei sinceramente estar fazendo o que eu estava fazendo no momento em que pensava sobre o que estava fazendo. Na verdade, antes desses cinco anos, eu já não quis fazer, quis "radicalizar", como bem diriam meus pais conservadores (sem o sentido político, apesar de que essa qualificação também caiba neles). Só que faltou coragem. Eu pude apelar para a extrema racionalidade da parte deles, para o caminho dito mais confortável e seguro. Disse que não. Eu pude apelar para o meu caminho, arriscado, novo, até pueril. Também não. Escolhi um meio termo por causa do medo de que desse errado, e do medo da represália - que faz parte.

Eu continuei, ao longo dos anos, querendo mudar. Não mudei. Porque, assim, não estava assim tão ruim... Estava bom. Às vezes achava que era eu que não via o lado bom das coisas (de tudo). Mas, outras vezes, eu criava uma convicção sincera de que tinha de mudar. Mas, na hora H, é preciso pensar melhor... E deixar para depois.

O medo da mudança me trouxe a um caminho que não escolhi deliberadamente. É um caminho que não me faz infeliz (não mais), mas não foi o caminho da mudança, de modo algum. Foi a escolha brotada pelo meu mundo cor-de-rosa confortável, citado aí mais acima.

E é com medo de fazer diferente, que a gente não faz. Que a gente não desiste do casamento, não muda o emprego, nem tranca a faculdade. Que a gente come o mesmo prato no mesmo restaurante de sempres (plural), que optamos pelos destinos conhecidos em viagens, em experiências, e é por medo de mudar que vamos a cartomantes, por que não ir? Eu fui. Assim, a gente dá uma repicada no cabelo porque teme cortá-lo (por mais que queira), muda o prato mas não o restaurante, propõe a segunda lua de mel para não ir em busca de um segundo marido, e se atrapalha com "projetos paralelos" para não desistir do emprego que faz mal.

Pode ser que esse seja o tipo se insight sem nenhum sentido, porque falo muito intimamente de um plano individual, pessoal. Mas me explica, de alguma forma, quando milhares de individuais, de sujeitos com medo de mudança sustentem uma não mudança, ou leves mudanças, mas nunca uma mudança completa, porque isso lhes dá medo demais. Não dá para confiar no diferente, dá? Ou você acredita no seu oposto à primeira vista? Eu não. Mas posso tentar acreditar nele depois de muitas vistas, encontros, anos. Ainda assim, é capaz (é prudente!) deixar sempre meu pé atrás, por via das dúvidas (que são muitas, que só pendem para o lado ruim).

E assim que província é sempre província. A gente tem medo de deixar de sê-la. De mudar sua cor e seu nome oligárquico, de mudar a governanta da casa grande. Eu compreendo a dificuldade, aliás, fiz psicologia senão para que, para compreender o que os demais sentem. (Fiz pelo medo de mudar, também, mas, não vou me entregar tanto mais hoje.)

Eu espero que a gente tenha mais coragem. Eu quero que eu tenha mais coragem. Ontem, por exemplo, eu apostei na mudança. Não venci. Mas já dei o meu primeiro passo.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Beatrizes

Então eu ponho para tocar nossa música, nossa música preferida. E foi sem intenção, sem esse fim específico, simplesmente calhou de eu querer ouvi-la. Então eu tomo banho enquanto ouço e vivo noutro tempo, noutra era, quiçá. Aquilo era outra era. Então eu danço sem movimentar-me, danço em devaneios, em pensamentos encontrados, muito bem encontrados. Eu volto aos seus braços e te ponho do meu lado, bem do meu lado, bem se parecendo comigo, que nem antes.

A música me pergunta onde o fio da meada desprendeu-se, onde a melodia entrou em um ouvido diferente, e fez desse ouvido diferente uma história outra, um caminho novo. Um caminho novo e longe. Eu evito me defrontar no espelho para não perceber a diferença, pergunto se as alças tecnológicas e as demais gambiarras que foram feitas estão realmente dando conta, e, é mais claro que a enorme distância, jamais darão.

A música me traz a sua presença e os seus ideais. Me traz o espelho que eu realmente desejo, não esse de agora. Ah, esse agora. E então eu me ponho a pensar, à medida em que há música, se é possível reinventar e viver um novo melhor. Eu espero que sim. Pois pareceu distante demais, até impossível, o estado real e antigo de nossos pensamentos, sorrisos e respiração em ritmos idênticos, e nossos.

Vou em busca.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Sou uma farsa

Sim, acho mesmo que eu poderia mudar de casa. Porque o caminho de volta, sempre o mesmo caminho de volta, e, quando não é o mesmo, sei por quê não é, deliberadamente escolhi fazer diferente pelo motivo mesmo, vai me trazer as mesmas imagens. Quase que sempre. O horário da noite, ou o ar de domingo à tarde. Domingo à tarde. E a casa, a minha casa. 

Então, se o retorno e a permanência em mesmo lugar deixam todas as outras coisas, simbolicamente, em mesmo lugar, eu é que preciso sair dele. Não? Nada mudou, essencialmente. O que aconteceu foi que eu descobri indumentárias diferentes, um ou outro ar diferente, porque o ar eu também pensei em mudar, eu também tive de mudar, mas só foi possível muito pouco, e nesses ares e indumentárias e máscaras, foi como eu consegui continuar. Foi como eu adormeci e acordei dias e dias, e mais, é como hoje eu planejo meu futuro. Tive de escolher novas roupas, tive de usá-las, de novo, simbolicamente, preciso deixar isso claro?, e assim ir. Exato, foi mais uma nova pele, novas peles, outras. E assim sinto-me mentirosa, indecente, também fútil. Porque adquiri superfícies, vivo de construí-las, mantê-las, cuidá-las para que o desastre não se dê - eu volte exatamente ao de antes, em carne e osso. 

Estou sendo uma farsa para quem senão para mim mesma. Cabe interrogação (?).

Passa tempo

Então sempre vai ser assim? Então sempre vai doer, e sempre vou lembrar sem querer, ver sem querer, e sentir por que não tenho outra escolha? Então sempre vou achar que o problema foi meu. Que o investimento, antes da rejeição, é o pior castigo que alguém pode ter, e por que, por que comigo, e por que mais de uma vez. Uma segunda vez. E então vou escrever de maxilar travado e de dedos frouxos, e me arriscando a afirmações peremptórias que não sinto, não é bem isso, não vai ser mais assim, e passou. Passou.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Que seja, e sou

Eu sou de livros interminados, de contos impublicáveis, de histórias com melodia chorosa, melodia intensa e triste. Sou de palavras que não são doces, de gestos que me denunciam, de olhares de esguelha, às vezes, até, falsos abraços, mais ainda, falsos sorrisos. Sou de temer e fingir, quando dá, quando devo. Sou de um eterno desamor frente ao espelho, frente a retina cerrada, ou seja, olhando para dentro de mim mesma. Desamo. Sou de tiques nervosos e maltratos à pele e denúncias desse desamor sob a forma de tocs, tenho tocs, e mais tocs de não me toques. Não me toques, que doo, e fere, e apaga-se em dor. Sou de palavras não ditas, de comportamentos velados, de penumbra, de pouca cor. Porque sou de fraquezas desmensuradas, intempestivas, e, há quem diga, inventadas.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Quando o porteiro comemorou comigo

Os fatos ruins e atrapalhosos nunca acontecem isolados. Eles obedecem a uma sequência rigorosa: manhã, tarde e noite de um mesmo dia. Os fatos atrapalhosos não te encontram em companhia adequada, nem em bons lençóis. Eles só te pegam desprevenida e na solidão do lar, ou, no meu caso hoje, imediatamente fora dele.

Essa semana fui deixar minha mãe para ir viajar (essa frase não tem tanto sentido), e ela foi até seu carro pegar algum objeto que provavelmente não encontrou - ela nunca encontra o que procura no carro dela, às vésperas de um compromisso ou viagem. Entrou no meu carro, desfez-se da chave do carro, e foi-se depois que deixei-a. Hoje, ela ainda viajando, eu sem gasolina, o carro dela com gasolina, o meu tênis no carro dela, cenário perfeito: peguei as chaves dela e desci rumo à minha caminhada... que nunca aconteceu.

Foi só entrar no elevador que, puta que pariu, o chaveiro sem a chave de casa. Porque minha mãe foi feliz em lembrar de tirar a chave de casa para quando voltar pra Natal, ser independente ao chegar em casa. E eu, infeliz, tapada e atrapalhada, no fim de um dia em que tudo, óbvio, deu errado, presa do lado de fora. Porque, sim, amigos, aqui em casa, a fechadura moderna é dessas que, do lado de fora, só se abre com chave.

O cara que inventou essa fechadura infeliz é do tipo de gente que teima em viver dizendo: "tudo tem seu lado bom e seu lado ruim". É o cara que inventou a metáfora da faca de dois legumes, que materializou a metáfora dos dois lados da moeda. Foi o filho da puta que me tirou do sério hoje.

Na portaria, peço socorro a Santo Antônio, digo, a Seu Antônio, nosso porteiro mais antigo, e o segundo Seu Antônio porteiro que conheço em vida. Esse é gente boa, o outro parecia uma assombração. Eu resmungo e choramingo no pé da escada junto dele, pergunto "o que a gente faz?!", e peço uma escada para pular a porta, afinal, quebrou-se o vidro fosco que havia no vão superior da porta da sala, e eu ainda me caibo por ali. Acho. Mas Seu Antônio ficou preocupado: e como é que você vai pular do outro lado? E será que você não vai cair? E você vai se segurar? Ou, Bia, e eu tô sozinho aqui... Não tinha nem um sujeito pra ir comigo me dar o apoio moral, e ouvir eu me estabacar no chão. Seu Antônio me negava a escada, por mais que eu dissesse que poderia pular. Enquanto isso, eu tinha raiva da fechadura, do imbecil da fechadura, da proprietária do apartamento que botara a fechadura, e da minha cachorra inútil que fornicava com a toalha e as cortinas, aproveitando todo o seu cio também inútil, enquanto eu me exasperava sem teto, sem ter quem me abrisse a porta da minha esperança.

Fiz Seu Antônio procurar um chaveiro, um vândalo, um maluco qualquer que pudesse me livrar dessa. Perguntei se ele não teria um colchonete: eu jogo o colchonete, pulo, e abro a porta, Seu Antônio. Coisa mais simples! O colchonete que tem aqui é de dar nojo, Bia. E não me deu. Ele não queria que eu me machucasse nem ficasse fedendo. E eu só queria entrar em casa.

Seu Antônio não tinha telefone de chaveiro nenhum, mas procurava, ou fingia que. Fui no carro pegar meu celular que eu tinha jogado lá quando desci. E então lembrei: a pessoa que trabalha aqui em casa tem a chave da área da serviço! Ficou só a dúvida cruel: a porta de serviço está com a corrente passada? Tensão.

Falei para Seu Antônio: vou lá na casa dela, volto, se tiver com corrente, pego a escada, um cabo de vassoura, e a gente abre a porta! Fechado? Fechado, boa sorte! E eu saí com suas bençãos.

Voltei com a chave, entrando na garagem, ele me dá um joinha, pergunta se deu certo a primeira parte do plano. "Interfono lá de cima se tiver dado!". Subo ansiosa, é o elevador de serviço que já me espera, então, bons presságios, vai dar certo, (quando a gente quer forçar algo a dar certo, a gente vê qualquer coisa que aconteça e interpreta como sinal), faço figa, ABRIU. Entrei. Dei logo de cara com os cocôs da cachorra e as roupas sujas da lavanderia. E nunca, a não ser quando passei uma semana de carnaval em Caicó, senti tanta satisfação ao entrar em casa, ao voltar para casa.

Na felicidade, interfonei, Seu Antônio deveria ser o primeiro a saber: Seu Antônio, deu certo, consegui! 'Valeeeeeeeeeu, Biaaaaaaa!!!!!', ele me responde como quem sorri e fica aliviado, me responde quase como quem grita "Gol", como quem me vê passar no vestibular depois de anos.  Exagerei.

A gente se congratulou e comemorou junto no interfone, cada um deu uma gargalhada, eu agradeci, ele agradeceu também (?), acho que porque não pulei a porta e quebrei um pescoço. A gente ficou feliz, eu achei graça, e não saí de casa mais.

Vou esperar Ana chegar amanhã para eu poder sair, não quero correr mais riscos.

E era só isso.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Quando eu senti ciúme

E eu me assustei, não acreditei, senti raiva, quis apagar o texto que não era meu. Me inquietei, bati os dedos na mesa, sapateei meus pés calçados em sapatos barulhentos, barulho, fiz barulho. Embrulhei o estômago, fiz para sempre um nó na garganta, ardi os olhos. Não chorei, não menti. Disfarcei. Evitei olhar, evitei o olhar. Sorri amareladamente. E, então, senti raiva por sentir raiva, chorei por não ter chorado, não disfarcei e emudeci. Desliguei os contatos, apaguei as letras do meu texto, as únicas que podia apagar, ou transformei-o em rascunho de baixo calão - esses que não saem da gaveta (da cabeça). Não apaguei fogo nenhum, deixei incendiar, só não incendiar-me. E, como quem tem experiência, sumi. Deixei por lá só o meu ciúme, que arde. Que vergonha, que arde.

Hoje

Não, não é ele. Não pode ser bem ele. Ele não tem esse andar rápido assim, seguro em tanto. Ele não vai como quem tem certeza de que vai. Esse aí sim. Ele nunca me olhou sem discrição, ele não vira o pescoço ao que o chama a atenção. Ele tem um passar mão em cabelo, assentá-lo, como quem disfarça - sempre de tudo. E mais aqueles olhos raros que disfarçam quando para onde ele quer ver. E dissimulam. Que dissimula. Não é ele que me vem, que me vê...

Quando me aproximei, sim, era você, só que outro.

sábado, 22 de setembro de 2012

Compras em Natal

Eu sou aquele tipo de gente que gosta de compras, roupas e sapatos, e coisas novas, não tudo, não sempre, mas às vezes, e que até folheia blogs de moda, mas que detesta ir às vias de fato: as compras. Compras têm algumas regras desanimadoras universais, as responsáveis por te fazer odiar esse programa de sábados vespertinos. Uma delas é que, quando você realmente precisar de algo, você nunca vai encontrar. Em segundo, sua consequência: quando você não precisava disso, você sempre encontrava disso. E também: na loja, veste bem, em casa, te faz bruaca e gorda. Aliás, há um paradoxo importante a se considerar: se estás magra, e vai às compras, sentindo-se em sex and the city ou similares, semanas depois, quilos depois, você vai se arrepender e amargar a roupa. Se estás gorda, e vai às compras, para evitar essa chateação futura, é verdade que você não vai conseguir nem querer comprar nada, pois, óbvio, você está gorda.

Daí que de tanto odiar compras e shopings e, por vezes, vendedoras de lojas, eu evitei essas malditas.

Dias atrás, precisei ir procurar por vestidos de festa (casamento, formatura, etcétera). Não existem. Não sei onde se escondem, ou onde escondem-nos. Mas eles só existem nos corpos das pessoas nas festas, e nos ateliês fantasmagóricos de costureiras de família. Nas lojas, não têm. Mas, já que eu já estava lá, né, e, loja vai loja vem, vou olhar umas coisinhas e quem sabe... Não. Três centímetros de algodão, moça, quanto está? Cento e oitenta e nove reais. E esses dois centímetros e meio? Cento e setenta e nove. E noventa.

Certo. Mas, por quê? Tentei imaginar se era o nível (primeiro, segundo, ou terceiro piso do shopping) da loja, se era uma consequência básica da economia, inflação, queimadas em plantações de algodão por todo o país... sei lá. Eu que não entendo nada de economia, pensando em economia. Rá. É que só me perguntava por quê, por quê?, qualquer tiquinho de roupa estava arrancando todo o dinheiro da minha carteira, só de olhá-lo.

Outro inconveniente das compras são os vendedores. Que me desculpem os vendedores gentes boa, ou os de bom senso, mas, te digo, primeiro, é difícil de aturar quando eles não te atendem. Por que, ué, essa daí tem cara de estudante, não sei o que ela faz aqui. Ou então aquele vendedor que você logo saca o ar pé no saco e avisa: estou só olhando. Ponto final peremptório. Mas ele te segue por toda a loja, se você jogar o cabelo para trás, virar repentinamente, dar meio passo para trás, para checar a blusa da arara anterior, derruba o danado no chão. E ele não pára: "essa é da nova coleção". "Essas chegou ontem!". "Essa arara tá com quarenta por cento de desconto!". Você fica tão sufocado, que sente-se mal, hiperventila, sua frio. E sai da loja antes que ela tire sua roupa e coloque a da loja em você, ou arranque seus cartões de crédito de uma vez.

Eis que me surge hoje novo capítulo da mesma história: agora, fazendo compras masculinas em Natal. É que não tem. Que os meus três leitores não me entendam mal, aliás, acho mesmo que não irão, pois cinco a cada três deles, partilham opiniões semelhantes quanto a isso. Em todas as lojas, em todos os níveis (pisos) dessa cidade (shopping Midway), todas as camisas tinham ou gola Vê ou alguém tinha rasgado a gola delas. Gola V, gola rasgada, gola V, gola rasgada... Acho que cada um tem direito a vestir o que quiser, mas a maior parte dos meus amigos não-gays (são poucos), e o meu namorado não vestiriam golas rasgadas, deixando as omoplatas desnutridas aparentes, menos ainda a gola V, salientando os pêlos de cafajeste que cultivam com seus orgulhos heterossexuais. (Se bem que prefiro o orgulho homossexual de retirá-los.)

E eis que voltei para casa sem roupa (só com a do corpo), e esclarecida por que na minha cidade todas as pessoas estão iguais o tempo inteiro (não sei quem começou o ciclo vicioso: se elas que causaram isso nas lojas, ou se as lojas que vestiram todas elas, e ficou por isso mesmo). E ficou por isso mesmo.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Hoje achei meus pés pequenos demais. Achei minhas unhas infantis, meus olhos menores do que são, a boca sumida. Hoje as roupas não me couberam, o sapato ao invés de me doer, caiu. Não sustentei bem o lápis nem minha altura, que já vem pouca. Hoje não encontrei meu sorriso. Hoje fui lembrada que deixei uma parte bem grande de mim para trás. Guardei o mínimo possível, e virou fardo.

Antes e agora. Depois, antes.

Eu mudei tanto que não me reconheço mais. Eu investi tanto na razão e no rigor, insisti para que não sentisse tão demasiadamente. Pois eu sofria demasiadamente. Fui fazendo o caminho inverso, o qual parecia desnecessário, digo, necessário. As palavras me traem. Viu? As palavras hoje às vezes me traem. Porque quero por vezes usá-las infielmente: sem meu coração. Que por mais demenciado que tenha se tornado, ainda rende um bocado. Ainda me serve, me guia, quiçá me protege. Mas eu não permito.

Eu quero meu eu de volta. Quero minhas expectativas grandes e pequenas, meu coração maltratado e poderoso. Quero a entrega novamente como minha condição para ser. Quero me ter novamente, com dores velhas e amores gigantes. Quero eu.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Um adeus desajeitado

Deixei uma carta pra você com o André. Logo ele vai te entregar. Combinei que seria assim que eu decolasse, mas, realmente, preferiria que fosse um pouco antes. E que eu corresse o risco de você chegar a tempo. Para me dar um abraço sem palavras.

Eu escrevi várias cartas, eu reescrevi e editei esse texto, que, em alguns momentos, não parecia que era meu. Porque eu não estava sendo eu, eu não pude ser eu. Escrevi um, de fato, na bravura da autenticidade, com as palavras raivosas que são o que eu sinto agora. Ele ficou confuso. Como eu sou agora. Ou não irias entender nada, ou iria ficar claro demais. E seria constrangedor. Eu não quero que seja mais constrangedor do que já é, só que só para mim, e mais confuso para você do que já está - só que também está bastante confuso para mim.

Eu falo e peço o óbvio: que me deixe em paz, que me dê alguma paz. Que não me importune com palavras que dizem mais do que elas mesmas, para então, e só então, depois de uma expectativa e ilusão tão bem alimentadas, eu ver que não era nada daquilo. E me sentir patética. Foi tão ruim, e ainda é. Espero que na carta fique claro, eu tentei deixar claro, e que as entrelinhas te gritem meu desespero. Espero que me deixe em paz. Ou queria mesmo que não.

Clara.


— O que me arrebenta é que ela não disse "Eu não te amo mais". Saiu me amando. Saber que o outro se separou e ainda te ama é uma esperança insuportável. Uma tortura. Acho que ela se dará conta de sua mancada a qualquer hora. Mas "acho" dentro do total ceticismo, não a vejo vindo ao encontro, não teve sequer coragem de conversar. (Carpinejar)

domingo, 16 de setembro de 2012

Rótulos para todos

Eu tenho dificuldades com rótulos. Até aprendê-los, evidentemente. Quando aprendo, eu gosto de ficar rotulando todo mundo - depois de conhecê-las bem. Assim, just for fun.

Tipo, pessoas que dizem sempre frases em inglês, just for fun, tipo eu, dizendo aí em cima, just for fun, vixe, nem tenho rótulo para elas, mas são do tipo que podem escorregar para um tipo desprezível. Tem gente que me chama de pseudocult, por exemplo, mas eu preciso me deter isso mais à frente, em outro texto. Tem gente que era patricinha e vira roqueira, e "enlouquece" no show do foo figters! E por aí vai.

Mas os rótulos estão avançando e se modernizando e se complexizando (?) em uma velocidade que eu não acompanho. Tipo as tecnologias, né, porque até hoje eu nunca tive um ipode ou ifone nem nada do steve jobs. Só uma biografia dele, que dei de presente. E eu não sei mexer em nada disso, também. Sempre que colocam um aparelho tecnológico na minha mão, em cinco segundos eu grito "chega!, ajeita aqui!, quebrei.".

Pois parece que meus estudos etonográficos feitos à paisana estão sendo muito poucos. Ou estou discutindo muito pouco sobre eles. As rotulações modernas carecem de explicação, no meu caso, e eu começo a receber a alcunha de velha, perguntando o que são essas "gírias" novas, da galera!

Eu estava no pub, aí me aproximei dos meus amigos, eles já conversando sobre um assunto específico, e uma delas, explicando para o outro: pronto, esse óculos de Bia é hipster. Eu: muitas interrogações. O que é hipster, como assim hipster? Que porra é essa, de meu óculos ser hipster, ninguém na loja me falou nada disso! E disseram que era tipo ser nerd e estiloso. E eu: mas então não é nerd. Porque meu rótulo, digo, conceito, digo rótulo mesmo, de nerd, não engloba ser estiloso. Ou sim?

Meu pai não aceita que "estiloso" seja uma palavra parte do meu vocabulário. Foi uma palavra que empreguei quando comprei esse mesmo óculos 'hipster'. Será que ele estava me chamando de antiquada? Favorecendo o uso do 'hipster' no lugar? Nem perguntei.

Eu fui, então, comprar uma camiseta de presente, e pedi opinião. "Não, Bia, essa é muito indie". Hã? Por algum motivo, eu associo indie com hippies, e não hipster!, mas meu amigo disse ser: um fenômeno meio homossexual que existe entre os jovens de hoje em dia.

Meio homossexual? Quem é bicha, é bicha. Por que você não diz que a roupa era meio bicha (e não era)? De novo, só posso estar muito antiquada.

Eu agora travo uma conversa com Laurinha, que tenta me explicar os conceitos complexos para tantos fenômenos em nossa sociedade pós-pós-moderna. Eu só fiz um comentário sobre o filme que vi hoje, e ela, além de concordar comigo que o filme é mesmo maravilhoso, fez a seguinte colocação sobre o longametragem: super hipster cult hoje em dia. (Era uma colocação descontraída, lúdica, de tiração de onda, porque ela não fala assim, realmentemente).

Hm. Espera aí! Me explica tudo isso! O que está acontecendo? O que são todas essas palavras? E ela, que, via estudos empíricos, observações antropológicas, e reflexões próprias, me deu algumas pistas. É, só pistas, porque ainda não ficou claro para mim. Pareceu tudo tipo um fenômeno meio homossexual meio qualquer outra coisa que tentam achar rótulos cheios de especificidades.

- Peraí, me diz, o que é hipster? O que é hipster, o que é indie? 
- Os hipsters são mais mainstream do que os indies.
- (!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!) O que é mainstream?
- São basicamente iguais aos indies, só muda o nome. E mainstream é o que não é underground. 

Pra mim, ser hipster ou indie ou representar um fenômeno meio homossexual, estava tudo nas obscurices do underground. Preconceito meu, desculpem. E repetiu o que já haviam me dito:

- Seu óculos é bem hipster. É a modinha dos hipster cult. 

Evidente que, enquanto me dava todas essas informações inúteis (sem as quais eu não conseguiria mais dormir, de verdade!), ela ria. Mas, ela não havia me dito ainda o que era ser hipster. Reforcei minha indagação.

- (...) É a modinha dos hipster cult, que nem a máquina fotográfica pendurada no pescoço, tirando fotos numa Lomo, que a gente tava tirando onda ontem. 

(Gente, eu não sei o que é uma Lomo.)

- É esse povo mais alternativo, que gosta de música mais independente, mas que são, tipo, riquinhos subversivos; que andam com seus ipods, máquinas de última geração... 

Nunca, na história da minha história, estive diante de uma categoria ou subcategoria tão complexa e específica. Sou do tempo das patricinhas e mauricinhos, depois consegui acompanhar os "raqueiros", e hoje, o mais moderna que consigo ser me permite dizer que algo é "estiloso". Realmente, devo ser uma vergonha da minha geração.

Falei para ela que há gentes que me chamam de pseudocult. E ela:

- Melhor do que ser pseudointelectual. 
- Ué, não é a mesma coisa? [Novo nó na cabeça.] [Na verdade, eu esbravejei: OCHE, É DIFERENTE???, afinal, já estava bem confusa, e ainda sem muitas respostas, apesar da grande quantidade de exemplos.]
- Mais ou menos. Cult é mais amplo, né. (...) É, ser chamado de pseudocult é pior mesmo!
- Defina pseudocult! [Lágrimas]
- Quem finge ser cult. Rs. 

Laurinha é do tipo que ri "rs".

- Os pseudocult assistem filmes cult, escutam músicas independentes, dizem apoiar uma causa, mesmo que não a sigam... Os pseudointelectuais não, só precisam fingir que lêem muito e ter um ar de superioridade - apesar de nunca entrarem em uma discussão porque não têm argumentos. 

Confirmei, como dito, se eram resultados via empirismo, observação antropológica, reflexões dela com ela mesma.

- Essa é a minha retórica, apoiada na minha axiologia.

Foi tipo aquela aula de disciplinas introdutórias acadêmicas, que você formula concepções e conclusões enquanto o professor explica, esclarece dúvidas, apresenta suas idéias, e sai dali com a certeza: não entendi foi nada.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Tem gentes que.

Tem gentes que você quer por perto. Tem gentes que você quer mais perto.

E não é o que você esperava que, que você ansiava que, que tinha expectativa de que. Tem gente que te faz ou te fez viver com uma intensidade além da planejada. Que te fez sentir felicidade, alegrias, ter vontade de compartilhar notícias e sentimentos. Que te fez ansiar um pouquinho pelo encontro e pelo abraço, pelas palavras, pelas doces e suaves palavras. É tanto sorriso e tanto em comum, tanta música posta em cheque, tanta saudade não palavreada, e um pouco de saudade palavreada.

As doces e necessárias palavras, tão bem quistas e bem vividas, de repente ficam para trás e... Passam. Não, não passam. Mas passam. Porque não estão mais aqui.

E as gentes sumiram, e as gentes se foram. Foram embora, mudaram de cidade, de país, ou, pior, ficaram no mesmo lugar (físico) de antes. Mas não estão mais aqui. Achei que tivesse guardado e cuidado bem, mas.

E aí os outros, demais, ademais, falam, novamente, das expectativas criadas para nada. Mas você não criou expectativas. Você só, como dito, viveu intensamente, sentiu o presente ser presente, como nunca antes, porque, na sinceridade, você nem imaginava o que seria do futuro seu com e sem, com ou sem, essas gentes. Você só vivia um tempo bom, e, de novo também: de palavras e afetos e presentes compartilhados. Presente compartilhado. Então tu quer mais motivo bom do que esse?

Se a receita é "não criar expectativa", por favor, esqueça. Esqueça de mim, ou de me dizer isso. Não criar expectativa já é criar expectativa. É criar expectativa nenhuma. Se preparar para o nada, para o nenhum, para zero possibilidades. Se eu sou mais viver todas as possibilidades do agora agora (2x)!?

Eu sei que sinto falta. Tem gentes que fazem falta. Tem gentes que fazem muita falta.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Droga, drogadito, droga disto.

Vai passar, já passou, tire o seu sorriso do caminho, já passou. Tire o seu sorriso do caminho para que eu passe com a minha tristeza. Que vai passar. Já passou. Vai passar, já passou, tire o seu sorriso do meu caminho, sou só dor. Vai passar, já passou, não passou, foi o meu problema todinho que me ficou. 

Mas então o que faço com tudo isso? O que faço com o que me restou das doses não homeopáticas, não planejadas, não percebidas, que tomei de você, que embebi de você?

Não é possível que não me valha um "peso extra", indenizatório, por tudo que senti. Que deja vu! Indenizatório, por tudo que senti. Já vi, já escrevi isso. Deve ter sido sonhando várias vezes tantos sonhos vazios, que eu sei bem porque eram vazios, sei mais que não eram vazios. Vazia era eu quando acordei.

Mas não é possível que não haja um preço a se pagar pelo preço que eu paguei, pela corcunda que sustentei, pelo peso no peito que me afundou dias e dias. Meses. Anos.

Eu quero chorar e já nem tenho mais lágrimas. Não é possível que ninguém pague por isso. Não é possível que esse ninguém seja alguém que seja de novo eu.

Resultado

E aí fiquei dias e dias sem escrever. Me pareceu mais, foi mais, foram meses, foram anos. Foi um tempo que já nem lembro mais, de tanto tempo que faz. Esqueci. Esqueci porque parei de escrever, se não parei de sentir. Uma vez que só escrevo porque eu sinto, escrevo para entender o que senti, todo aquele tempo, todo esse tempo de agora. E parei.

Minha cabeça, entretanto, não parou de escrever. Coitada. Ela vinha e criava textos e imaginava frases e era capaz de construir até diálogos. Era capaz de escrever textos inteiros de uma tacada só. De uma vez, sem interrupção, sem pausa para café, menos ainda para pensamento de abobrinha, solto, desnecessário.

E aí minha cabeça começou a ferver, a fervilhar; as palavras não me couberam mais, não couberam mais dentro de mim mesma. E se parei de escrever e não parei de sentir, e minha cabeça não parou de escrever nem de sentir, porque minha cabeça sente, não sei como é isso, não sei explicar nem sei por que falo que tenho certeza que é assim, mas é assim, minha cabeça sente de tudo, então explodi. Mas fui explodindo aos poucos, extravasando, alcançando caminhos de vasantes que eu nem conhecia. Foi uma explosão assintomática, imperceptível, que só me dei conta quando restaram só os estilhaços. Que eram eu.

E, toda estilhaçada, com preguiça e com coragem, ao mesmo tempo, vou me sentar para pôr tudo em ordem, para escrever novamente. Para escrever o que sinto, para comunicar a mim mesma, fim único, visto que os outros fins por mais que eu queira, não posso, não é correto nem possível de alcançar, essas pequenas explosões que são, unicamente, sentimentos fortes e pesados demais que eu não conto para ninguém. Só para as palavras. Que se guardam segredo, eu não sei.

No final das contas, não faz diferença.

Estou com a sensação de ter feito tantas escolhas erradas. Estou com a sensação de estar fazendo escolhas erradas. No gerúndio e no presente.
Se é certo ou errado, só o tempo vai dizer.
O problema é que o tempo diz. A gente que não ouve.


Com Pablo

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Glamour feminino não é lá minha vocação

Acontece que hoje eu tenho um casamento para ir. Há quinze dias tive outro; no mês que vem, mais um. E, se para alguns casamento significa comida boa e cara, música ruim e alta, pró seco, jantar em pratos de sobremesa, e doces tão finos e bem elaborados que te faz ficar na dúvida se o que se come é o que tá dentro da embalagem ou se o que parece a embalagem é o que se come, casamento para mim é sinônimo de estresse. Não porque me faça pensar sobre os ideais sociais da vida a dois, construída em algum momento da sua juventude, compartilhado com pessoas que não se importam com a sua felicidade, regado a milhares de reais sem propósito. O simples ato de ter de me arrumar e de me esforçar, me desdobrar, para tentar estar à altura de uma festa assim, isso me desgasta.

Isso parece mais fútil do que a própria futilidade em ter o vestido e o cabelo e os sapatos como foco de vida de uma mulher que se aproxima de um casamento (alheio). Mas se tornou um problema para mim. Eu não gosto de saltos altos - em mim. Acho lindo nos outros e tento, a cada dezoito meses, subir em algum. Mas encravo as unhas e enrugo a planta dos meus pés, e aí só depois de dezoito meses para tentar novamente. Além desse problema, sapatos em geral (em gerais? em geral, né?) não ficam bem nos meus pés. Todos, quando digo todos é todos, machucam meus pés. E os saltos altos, obviamente, assassinam. E aí lá vou eu, semanas sequentes, procurando um sapato que me caiba e que não me dobre de tamanho, porque eu não me equilibro em sapatos que dobram o meu tamanho, para então usá-lo (se tiver ncontrado) noite adentro (tomara que a lembrancinha de casamento sejam havaianas, sandálias japonesas, qualquer coisa), me maltratando. E tem que ter a palmilha.

Vestido eu nunca tenho, eu nunca encontro. Eu peço emprestado a todas as minhas amigas (três), porque eu acho todos feios nas lojas. E não tenho paciência nem disposição financeira de investir em um prêt-a-porter. Mandar fazer, eu digo. No dia, estou usando o mesmo vestido das últimas oito festas de formatura e casamento e quinze anos que fui. Com o mesmo sapato e palmilhas.

No dia, tem de ir ao salão. Tem de esperar centenas de mulheres no salão fazendo suas unhas. Aguentar duas cabeleireiras esticando seu cabelo ruim por horas (me parece horas).

Para então chegar a parte mais difícil. Mais temerosa. A maquiagem!

Eu nunca aprendi a me maquiar. Eu nunca consegui, eu nunca fiz nada que preste pra parecer saudável e feminina usando pós de arroz e sombras coloridas. Eu não tenho a menor capacidade. Sinto que minha mão é grande, pesada, masculina demais pra tudo isso. E nunca teve tutorial de maquiagem ou amiga prendada que me desse jeito. Alguém teria de me maquiar para cada festa. Mas, pior, para isso eu também não tenho paciência. Porque você tem de ficar horas (me parece horas) imóvel e de olhos fechados. E abrindo a boca em um ângulo específico, sem tremer. E abrir os olhos quando a pessoa mandar, e não lacrimejar. E não espirrar, porque, não sei os outros, mas mexer nos meus olhos demais me dá vontade de espirrar. E, pior, eu tenho de passar a noite inteira sem poder coçar os olhos, arrancar as espinhas que me saltam, meter o dedo na boca, no nariz, esfregar as costas da mão no meu rosto. Não posso!, porque senão vou ficar pior do que sou sem maquiagem. (Então seria melhor eu já ir sem maquiagem, não?)

E aí, se não sei me maquiar, se não tenho paciência de que me maquiem (maqueiem?, maquiem, não?), e sou fraca o suficiente para sucumbir aos desejos e ordens sociais de parecer feminina e bem vestida em festas sofisticadas, eu respiro fundo ao longo do dia, conto até o infinito, sento em frente a um espelho com grau, acendo luzes fortes, coloco todas as minhas maquiagens (que devem ser três coisas) e as da minha mãe (que são quinhentas coisas) na mesa, e vai. Passam-se duas horas, e ou fico parecendo uma macaca, ou parecendo que não fiz nada, para sair de casa igual como sou.

Mentira, nada a ver com o que sou. Porque vou estar cheia de pós (não dos que se cheira), pernas de pau, vestidos apertados tomaras que caias, que passo a noite agarrando para não cair, realmente, e esse cabelo falso que o secador me deu. Com estresse, com palmilhas, e vaidosa como nunca fui, lá vou eu.

O meu casamento vai ser uma festa na laje.


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Poeira

Foi que a gente quis se transformar em poeira cósmica. A gente quis se derreter, e pulverizar, disfarçar-se em uma poeira não qualquer, cósmica, que serve para muito e ao mesmo tempo parece não fazer falta. A gente quis não fazer falta para si, e parecer não fazer falta para nada ou ninguém.

É que poeira cósmica não sente saudade, pra começar. Não sente falta, não acha que a distância dói. Não lembra do passado com mágoa, ne tem raiva do que aconteceu, muito menos do que você não fez para evitar. Poeira cósmica não se arrepende de sê-la. Ela somente é. E é fora no mundo. Poeira cósmica não procura fugir, não tem entranhas corroídas de ansiedade, não sente cheiros que são pessoas e histórias, não tem angústia de sê-la. Porque não é.

A poeira cósmica é pequena, pequeniníssima. Nela não se repara. É como eu disse: não se vê que existe. E se ela não precisa ser vista, é nela que quero me diluir. Se diluir no mundo é um dos planos, e fora dele é utopicamente intenso. Perfeito. Poeira cósmica tem um pouco de plenitude, talvez.

Eu quero virar o invisível e indissolúvel. O minúsculo e o simples, o eterno e indispensável (?), colorido, e belo. O fim em si mesmo. É para lá que vamos?, eu quero ir de uma vez.

Me diga o que tu escreves, que te direi quem és.

Quando você escreve, quando você é escritor, quando você pretende ser, sonha ser, não sabe se quer, mas de tanto todos dizerem que você vai ser, aí você vai ser, quer ser, enfim, quando tu te propões a dar vida a letras e palavras, você se expõe mais que álbum íntimo e espalhafatoso em rede social. Mais que barraco no meio da festa, que suvaco cabeludo, ruivas e torcedores do Alecrim. E aí você passa a ser o que acham que era o que você queria dizer quando escreveu aquele texto.

Você não quer dizer muito, mas diz. Você detona a si mesmo, revela seus segredos, e descreve suas dores em detalhes - sem perceber que o faz. Mas quem leu, viu, viu tudo aquilo que você disse. E mais. 

Porque daí eles interpretam. E sua dor fica maior, sua alegria recebe outros significados, o vestido de flores que você descreveu foi o presente do ex-namorado, de quem você sente falta, as portas fechadas, metafóricas por si só, são as propostas recusadas, os amigos que viraram as costas... Se está monotemática, ficou deprimida. Se fala com revolta, é tensão pré-menstrual, é rebeldia sem propósito, com o intuito do choque.

Se choca, não gostam. Porque choca porque só diz coisa verdade, e ninguém gosta de ouvir, ler, coisa verdade. Mas é ruim, e o outro lê. E então você ter escrito isso, parece realmente com o seu olhar e suas olheiras de ontem, bem me lembro... Penso nas verdades da sua vida e coisa e tal.

Esse monte de linhas está cheio de indiretas. O que está nas entrelinhas, ninguém vê - só vê entrelinhas quem escreve o texto, disso já tenho certeza. E se diz indiretas e se quer usar entrelinhas, é covarde. E quem escreveu é um pouco covarde porque...

E aí você se arrepende. Prende uma idéia, um suspiro, esconde as palavras explícitas. Tenta escrever genericamente, generalizadamente, em metáforas, em charadas, como que para si mesmo. Porque, na realidade, você começou a escrever escrevendo para si próprio, e porque faltou um pouco de modéstia, foi mostrar a dois e três e mais que viram, e que agora sabem. Tudo eles sabem.

E então, se em determinada data e texto, as pessoas lêem demais, várias pessoas, e tu acha que seu depósito textual vai entrar numa pane porque nunca recebeu tantos olhos curiosos, você fica curioso para saber se isso vai se manter. Que bom se sim. Que ruim se sim. Agora fiquei com medo, fiquei tensa, abobada, ainda, mas temerosa do que vão interpretar (descobrir?) de mim. Onde fui me meter. 

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Sobre ontem e sobre sempre.

Eu também reconheço que foi caótico, que foi desorganizado. Que a revolta transbordou, e da primeira, passou para a segunda, terceira, e para todas as vias de trânsito. Que as muretas viraram canteiros, e que toda a avenida principal da cidade passou a parecer o quarto pessoal de cada um daqueles revoltosos, revoltados, vândalos e delinquentes para alguns (para muitos!), tamanha a facilidade de ir e vir que ficou ali para eles. No caos.

Mas a sua revolta pela desorganização de quem se manifesta, isso eu não reconheço como legítima. Nós vivemos em um país, estado e cidade, que nunca nos ensinou a sermos organizados, civilizados, a incomodar os demais com educação. A gente dirige em um trânsito caótico, com motoristas caóticos, nervosos, que se desrespeitam. A gente aprende a conviver em sociedade sem metodismo algum, e isso é propagado diariamente, por todos, por nós, e por eles, os que cuidam de nós.

Não existe respeito, não existe faixa amarela, vaga para cadeirante que seja usada realmente por cadeirante, não tem vizinho do prédio que espera você sair do elevador para ele poder entrar, os jovens velhos que confundem direito com privilégio e usam sua "prioridade" no banco. No mesmo banco onde as pessoas estão desorganizadas na fila, onde são desorganizadas em seu tempo, em sua dignidade, muitas vezes. A gente anda pelas ruas e tem de desviar de mendigos. Tem de verificar crianças caoticamente amontoadas nos sinais. As mães querem só uma vaga para o filho estudar na escola pública, e tem de dormir na calçada da escola, e, caoticamente, brigar pela vaga no dia seguinte. A gente tem de lidar o tempo inteiro com a informalidade comercial e ocupacional, sustentadas despretensiosamente pelos nossos cegos que não querem ver: os governantes. Isso também não é caos?

A nossa cidade é caótica, e sempre foi. Aprendemos a ser assim, e não é à toa que um sujeito organizado vira o bicho com transtorno obsessivo compulsivo, ao primeiro sinal de "uma coisa de cada vez".

Então a gente pode exigir que o protesto ocupe somente uma das vias, pacificamente, que os praticantes do vandalismo, como se diz agora, que não são manifestantes, nunca serão!, estejam enfileirados, batendo palmas, cantando baixo, porque achamos injusto, sabe, o simples absurdo. O simples absurdo. Pode-se exigir?

Então pela desorganização e caos que a gente aprende, e não que a gente causa!, temos de sucumbir ao batalhão da pê eme desfilando feito sete de setembro, em marcha, para nos inibir. E aí pode protestar, mas com organização. E por que não: pode governar, mas com organização? Pode administrar, mas com planejamento!? Não entendi. Não entendi sua reclamação.

Acho que cabem até "desculpas", pelo seu atraso no trânsito. Você que estava cansado do trabalho (justificativa legítima, de verdade) e demorou muito mais tempo para chegar em casa. Desculpa, de verdade. Mas o trânsito e a cidade precisam ser interrompidos e virar caos, muito mais do que já são, algumas vezes, porque não é a Câmara e o prédio da Prefeitura que devemos incomodar. (Afinal, quem garante que nossos alvos estejam lá?...) Mas a população também, e, sabe o que mais?, os empresários e seus simpatizantes, que, exatamente como você, também dirigiam para casa depois de um dia cansativo de trabalho. Só que dentro de carros importados mais caros que os próprios ônibus, e com desprezo e antipatia pelos seus usuários assalariados.

Não cobre civilização de quem não é tratado como tal. Cobre civilização daqueles que não nos tratam como tais. Está na hora de pôr em prática a ideia de João Ubaldo, e parar de chamar o governo de governo, porque o governo é Estado; o governo não governa nada, quem governa é o povo.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Feliz dia, psicólogo.

A minha amiga passou em um concurso para estagiário de Psicologia em um dos mais importantes órgãos públicos do estado, e o "parabéns" que a professora-psi deu à ela foi: "que bom que você passou nesse concurso, agora você vai poder tomar um banho de loja para poder trabalhar lá!". Ah, claro, porque nada mais essencial nessa vida psi, nessa vida de meu Deus, nessa vida de daseins e ser-aí do que uma roupa nova! Já pensou, tu, colega-psi, indo trabalhar sem ter tomado um banho de loja? Um banho de roupa nova? Que tipo de psicólogo é você, que não toma banho de loja com frequência pré-determinada (a cada seis meses, ou três, ou, de preferência, mensalmente)? O que você está pensando em fazer, entitular-se psicólogo? Estagiário de psicologia? Tá louco?! Seu trabalho não vai valer de nada, colega, se você não tiver tomado um banho de loja. E a estagiária limpinha (!) vai levar o crédito, tô te avisando.

Uma aproximação aproximada, na redundância, porque aqui é senso comum, eu sou senso comum, que nem um monte de psicólogo que se diz psicólogo, mas que é senso comum, tipo esses de banho de loja tomado, cheios de sensos comuns, mas, voltando, uma aproximação aproximada me diz que cinquenta por cento dos meus coleguinhas de sala não serão psicólogos. Ou, hoje, não querem ser. Tipo, não pretendem, prefeririam ter feito ou ainda fazer outra coisa. Meio que se arrependem. Não se arrependem, mas vão ver o que é que dá esse diploma aí. Um banho de loja pode ser que resolva tudo.

Mas dos cem por cento que entrou, digamos que, uns dez por cento, não estavam super a fim da psicologia no começo. Ao longo do curso, a proporção aumenta. Por que será, hein? Acho que não houve bolsa suficiente pra dar banho de loja em todo mundo... Aí vem o desânimo e ficamos sem saber o que fazer com o diplominha. Mas, vá lá, se pra ser bom profissional tem que manejar muito bem o senso comum, ou seja, ser mais ator que psicólogo, floreador de discursos e laudos, tem que fazer relatórios com verbos mal conjugados, e ainda comprar roupa nova toda semana... Aí ficou difícil realmente. A gente terminou deixando o sonho (pufff!) pra trás.

Mas o curso tem suas partes boas, vá lá. Todo semestre, a democracia falaciosa nos comunica: vamos programar nossa disciplina? A gente diz o que quer, mas, em se tratando de estudantes de chinelos havaianas, quem se importa?, antes fosse Loubotin, e aí a democracia volta e comunica: decidi. Vai ser como eu sempre quis. Beijos.

E, depois de nove períodos, cadê vocês para vestirem a camisa? O Enade vem aí! Curtam o momento! Estudem, simulem (literalmente), vivam esse momento! Façam de conta que são bons estudantes, na verdade, os estudantes que nós julgamos de bons, e que são felizes nesse lugar. No nosso lugar. Não, no nosso lugar não! Não quero concorrência! Longe de mim! Vou quebrar os saltos de vocês, denunciar o jacaré ilegítimo da sua camisa, caso isso ameace acontecer!

E até o ano que vem, fofos. Com vocês formados, espero-os para um jantar de gala (literalmente?) na minha casa. Na lista de presentes para  psicólogos: Roupa Nova. Boas compras!, digo, boa sorte!