terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Oi, vô.

Hoje de manhã eu fui até a farmácia, coincidentemente na mesma hora em que todas as pessoas do bairro resolveram reunir-se lá, para comprar seus respectivos remédios. Havia umas seis pessoas debruçadas no balcão, uma senhora pedindo todos os remédios de doenças crônicas, resfriados, e velhice, um de cada vez, uma senhora que nem era tão senhora assim, mas que quis se aproveitar dos seus 60,5 anos para furar a fila de quem esperava a galera do balcão, outra senhora com bem menos de 60 anos que atropelou todo mundo e foi até o balcão sem pedir licença e fingindo-se de cega, sem ver as três pessoas em pé, em fila, no meio da farmácia, e, enquanto eu finalmente conseguia pedir meu remédio (acho que uns trinta minutos depois), um senhor, merecedor do seu status prioridade/preferencial, foi em passos calmos até o balcão.

Ele vestia uma calça social e camisa social. Mas pelo que me lembro não tinha mangas, era tipo aquelas que o senhor usava, sabe? Seu cabelo era alvo, branquíssimo, e ele era mais cabeludo que o senhor, não me entenda mal! Ele foi andando devagar, sorrindo timidamente para o balconista, para as pessoas da fila que deixavam-no passar, e, com a voz macia e gentil, deu seu bom dia e fez seu pedido.

Quando passou por mim, eu vi: ele tinha os seus olhos azuis, vovô. E eram claros. Eram azuis esverdeados, ou verdes azulados, assim como eram os seus. Tinha a mesma serenidade do seu olhar, o mesmo brilho, e o mesmo aspecto límpido que tinham os seus. Acho que, no milésimo de segundo em que olhei para o seu olhar (e não digo que trocamos um olhar!), vi uma certa ternura, também gentileza, e pude ouvir uma voz que há muitos anos atrás me chamava de boneca. Será?

Enquanto eu passava meu cartão e digitava minha senha, digo, passava o cartão de mamãe e digitava a senha dela no caixa do lado oposto ao dele, vi suas mãos um pouco trêmulas digitando o número do celular. Ele estava pondo créditos no telefone! Achei isso engraçado. O tipo de coisa que o senhor faria também, assim que aprendesse. Era capaz de querer toda semana que alguém te levasse até a mesma farmácia, para o senhor colocar a mesma quantidade de créditos no celular. Tão rotineiro como ir ao barbeiro, ou comprar aquele sorvete que passava em frente a casa de vovó, quando eu tinha lá meus seis anos. (O pepém.)

Ele era também simpático e gentil com a moça do caixa. Parece que errou ao digitar os números na maquininha. A mão dele tremia, e eu lembro que a sua tremia também, ou será que eu já estava num êxtase nostálgico que comecei a te copiar naquele velhinho?

Não sei. Só sei que, na saída, me vi obrigada a olhar nos olhos dele e sorrir. Ao passo que ele me sorriu sem a menor cerimônia ou constrangimento. Posso estar enganada, mas senti que ele se sentiu até satisfeito. Tá, tudo bem, não era o senhor para sentir-se satisfeito com um mero sorriso meu. Mas sei que o sorriso dele encheu meus olhos de lágrimas, e eu voltei para casa inebriada de um sentimento intensamente contraditório em si mesmo: saudade.

É que eu sinto muita falta.

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