segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Tipos no veterinário: a maluca dos gatos.

Quando nosso animal vai ficando velho, nossas idas ao veterinário (nossas não, as idas dele) ficam mais freqüentes. Coisa de uma vez por mês ocorre de você ter que ir, pra ver aquele joelho, o ouvido, o pêlo caindo, os dentes podre. E aí você, impreterivelmente, termina por conhecer uns tipos típicos (?) de gente frequentadora de um ambiente como uma clínica veterinária.

No último mês, conheci a maluca dos gatos. Eu odeio gatos, e por isso talvez esse post soe um pooouco parcial. Até quem não me conhece, talvez saiba, porque já me viu gritar e quase chorar toda vez que um bicho desses roça nas minhas pernas lá no setor dois ou na cantina. Eu nem sempre odiei os gatos, mas essa história é uma que depois eu conto. Só que, no dia da maluca dos gatos, passei a não gostar também das pessoas que gostam de gatos (algo que, para mim, já era uma falha de caráter).

Eu cheguei no veterinário numa segunda-feira, pela manhã, para uma pseudo-urgência. Enquanto eu esperava em pé, próxima do balcão, uma senhora, quer dizer, uma velha, conversava com a recepcionista. Ela estava detalhando o tratamento que vinha dando a um dos muitos gatos que ela cria em casa (o que já fez eu me afastar da senhora). O remédio que ela dava, quantas vezes ao dia, pingando tantas gotas no ouvido, outras tantas nos olhos, explicando os resultados dos exames... A recepcionista não é veterinária, só para deixar dito. Depois, começou a perguntar por mamadeiras. "Porque tem aquela, né, Fulana, que parece mesmo todinho o bico do peito de uma gata! Tu num sabe? Han?". Certo.

Quando o veterinário por um acaso saía da sala dele para deixar algo na recepção, o pobre do homem quase não conseguia voltar a trabalhar. Olhava e sorria constrangido para as pessoas (que agora se acumulavam em torno da velha) esperando para ser atendidas. A velha voltou a falar, detalhadamente, do tratamento dado a um dos seus gatos. Depois acho que falou de um outro. Quando o médico conseguiu uma desculpa para sair, a maluca dos gatos voltou a falar com a recepcionista sobre mamadeiras.

O próximo passo foi pagar a conta. Na verdade, ela estava todo o tempo, teoricamente, pagando sua conta no veterinário. Eu não estou mentindo: a velha ia pagar mais de mil reais na clínica. Tive de ser indiscreta (?) e escutar o valor, pois ela falava muito alto para todo mundo ouvir, com uma voz mal assombrada, trêmula, rouca, típica de uma criadora de gatos, e escutava muito pouco, o que fazia a recepcionista repetir o valor várias vezes, e aí todo mundo ficou sabendo que a bicha gasta tudo que tem com gatos. Com GATOS. (E meu pai achando ruim eu consumir minha bolsa da monitoria comprando roupa. Podia ser bem pior, tá vendo?)

Pois é. A velha leva os gatos dela para consultar, tosar (não sei se gato faz isso, mas os dela devem fazer de tudo), e tomar banho lá na clínica. Mas também leva os gatos da vizinha, da prima, e os que ela encontra na rua. Aí, então, quando o veterinário reaparece, a velha volta a falar de mamadeiras e abre uma daquelas gaiolas de transportar animal: "Doutor, olhe, eu trouxe esse gatinho aqui de uma vizinha minha lá na rua, num sabe [ele falava muito 'num sabe']. O bichinho, doutor, não tá bem de saúde não. Eu precisava que o senhor consultasse ele, num sabe, olhe aqui, doutor, olhe."

Pronto. A velha abriu a tampa da gaiola, e eu vi isso que vocês chamam de gato com 50% a menos de pêlo, 80% a menos de peso, 200% a menos de fofura (?), e um-olho-pendurado-para-fora. O olho esquerdo do gato não estava no seu devido lugar! Estava pendurado, assim, como o pingente de um colar! Quem disse àquela velha que todo mundo na clínica queria olhar para aquilo? Quem, disse, aliás, que eu gostaria muito de ver um gato, na minha frente, saudável ou semi-morto? É, porque aquilo, me desculpem, nem era gato, nem sei se tava vivo, porque a única coisa que ele mexia era a cabeça - e só o suficiente para todo mundo ver sua deficiência.

Depois que toda a sala de espera esperou ainda mais uns dez minutos para a maluca dos gatos deixar seus mil reais na clínica, conversar mais sobre mamadeira cujo bico parece direitinho o peito de uma gata, e ouvi-la falar um pouco mais sobre esses felinos que só 0,5% das pessoas normais apreciam, a mulher saiu... do balcão. E ficou na clínica por mais meia hora, comprando rações, camas, coleiras, frufrus, e talvez até um olho de vidro.

Mas, claro, não se enganem. Dois dias depois precisei voltar lá com os resultados da radiografia de Hanna (é a minha cocker spaniel), para o veterinário dar uma olhada. A maluca tava lá de novo. Com outros gatos, com mais conversa sobre mamadeiras, pedidos ao médico, e pagando mais contas vultosas. E se vocês acham que isso é ser normal e ter bom gosto...

Nenhum comentário: