terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Diálogos espontâneos

- A namorada de Cicrano tá gravida.
- Menina! Não! Mentira!
- Menina não.
- Né menina não? Já sabe que é menino?
- Menina não. Por favor.
- Ah, tá, desculpa, amor.

~

- Minha filha, simplismáint...
- Minha filha não!
- Argh. Deixa eu dizer!
- ...

~

- Menina, sabe quem voltou o namoro?!
- Pare. Pare.
- Af. Séééério! Sabe? Adivinha!
- ...

~

- Passei naquela seleção que te falei.
- MULHER!
- (...) Intimidade é uma merda. Só gera filho e aborrecimento.

~

Aah, mas vou te aborrecer muito ainda!

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Dia com cheiro

Entrei pela sala, banheiro e cozinha, e senti um cheiro diferente. Não era o habitual da minha casa. Senti também a preguiça em mim, o sol tímido, o dia esgueirando-se pelas cortinas, assim à vontade mas sem vontade de vir e ficar. A aura era um pouco cinza. Mas não havia fumaça.

Na mesa onde estudo, o cheiro da madeira era mais forte e incomodava. O cheiro. O chão, de azulejos brancos, estava limpo e sujo. Sem vida e sem graça. A sala tinha algumas coisas fora do lugar. Tentei pôr de volta. Mas não ficou bom. Parece que os móveis prenderam a respiração. Parece que a sala e a luz que nela entrava estavam um pouco cansadas.

Comecei a lavar os pratos, e a aura, o cheiro, o dia que pouco que se mostrava... tudo continuava igual. Não era questão de sujeira ou bagunça. Não era a minha neurose fumegando.

Sentei-me para almoçar um segundo café da manhã. E também o gosto, o sabor... Meu paladar não aprovou. Fiquei pelo pão e seus recheios de sempre, nada de novo, nada de difícil, a preguiça do dia também era minha, e eu queria ser prática - mas não porque tinha pressa. Eu queria ser prática exatamente porque não tinha pressa para nada.

Tirei o presunto, o queijo, a geléia. Tirei tudo de dentro do pão, e comi as fatias puras. Era o meu pão preferido. E não sei se o cheiro incomodativo (?) que eu sentia era que atrapalhava o paladar. Dei à minha cocker spaniel, nesse dia estranhamente calma e silenciosa, o restante do que tinha sobre o meu prato. E o presunto, ah, esse presunto não deve estar bom, melhor jogá-lo fora. Meu leite achocolatado preferido também não balanceou a situação.

Melhor não acender nenhum incenso ou vela. Melhor ler um livro e deitar. Tomar banho, pôr o perfume que eu gosto, e sair. É domingo. Com seus odores e sem suas cores.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O escafandro que te liberta

Eu ganhei de presente na semana passada e adiei alguns dias sua leitura. Precisava terminar o Game of Thrones. Ainda não terminei. Precisava terminar o Sandman. Ainda não terminei. E sabia que quando começasse a ler o danado do livro, o faria de uma vez só; teria muita sede nos primeiros capítulos, e me deliciaria com as palavras mais do que me delicio com uma bandeja de quatro pães de mel. E depois, teria pena de avançar nas páginas, como fico com pena de seguir em frente as mordidas a partir do terceiro pão de mel da bandeja.

Não resisti. Com livros interminados e a expectativa aos prantos, abri O Escafandro e a Borboleta e comecei. Parei um pouquinho pra terminar de fazer o café. Li. Parei mais um pouco para conversar com meu pai. Li. Li. Li mais e tive de interromper novamente porque os compromissos me chamavam (o bar com as amigas). Mas eu queria mesmo era ficar em casa deitada na cama com o Escafandro sobre mim.

Eu estava defronte as palavras (letras ditadas) de um escritor singular, incrível. Desses que faz a gente ficar procurando adjetivos à altura pra poder colocar no post, mas acaba por dizer breguices ("singular"), porque não encontra a palavra.

A síndrome de estar trancado dentro de si mesmo, uma única pálpebra que se move, e o esforço de halterofilista, como ele mesmo descreve, de esperar a letra ditada para poder compor uma palavra, um parágrafo, e capítulos inteiros. Um livro sucinto e por demais minuncioso, tamanha a realidade da descrição.

Eu estou extasiada. E penso nas palavras que a pálpebra de Jean-Dominique Bauby foi ditando ao longo dos meses, com o simples intuito de nos comunicar... verdades. Eu gosto mais da vida agora? Não sei. Só sei que nunca mais reclamarei de dificuldade que tenho de escrever. E de agora em diante, farei tudo que meu corpo me permite, num piscar de olhos.

"Tá aí! 'A panela de pressão'! Poderia ser um título de uma peça de teatro que eu talvez escreva um dia com base na minha experiência. Também pensei em intitular O olho e, evidentemente, O escafandro. Todos já conhecem o enredo e o cenário. O quatro de hospital onde o senhor L., pai de família na flor da idade, aprende a viver com uma locked-in syndrome, sequela de grave acidente vascular cerebral. A peça conta as aventuras do senhor L. dentro do universo médico e a evolução de suas relações com a mulher, os filhos, os amigos e os sócios que tem na importante agência de publicidade da qual é um dos fundadores. Ambicioso e meio cínico, não tendo até então amargado nenhum fracasso, o senhor L. aprende o que é sofrimento, assiste à derrocada de todas as certezas de que se escudara e descobre que seus parentes são uns desconhecidos. Pode-se assistir de camarote a essa lenta mutação graças a uma voz em off, que reproduz o monólogo interior do senhor L. em todas as situações. Só falta escrever a peça. Já tenho a última cena. O cenário está mergulhado na penumbra, com exceção de um halo de luz que circunda o leito, no meio do palco. É noite, tudo dorme. De repente, o senhor L., inerte desde que a cortina subiu, afasta lençóis e cobertas, pula da cama e dá uma volta em cena, sob iluminação irreal. Aí, tudo fica escuro, e ouve-se pela última vez a voz em off, o monólogo interior do senhor L.: 'Merda, era sonho'."

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Eu ainda lembro

Estava pensando em (te?) escrever esses dias. Sim, assim, por aqui mesmo, sem saber se o destinatário de interesse leria, mas para deixar a sensação que eu deixei dito. Em algum lugar.

É que de repente comecei a lembrar demais, a pensar demais, e até a sonhar - essa noite. Era simples e idêntico a realidade. E se eu tivesse analista, ele nem interpretaria, porque foi deveras óbvio. Meu inconsciente não se intimida diante certas coisas, e revela tudo mesmo.

Esses últimos dias também pensei que não existe saudade sem tristeza. Que, sim, sinto uma saudade boa, mas disso não se pode desvencilhar tristeza alguma. Se eu lembro, sinto falta, sinto os sentimentos de então (!), claro, um abatimento vem. Às vezes uma lágrima também. Mas sem mágoa. Eu juro! Quer dizer, eu acho.

E como eu tinha frio na barriga! E como eu sinto frio, calafrio, borboletas e mariposas dentro da minha barriga agora, ao escrever. Há alguma ansiedade, esquisitice, nostalgia, raiva?, e nessa lambança de sentimentos eu preciso dizer. Preciso gritar. E o máximo que posso é deixar escrito, tu sabes.

E hoje, com o tamanho susto que levei (eu sabia que os pensamentos e o sonho não tinham vindo "do nada", alguma coisa estava por acontecer), precisei deixar a verborragia aflorar. Diz a psicanálise, né, que precisamos falar, falar, falar sobre "o" algo! Não, sem sermos hipnotizados, não há necessidade disso, já te falei. E, assim, falando, ou tentando fazê-lo, digo a ti, que simplesmente te aconteças o que for melhor pra ti! Não digo "tomara que dê certo", "tomara que seja isso que vai te aumentar a felicidade". Não. Fico numa espécie de "seja o que Deus quiser", sem o Deus, porque, pelo que me lembro, o "ide em paz" ainda é sua parte preferida da missa. Que teu destino seja o melhor possível, seja ele qual for, na seqüência que for: talvez bom agora, difícil lá na frente, ou o contrário (melhor, né?). Que tu consiga amar, sentir, viver verdadeiramente. Que dê mais passos certos que incertos, tomando cuidado de não tropeçar, pisar, atropelar outrem (isso às vezes acontece sem que a gente queira ou perceba, veja bem).

Não sei dizer como me sinto. Mas sei dizer que ainda lembro. Ainda lembro...

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Monólogo imaginário

É o seguinte. É que eu tenho uma visão muito romântica das coisas, sabe? Sou contra essa história de trabalhar pura e simplesmente pelo contracheque. Eu também acho massa, imaginar os seis, oito, treze, vinte e três mil no fim do mês, digaí!, oito ou treze ou mais e mais... E ficar fazendo as contas de quanto é possível economizar mês a mês, e de quanto terei em dois, três, cinco anos! Meu Deus! E pensar no que gastar, quer dizer, investir esse dinheiro. Para então juntar mais, e investir mais. E, nesse meio tempo, divertir-se no final de semana com ele. Porque a vida só vai te dar a chance disso. Sim, só. Eu acho pouco.

Se eu tiver que me sentir triste no domingo à noite porque, da segunda até a sexta, eu terei de dispor quarenta horas fazendo qualquer-coisa-que-no-fim-do-mês-dê-dinheiro, e essa qualquer-coisa não me agrade, não tenha nada a ver com o que eu estou estudando há tanto tempo (e para o que eu passei outro tanto tempo estudando para conseguir estudar isso de agora!), sinceramente...

Toda manhã, às 7h, um respirar fundo porque terei um dia inteiro sem fazer o que eu gosto. Ou, em alguns casos, fazendo o que eu não gosto. Pra me contentar em à noite, ter tempo para ler um livro ou tocar projetos paralelos (?), ou seja, buscar satisfação em outros lugares, porque o que importa, menina!, tá por fora, é o que vem escrito no seu contra-cheque. Ali, em algarismos arábicos. Pode vir escrito por extenso, em romanos. Eu não quero sofrer de segunda a sexta.

Passei períodos inteiros em sofrimento absoluto, digo sem exagero e com todo o direito da verdade, sofrendo de segunda-a-sexta. Porque eu ia lá fazer o que eu não gostava. O que não me dava prazer, e tudo por um diploma no final de dez semestres. Até chegar o dia em que os caminhos se tornaram mais variados. Fui lá, procurei, encontrei. Tá dando certo sim. Eu sei, isso pode até acontecer nesse futuro-perfeito-do-contra-cheque-vultoso, mas eu não quero correr o risco. Muito menos passar mais quatro anos, ou dez ou vinte, até que haja alguma satisfação. Se é que vai haver.

Deixa eu pensar. Deixa eu escolher. Deixa eu estudar quando for para o que eu quiser. Não digo que vai ser fácil, mas talvez até seja! As boas oportunidades (sempre) aparecem quando a gente espera por elas. As boas expectativas são mais poderosas do que uma conta corrente valiosa... Nunca tive uma conta corrente valiosa, mas as boas expectativas há muito tempo estão comigo e eu te garanto isso que te disse, sim.

Eu ainda não me decidi. Mas o caminho é meu. E as semanas que virão, no decorrer de vinte e cinco anos ou mais, antes da aposentadoria, quem as viverão serei eu. Não tu! Desculpa a desilusão. Eu sei que você ficou tão empolgado que começou a se comportar e a me incentivar como se você fosse eu.

E os pequenos feitos que eu conseguir porque eu quis, comemorá-los-ei (relembrei isso, estudando hoje). Com muita gala, digo, com muita euforia, e, principalmente, tranquilidade, porque eu conquistei o que conquistei porque eu quis. E nessa minha curta vida (que já acho longa, e por vezes abrevio minha idade para parecer que tenho mesmo menos de 21), eu já aprendi que o que vale a pena conseguir não é o mais difícil ou o mais aparentemente inalcançável, adjetivo esse tão glamuroso, né. Mas o que vale a pena de conseguir é o que a gente quer de verdade. Pode ser, sim, o concurso público. Mas pode ser o sorvete no dia quente ou as flores inesperadas. Se foi o que você quis, parabéns: grande feito.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Invasão de espaço

Sabe você na sua faixa, no trânsito, e o motorista da frente, teoricamente na faixa vizinha, mas com 1/3 do carro dele também na sua faixa? Invasão de espaço.

Sabe você comendo um sanduíche, um salgado, um cachorro-quente, e a pessoa: me dá um pedaço? Invasão de espaço. Pedir um biscoito de dentro de um pacote, um pouco do seu doritos, até um gole da sua água, tudo bem, claro. Mas morder a mesma comida que você morde, ali, na sua frente, não. Peça dinheiro emprestado. Ou deixe pra comer em casa. Ou compre você seu lanche, filadaputa, mas não coloque sua boca onde eu coloco a minha.

Também: usar o SEU garfo para tirar algo do MEU prato. Peraí! Por que? Você mora na rua? Sua infância foi tão miserável que hoje você não se aguenta vendo o prato de comida dos seus amigos, e tasca SEU talher no prato DELE? Quem disse a você que isso é normal? Isso é invasão de espaço, fique você sabendo.

Você tá lendo uma revista, ou no notebook, na sala de aula, e um coleguinha, sentado ao seu lado, ou bem atrás de tu, cheirando seu cangote, olha junto com você. Invasão de espaço.

E por falar em cangote, as pessoas precisam entender que, quando em uma fila, aproximar o máximo possível da pessoa na sua frente, cheirar seu pescoço, orelha, saber qual condicionador ela usa, além de respirar (bufar) no ouvido dela, não vai fazer a fila andar mais rápido e é, também, invasão de espaço.

Você, estudando, sua mãe entra no seu quarto e vai abrindo as cortinas, porque tá muito escuro, abre a janela, porque tá uma quentura no quarto, as fotos do mural caem, voam, as folhas do seu caderno batem na sua cara, e ela fica no seu quarto olhando seus objetos pessoais e se esforçando para pensar em algo para dizer. É um pouco de carinho misturado com carência, e, tá, amorzinho-de-mãe, mas é invasão de espaço também.

No ônibus, e o sujeito ou a sujeita do seu lado decide, por bem, conversar com você. Sobre as pessoas que sobem no ônibus e pedem, sobre a sua escola (maldita farda que denuncia), sobre aquele ônibus que demora demais, e que teve uma vez que ele ou ela esperou o danado por mais de 45 minutos, mas que, pior que aquele ônibus, só aquele outro... Enfim. Invasão de espaço.

Ouvir Raça Negra no carro, bem alto, com os vidros abertos. Invasão de espaço pura e simples.

E você que não tem intimidade comigo, me vê com feições plácidas (?), cara de quem está distante, e pergunta: "tá pensando em quê?!".

Por favor!

Obrigado.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Ai, que abuso!

Tem dias em que a gente se sente particularmente abusado. Aliás, particularmente não, porque, como diria o pai de um amigo do meu irmão (!), quando é que você não é particularmente você? E particularmente abusado não é a melhor das definições. Mas especialmente abusado.

Você acorda e o mundo não te odeia mais, mas você odeia ele. E, se o mundo parou de te odiar, de repente todas as pessoas querem te ver. E você não quer ver ninguém. Nada contra as pessoas. Quer dizer, você até que tem coisas contra algumas pessoas do mundo, mas até aquelas contra as quais não rola muito da sua oposição, você odeia. Momentaneamente.

Você tem abuso de aparecer visitas na sua casa. E de as visitas, por algum motivo que eu nunca entendi, se intrometerem pelo corredor dos quartos e usarem o banheiro do corredor. E não o lavabo. Seu abuso está transbordando mas, por algum motivo, ninguém percebe, e começa a te perguntar sobre a viagem, o concurso, a faculdade. Nessa hora, a única coisa que você quer é não ver ninguém. Passar o dia em frente a uma parede branca parece ser a melhor das opções.

Você tem abuso de te chamarem para o bar, aquele-onde-todo-mundo-vai, porque lá você vai encontrar todo-mundo, e, dentre esse todo-mundo, vai precisar abraçar e sorrir para alguns ou muitos.

Então te chamam para ir ao cinema mas você não quer. Porque gastar dez reais e receber um chiclete Chiclets de troco não é bem o seu esporte, e, nesse dia então, você não tá no espírito.

O celular toca e... Desligue tudo. Hoje você não merece existir.