sábado, 25 de fevereiro de 2012

O escafandro que te liberta

Eu ganhei de presente na semana passada e adiei alguns dias sua leitura. Precisava terminar o Game of Thrones. Ainda não terminei. Precisava terminar o Sandman. Ainda não terminei. E sabia que quando começasse a ler o danado do livro, o faria de uma vez só; teria muita sede nos primeiros capítulos, e me deliciaria com as palavras mais do que me delicio com uma bandeja de quatro pães de mel. E depois, teria pena de avançar nas páginas, como fico com pena de seguir em frente as mordidas a partir do terceiro pão de mel da bandeja.

Não resisti. Com livros interminados e a expectativa aos prantos, abri O Escafandro e a Borboleta e comecei. Parei um pouquinho pra terminar de fazer o café. Li. Parei mais um pouco para conversar com meu pai. Li. Li. Li mais e tive de interromper novamente porque os compromissos me chamavam (o bar com as amigas). Mas eu queria mesmo era ficar em casa deitada na cama com o Escafandro sobre mim.

Eu estava defronte as palavras (letras ditadas) de um escritor singular, incrível. Desses que faz a gente ficar procurando adjetivos à altura pra poder colocar no post, mas acaba por dizer breguices ("singular"), porque não encontra a palavra.

A síndrome de estar trancado dentro de si mesmo, uma única pálpebra que se move, e o esforço de halterofilista, como ele mesmo descreve, de esperar a letra ditada para poder compor uma palavra, um parágrafo, e capítulos inteiros. Um livro sucinto e por demais minuncioso, tamanha a realidade da descrição.

Eu estou extasiada. E penso nas palavras que a pálpebra de Jean-Dominique Bauby foi ditando ao longo dos meses, com o simples intuito de nos comunicar... verdades. Eu gosto mais da vida agora? Não sei. Só sei que nunca mais reclamarei de dificuldade que tenho de escrever. E de agora em diante, farei tudo que meu corpo me permite, num piscar de olhos.

"Tá aí! 'A panela de pressão'! Poderia ser um título de uma peça de teatro que eu talvez escreva um dia com base na minha experiência. Também pensei em intitular O olho e, evidentemente, O escafandro. Todos já conhecem o enredo e o cenário. O quatro de hospital onde o senhor L., pai de família na flor da idade, aprende a viver com uma locked-in syndrome, sequela de grave acidente vascular cerebral. A peça conta as aventuras do senhor L. dentro do universo médico e a evolução de suas relações com a mulher, os filhos, os amigos e os sócios que tem na importante agência de publicidade da qual é um dos fundadores. Ambicioso e meio cínico, não tendo até então amargado nenhum fracasso, o senhor L. aprende o que é sofrimento, assiste à derrocada de todas as certezas de que se escudara e descobre que seus parentes são uns desconhecidos. Pode-se assistir de camarote a essa lenta mutação graças a uma voz em off, que reproduz o monólogo interior do senhor L. em todas as situações. Só falta escrever a peça. Já tenho a última cena. O cenário está mergulhado na penumbra, com exceção de um halo de luz que circunda o leito, no meio do palco. É noite, tudo dorme. De repente, o senhor L., inerte desde que a cortina subiu, afasta lençóis e cobertas, pula da cama e dá uma volta em cena, sob iluminação irreal. Aí, tudo fica escuro, e ouve-se pela última vez a voz em off, o monólogo interior do senhor L.: 'Merda, era sonho'."

Um comentário:

Anônimo disse...

não era pão de mel :P