terça-feira, 27 de março de 2012

Às vezes a gente aprende

Como é mesmo que a gente aprende? O que mais a gente ouve, o que mais a gente internaliza, transmite, insiste, aceita sem obstáculos? No que acreditamos piamente de tanto ouvir, que nunca paramos para pensar no que nos está sendo dito?

"Não desista!". Não. Não desista. Nunca desista! Você consegue! É possível. Basta acreditar e... não desistir!

E o que nos fica? Não desistindo, aí está, você venceu. Não o cansaço, não a resistência, a desistência, mas a si mesmo. E por quê? Quem foi que disse que não devemos e não podemos desistir? Qual o propósito? É só assim que avançamos? Sem desistir, pondo um pé a frente do outro, os olhos sempre para o horizonte, e nunca um pouco para trás, voltando alguns passos, desviando do caminho, até parando, sim, parando!, e pensando um pouco mais, e fazendo outras escolhas.

O mais próximo, digo, humano, que conseguimos disso chegar foi a idéia de: cada escolha implica uma renúncia. E, assim, desse modo, a renúncia, o seu não, uma suposta desistência (não ativa, porque ativa foi sua escolha, a desistência não é desistência, é renúncia!) não é encarada desse modo. Porque é feio desistir. A gente não pode, não deve fazer isso. Ainda mais se for servir de exemplo, ou mesmo de falação: e o que os outros vão pensar? O que vão dizer de mim? Meus pais vão ter tanto desgosto!

Ei. Desistir é tão importante quanto escolher. Engana-se você que pensa que sempre tem de ir até o fim. Não se considere vencedor só por não (nunca) desistir. Respeite esse status! Persistência e insistência são valores relativos. Não pense que tê-los faz de você alguém melhor. Às vezes pode fazer de você um babaca. Me desculpe, mas é verdade.

A gente deve, sim, desistir algumas vezes. Abertamente, abruptamente, parando, pensando, e anunciando (para si mesmo, antes e mais importante de tudo): desisto. Aqui eu fico, aqui eu paro. Quero um caminho diferente. Quero pensar em um caminho diferente.

Estamos, cada dia mais, deixando de cultivar e respeitar o valor mais humano que temos: a liberdade. De escolha. De renúncia. E, principalmente, de desistência. Não é feio! Eu sei. O primeiro pensamento que pode te vir à cabeça é o de: coitada; desiste tanto e tão fácil de tantas coisas (!), que agora quer nos convencer de ser esse o melhor caminho.

Será? Talvez eu seja, viu, perdedora, a loser do pedaço. Não me importo. O que importa é que desisti, ou melhor, aprendi a desistir, aprendi a ver que isso nem é feio, vergonhoso, ilegal. Pelo contrário. Me deixou feliz, me fez respirar, me deu ainda mais vontade de cuidar ainda melhor de um outro caminho: o meu de verdade, o que eu escolhi, o que eu quero para mim. O caminho livre, só meu, o feliz.

Mulher das cavernas

Txan-ran! Um suicídio social, internáutico, internêutico, virtual, online. Desativei o "face". Desativei meu rosto! Minha cara. Foi mermo. Só eu, na minha faixa etária, círculo anti-social, história-de-vida, não gostava daquilo? Era muita informação simultãnea. Uma invasão de espaço às vezes. Gente que mal conheço divulgando suas informações pessoais no "face", só que, claro, aparecia na minha página, como se eu me interessasse. Desativei.
Desliguei o celular. Me chateei com a última ligação, desliguei a ligação, desliguei o celular. Ele ainda quis tocar quando eu estava desligando-o, acredita? Quase que eu tirava a bateria também!

Meu msn só fica online, na verdade, Ocupado, em determinado horário do dia, e o telefone da minha casa eu só atendo quando gosto da cara do número. Voltei a frequentar a biblioteca, a pegar livros na biblioteca, e, sim, isso às vezes é um sinal de antiguidade. Ou, pelo menos, de quem é a favor da antiguidade.

Olha, lembrei da minha inabilidade com equipamentos eletro-eletrônicos, e que preciso urgente ligar pro Pablo para ver se ele me ajuda na configuração desse navegador aqui. Eu bloqueei umas coisas e não sei desbloquear.

Ouvi dizer que existe um tal de modo "vôo", que deixa meu celular tipo "offline", e dá para usar o despertador. Mas está me dando ansiedade, já, imaginando meu telefone ligado. É quase como estar no facebook, twitter, msn e gtalk ao mesmo tempo, online. Não te dá ansiedade? Agorafobia? Em mim dá.

Estou evoluindo. Para o status de mulher das cavernas, anacrônica, incomunicável, anti-social virtualmente falando. É, é sim. Essa é a real evolução, o verdadeiro progresso. Eu acredito!

segunda-feira, 26 de março de 2012

Pedido antigo

Venha logo, pois sou capaz de ficar batendo a cabeça na parede até a hora de sua chegada. Venha logo, que os galos vão grandes, os cabelos perderam o viço e a cor, e pelo travesseiro ficam, me fazendo companhia. Venha, pois o tranquilizante, a paroxetina, os poemas todos, nada disso mais adianta. O nervoso é incessante.

Venha rápido, pois não tenho mais sono, bem como não mais me levanto. Já não sei mais se a letargia é real ou sonambular (?).

Vens. Minha voz enrouqueceu. Meu sentido enlouqueceu. Cortei todas as unhas que me arrancavam a pele, o couro cabeludo, as cicatrizações de tudo o mais. Imagine então o estado.

Pedi a vida que me deixasse. A morte que me levasse. (Às vezes) (ainda) espero.

domingo, 25 de março de 2012

E por que?

Porque já está mais do que na hora de te escrever, ora mais. De te dizer que acho graça e que tenho gosto em ficar na ponta dos pés e te beijar. De pouquinho ou de beijão, te beijar. Porque quero que saiba que esse abraço em pé, deitados, no sofá vendo o tempo que passa, e como passa!, me torna mais completo de um jeito que não sei qual é.

Porque, sabe, estou mal acostumada. Essa atenção desmedida, exagerada, e só minha, que recebo diariamente, a cada minuto, e até enquanto dormimos. Ainda assim me sinto sua, amada, e o abraço faz-se mais completo: está para além da carne e do corpo. Ah, então é por isso e desse modo que me completo com teus (nossos) abraços. Tu consegue pôr os braços em volta de um corpo, um coração, uma manha pelo cafuné e pelo café quente; tu põe teus braços e também suas vontades, sonhos, desejos, sentimentos, os mais nobres, em volta de mim toda, e em todos os sentidos possíveis de se imaginar.

Porque se tu assiste o filme que eu quero e que tu não quer, me espera estudar, ler, trabalhar, contanto que eu esteja no mesmo recinto com você, traz o café e me beija nas costas, além de me suportar lendo revistas fúteis e as de decoração, ao invés de te olhar nos olhos e conversar, é que eu adoro ver as roupas e os móveis, tu sabe!, ah, não é possível que eu não me sinta assim, tão bem. Plena. Feliz.

Eu ia dizer: "nunca havia me sentido assim tão feliz!". Mentira. Já sim. Já senti felicidade muito maior e mais intensa do que isso antes. Em um curto espaço de tempo. Em um dia ou dois consecutivos. Em um momento de algum dia. Eu já senti, sim, outras vezes, uma felicidade maior, uma alegria retumbante. Mas nunca, repito: nunca, me senti tão feliz durante tanto tempo... Sem diminuições, sem interrupções, sem escorregos nem tropeços. E que venha mais tempo. Assim, tá bom assim, pra mim. E pra você?

sábado, 24 de março de 2012

Um sonho

Era uma casa na Afonso Pena, e sua parte que dava para a calçada parecia bem simples, ao mesmo tempo que antiga. Para dentro, a casa crescia. Houvera sido um casarão antigamente, e hoje seus donos faziam-na de pensão. Muitos quartos podiam ser alugados, e muitas pessoas, famílias até, moravam lá.

Minha mãe tinha deixado alguns pertences meus no início da manhã, e eu passaria a manhã inteira ali por perto. Na saída, no sol a pino, parei lá para pegar o que era meu. A casa, que para a direita tinha um vão e algumas portas de quartos, também algo parecido a um refeitório, e onde vi crianças brincando, velhos em cadeiras de balanço, jovens de dreadlock passando, para a esquerda havia uma escada. Eu tinha me enganado de chave e de lado. Não era um quarto na parte direita da casa, mas na outra ponta, e aí, tive de subir.

Enquanto eu entrava, a casa ficava imensa, muito muito grande. Se tornava um casarão ligeiramente luxuoso, com todos seus móveis antigos conservados, e tinha muitas estantes de livros. Parecia uma biblioteca dentro da casa, inclusive pela disposição de algumas estantes. E era como estar dentro de uma casa lá em 1920, eu imagino.

E enquanto eu estava na casa, procurando pelo meu quarto, corria a notícia de que o dono do lugar, um senhor já muito velhinho, estava morrendo em seu quarto, no andar acima. Subi, e algumas pessoas já estavam ao redor de sua cama, a qual já parecia muito um leito, por motivos que jamais conseguirei transformar em palavras. Apesar da ansiedade geral, o clima era tranquilo, silencioso.

Três médicos estavam ali. O mais jovem se aproximou do velhinho, e confirmou, com olhares, meneios e comportamento, que o senhor dono da casa estava "indo". Todo mundo compreendeu. Logo em seguida, o velhinho, que parecia dormir ou estar bastante sonolento, começou a sorrir. Sorria com satisfação. Um sorriso bobo, como de quem está apaixonado. Mais um pouquinho, e se levantou para pegar algo no balcão do lado. Fizeram menção de impedi-lo. Ele não vinha extremamente doente, tinha algumas condições de movimentar-se, sim, mas não havia motivo ou necessidade de levantar-se e dar uns quatro passos, dois para ir dois para voltar. Afinal, ele estava morrendo. Digamos explicitamente.

No momento da tentativa em interrompê-lo, meu avô, ao meu lado esquerdo, chegou a dizer: "deixem, deixem! Não faz mal." O velhinho tomou um gole de mel. E voltou para cama. E meu avô: "mel, melzinho é muito bom nessa hora." Na hora da morte? Sim.

Ao voltar para a cama, começou realmente a morrer. Seus olhos fechavam e já não havia menção de sorriso. Sua esposa, magrinha, velhinha, mirrada, deitou-se ao seu lado, se aninhando muito bem nesse lugar. Agora, muitos começaram a chorar, não tão copiosamente, e uma dessas pessoas era a minha avó, que estava do meu lado direito, e quem eu abracei com força enquanto chorava. Ela lembrava do meu avô, e eu também, e nós nos consolávamos por isso. Meu avô não estava do meu lado esquerdo nesse momento do sonho. Ele havia morrido, ué, há alguns anos, que nem na vida real.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Leite derramado

"As pessoas não se dão o trabalho de escutar um velho, e é por isso que há tantos velhos embatucados por aí, o olhar perdido, nnuma espécie de país estrangeiro."

"Com a idade a gente dá para repetir velhas lembranças, e as que menos gostamos de revolver são as que persistem na mente com maior nitidez."

"Mas se com a idade a gente dá para repetir certas históricas, não é por demência senil, é porque certas histórias não param de acontecer em nós até o fim da vida."


Chico Buarque.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Uma raiva existencial

Porque crescem pêlos no meu suvaco. Porque existe a palavra suvaco, que é feia. Porque meu cabelo nao assenta. E ainda está caindo aos tufos aqui pela frente. Sou uma mulher com "entradas", capilarmente falando. Também porque nao consegui ainda terminar esse livro, retomar o quadrinho, começar o de contos. Porque o til do meu teclado agora é duplo: ~~, n~~ao sei o que foi que eu fiz! Porque eu tenho um sono de 12 horas, mas só me dao seis pro noite. Oito, muito raro quando. Também porque a sapatilha arrancou meus calcanhares. Apanhei do saco de pancadas ontem, que nem tem braços.

Porque além de sacrifícios, a gente tem de fazer escolhas. O que dá no mesmo.

terça-feira, 20 de março de 2012

Mas são seis contra um!

Aconteceu. Não teve jeito. Desde adolescente, ou acho que desde criança, bebê, ou quando minha mãe tava decidindo ou não sobre me conceber, as vozes daqui de casa, digo, das pessoas que moram comigo, porque ainda não comecei a ter alucinações, mas as vozes me gritam, quer dizer, me falam carinhosamente: faça Direito; Direito; faça Direito!. Por que?! Porque você vai ter um "leque" de opções... Parei de ouvir em 'leque'. Porque existem os concursos públicos, que é quando você pode... Parei de ouvir em concurso. Porque eu tenho o pior defeito para os pais da nossa geração: ausência de ambição para concursos públicos.

Parei de ouvir mesmo. E pra parar de ouvir o faça-Direito e o não-faça-jornalismo, tudo bem, fêfiti-fêfiti: não vou pro Jornal, mas não vou pro Direito. Já contei essa história só (12x4=48) umas 48 vezes nos últimos quatro anos. Uma vez por mês eu venho aqui me queixar, lamentar, ou só relatar isso aí.

Mas acabei lá: em uma turma com 60 estudantes de Direito. Isso mearmo: sessenta. Estou concorrendo, não com eles, avemariagraçasaDeus-eunãoseriacapaz!, mas com outros dez coitados estudantes de Psicologia a um cargo pra resolvedor-de-problema-alheio. Conciliador, que chama.

Aí botaram nós tudo junto em uma mesma sala, todas as tardes, por um mês, que me parece que já passou, não? Ai, não, começou sexta-feira última...

Quero dizer, antes de tudo, ou no meio, porque já estou falando faz meia hora: eu tenho preconceito. Sem o "não" antes do "tenho". Eu tenho preconceito contra a raça do Direito. Tem meu irmão, meu pai, os amigos de um, de outro, um pessoal que conheci por aí, e as matérias da área que tive de estudar para um concurso recente. É chato. Maçante. Te torna chato, maçante. As palavras difíceis empregadas desnecessariamente, do alto de sua autoridade de alguém que conhece as leis (algo que deveria te tornar mais humilde, e não mais cheio de si!), me irritava de eu começar a passar mal. Hoje só sinto vergonha alheia mesmo.

O professor explica em termos simples, pois a aula não é de Direito nem para estudantes de Direito somente, mas sobre conciliação, conceitos também simples, básicos. O aluno precisa questionar, repetindo, r-e-p-e-t-i-n-d-o o que o professor acabou de dizer, assim, retomando, sabe?, e colocando: "mas isso para o juiz impugnar...?" segue pergunta totalmente teórica e restrita a área do Direito. Mas, professor, nesse caso aí (era um exemplo básico de discussão em audiência de conciliação), onde houve INJÚRIA, DIFAMAÇÃO, DESACATO (...). Acho que parei de ouvir na "injúria".

E o máximo, o mâst!, o êxtase. Quando a professora, perdão, a DOUTORA, porque é juíza, e juiz e juíza a gente não pode chamar de professor quando for nosso professor!, tem que ser Doutor e Doutora!, explicava em termos simples sobre a necessidade de intervir nas interrupções (?) do advogado de uma das partes (!) durante a sessão de conciliação. "Mas professora, nesse caso, então, de ARGUIÇÃO DA SUSPEIÇÃO...". E não entendi mais nada. Anotei no meu caderno assim mesmo, em caps lock, digo, em maiúsculas, e por cima de todas as outras que já formavam a lista das palavras jurídicas repetidas quase sempre sem nenhuma necessidade ao longo da tarde (que só começara há duas horas atrás).

E as prerrogativas? Quiçá! Quiçá! No caso de impugnação, sobre defeito formal e defeito de matéria (?). E sobre matéria de fato e matéria de direito. Existem também as famigeradas... O famigerado... E agora as pessoas são partes! O professor, foi mal, o Doutor, chegou a dizer: "tem dias de audiência de conciliação que as partes saem abraçadas do Juizado". As partes?... Eu: as partes? Vaila, como assim as partes saíram abraçadas? Partes de quê? O mais próximo que consegui imaginar e me aproximar foi pensar em peças de lego... AH, SIM, é que as partes são pessoas, né? A galera que entra na Justiça (ouvi dizer que estudante de Direito que se preze não fala que entra na Justiça, mas ele AJUIZA. É isso mesmo?) pra brigar: as partes.

As partes ou cidadão, cidadãos. Galera da Psicologia, vamos falar menos "sujeito" e "indivíduo". Olha que chique lembrar de falar sobre "partes" e "cidadãos" - que sempre me remetem ao bloco do Carnatal, desculpem.

Ai ai. Poderia ser menos divertido. Mas como eu só entendo e me interesso por 50% das aulas e das colocações feitas, fica até legal no fim do dia (quando eu vou embora).

terça-feira, 13 de março de 2012

Correndo

É que hoje eu sentei pra descansar e senti minha cabeça se movimentar enquanto continuava parada em cima do pescoço. Também senti meus olhos se movimentarem sozinhos, inclusive sem sincronia, um subia e outro ia pro lado esquerdo, depois um ia para baixo e outro para a direita, e enfim. Eu também não estava movimentando os olhos. Tentava só olhar pro meu suco e meu pastel.

Antes eu dizia que eu parava, mas que "minha cabeça não". Hoje eu parei, e meu corpo também não parou mais. E meu pensamento eu nem sei onde é que tava nessa hora (em cinco outros lugares ao mesmo tempo).

Daí eu falei na aula que terça-feira que vem posso ajudar no grupo lá do Psicólogo não-sei-o-que, bolando uma dinâmica massa e coisa e tal, e fiz três idéias na minha cabeça (que continuava em outros cinco lugares - não os mesmos do da hora do pastel), e já sabia que à noite, na caixa de e-mail, eu ia escrever que só. Mentira. Posso não. Terça-feira que vem vou estar no curso maluco da primeira fase do concurso que eu passei e que se eu passar agora vou assumir o estágio. Mais um estágio.

Que eu já estou fazendo outro estágio, que acontece em dois lugares! Um dos lugares é em Macaíba, aí, caramba, meia hora pra ir e meia hora pra voltar, já pensou uma hora que tá se esvaindo, se liquefazendo, se perdendo nos cabelos que eu também estou perdendo? Era uma hora a mais dormindo, estudando, fazendo o relato daquele atendimento que ainda não enviei.

Ah, nem terminei o relato do atendimento da mãe do menino que fiz hoje. Mas até que o relatório da psicopedagoga dele eu digitei de uma vez só. Mas só que aí eu saí pra ir no banheiro e parei na recepção da clínica de psicologia olhando os horários daquela aluna do 3º ano que tá atendendo uma criança que eu, na monitoria, estou ajudando na supervisão.

O artigo que eu prometi a Hannia, coitada, ainda estou tentando ajeitar e estudar e fazer e escrever mais um pouco. Também esqueci de ligar pra mãe da outra criança. Avisar que o horário não vai dar certo, mulher, por causa de novo desse curso.

Aprendi a comer fazendo outras duas coisas ao mesmo tempo. E sem olhar pra comida. É bom que parei de catar cabelo e mosquito no meu prato. Também consigo comer rápido agora, viu. Em dez ou quinze minutos eu almoço, tomo até o café depois. Dá certo! Eu sento no computador logo em seguida, e minha avó já se apavora: "comeu agora e já vai trabalhar?!?!?!?". "Não, vó, aqui é rapidinho. Vou já tomar banho pra sair". "Sim. (Pausa). Tomar banho?!?!? Depois de almoçar?!?!?!". É quando dá tempo, vó!

Amanhã eu tenho terapia mas acho que vou pedir a minha psicóloga fazer nossas sessões quinzenais ao invés de semanais, porque aí é uma hora a mais de sono por semana, ou uma hora a mais de estudo, ou de trabalho, ou de relato, e dá duas horas de qualquer dessas coisas por mês, o que, no final do ano... Ai, não, eu coloquei o meu dia lá em Macaíba para a mesma manhã da psicóloga. Não acredito. Coincidiu. Cancela tudo? Sei não. Se ela estiver no mesmo ritmo e agenda que eu... Não vai dar. Vai ter que ficar pra 2013.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Hum.

E que história é essa de que o único consolo é só esse, é só ele, é único? Não! Que história é essa de ter certeza sobre isso? Não! Que história de que sumiu o chão, é impossível concentrar-se na aula, segurar o choro soluçado?

Eu aprendi faz bem pouco tempo, mas já me sinto uma outra Beatriz, tanta diferença que isso me acrescentou: aprenda a amar sua liberdade. Não falo nem de espírito aventureiro, vender brincos na praia, praticar o amor livre, viajar o mundo com uma mochila nas costas (!). Não, mulher, não dispense uma boa bagagem. Sério.

Você pode fazer tudo isso, ou não fazer nada disso. Você pode ter a vida que você decidir ter, mas, por favor, nunca esqueça: abrace e ame a sua liberdade, pois isso significa amar você mesma. Eu sei, parece livro de auto-ajuda, colunista de revista feminina falando para quarentonas-solteironas desesperadas ou desiludidas... Não importa. Aliás, não importa mesmo sua idade, seu estado civil, a quantidade de amigos que você tem, o emprego que você deseja. Cultive a única vida que você pode cultivar: a sua própria. Lembre de mantê-la ainda quando dividi-la com outros, e nesse outros, não está só o ele, mas todos os outros mesmo: mamãe, papai, e os futuros filhos cabem aqui também. Ah, e nós também, tuas amiga!, divida sua vida conosco mas lembre de que ela é somente sua, e valorize isso.

Ninguém é auto-suficiente por completo, mas a gente pode buscar ser um pouco mais isso do que ser outro-dependente, sabe? Isso é ser livre, isso é ser feliz.

Sabe, a minha melhor amiga tatuou no braço direito dela: Liberte-se. E é só a única dica que ela tem para ensinar aos outros a ser como ela: livre, feliz.

domingo, 4 de março de 2012

Fila (da p.!)

Meu filho, por favor, me diga, eu preciso saber. Preciso realmente conversar com você. Talvez seja tu o líder do sindicato, o presidente da geral, o maior agremiador da trupe, talvez não. Talvez você seja só mais um dessa classe. Mas como, tímida que sou, sempre, educada que sou, às vezes, prefiro um tete-a-tete somente com você, com quem estive essa semana.

Me diga, querido, quem foi o responsável pela divulgação da idéia de que, o mais adequado do comportamento social, é quando, em uma fila, prostrar-se o mais próximo possível, pooooooosssível, da pessoa em sua frente? Por que?! Quem ensinou isso a vocês, docinhos? Foi em um seminário? Uma congregação de freiras que existe há décadas, séculos? Uma tribo de educadores profissionais, que cultuam os verdadeiros valores sociais, e ensinam as condutas arcaicas corretas, destoantes das de todo o restante do bom senso, digo, da população?

Eu preciso saber porque você se aproxima tanto de mim. Na fila do banco, da cantina, da carteira de estudante, do tickets. Você acha mesmo, ou, sei lá, aprendeu mesmo que quando a fila anda um pouco, e a pessoa que está à sua frente ainda não andou, o certo é você andar para a frente com o intuito de atropelá-la, encoxá-la, melhor dizendo?

Por que, por favor, por que, vocês não cheiram bem? Desculpa, é sem ofensa, eu entendo o calor, o ônibus lotado, o leite de rosas que nem sempre dá conta, mas quando a gente não tá assim, perfumadão, é melhor evitar contatos e aproximações físicas. No duro.

Cuidem bem do hálito. Sabe, vocês normalmente baforam na nuca do sujeito. É raiva, é? Cara, a pessoa não tá ali porque quer. Aliás, ninguém está em uma fila porque quer, e muito menos está se divertindo ficar ali. Não sintam raiva da gente, nem achem que respirando alto e bufando no nosso pescoço e ouvidos, a fila vai andar mais rápido, ou eu, que estou na sua frente, vou andar mais rápido. Porque não vou. Principalmente, não vou encoxar o sujeito da frente como tu tá tentando fazer atrás de mim, em uma intenção incompreensível de fazer a fila andar mais rápido, porque eu não faço parte da seita de vocês - felizmente para as pessoas, infelizmente para mim, que continuo sem entender o que se passa na cabeça de vocês.

Acredito que vocês cultuem bastante o toque físico, o abraço, a proximidade. Devem gostar de compartilhar, inclusive, o hálito, a respiração, fazer o máximo possível de atividades diárias em fila indiana, pra aproveitar ainda mais esse contato coxa a coxa, bafo-e-nuca, mas, é preciso dizer: as demais pessoas não curtem. A gente gosta da idéia do "espaço", sabe? E esse é um conceito físico com implicações simbólicas profundas, gravíssimas!

Colega, flor, querido, lindinho: por favor, se afasta um pouco. Tira suas coxas das minhas, porque, afinal, você não é meu namorado, eu nem te conheço, pára de bufar no meu ouvido, escova bem os dentes durante o dia, troca por um desodorante eficiente e não passa 48 horas sem usá-lo porque a embalagem garante (não acredite!). Não é nada pessoal. Quero só que tu afaste um pouco. Respeite meu espaço. A fila vai andar, eu prometo. E nada disso que você tá fazendo vai apressar o caixa do banco.

Um aperto de mão afetuoso.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Para alguns

E quanto nos encontrarmos lá na frente, dedicarei grandes sorrisos à você, a nós dois, a nós todos. Dedicarei lembranças felizes, fotografias doces de um tempo passado que tanto gostei. Vou dar uma gargalhada se o constrangimento vier, te convidarei para entrar e me colocarei à disposição, dizendo que comigo você pode contar, sim, para tudo. Terei uma vida tão diferente, e tu também. Mas ainda, na minha fértil imaginação, tu me pareces ainda muito a mesma pessoa. É que acho que já mudastes tanto, vivesses tanto, que será só mais um pouco de diferença a somar-se daqui para a frente. Concorda?

Falo isso sem tom pejorativo. São só impressões. É que acredito que o tempo vai vir e passar, vir e passar, e, um dia, sim, um dia o tropeço em um paralelepípedo vai nos colocar de frente de novo. E seremos novos. Seremos outros.

Encontrei nos meus rascunhos, onde coloco frases prontas e idéias, mas também palavras soltas, e aí encontrei idéias para frases prontas com palavras soltas! Sim. Mais ou menos isso, e precisei ler várias vezes, ao longo dos dias, para compor o quadro.

Escrevi que nós somos vários de nós mesmos. Assim "nós = vários de nós mesmos". Que somos além da soma racional + emocional. Somos, na verdade, várias partes, e, de vez em quando (essa expressão já é inferência minha!), essas partes tomam suas vontades próprias. Sabe o dia que acordamos tão artisticamente inspirados e pegamos carona na imaginação, sem pedir parada? E o dia que recusamos propostas irresistíveis, porque, de repente, somos dois cérebros e nenhum coração. Acho que era isso, certo? Quando nos damos conta, somos apenas alguma dessas partes se manifestando.

Há, ou somos, não sei bem o que quis dizer, uma grande confusão: de sentimentos, de pessoas, de sentimentos para com determinadas pessoas. Somos um monte de partes e também somos várias confusões? Somos um emaranhado de pedaços indistintos, confusos.

E aí anotei "imbróglio", porque é essa idéia que passa, e é nisso que terminamos nos transformando. Anotei também porque gosto que só dessa palavra, e terei um cachorro chamado assim um dia. (Acredite!).

E aí, logo abaixo, escrevi "desesperador". Provavelmente, no dia em que fiz as anotações (não há data no papel), foi assim que me senti. Imagino agora. Minhas partes distintas, emocionais, racionais, animais e humanas, devo tê-las imaginado em ebulição; devo ter ficado apreensiva e angustiada imaginando o que estaria se dando dentro de mim, e o que poderia acontecer em seguida, em breve, ou no futuro distante! Estava fora do meu controle, e, agora eu sabia. Desesperadamente, eu sabia.

E aí, na última linha escrita, está lá, simples, óbvio, lugar-comum, e, claro, clichê, porque nem sempre há como fugir: "normal". E o pior, assim mesmo, entre aspas. Aí eu já não sei o que eu quis dizer com a palavra, nem com as aspas. E nem me arrisco. Já foram chutes demais para palavras de menos, inferências demais para incertezas tão grandes: nós, a vida, o futuro.