domingo, 4 de março de 2012

Fila (da p.!)

Meu filho, por favor, me diga, eu preciso saber. Preciso realmente conversar com você. Talvez seja tu o líder do sindicato, o presidente da geral, o maior agremiador da trupe, talvez não. Talvez você seja só mais um dessa classe. Mas como, tímida que sou, sempre, educada que sou, às vezes, prefiro um tete-a-tete somente com você, com quem estive essa semana.

Me diga, querido, quem foi o responsável pela divulgação da idéia de que, o mais adequado do comportamento social, é quando, em uma fila, prostrar-se o mais próximo possível, pooooooosssível, da pessoa em sua frente? Por que?! Quem ensinou isso a vocês, docinhos? Foi em um seminário? Uma congregação de freiras que existe há décadas, séculos? Uma tribo de educadores profissionais, que cultuam os verdadeiros valores sociais, e ensinam as condutas arcaicas corretas, destoantes das de todo o restante do bom senso, digo, da população?

Eu preciso saber porque você se aproxima tanto de mim. Na fila do banco, da cantina, da carteira de estudante, do tickets. Você acha mesmo, ou, sei lá, aprendeu mesmo que quando a fila anda um pouco, e a pessoa que está à sua frente ainda não andou, o certo é você andar para a frente com o intuito de atropelá-la, encoxá-la, melhor dizendo?

Por que, por favor, por que, vocês não cheiram bem? Desculpa, é sem ofensa, eu entendo o calor, o ônibus lotado, o leite de rosas que nem sempre dá conta, mas quando a gente não tá assim, perfumadão, é melhor evitar contatos e aproximações físicas. No duro.

Cuidem bem do hálito. Sabe, vocês normalmente baforam na nuca do sujeito. É raiva, é? Cara, a pessoa não tá ali porque quer. Aliás, ninguém está em uma fila porque quer, e muito menos está se divertindo ficar ali. Não sintam raiva da gente, nem achem que respirando alto e bufando no nosso pescoço e ouvidos, a fila vai andar mais rápido, ou eu, que estou na sua frente, vou andar mais rápido. Porque não vou. Principalmente, não vou encoxar o sujeito da frente como tu tá tentando fazer atrás de mim, em uma intenção incompreensível de fazer a fila andar mais rápido, porque eu não faço parte da seita de vocês - felizmente para as pessoas, infelizmente para mim, que continuo sem entender o que se passa na cabeça de vocês.

Acredito que vocês cultuem bastante o toque físico, o abraço, a proximidade. Devem gostar de compartilhar, inclusive, o hálito, a respiração, fazer o máximo possível de atividades diárias em fila indiana, pra aproveitar ainda mais esse contato coxa a coxa, bafo-e-nuca, mas, é preciso dizer: as demais pessoas não curtem. A gente gosta da idéia do "espaço", sabe? E esse é um conceito físico com implicações simbólicas profundas, gravíssimas!

Colega, flor, querido, lindinho: por favor, se afasta um pouco. Tira suas coxas das minhas, porque, afinal, você não é meu namorado, eu nem te conheço, pára de bufar no meu ouvido, escova bem os dentes durante o dia, troca por um desodorante eficiente e não passa 48 horas sem usá-lo porque a embalagem garante (não acredite!). Não é nada pessoal. Quero só que tu afaste um pouco. Respeite meu espaço. A fila vai andar, eu prometo. E nada disso que você tá fazendo vai apressar o caixa do banco.

Um aperto de mão afetuoso.

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