terça-feira, 20 de março de 2012

Mas são seis contra um!

Aconteceu. Não teve jeito. Desde adolescente, ou acho que desde criança, bebê, ou quando minha mãe tava decidindo ou não sobre me conceber, as vozes daqui de casa, digo, das pessoas que moram comigo, porque ainda não comecei a ter alucinações, mas as vozes me gritam, quer dizer, me falam carinhosamente: faça Direito; Direito; faça Direito!. Por que?! Porque você vai ter um "leque" de opções... Parei de ouvir em 'leque'. Porque existem os concursos públicos, que é quando você pode... Parei de ouvir em concurso. Porque eu tenho o pior defeito para os pais da nossa geração: ausência de ambição para concursos públicos.

Parei de ouvir mesmo. E pra parar de ouvir o faça-Direito e o não-faça-jornalismo, tudo bem, fêfiti-fêfiti: não vou pro Jornal, mas não vou pro Direito. Já contei essa história só (12x4=48) umas 48 vezes nos últimos quatro anos. Uma vez por mês eu venho aqui me queixar, lamentar, ou só relatar isso aí.

Mas acabei lá: em uma turma com 60 estudantes de Direito. Isso mearmo: sessenta. Estou concorrendo, não com eles, avemariagraçasaDeus-eunãoseriacapaz!, mas com outros dez coitados estudantes de Psicologia a um cargo pra resolvedor-de-problema-alheio. Conciliador, que chama.

Aí botaram nós tudo junto em uma mesma sala, todas as tardes, por um mês, que me parece que já passou, não? Ai, não, começou sexta-feira última...

Quero dizer, antes de tudo, ou no meio, porque já estou falando faz meia hora: eu tenho preconceito. Sem o "não" antes do "tenho". Eu tenho preconceito contra a raça do Direito. Tem meu irmão, meu pai, os amigos de um, de outro, um pessoal que conheci por aí, e as matérias da área que tive de estudar para um concurso recente. É chato. Maçante. Te torna chato, maçante. As palavras difíceis empregadas desnecessariamente, do alto de sua autoridade de alguém que conhece as leis (algo que deveria te tornar mais humilde, e não mais cheio de si!), me irritava de eu começar a passar mal. Hoje só sinto vergonha alheia mesmo.

O professor explica em termos simples, pois a aula não é de Direito nem para estudantes de Direito somente, mas sobre conciliação, conceitos também simples, básicos. O aluno precisa questionar, repetindo, r-e-p-e-t-i-n-d-o o que o professor acabou de dizer, assim, retomando, sabe?, e colocando: "mas isso para o juiz impugnar...?" segue pergunta totalmente teórica e restrita a área do Direito. Mas, professor, nesse caso aí (era um exemplo básico de discussão em audiência de conciliação), onde houve INJÚRIA, DIFAMAÇÃO, DESACATO (...). Acho que parei de ouvir na "injúria".

E o máximo, o mâst!, o êxtase. Quando a professora, perdão, a DOUTORA, porque é juíza, e juiz e juíza a gente não pode chamar de professor quando for nosso professor!, tem que ser Doutor e Doutora!, explicava em termos simples sobre a necessidade de intervir nas interrupções (?) do advogado de uma das partes (!) durante a sessão de conciliação. "Mas professora, nesse caso, então, de ARGUIÇÃO DA SUSPEIÇÃO...". E não entendi mais nada. Anotei no meu caderno assim mesmo, em caps lock, digo, em maiúsculas, e por cima de todas as outras que já formavam a lista das palavras jurídicas repetidas quase sempre sem nenhuma necessidade ao longo da tarde (que só começara há duas horas atrás).

E as prerrogativas? Quiçá! Quiçá! No caso de impugnação, sobre defeito formal e defeito de matéria (?). E sobre matéria de fato e matéria de direito. Existem também as famigeradas... O famigerado... E agora as pessoas são partes! O professor, foi mal, o Doutor, chegou a dizer: "tem dias de audiência de conciliação que as partes saem abraçadas do Juizado". As partes?... Eu: as partes? Vaila, como assim as partes saíram abraçadas? Partes de quê? O mais próximo que consegui imaginar e me aproximar foi pensar em peças de lego... AH, SIM, é que as partes são pessoas, né? A galera que entra na Justiça (ouvi dizer que estudante de Direito que se preze não fala que entra na Justiça, mas ele AJUIZA. É isso mesmo?) pra brigar: as partes.

As partes ou cidadão, cidadãos. Galera da Psicologia, vamos falar menos "sujeito" e "indivíduo". Olha que chique lembrar de falar sobre "partes" e "cidadãos" - que sempre me remetem ao bloco do Carnatal, desculpem.

Ai ai. Poderia ser menos divertido. Mas como eu só entendo e me interesso por 50% das aulas e das colocações feitas, fica até legal no fim do dia (quando eu vou embora).

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