sábado, 24 de março de 2012

Um sonho

Era uma casa na Afonso Pena, e sua parte que dava para a calçada parecia bem simples, ao mesmo tempo que antiga. Para dentro, a casa crescia. Houvera sido um casarão antigamente, e hoje seus donos faziam-na de pensão. Muitos quartos podiam ser alugados, e muitas pessoas, famílias até, moravam lá.

Minha mãe tinha deixado alguns pertences meus no início da manhã, e eu passaria a manhã inteira ali por perto. Na saída, no sol a pino, parei lá para pegar o que era meu. A casa, que para a direita tinha um vão e algumas portas de quartos, também algo parecido a um refeitório, e onde vi crianças brincando, velhos em cadeiras de balanço, jovens de dreadlock passando, para a esquerda havia uma escada. Eu tinha me enganado de chave e de lado. Não era um quarto na parte direita da casa, mas na outra ponta, e aí, tive de subir.

Enquanto eu entrava, a casa ficava imensa, muito muito grande. Se tornava um casarão ligeiramente luxuoso, com todos seus móveis antigos conservados, e tinha muitas estantes de livros. Parecia uma biblioteca dentro da casa, inclusive pela disposição de algumas estantes. E era como estar dentro de uma casa lá em 1920, eu imagino.

E enquanto eu estava na casa, procurando pelo meu quarto, corria a notícia de que o dono do lugar, um senhor já muito velhinho, estava morrendo em seu quarto, no andar acima. Subi, e algumas pessoas já estavam ao redor de sua cama, a qual já parecia muito um leito, por motivos que jamais conseguirei transformar em palavras. Apesar da ansiedade geral, o clima era tranquilo, silencioso.

Três médicos estavam ali. O mais jovem se aproximou do velhinho, e confirmou, com olhares, meneios e comportamento, que o senhor dono da casa estava "indo". Todo mundo compreendeu. Logo em seguida, o velhinho, que parecia dormir ou estar bastante sonolento, começou a sorrir. Sorria com satisfação. Um sorriso bobo, como de quem está apaixonado. Mais um pouquinho, e se levantou para pegar algo no balcão do lado. Fizeram menção de impedi-lo. Ele não vinha extremamente doente, tinha algumas condições de movimentar-se, sim, mas não havia motivo ou necessidade de levantar-se e dar uns quatro passos, dois para ir dois para voltar. Afinal, ele estava morrendo. Digamos explicitamente.

No momento da tentativa em interrompê-lo, meu avô, ao meu lado esquerdo, chegou a dizer: "deixem, deixem! Não faz mal." O velhinho tomou um gole de mel. E voltou para cama. E meu avô: "mel, melzinho é muito bom nessa hora." Na hora da morte? Sim.

Ao voltar para a cama, começou realmente a morrer. Seus olhos fechavam e já não havia menção de sorriso. Sua esposa, magrinha, velhinha, mirrada, deitou-se ao seu lado, se aninhando muito bem nesse lugar. Agora, muitos começaram a chorar, não tão copiosamente, e uma dessas pessoas era a minha avó, que estava do meu lado direito, e quem eu abracei com força enquanto chorava. Ela lembrava do meu avô, e eu também, e nós nos consolávamos por isso. Meu avô não estava do meu lado esquerdo nesse momento do sonho. Ele havia morrido, ué, há alguns anos, que nem na vida real.

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