segunda-feira, 30 de abril de 2012

É mesmo, Elis.

Quando você se tornar adulto, você vai perceber. Ou, se você já for adulto, é só parar para perceber, e, então, perceber.

Quando a gente é mais novo, a gente conhece muito bem os defeitos dos nossos pais. E as manias, os gestos, o significado de cada tom de voz, as frases ocultas-explícitas em cada olhar que eles jogam à nós ou aos outros. Os defeitos, os grandes ou os que pouco incomodam, mas que são defeitos, a gente não esquece. O que a gente não sabe, e, depois, não se dá conta, é que a gente repete-os, quando não aprimora-os, exagera-os, e, claro, continua reclamando dos defeitos neles, e só neles.

A minha mãe, quando saiu da barriga da minha avó, começou a trabalhar. E não parou nunca mais. Ela pouco dorme, pouco come, pouco se deita ou passa cinco minutos olhando para o tempo ou de olhos fechados "descansando a vista". Ela descansa a vista trabalhando - vendo as notícias na televisão. Das seis da manhã da segunda-feira, às... seis da manhã da outra segunda-feira. Domingos e feriados são nomes de dias de trabalho. Eu sempre achei exagerado, dizia que ela devia dar um breique, um táime a si mesma, que ela ia adoecer de tanto trabalhar e de pensar em trabalho. E enquanto escrevo isso, agora, é como se estivesse falando de mim mesma.

Minha mãe saía de casa com três bolsas, quatro sacolas de livro, muitas pastas de papelão, aquelas pastas suspensas que ela usava naqueles armários de ferro mais velhos do que ela, respirava exausta já pela manhã, pisava forte e apressado porque não estava atrasada, mas queria chegar mais cedo ao trabalho para poder render por mais tempo, se irritava com a roupa amassada e a maquiagem que não tinha dado tempo de ficar boa, mas ia assim mesmo. E essa sou eu, hoje, em 2012, todas as manhãs da semana.

Ela não tinha esse costume de sentar para comer, tomar café da manhã, sentir o gosto da comida, a brisa do vento, sentar no sofá depois para assistir o jornal. Eu hoje não tenho nem apetite. Como pela obrigação, porque preciso da energia para trabalhar (!). A refeição completa virou diversão de fim de semana, acontecimento para ocasiões especiais. E se eu reclamava que ela não sentava comigo para almoçar e jantar, eu hoje não sento nem comigo mesma para fazer isso, e acho que vou continuar comendo de pé e muito rápido enquanto meus filhos nascem e crescem e reclamam.

Era um absurdo, para mim, uma pessoa ter três agendas, dois cadernos, celular, telefone, e ainda assim esquecer e cancelar os compromissos. E era mais absurdo ainda essa pessoa ser minha mãe. Hoje eu tenho uma agenda rosa, um mini caderno bege, o meu caderno do estágio, cheio de anotações importantes de datas e horários, o meu celular, cuja memória vai já explodir de tantas anotações aleatórias, e, sim, claro, em cima da hora eu desmarco o jantar, o psicólogo, a médica, porque, apesar de estar anotado em vários cantos, eu, por algum motivo que só minha mãe deve saber, não olhei em nenhum, e esqueci. Apitou em cima da hora, e agora não dá mais.

Não há irresponsabilidade maior do que esquecer as contas para pagar! As contas da sua casa! Dos seus filhos, da sua família! As suas contas!
(...)
Todas as contas dos celulares e da tv a cabo estão atrasadas, mãe. Esqueci. Não deu tempo. Não escrevi na agenda, nas agendas, nos cinco cadernos. E tome multa (que eu tanto reclamava quando tu tinhas que pagar). Todo mês pagamos multas, viu, juros, e essas taxas todas. Culpa minha, não sua.

Agora deixa eu ir, deixa eu correr, que já já tenho de estar na universidade.


Apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos, e vivemos / ainda somos os mesmos, e vivemos como os nossos pais.

2 comentários:

Fábio Farias disse...

Somos as cópias dos nossos pais. O importante, porém, é não repetir os erros :)

-sOliNo- disse...

é mesmo, belchior. :)