segunda-feira, 9 de abril de 2012

Ei, menina!

É você que agora eu vejo, saindo daqui da biblioteca, e vou bem atrás de você sem que você tenha me percebido. Creio. E você vai andando, nesse seu andar tranquilo e despretensioso. Bem me lembro. Solta esses cachos! Eu lembro como gostava deles. Ainda gosto deles. E enquanto você vai, eu, um pouco atrás, te olho, te imagino, te lembro, desenho sem que veja seus olhos, cílios, nariz e dentes, seus enormes dentes. Seu sinal no braço, seus shorts miúdos, suas roupas folgadas, enormes, e às vezes as minhas calças que você punha. E ia para a aula.

Não adivinho seus livros. Mas o García Márquez tá aí por cima do caderno e debaixo do estojo. Então eu sei que você ainda alterna sua uma hora de estudo com meia hora de literatura. E às vezes inverte. E às vezes esquece, e só lê.

E, agora, além de te ver andando à minha frente, escuto sua voz que me lia poemas. Mas só algumas estrofes, por saber, bem saber, que me faltava a concentração de ouvir palavras de ti. Eu só ouvia... eu só via a ti.

E bem anda e se vai. Imagino se vais ligar do orelhão aí da frente para alguém vir te buscar. Se vais recolher seu material e pôr nas costas aquela sua mochila desbotada, que em você, não sei por quê, ganhava cor. Mas talvez você corra para a parada de ônibus. Já são quase dez da noite, e lá vai você. É sua hora. Minha também. Eu que parti de ti, parti a ti, seu coração, e depois o meu também, te vejo de costas para mim, andando, para frente, à frente, e acho que me arrependo. Me arrependo. Não vejo a hora de chegar em casa e sentir mais saudade.

Um comentário:

Fábio Farias disse...

Lírico e belo, tá se garantindo heim!