sexta-feira, 29 de junho de 2012

Lírico e Bela

Olhos nos olhos, e eu sei o que você pensa.
Olhos nos olhos, eu vejo que você me adora, mas nem tanto.
Olhos nos olhos e eu sei o que você quer fazer. Você tem dúvidas, mas está cheia de felicidade.

Olhos nos olhos, eu acho que sei o que você pensa.
Olhos nos olhos, eu imagino quanta beleza há no que você diz. Eu não entendo tudo tão bem assim.
Olhos nos olhos, eu não entendo você, que me entende tanto.
Olhos nos olhos, você bem sabe o que está fazendo.
Sabe?

Olhos nos olhos, eu quero te emprestar meus livros.
Olhos nos olhos, quero te dar essas palavras todas, bonitas e feias, melancólicas, felizes. Sinceras.
Olhos nos olhos, eu te olho com sinceridade.
Estou cheio de verdades.

Olhos nos olhos, eu vejo você deleitando-se em minha beleza.
Olhos nos olhos, eu sei exatamente o que você pensa agora, mas não o que você imagina.
Olhos nos olhos, me pergunto se estamos no lugar certo.
Olhos nos olhos, te dou minha beleza inteira, sim, e pego emprestado de ti uma poesia assim.

Olhos nos olhos, olhos e olhos, é o amor que aqui diz.
Olhos nos olhos, é o amor que importa. Que nos olha, e que diz.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Me explica, me ensina

Se você tem um carro, usa um carro, dirige um carro, as regras aqui na UFRN são um pouco peculiares e diferentes. Não foi sempre assim, mas é o que eu tenho observado nos últimos anos (?). É importante que se saiba.

A primeira delas é que você deve sempre, impreterivelmente, peremptoriamente, comcertezamente, estacionar nos lugares onde houver aquela placa circular, de bordas vermelhas, com um E dentro, e um traço que risca o E. Se houver dois traços, por favor, coloque lá urgentemente. É o pedido que a placa faz.

Com um traço, você deve estacionar, sim. É o lugar correto, é isso que a placa está dizendo. Quando houver dois traços em forma de xis cortando esse E, significa que, por favor, coloque urgentemente naquele espaço, pois ele precisa ser ocupado. De preferência, se você for passar cerca de oito horas ininterrupas nos terrenos da universidade. Deixe seu carro as oito horas ali, se puder mais.

Esses lugares denotam algum privilégio. Eles são sempre os primeiros a serem ocupados. Fiquei achando que era porque eram os próximos da biblioteca, do Centro de cada setor, coisa do tipo. "Ah, porque facilita a vida das pessoas, ficar estacionado aqui." Acho que não só isso. Por que em todos os lugares da universidade, sejam vagas centrais ou não, há carros estacionados ao lado do E riscado com um traço e do E riscado com um xis. É regra, gente. Não se questiona, apenas se faz!

A segunda é estacionar rente ao meio fio, nas principais ruas da universidade. Ali também tem a placa de proibid... ops, de permitido estacionar (o E com um traço por cima), então, mais um motivo. Não interessa se por causa do seu carro e dos carros de demais pessoas como você, o trânsito vai ficar ruim. Os carros em movimento vão precisar esperar, cem metros atrás, enquanto os lá do outro lado, cem metros à frente, passam pela rua. Era para passar as duas filas de carro simultaneamente - os que vêm e os que vão - mas isso não acontece. Afinal, você, e as pessoas como você, estacionaram no lugar devido, exatamente onde os carros de vocês deveriam estar.

Outra regra é, se possível, nisso você precisa ser um expert no tipo de pessoa que você é (entende?), além de estacionar em meio-fios e vagas com esses E riscados una ou duplamente, é colocar seu carro perpendicular a um outro. Esse outro tem que estar estacionado em um lugar sem essas placas do E riscado, e entre duas faixas amarelas. Assim, bem bonitinho, parece, sabe? Mas, coitado, burrinho, ele não está usando das regras da universidade. Ele merece sofrer. Merece aprender a estacionar! Ora mais.

Pegue seu carro, coloque perpendicular ao dele, rente à traseira do carro do infeliz. Procure com carinho as placas dos E riscado, para ser bem ali, na cara do bicho, a lição que você vai dar a ele. E, então, quando o quadrado do rapaz for retirar o carro, vai ser praticamente impossível ele retirar de uma única vez, como deveria ser, digo, como ele achava que seria. Ele vai ter que ficar indo pra frente e pra trás, pra frente e pra trás, se sentindo o ridículo (é isso que ele é, né verdade?!), enquanto tenta não bater no carro à esquerda dele (outro besta quadrada), no carro à direita dele (mais um imbecil), e no seu (que é O CARA!). Ele vai sofrer. Vai penar. Vai ficar suado, coitado, porque achou que estava fazendo a coisa certa colocando o carro dele ali, entre duas faixas amarelas paralelas, sem nenhuma placa com E riscado por perto, e agora ele precisa fazer um malabarismo para ir embora para casa, sem que bata em três ou mais carros. E, além disso, uma fila de quinze carros esperará por ele naquela rua, enquanto ele faz essa manobra impossível e ridícula, mas totalmente necessária, afinal, você está dando uma lição a ele, não é isso?! Tomara que tudo isso aconteça às dez pra sete da noite, na hora do rush de quem sai e de quem chega, que ele morra de vergonha, que a gatxinha que ele paquere passe andando na frente do carro dele enquanto ele sua e se mija de ódio, e aí nunca mais ele fará uma coisa dessas! Nunca-mais. Ele agora só vai estacionar onde DEVE, igual a você, cara.

E a regra mais recente, que tem feito bastante sucesso, inclusive, é colocar o seu carro de modo a ocupar o maior número de vagas possível. POSSÍVEL. Dá trabalho, né? Parece. Falando assim, parece. Mas, na verdade, tudo que você precisa fazer é pensar que você é a única pessoa no universo (me refiro à universidade), que ninguém mais usa carros, que ninguém mais precisa de vagas decentes para estacionar seu veículo. "Os outros que se danem", é assim que você deve pensar. E, aí, basta procurar uma vaga massa, e, onde couber dois carros, coloque somente o seu, no meio das duas vagas; onde houver listras amarelas paralelas, coloque seu carro atravessado, em ângulo de 45º. O 45º está a maior moda, todos aderiram. Mas só tem importância de fazer se as listras amarelas forem paralelas, isto é, se a ordem for para estacionar o carro obedecendo um ângulo de 90º. A idéia é a mesma: achar que você é único no universo (universidade), que ninguém vai precisar da vaga ao lado (ninguém vai, aliás,  todo mundo é ninguém para você!), e que você não deve, sob nenhuma hipótese, pensar em outra pessoa que não seja você mesmo. Ainda mais outro motorista. Puf.

São as regras por aqui. Boa sorte para nós, tolos, babacas, que vivemos em outro universo que não esse, o de (autênticos) seres humanos.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Se não fosse ele, o Antonio...

"Olhe, não fique assim não, vai passar. Eu sei que dói. É horrível. Eu sei que parece que você não vai agüentar, mas aguenta. Sei que parece que vai explodir, mas não explode. Sei que dá vontade de abrir um zíper nas costas e sair do corpo porque dentro da gente, nesse momento, não é um bom lugar para se estar. (Fernando Pessoa escreveu, num momento parecido, "hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu"). Dor é assim mesmo, arde, depois passa. Que bom. Aliás, a vida é assim: arde, depois passa. Que pena. A gente acha que não vai agüentar, mas agüenta: as dores da vida. Pense assim: agora tá insuportável, agora você queria abrir o zíper, sair do corpo, encarnar numa samambaia, virar um paralelepípedo ou qualquer coisa inanimada, anestesiada, silenciosa. Mas agora já passou. Agora já é dez segundos depois da frase passada. Sua dor já é dez segundos menor do que duas linhas atrás. Você acha que não, porque esperar a dor passar é como olhar um transatlântico no horizonte estando na praia. Ele parece parado, mas aí você desvia o olho, toma um picolé, lê uma revista, dá um pulo no mar e quando vai ver o barco já tá lá longe. A sua dor agora, essa fogueira na sua barriga, essa sensação de que pegaram sua traquéia e seu estômago e torceram como uma toalha molhada, isso tudo – é difícil de acreditar, eu sei – vai virar só uma memória, um pequeno ponto negro diluído num imenso mar de memórias. Levante-se daí, vá tomar um picolé, ler uma revista, dar um pulo no mar. Quando você for ver, passou. Agora não dá mesmo pra ser feliz. É impossível. Mas quem disse que a gente deve ser feliz sempre? Isso é bobagem. Como cantou Vinícius: "É melhor viver do que ser feliz". Porque pra viver de verdade a gente tem que quebrar a cara. Tem que tentar e não conseguir. Achar que vai dar e ver que não deu. Querer muito e não alcançar. Ter e perder. Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e dizer uma coisa terrível, mas que tem que ser dita. Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e ouvir uma coisa terrível, que tem que ser ouvida. A vida é incontornável. A gente perde, leva porrada, é passado pra trás, cai. Dói, ai, eu sei como dói. Mas passa. Tá vendo a felicidade ali na frente? Não, você não tá vendo, porque tem uma montanha de dor na frente. Continue andando. Você vai subir, vai sentir frio lá em cima, cansaço. Vai querer desistir, mas não vai desistir, porque você é forte e porque depois do topo a montanha começa a diminuir e o unico jeito de deixá-la pra trás é continuar andando. Você vai ser feliz. Tá vendo essa dor que agora samba no seu peito de salto de agulha? Você ainda vai olhá-la no fundo dos olhos e rir da cara dela. Juro que tô falando a verdade. Eu não minto. Vai passar."
Antônio Prata.
 
 
E se não fosse ela, a Marina.
Que tem dias que acordo com raiva. Que tem horas que grito pelas entranhas, sem sair barulho. Que tem horas que quero gritar por todos os poros, fazendo barulho. Não grito, não faço. Que tem horas que choro sem saber por quê. E mais ainda quando choro sabendo por quê. E choro. E grito e sofro e sinto raiva, ao mesmo tempo, muda e barulhenta, ao mesmo tempo.

Que tem horas que me sinto bem, e paro. Que tem horas que eu sinto culpa. No mais das vezes, desespero. Desespêro. Desespéro.

sábado, 16 de junho de 2012

Às vezes é possível.

Sim, é verdade. Você vai abrir os olhos e não querer levantar-se, tomar o banho, comer às pressas para ir à aula do sábado. Você não vai. Você vai. Você vai dirigir em silêncio, no silêncio, ou com música sem perceber que a música toca, na rádio, sempre as mesmas músicas han?, e vai se perguntar "para quê". E não mais o "por quê". Esse não mais interessa.

Você vai chegar atrasado. Você vai quase bater no carro da frente. Você vai ter vestido a roupa errada, esquecido o remédio antes de sair de casa, saber seu aspecto é de quem já morreu e não sabe - continuou andando como se estivesse vivo.

Uma notícia ruim. Depois, a passagem que ontem estava barata, e hoje dobrou de preço, e você não sabe quando vai poder visitar teu amigo. Tudo ficou mais longe. A loja com o fichário exatamente como você estava precisando. Acabou. O fichário não, a loja. Tá fechada, e seu restaurante preferido não existe. Você não tem um restaurante preferido. Você  não tem nada de preferido nessa vida.

O sapato vai apertar e você vai sentir dor de barriga no momento mais inoportuno. A náusea vai retornar, em todos seus aspectos e sentidos, literais ou não. Os olhos que, ou ardem, ou lacrimejam, lacrimam, choram, enfim.

Vai tudo dar errado. Vai tudo sempre dar errado, se você acorda e lamenta por isso.

Que o poeta te conforte. Que seu autor preferido escreva recados para você sob a forma de crônica no jornal. Que tua melhor amiga te escreva o recado e o poema que teu poeta e teu autor preferido fizeram para você. Tomara. Isso salvará seu dia.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Eu, fantasma.

Eu ainda vejo palavras, olhos, olhares, vestígios. Ainda escuto canções, melodias, respirações. Ainda revivo auras, atmosferas, sentidos, cenários. Ainda estou lá.

Eu ainda me arrepdendo, ainda descontribuo para meu sucesso. Ainda choro e grito. Ainda fracasso. Sinto uma tristeza sob uma forma de desespero. É um desespero. Eu não controlo, eu não entendo, eu nunca mais fui livre. E o peso de nunca mais ter sido livre é que desespera. É a pedra que põem no seu coração - sobre ele, ou no lugar dele. Essa metáfora nunca teve nada a ver com o não sentir. O poeta que a disse pela primeira vez não se referia a ausência de sentimento, mas ao peso e a amargura de sentir demais. A pedra, sim, ela mesma, é o desespero.

Às vezes, carregas para sempre. E não é permitido receber ajuda.

Eu que não sei.

Quem sabe um dia as muletas não existam mais. Quem sabe um dia eu consiga o sorriso natural, não mais o artificial, medicamentoso, que apesar de tanto parece verdade. Quem sabe eu consiga o sorriso de verdade. Quem sabe um dias as dores passem, as outras dores cessem, se percam, e as lembranças ganhem um ar de aurora não nostálgica. Nunca nostálgica. Quem sabe um dia eu entenda. Eu compreenda. Eu viva novamente. Quem sabe um dia será um dia de verdade, meu, único, autêntico, e não somente mais uma sequência de horas, nas quais só há mesmo a tentativa de livrar-se do que não consigo - e que enquanto isso eu finjo que vivo. Quem sabe um dia a vida volta. E fica bem no lugar dessa acomodação. A dor que silencia não é a mesma que vai embora. Elas nem se conhecem, eu sei.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Recado

E se for para aparecer desavisadamente, assumidamente, repentinamente, em meus sonhos, não venha. Eu já havia notado que sonhava com absolutamento tudo, exceto isso. E, em momentos (in)oportunos, adormecia em meu próprio sonho. Eu caçando e desafiando meu inconsciente, que, não teimosamente, mas, sabiamente, se escondia. Fugia. Ainda bem.

E se tu me vens dessa forma, repetindo um passado no futuro, reproduzindo um passado melhorado, uma imaginação melhorada, uma expectativa que mataste, ou seja, sendo sonho, não venha. Não há convite. Não há boas vindas. Só há desautorizações, proibições, mágoas e lâmpejos de um desespero triste.

Claro, falo pela cabeça. Usando a cabeça. Se ouvir a voz de outro órgão do corpo, aquele estúpido, é tudo isso ao contrário.
E eu sou esse paradoxo triste, em todos os sentidos que o triste possa dar ao paradoxo.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Sessão com criança.

Era Fulano de Tal. Ele tem 10 anos. Brincava de massinha e conversava comigo enquanto fazia seu Mickey de massa de modelar.

- Eu vou fazer um Mickey perfeito. Vai ficar perfeito, você vai ver!
- Vai ficar perfeito?
- Vai! Eu vou fazer o Mickey mais perfeito. Eu tenho que fazer perfeito.
- Você tem que fazer perfeito?
- Tenho. Tem que fazer tudo perfeito.
- É mesmo? Tem que fazer tudo perfeito?
- Sim. Tem que ser perfeito em alguma coisa, pelo menos em desenho, em arte, alguma coisa assim.
- Então tem que ser perfeito em alguma coisa?
- É. Pelo menos no que você gosta, né.

Faz sentido, será?

domingo, 3 de junho de 2012

Uma livraria que vive de best sellers?

Não pode! Não, não pode.

Eu ontem fui mais uma vez à Nobel da Rua Potengi, em Petrópolis, onde até cartão fidelidade já tenho. A fidelidade nem é tanta, e o desconto muito menos, mas essa coisa de capitalismo funciona, e você fica fazendo de tudo para comprar lá, e não em outros lugares.

Mas, sempre que vou lá, fico chateada. Poucas vezes tem os livros que procuro. A livraria tem uma vitrine colorida, decorada, tem um povo educado que te atende, e um dono presente - coisa que pouco acontece. E, daí, ela é estreita de frente e comprida para trás. Então, você vai andando, andando, andando, até chegar no último compartimento da livraria, onde fica o café, onde quase sempre a luz está apagada (!), e onde ficam os livros de literatura nacional...

Está lá o coitado do Drummond, Vinicius, Machado de Assis e amigos. Uns poucos amigos. É só uma estante para eles. Uma do lado que tem umas coleções, e só. Todo o restante da livraria está abarrotado de best sellers. E por isso a vitrine colorida, chamativa, os livros de cores e formas e texturas (?) diferentes. Sei lá. Então é só disso que a livraria se mantém?

Ô moço, o livro Meio Intelectual, Meio de Esquerda, tem aqui?
Não. De quem é?
(Como assim de quem é, filho da puta?). Do Antonio Prata.
(Finge que olha no sistema e volta. Mas como não se chama, sei lá, Comer, Rezar e Amar, ou 127 coisas para ser feliz, é claro que ele sabe que não tem.) Não, tem não.

Voltei lá de novo, perguntei de novo. Não, de novo, não tinha.

Outra vez que voltei, procurei pelos autores potiguares... Cadê os Jovens Escribas? Nada.

Ontem outra vez.
Ô moço, vocês tem algum livro dos Jovens Escribas?
Jovens Escribas? ... Deixa eu ver...
(...)
Olha, não. Essa editora não é filiada à gente não.
Não? Uai, acho que tem eles lá na outra unidade de vocês.
Tem?!?!?!?
Se eu não me engano, sim. Eles fizeram até evento lá semana passada.
Hm... Ah, essa editora é daqui?
É.
Ah, é porque eles têm que vir até a gente. Eles nunca vieram aqui.

(...) Guardei o meu "sério, filho?".

 Falei na hora de pagar. Porque se você reclamar ou der sugestões, sem estar pagando nada, eles não vão dar importância ao que você vai dizer.
- Olha, sinto falta de quando venho aqui, de literatura nacional...
- Ah, filha, é porque, você sabe, né, a gente vende o que as pessoas compram... E o que a rede manda aqui para gente. Eles compram os blocos de livros, e vão enviando. E aí é o que a gente vende! Infelizmente, olha, eu juro, se fosse por mim, metade desses livros que estão aqui, não estariam! Eu venderia só literatura nacional (UUUUHUM), mas, infelizmente, não é bem assim.
- E vocês não podem sugerir, não?!
- Podemos, mas... Mas... Quem disse que eles vão acatar? Você sabe como é, né, não adianta.

- Certo, e, os livros dos Jovens Escribas, por que vocês não vendem aqui?
- Porque eles nunca vieram atrás da gente.
- E vocês não podem ir atrás deles não?!

Saí de lá com a garantia de que entrariam em contato com a editora. Dei sites e nomes. Ainda ouvi um "ah, as pessoas não sabem, mas aqui no estado existem mais de cem escritores...". Por que a justificativa? Você tem uma livraria que quer viver de best seller. Não justifique. Sem desculpas. Cem desculpas, depois, também.

Em breve, de nada vai me servir esse cartão fidelidade. Estão acabando os livros bons, e ficando só os americanos coloridos de vitrine. Vou fazer o que lá?

Espero que o recado seja acatado. Tive a impressão de que não, mas, esperarei.

Por enquanto

E enquanto a gente detiver nossas madrugadas de sábado para dividir e multiplicar, sim, ao mesmo tempo, esse único amor, para fazer e sentir esse amor, e para dormirmos juntos nessa mesma cama de solteiro, nesse quarto de poucos móveis e de silêncio absoluto. E enquanto nos detivermos a esses domingos que se arrastam, que bom para nós dois que se arrastam!, gastando, ou até investindo, horas de sono, de sonhos, de sono compartilhado, de sonhos compartilhados. De beijos, e tantas gargalhadas, enquanto a gente finge que o dia só existe para nós, por causa de nós.

E enquanto nossos abraços falarem mais aos outros que as declarações explícitas, que o carinho público, que o olhar penetrante e compenetrado, enquanto as caretas também falem um pouco disso. Enquanto as letras que eu inventar, repetitivas e ridículas, tão ridículas que ficam românticas, pois parece que esse é o caminho mais curto de algo tornar-se romântico, e sempre empregadas na mesma melodia, irão te fazer rir, sorrir, dizer "não, tá bom!", porque uma música com seis palavras e essa voz desafinada já mais que te bastam.

E enquanto o tempo passa, e pára, pára, e depois passa voando, enquanto os planos existem, e não se concretizam, enquanto os sonhos existem, e já se concretizam, pois meu sonho é nossa felicidade, nosso sonho é minha e sua felicidade, enquanto tudo isso houver, eu sou esse amor multiplicado, sou a felicidade infinita, sou até os números que não existem, aquele tal do "i". Eu sou tudo isso, e muito mais. Por enquanto, que será para sempre por enquanto.