quarta-feira, 20 de junho de 2012

Me explica, me ensina

Se você tem um carro, usa um carro, dirige um carro, as regras aqui na UFRN são um pouco peculiares e diferentes. Não foi sempre assim, mas é o que eu tenho observado nos últimos anos (?). É importante que se saiba.

A primeira delas é que você deve sempre, impreterivelmente, peremptoriamente, comcertezamente, estacionar nos lugares onde houver aquela placa circular, de bordas vermelhas, com um E dentro, e um traço que risca o E. Se houver dois traços, por favor, coloque lá urgentemente. É o pedido que a placa faz.

Com um traço, você deve estacionar, sim. É o lugar correto, é isso que a placa está dizendo. Quando houver dois traços em forma de xis cortando esse E, significa que, por favor, coloque urgentemente naquele espaço, pois ele precisa ser ocupado. De preferência, se você for passar cerca de oito horas ininterrupas nos terrenos da universidade. Deixe seu carro as oito horas ali, se puder mais.

Esses lugares denotam algum privilégio. Eles são sempre os primeiros a serem ocupados. Fiquei achando que era porque eram os próximos da biblioteca, do Centro de cada setor, coisa do tipo. "Ah, porque facilita a vida das pessoas, ficar estacionado aqui." Acho que não só isso. Por que em todos os lugares da universidade, sejam vagas centrais ou não, há carros estacionados ao lado do E riscado com um traço e do E riscado com um xis. É regra, gente. Não se questiona, apenas se faz!

A segunda é estacionar rente ao meio fio, nas principais ruas da universidade. Ali também tem a placa de proibid... ops, de permitido estacionar (o E com um traço por cima), então, mais um motivo. Não interessa se por causa do seu carro e dos carros de demais pessoas como você, o trânsito vai ficar ruim. Os carros em movimento vão precisar esperar, cem metros atrás, enquanto os lá do outro lado, cem metros à frente, passam pela rua. Era para passar as duas filas de carro simultaneamente - os que vêm e os que vão - mas isso não acontece. Afinal, você, e as pessoas como você, estacionaram no lugar devido, exatamente onde os carros de vocês deveriam estar.

Outra regra é, se possível, nisso você precisa ser um expert no tipo de pessoa que você é (entende?), além de estacionar em meio-fios e vagas com esses E riscados una ou duplamente, é colocar seu carro perpendicular a um outro. Esse outro tem que estar estacionado em um lugar sem essas placas do E riscado, e entre duas faixas amarelas. Assim, bem bonitinho, parece, sabe? Mas, coitado, burrinho, ele não está usando das regras da universidade. Ele merece sofrer. Merece aprender a estacionar! Ora mais.

Pegue seu carro, coloque perpendicular ao dele, rente à traseira do carro do infeliz. Procure com carinho as placas dos E riscado, para ser bem ali, na cara do bicho, a lição que você vai dar a ele. E, então, quando o quadrado do rapaz for retirar o carro, vai ser praticamente impossível ele retirar de uma única vez, como deveria ser, digo, como ele achava que seria. Ele vai ter que ficar indo pra frente e pra trás, pra frente e pra trás, se sentindo o ridículo (é isso que ele é, né verdade?!), enquanto tenta não bater no carro à esquerda dele (outro besta quadrada), no carro à direita dele (mais um imbecil), e no seu (que é O CARA!). Ele vai sofrer. Vai penar. Vai ficar suado, coitado, porque achou que estava fazendo a coisa certa colocando o carro dele ali, entre duas faixas amarelas paralelas, sem nenhuma placa com E riscado por perto, e agora ele precisa fazer um malabarismo para ir embora para casa, sem que bata em três ou mais carros. E, além disso, uma fila de quinze carros esperará por ele naquela rua, enquanto ele faz essa manobra impossível e ridícula, mas totalmente necessária, afinal, você está dando uma lição a ele, não é isso?! Tomara que tudo isso aconteça às dez pra sete da noite, na hora do rush de quem sai e de quem chega, que ele morra de vergonha, que a gatxinha que ele paquere passe andando na frente do carro dele enquanto ele sua e se mija de ódio, e aí nunca mais ele fará uma coisa dessas! Nunca-mais. Ele agora só vai estacionar onde DEVE, igual a você, cara.

E a regra mais recente, que tem feito bastante sucesso, inclusive, é colocar o seu carro de modo a ocupar o maior número de vagas possível. POSSÍVEL. Dá trabalho, né? Parece. Falando assim, parece. Mas, na verdade, tudo que você precisa fazer é pensar que você é a única pessoa no universo (me refiro à universidade), que ninguém mais usa carros, que ninguém mais precisa de vagas decentes para estacionar seu veículo. "Os outros que se danem", é assim que você deve pensar. E, aí, basta procurar uma vaga massa, e, onde couber dois carros, coloque somente o seu, no meio das duas vagas; onde houver listras amarelas paralelas, coloque seu carro atravessado, em ângulo de 45º. O 45º está a maior moda, todos aderiram. Mas só tem importância de fazer se as listras amarelas forem paralelas, isto é, se a ordem for para estacionar o carro obedecendo um ângulo de 90º. A idéia é a mesma: achar que você é único no universo (universidade), que ninguém vai precisar da vaga ao lado (ninguém vai, aliás,  todo mundo é ninguém para você!), e que você não deve, sob nenhuma hipótese, pensar em outra pessoa que não seja você mesmo. Ainda mais outro motorista. Puf.

São as regras por aqui. Boa sorte para nós, tolos, babacas, que vivemos em outro universo que não esse, o de (autênticos) seres humanos.

Um comentário:

Júlio Cézar disse...

Eu só não estaciono em vaga pra deficiente e tomando espaço, o resto eu faço sem remorso.

Sorte que a UFRN botou aquelas PEDRAS em frente a BCZM pra evitar que o povo estacionasse lá. Era o único canto que dava engarrafamento.