terça-feira, 31 de julho de 2012

A última escolha

Laura tinha acabado de adormecer, e ele beijou sua testa despedindo-se, dizendo sua frase de sempre, que tinha de ir. Na verdade, o dia já ia quase de manhã, Laura dormia há muitas horas. O céu tinha um pouco de rosa, se se nesforçasse para ver, e foi, nascendo um novo dia, que ele achou que faria mais sentido. Poético. Que bobagem.

Lá mesmo ele deixou o celular, o remédio que tomava ao (para) dormir, o remédio que tomava ao (para) acordar, e também suas promessas mais antigas. Levou consigo a escova de dentes, para não haver dúvida de que não voltaria. Colocou no lixo de fora do apartamento as embalagens do lanche de ontem, e recolheu o pen drive cheio dos filmes deles. Deixou lá os livros, os planos, que eram menos que as promessas, os compromissos. Deixou o baralho - vai que a ela ainda serviria.

Em suma, abandonou suas máscaras, peneiras para os seus sóis, guarda-chuvas, e todas as metáforas que ele havia aprendido a usar, depois de anos tentando resolver o indissolúvel. Não se propôs a mais nada, desistiu do que não havia propósito em ter começado a lutar. E foi.

Sem trabalho, sem livros, sem discos, e mais (menos) ainda: sem planos nem futuro. Ficou nu em pêlo, nu em si mesmo, exposto e completamente entregue a única coisa que lhe restava. Que não era ele mesmo. Mas sua dor.

E (se) doendo, desistiu, digo, partiu.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Era patricinha. Agora virou roqueira.

É do popular, digo, nobre berço de ouro. É da marca importada, da viagem para o exterior para fazer compras. É do sobrenome ilustre, do nome e sobrenome ilustrativos, das famílias tradicionais sem nenhuma tradição, mas que fazem sucesso - de alguma forma. E isso aqui na cidade significa tradição. É do colégio caro, caríssimo, das fardas impecáveis, dos conceitos máximos - em quê, não se sabe. É de tudo isso.

É do bem vestir. Da roupa quase sempre nova, que pouco se repete, que é inaugurada a cada grande evento - aniversário da melhor inimiga, jantar de promoção do pseudonamorado, que nunca é real, porque é uma pessoa que não existe de verdade, assim, tipo um ser humano, ou então "prévia" do "show do asa" - acho que isso está ultrapassado, o que voga mesmo são as festas do branco, do preto, do rosa, do arco-íris gls, não sei. Compromissos não faltam. É a agenda lotada, nada de real importância, mas vistos sempre com muita admiração pela nata (?) social (?) daqui, você sabe de onde.

Não interessam mesmo dizer os hábitos, mas os comportamentos. Apesar de que os comportamentos têm a ver com os hábitos. E também a ver com o que a pessoa pensa, não é verdade? E aí eu fico fazendo inferências factuais, digo, preconceituosas (porque sou uma pessoa política, educada, sutil), podendo estar levantando falso. Falsíssimo!

Mas o colégio e a faculdade particulares, o corredor do curso acadêmico mais almejado das ciências humanas, o bar do melhor (?) happy hour da cidade, o restaurante mais caro, as boutiques cujas calçadas cobram pedágios, nada disso foi suficiente. Aliás, tudo isso talvez tenha virado coisa do passado. Ou um passado completo, ou um viver simultâneo, uma sociedade paralela, algo que a gente nunca pode deixar totalmente para trás, mas do qual tentamos escapar da imersão completa.

E então, ela virou roqueira. Invadiu o meio "alternativo" da cidade, já sufocado pelo contingente expressivo, mas ao mesmo tempo com movimento cultural inerte e fadado à não-existência - o que Heidegger teria a dizer sobre isso? Hum... Ela entrou para mudar o cenário, abalar as estruturas, fazer a diferença! Tá na moda ser do roque? Então se joga! Não está na moda? Então se joga, eu quero radicalizar! Está na hora de descobrir essas pessoas, parece até que elas se divertem, não é verdade? Eu vou dar a vez aos esquisitos! Eu vou acreditar que eles são legais, pois, abra a cabeça!, eles também são seres humanos!

Vou baixar um roquenrou no forshared. Hoje, quinta, qual o bar do dia? E sexta, um boteco de profissional! Porque não existe roqueiro que não frequente botecos, aprendi isso na faculdade, com aquele pessoal que pagou as disciplinas de Antropologia. Tá na hora de pensar em uma tatuagem... E em... abrir a cabeça! Entendeu, entendeu?!

O manual já está pronto, hora de ir à luta, digo, à nova vida.

E ela chega! Ela põe sua roupa alternativa, e tenta a si colocar um ar revolucionário. Mas não funciona. Ela entra com os passos firmes, como se estivesse chegando em sua própria casa, mas ali, na verdade, ninguém a conhece, nem ela conhece ninguém. Ela põe o nariz muito acima dos demais narizes, o queixo muito erguido, em perigo de tropeçar nos paquets quebrados (uhul! que alternativo!), em tropeçar na saia longa demais, comprida demais para si. Ela age como se todos a olhassem, como se a coloração do seu cabelo e a marca da sua roupa fosse deveras importante ali. Não é. Ela empurra. Ela pisa nos pés alheios. Ela fura a fila, pois não existe ninguém melhor nem mais importante do que ela, ali, que abandonou seu mundo de quadrados, digo, seu mundo quadrado para jogar-se na estranhice de cor preta que são esses pubs réavi métal. Ela aponta para a coitada com a blusa igual a sua. Está declarada sua roupa de departamento. Ela não sorri, ela repara.

E, assim, reparando, emergindo, impondo-se, e tentando ser alguém diferente, mas com os comportamentos reprováveis do alguém que ela realmente é, a patricinha vira roqueira, abandona um rótulo, e desaparece sob outro.



Beatriz Madruga estudou em uma escola onde a maioria das meninas eram rotuladas de patricinha, e onde diziam dela que ela era roqueira. Depois, ingressou em uma faculdade onde a maioria das pessoas são roqueiras, e dizem que ela é patricinha. Essa agrura existencial pode tê-la motivado a escrever esse post, acusador, preconceituoso. Na verdade, ela pode mesmo é "ter se encontrado" no rótulo acima, é o que apontam os boatos, digo, os amigos.

Escrita inspirada e influenciada pelas vivências de finais de semana, mas também pela crônica já conhecida "A Patricinha Cultural", de Carlos Fialho.

Amor em metáfora

Que se fico mais tempo, tempo suficiente, e não somente algum tempo com você, me sinto mais completa, por mais que você defenda que um ser humano sentindo-se completo não existe. É que saio daí transbordando de amor. Amor por você, de você por mim, aí fico cheia de amor por mim, porque você pôs muito amor em mim, para mim, somente a mim. Porque você dedicou todas essas horas de tempo junto, em concreto, digo, eu literalmente do seu lado e você do meu, a me amar, a sentir meu cheiro, e esperar com paciência que eu ficasse menos insuportável ao longo dos minutos.

Eu saio daí transbordando de felicidade. Porque você me inundou só com sentimentos bons de você para comigo - de novo. Você depositou afeto e carinho, confiança no nosso amor, depositou esperança, o desejo e a ternura, e arrumou tudo do jeito mais correto: com um sono compartilhado. E, para brindar, só teve pensamentos positivos. E, para brincar, me fez cócegas e insistiu em fazer mais quando eu ameacei fazer xixi de tantas cocequetas.

Eu termino o fim de semana feito açude que encheu demais, feito rio onde choveu demais, feito piscina onde puseram uma mangueira de amor onde já havia muito amor (e tratado, com o clorinho que satisfazia os cuidados). Se o tempo foi pouco, não valeu. Eu quero outro. Eu preciso que o fim de semana volte, que seja de novo sexta-feira, ou que amanhã de manhã seja, pelo menos, sábado.

Como fazemos? Quero transbordar. Cadê você?

sábado, 28 de julho de 2012

Talvez eterno.

Ou um eterno talvez.

Começaram a se amar pelo não-dito. Foi assim que tudo começou. Não era preciso muito esforço para entenderem-se, para descobrir o sentimento por trás daqueles olhos, daquele queixo erguido ou não, do andar daquele dia. O modo como ela chegava já dizia tudo. O modo como ele passava por ela, já era claro o suficiente.

Sem delongas, bastava um "o que houve?". Ou só um sorriso e um jóia com a mão direita. Eles sabiam se comunicar sem rodeios. E sem rodeios viviam a dizerem-se filosofias, discutir existencialismos, experimentar a vida tal qual ela se mostrava. Foi ele quem mostrou à ela que a vida era muito mais uma questão de aproveitar as oportunidades que apareciam, do que correr atrás delas. Foi ela quem provou a ele que a vida só acontecia quando corríamos e suávamos atrás das oportunidades.

Duvidavam que eles não fossem casal. Nunca foram. Jamais seriam.

O não-dito permaneceria quando a cumplicidade atingiu o cume. Ela sabia o que ele sentia após mais um "erro" - era assim que ele tinha preferido nomear. Ele sabia como ela sentia-se após mais uma decepção - era assim que ela nomeava seus erros.

Ela aninhava em seu colo, no sofá, sem esforço, com cuidado, e ali cabia com perfeição. Parecia que aquele colo, aquele espaço, havia sido feito sob medida para os dois. Não havia cerimônias nisso. Era só mais um movimento natural e cúmplice. Mais um movimento cheio de não-ditos.

E por tudo de não-revelado que acontecia, por tudo de não-esclarecido, pelas frases soltas que queriam dizer muito mais além das palavras que carregavam, e diziam!, começaram a se amar. Assim, com displicência e normalidade. Assim, de modo ingênuo, puro, sutil. Não houve arroubos. Não havia frio na barriga, ansiedade, desespero, incertezas. Eles se amavam como duas crianças em paixão infinita. Eles cultivavam um amor puro e simples, como as letras do poeta por vezes lhes diziam. Se amavam e não sabiam, não admitiam, não diziam. Para si mesmos.




Talvez. Como dói o indeciso tempo do "talvez". Pior que essa dor apenas a conformada certeza dos amores eternos. (Mia Couto)

terça-feira, 24 de julho de 2012

Diálogo. Digo, monólogo.

Falei para ele que as inscrições do vestibular começaram hoje. Citei um mestrado em escrita criativa, lá pelas bandas do sul, descoberto só ontem por mim. (Ah, se eu soubesse...).
Mas não precisa. Não vale a pena. Não é assim. Escritor não se faz com mestrado. Escritor se faz, fazendo, escrevendo. Cascudo, Cervantes, e para lá dos sobrenomes ilustres, nenhum desses, minha filha, nenhum desses. Não precisa de formação. Não precisa disso. As pessoas só inventam as coisas. Isso tudo é invenção. Isso não faz um bom escritor. Não precisa de mestrado pra ser escritor! Que história é essa?
Mas eu não disse isso. Ninguém disse isso...
Não, não... Olha, você pode fazer o que você quiser. Quiser fazer mestrado em literatura, faça. Vá. Pode ir.
Hum. Quando é pra fazer mestrado em psicologia, total apoio. Como se isso fosse fazer de mim um boa...
Não, não, você faz o que você acha que deve fazer. É a minha opinião. Se não quiser aceitar, problema seu. Mas é a minha opinião.
O senhor é muito radical.
Ainda bem!
Faz mal pro coração ser assim.
Faz não. Faz mal pro fígado.


Então tá bom. Eu tentei explicitar o que nem todos sabem o quanto é óbvio. A urgência de mestrados e doutorados vão na contra-mão da abrangência. Falo da minha área, a única que experimentei até agora. Até agora. (Ouviu, pai, ouviu?). Pelo simples comodismo, te aconselham emendar as pós na graduação. E o pior: fazem com a desculpa ultrajante de que isso é qualificação.
Olha, posso estar falando do alto da minha não humildade e da burrice de um formando, a raça que se diz inteligente, mas a academia está longe de fazer de você um bom profissional. Não é diferencial. Não é experiência. Não é sinônimo de trabalho qualificado. Longe de ser. Você não vai aperfeiçoar seu ser psicólogo. Você vai estudar um monte de teoria, e... saber um monte de teoria. Vai saber fazer pesquisa também. E essa é a única coisa que você vai poder fazer com o monte de teoria: pesquisa. Porque não vai te garantir que você poderá ser um professor, dos bons, como se espera. Todos acham que o mestrado te transforma ou em um melhor psicólogo, ou em um bom professor. O doutorado aperfeiçoa. Mentira.

O que te faz um bom psicólogo não é pós-graduação acadêmica. É a safada da experiência. Exatamente, você não vai ser um bom psicólogo no ano que vem, tu que está se formando hoje. Nem nos próximos cinco anos. Mas vai ser assim que você vai começar a ser.
E, ao contrário de você, quem passar os próximos cinco anos fazendo pesquisa vai estar se transformando em... um bom pesquisador. Ou não.

A academia não está aí pra fazer de ninguém melhores profissionais. A academia só existe para produzir conhecimento. Para ela mesma. Porque pra esse conhecimento sair de lá, meu bem, é uma outra história, que precisa de mais mãos e boas vontades (é no plural porque tem que ser de muitas gentes) do que você imagina.

Quiser fazer mestrado, faça. Doutorado, faça. É só pelo título, faça. Eu acho medíocre, mas, é só minha opinião, se você não quiser aceitar, problema meu, que perdi tempo escrevendo tudo isso.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Muito mais que tia.

Tia Nísia sabia das coisas. Essa frase de efeito que a prefeitura usa aí hoje, se você olhar, você vai ver, que não se aplica às falsas boas notícias mostradas concomitante, Tia Nísia já cantava a bola há muito tempo atrás. Essa frase era dela! "Quer ver, olhe", ela dizia. E nem sempre, ou melhor, e quase nunca para puxar nossos olhos e nossa atenção para algo que ela mostrava. Às vezes sim, era a mancha da roupa, o placar do futebol, o bolor no pão. Mas muitas vezes era só para chamar a atenção para qualquer coisa para ela importante naquele momento. Para apostar. Para mostrar que ela estava certa, menino, e quase sempre ela estava.

Que o sobrinho-neto era feio, isso ela dizia, e pegava as fotos antigas e dizia "quer ver, olhe" . Ou não pegava, mas tangenciava as tais fotos, e dizia "quer ver, olhe", anunciando que em algum lugar essa prova existia - bastaria olhar, se quisesse ver.

Para o sobrinho-neto bonitão, valia o mesmo.

Tia Nísia sabia das coisas. Tia Nísia, quando não sabia das coisas, quando não sabia de nada, quando não sabia o que fazer, sorria. E quem estava junto, sorria junto. Claro. Ela sabia das coisas.

Tia Nísia chegava todo sábado, por volta das onze, e levava uma sacola com muitas, muitas pipocas bokus. Ninguém tinha o costume de comprar pipoca bokus na rua e ir para casa, comer, tomando café, vendo a novela. Mas todo mundo comia, não sobrava uma!, e gostava, e achava o máximo, a novidade de sábado: as pipocas bokus, muitas.

Tia Nísia sabia das coisas.

Ela entoava nossos nomes como que cantando. "Bia" na voz dela virava "Bia-a!", um chamado alegre. E ela sempre cantava os nomes. Punha diminutivos e criava outras melodias. Ninguém nunca respondeu a seus chamados com irritação, mesmo se fossem durante o êxtase do filme, ou no momento de gravar na fita cassete a música que passava no rádio, e que ninguém falasse para não ficar a voz da pessoa na gravação, ou no momento pré-sono, quando a gente ocupa as duas dimensões e qualquer chamado nesse instante se transforma em fardo depois, para pegar no sono de novo. A gente só respondia cantando, imitando, do jeito que ela fazia. Tia Nísia sabia das coisas.

Tia Nísia nunca cansou de sorrir. Tia Nísia nunca pediu nada que não precisasse, fez nada que não gostasse, nunca foi infeliz um só dia. Tia Nísia não negava atenção. Não negava olhares, não negava favores, não mesquinhava presentes. Tia Nísia foi para os outros o que cada um de nós quer de todos os outros para conosco: uma amiga verdadeira.

Ela se eternizou.

E esse é o dia dela.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Tão fácil...

Então ele começou a falar, com a maior intimidade, desse tempo de recessão, dos movimentos da economia, das intempéries da política, circunscrevendo um ângulo que para ela de nada servia, apesar de entender. Quis explicar da melhor forma possível, mais direta e neutra, como se para ele não houvesse opiniões pessoais envolvidas, e somente o seu interesse pelo bem estar da amada. Não. Para ela não importava.

De nada adianta circunscrever esse espaço todo para explicar-lhe dos sentidos e necessidades do estudo, da carreira, desse jeito que todos pensam e almejam. Para quê? Ela não era de títulos. Ela não era de marcas, não era de rótulos, não era de cinrcuncrições - mais uma vez. Ela não era nada disso. Ela não esforçava-se para convencer ninguém, a não ser ela mesma. Ela não precisava estar bem com todos, para estar bem com ela mesma.

E só fazia o que queria. Porque dizia "a gente nasce é para ser feliz". E foi assim que só fazia estudar poesia, e ir para o balé. E dar aula de balé. E ler sentada no balanço.

Deixou o trabalho que não gostava. Esqueceu disso tudo de academia, que nem é aquela dos halteres, nessa ela também não vai!, não faz sentido para ela se não a faz feliz, se não é divertido, mas aquela coisa das discussões que não levam a lugar nenhum, do pessoal dos óculos de aros grossos e dos trejeitos apressados, sempre tão correndo e tresloucados por estar fazendo a ciência!, ciência!... Vamos problematizar? Eu não! Vamos só simplificar, tá doido? E pra simplificar, basta ser feliz. E pra ser feliz, é só simplificar. É simples.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Do jeito que pensava

Dizia que se fosse para amar, que fosse por inteiro, por inteira, no estilo de estar louco. Achava que só valia a pena se fosse assim. Se dedicasse suas horas acordadas para o amor, as horas insones para o amor, o sonho para o amor, e só sonhos, e sem pesadelos. Só valeria a pena assim.

Para ela, era preciso ser o momento único, dos dois, presente, e, ao mesmo tempo em que fosse presente, fosse eterno, e infinito. Precisava sentir as chamas, que ocorrem junto com os frios na barriga, e que se complementam, contraditoriamente. Dizia que só assim iria amar.

Sonhando de olhos abertos, fazendo e desfazendo planos, vivendo as noites de segunda, terça e quarta e todos os dias da semana. Esperando a ligação do fim do dia. Sabendo que o cinema era logo em breve. Que o café seria no sábado, e no domingo comeriam brigadeiro depois da tarde na livraria.

E que ia sentir ciúmes, e que ia sentir raiva por sentir ciúmes, e que ia sentir raiva de quem a fazia sentir ciúmes. E que tudo isso era sinônimo de felicidade, porque amava. Era só assim para sentir-se completa, inteira por inteiro.

E enquanto respirasse sorrisos, flores, banhos de mar, enquanto vivesse os segundos do dia, e não somente os dias, enquanto os dias passassem sem que se desse conta, porque vivia e amava e não aguentava de ansiedade por esperar o próximo beijo e os abraços e afagos no carro, na despedida. Era inteira. Era ela. Era feliz.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Para o amor acabar

Para o amor acabar, você deve acreditar no fim, e ainda convencer a si mesmo.
Para o amor acabar, você deve aceitar dizendo a si mesmo que aceita, aceitar dizendo aos demais que aceita, aceitar aceitando a si mesmo, sem amor.
Para o amor acabar, você tem de suavizar as lembranças.
Para o amor acabar, a mágoa deve ser sinônimo de passado, e, passado, do que não mais importa.
Para o amor acabar, o passado não deve mais importar.
Para o amor acabar, tudo que você acreditava deve deixar de fazer sentido.
Para o amor acabar, tudo deve deixar de fazer sentido. É só quando não há mais sentido, que não há mais amor. (O contrário também é verdadeiro.)
Para o amor acabar, é preciso abandonar a si mesmo, e construir um novo eu.
Para o amor acabar, é preciso procurar e ser, procurar ser, uma página nova.

sábado, 7 de julho de 2012

Espera. Estou sentindo uma tristeza subindo pelas entranhas (?). Espera, estou sentindo tudo de novo, tudo outra vez, e pior. E pior: tudo pior. Se sou eu ou não sou, não sei; se são eles, e eles, por que eles, não sei. E as duas coisas e tudo pior. E tanta tolice e tanta maldade. Maldade é palavra para tolos.

E tudo de novo, e tudo ruim de novo.

Espera. Eu não sei se vai dar.

É por aí.

Mais difícil que fingir-se de morto: fingir não existir.

domingo, 1 de julho de 2012

Faz parte.

Tanto quanto deixar a janela aberta e saber que, se chover, vai molhar a cadeira debaixo. O chão, a barra do edredon, as calcinhas limpas sobre a cadeira debaixo.
Tanto quanto a fadiga das longas viagens, das longas semanas.
Tão quanto a despedida, o choro acompanhado. Acompanhado da despedida; acompanhado de outros choros.
Tanto quanto o engarrafamento das dez pras oito da manhã, do meio dia, das cinco da tarde até quase sete.
Tão certo quanto o abraço de mentira, o afastar sossegado.
Tão certo quanto a confiança, o abraço de verdade.
Tanto quanto o aniversário que chega, as lembranças do passado, as reflexões sobre o futuro.
Tão certo quanto o livro novo, a procura pelo tempo novo para ler o livro novo.
Também tão certo quanto o café quente para a manhã de névoa, de frio, de preguiça, obviamente.
E tão óbvio e tão certo quanto o ir e vir.
Inevitável.