terça-feira, 31 de julho de 2012

A última escolha

Laura tinha acabado de adormecer, e ele beijou sua testa despedindo-se, dizendo sua frase de sempre, que tinha de ir. Na verdade, o dia já ia quase de manhã, Laura dormia há muitas horas. O céu tinha um pouco de rosa, se se nesforçasse para ver, e foi, nascendo um novo dia, que ele achou que faria mais sentido. Poético. Que bobagem.

Lá mesmo ele deixou o celular, o remédio que tomava ao (para) dormir, o remédio que tomava ao (para) acordar, e também suas promessas mais antigas. Levou consigo a escova de dentes, para não haver dúvida de que não voltaria. Colocou no lixo de fora do apartamento as embalagens do lanche de ontem, e recolheu o pen drive cheio dos filmes deles. Deixou lá os livros, os planos, que eram menos que as promessas, os compromissos. Deixou o baralho - vai que a ela ainda serviria.

Em suma, abandonou suas máscaras, peneiras para os seus sóis, guarda-chuvas, e todas as metáforas que ele havia aprendido a usar, depois de anos tentando resolver o indissolúvel. Não se propôs a mais nada, desistiu do que não havia propósito em ter começado a lutar. E foi.

Sem trabalho, sem livros, sem discos, e mais (menos) ainda: sem planos nem futuro. Ficou nu em pêlo, nu em si mesmo, exposto e completamente entregue a única coisa que lhe restava. Que não era ele mesmo. Mas sua dor.

E (se) doendo, desistiu, digo, partiu.

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