segunda-feira, 30 de julho de 2012

Era patricinha. Agora virou roqueira.

É do popular, digo, nobre berço de ouro. É da marca importada, da viagem para o exterior para fazer compras. É do sobrenome ilustre, do nome e sobrenome ilustrativos, das famílias tradicionais sem nenhuma tradição, mas que fazem sucesso - de alguma forma. E isso aqui na cidade significa tradição. É do colégio caro, caríssimo, das fardas impecáveis, dos conceitos máximos - em quê, não se sabe. É de tudo isso.

É do bem vestir. Da roupa quase sempre nova, que pouco se repete, que é inaugurada a cada grande evento - aniversário da melhor inimiga, jantar de promoção do pseudonamorado, que nunca é real, porque é uma pessoa que não existe de verdade, assim, tipo um ser humano, ou então "prévia" do "show do asa" - acho que isso está ultrapassado, o que voga mesmo são as festas do branco, do preto, do rosa, do arco-íris gls, não sei. Compromissos não faltam. É a agenda lotada, nada de real importância, mas vistos sempre com muita admiração pela nata (?) social (?) daqui, você sabe de onde.

Não interessam mesmo dizer os hábitos, mas os comportamentos. Apesar de que os comportamentos têm a ver com os hábitos. E também a ver com o que a pessoa pensa, não é verdade? E aí eu fico fazendo inferências factuais, digo, preconceituosas (porque sou uma pessoa política, educada, sutil), podendo estar levantando falso. Falsíssimo!

Mas o colégio e a faculdade particulares, o corredor do curso acadêmico mais almejado das ciências humanas, o bar do melhor (?) happy hour da cidade, o restaurante mais caro, as boutiques cujas calçadas cobram pedágios, nada disso foi suficiente. Aliás, tudo isso talvez tenha virado coisa do passado. Ou um passado completo, ou um viver simultâneo, uma sociedade paralela, algo que a gente nunca pode deixar totalmente para trás, mas do qual tentamos escapar da imersão completa.

E então, ela virou roqueira. Invadiu o meio "alternativo" da cidade, já sufocado pelo contingente expressivo, mas ao mesmo tempo com movimento cultural inerte e fadado à não-existência - o que Heidegger teria a dizer sobre isso? Hum... Ela entrou para mudar o cenário, abalar as estruturas, fazer a diferença! Tá na moda ser do roque? Então se joga! Não está na moda? Então se joga, eu quero radicalizar! Está na hora de descobrir essas pessoas, parece até que elas se divertem, não é verdade? Eu vou dar a vez aos esquisitos! Eu vou acreditar que eles são legais, pois, abra a cabeça!, eles também são seres humanos!

Vou baixar um roquenrou no forshared. Hoje, quinta, qual o bar do dia? E sexta, um boteco de profissional! Porque não existe roqueiro que não frequente botecos, aprendi isso na faculdade, com aquele pessoal que pagou as disciplinas de Antropologia. Tá na hora de pensar em uma tatuagem... E em... abrir a cabeça! Entendeu, entendeu?!

O manual já está pronto, hora de ir à luta, digo, à nova vida.

E ela chega! Ela põe sua roupa alternativa, e tenta a si colocar um ar revolucionário. Mas não funciona. Ela entra com os passos firmes, como se estivesse chegando em sua própria casa, mas ali, na verdade, ninguém a conhece, nem ela conhece ninguém. Ela põe o nariz muito acima dos demais narizes, o queixo muito erguido, em perigo de tropeçar nos paquets quebrados (uhul! que alternativo!), em tropeçar na saia longa demais, comprida demais para si. Ela age como se todos a olhassem, como se a coloração do seu cabelo e a marca da sua roupa fosse deveras importante ali. Não é. Ela empurra. Ela pisa nos pés alheios. Ela fura a fila, pois não existe ninguém melhor nem mais importante do que ela, ali, que abandonou seu mundo de quadrados, digo, seu mundo quadrado para jogar-se na estranhice de cor preta que são esses pubs réavi métal. Ela aponta para a coitada com a blusa igual a sua. Está declarada sua roupa de departamento. Ela não sorri, ela repara.

E, assim, reparando, emergindo, impondo-se, e tentando ser alguém diferente, mas com os comportamentos reprováveis do alguém que ela realmente é, a patricinha vira roqueira, abandona um rótulo, e desaparece sob outro.



Beatriz Madruga estudou em uma escola onde a maioria das meninas eram rotuladas de patricinha, e onde diziam dela que ela era roqueira. Depois, ingressou em uma faculdade onde a maioria das pessoas são roqueiras, e dizem que ela é patricinha. Essa agrura existencial pode tê-la motivado a escrever esse post, acusador, preconceituoso. Na verdade, ela pode mesmo é "ter se encontrado" no rótulo acima, é o que apontam os boatos, digo, os amigos.

Escrita inspirada e influenciada pelas vivências de finais de semana, mas também pela crônica já conhecida "A Patricinha Cultural", de Carlos Fialho.

3 comentários:

Biazetz disse...

ficou muito ruim!

camila souza disse...

Ai, meu deus eu tbm era rotulada de patricinha? Se no neves era assim, imagine nos outros colégios da "alta sociedade"! Kkkkkk curti o texto, é exatamente isso, principalmente, os últimos parágrafos, pq a moda hj é a galera "festa do branco" ir pro whiskritorio hahaha beijo amiga! Camila

Patrícia. disse...

Ah, os rótulos!
Difícil mesmo é desaparecer em um, emergir em outro e o mais complexo, se encontrar...
Você escreve muito bem, senhorita! Me gusta!