sexta-feira, 20 de julho de 2012

Muito mais que tia.

Tia Nísia sabia das coisas. Essa frase de efeito que a prefeitura usa aí hoje, se você olhar, você vai ver, que não se aplica às falsas boas notícias mostradas concomitante, Tia Nísia já cantava a bola há muito tempo atrás. Essa frase era dela! "Quer ver, olhe", ela dizia. E nem sempre, ou melhor, e quase nunca para puxar nossos olhos e nossa atenção para algo que ela mostrava. Às vezes sim, era a mancha da roupa, o placar do futebol, o bolor no pão. Mas muitas vezes era só para chamar a atenção para qualquer coisa para ela importante naquele momento. Para apostar. Para mostrar que ela estava certa, menino, e quase sempre ela estava.

Que o sobrinho-neto era feio, isso ela dizia, e pegava as fotos antigas e dizia "quer ver, olhe" . Ou não pegava, mas tangenciava as tais fotos, e dizia "quer ver, olhe", anunciando que em algum lugar essa prova existia - bastaria olhar, se quisesse ver.

Para o sobrinho-neto bonitão, valia o mesmo.

Tia Nísia sabia das coisas. Tia Nísia, quando não sabia das coisas, quando não sabia de nada, quando não sabia o que fazer, sorria. E quem estava junto, sorria junto. Claro. Ela sabia das coisas.

Tia Nísia chegava todo sábado, por volta das onze, e levava uma sacola com muitas, muitas pipocas bokus. Ninguém tinha o costume de comprar pipoca bokus na rua e ir para casa, comer, tomando café, vendo a novela. Mas todo mundo comia, não sobrava uma!, e gostava, e achava o máximo, a novidade de sábado: as pipocas bokus, muitas.

Tia Nísia sabia das coisas.

Ela entoava nossos nomes como que cantando. "Bia" na voz dela virava "Bia-a!", um chamado alegre. E ela sempre cantava os nomes. Punha diminutivos e criava outras melodias. Ninguém nunca respondeu a seus chamados com irritação, mesmo se fossem durante o êxtase do filme, ou no momento de gravar na fita cassete a música que passava no rádio, e que ninguém falasse para não ficar a voz da pessoa na gravação, ou no momento pré-sono, quando a gente ocupa as duas dimensões e qualquer chamado nesse instante se transforma em fardo depois, para pegar no sono de novo. A gente só respondia cantando, imitando, do jeito que ela fazia. Tia Nísia sabia das coisas.

Tia Nísia nunca cansou de sorrir. Tia Nísia nunca pediu nada que não precisasse, fez nada que não gostasse, nunca foi infeliz um só dia. Tia Nísia não negava atenção. Não negava olhares, não negava favores, não mesquinhava presentes. Tia Nísia foi para os outros o que cada um de nós quer de todos os outros para conosco: uma amiga verdadeira.

Ela se eternizou.

E esse é o dia dela.

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