sábado, 28 de julho de 2012

Talvez eterno.

Ou um eterno talvez.

Começaram a se amar pelo não-dito. Foi assim que tudo começou. Não era preciso muito esforço para entenderem-se, para descobrir o sentimento por trás daqueles olhos, daquele queixo erguido ou não, do andar daquele dia. O modo como ela chegava já dizia tudo. O modo como ele passava por ela, já era claro o suficiente.

Sem delongas, bastava um "o que houve?". Ou só um sorriso e um jóia com a mão direita. Eles sabiam se comunicar sem rodeios. E sem rodeios viviam a dizerem-se filosofias, discutir existencialismos, experimentar a vida tal qual ela se mostrava. Foi ele quem mostrou à ela que a vida era muito mais uma questão de aproveitar as oportunidades que apareciam, do que correr atrás delas. Foi ela quem provou a ele que a vida só acontecia quando corríamos e suávamos atrás das oportunidades.

Duvidavam que eles não fossem casal. Nunca foram. Jamais seriam.

O não-dito permaneceria quando a cumplicidade atingiu o cume. Ela sabia o que ele sentia após mais um "erro" - era assim que ele tinha preferido nomear. Ele sabia como ela sentia-se após mais uma decepção - era assim que ela nomeava seus erros.

Ela aninhava em seu colo, no sofá, sem esforço, com cuidado, e ali cabia com perfeição. Parecia que aquele colo, aquele espaço, havia sido feito sob medida para os dois. Não havia cerimônias nisso. Era só mais um movimento natural e cúmplice. Mais um movimento cheio de não-ditos.

E por tudo de não-revelado que acontecia, por tudo de não-esclarecido, pelas frases soltas que queriam dizer muito mais além das palavras que carregavam, e diziam!, começaram a se amar. Assim, com displicência e normalidade. Assim, de modo ingênuo, puro, sutil. Não houve arroubos. Não havia frio na barriga, ansiedade, desespero, incertezas. Eles se amavam como duas crianças em paixão infinita. Eles cultivavam um amor puro e simples, como as letras do poeta por vezes lhes diziam. Se amavam e não sabiam, não admitiam, não diziam. Para si mesmos.




Talvez. Como dói o indeciso tempo do "talvez". Pior que essa dor apenas a conformada certeza dos amores eternos. (Mia Couto)

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