quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Sobre ontem e sobre sempre.

Eu também reconheço que foi caótico, que foi desorganizado. Que a revolta transbordou, e da primeira, passou para a segunda, terceira, e para todas as vias de trânsito. Que as muretas viraram canteiros, e que toda a avenida principal da cidade passou a parecer o quarto pessoal de cada um daqueles revoltosos, revoltados, vândalos e delinquentes para alguns (para muitos!), tamanha a facilidade de ir e vir que ficou ali para eles. No caos.

Mas a sua revolta pela desorganização de quem se manifesta, isso eu não reconheço como legítima. Nós vivemos em um país, estado e cidade, que nunca nos ensinou a sermos organizados, civilizados, a incomodar os demais com educação. A gente dirige em um trânsito caótico, com motoristas caóticos, nervosos, que se desrespeitam. A gente aprende a conviver em sociedade sem metodismo algum, e isso é propagado diariamente, por todos, por nós, e por eles, os que cuidam de nós.

Não existe respeito, não existe faixa amarela, vaga para cadeirante que seja usada realmente por cadeirante, não tem vizinho do prédio que espera você sair do elevador para ele poder entrar, os jovens velhos que confundem direito com privilégio e usam sua "prioridade" no banco. No mesmo banco onde as pessoas estão desorganizadas na fila, onde são desorganizadas em seu tempo, em sua dignidade, muitas vezes. A gente anda pelas ruas e tem de desviar de mendigos. Tem de verificar crianças caoticamente amontoadas nos sinais. As mães querem só uma vaga para o filho estudar na escola pública, e tem de dormir na calçada da escola, e, caoticamente, brigar pela vaga no dia seguinte. A gente tem de lidar o tempo inteiro com a informalidade comercial e ocupacional, sustentadas despretensiosamente pelos nossos cegos que não querem ver: os governantes. Isso também não é caos?

A nossa cidade é caótica, e sempre foi. Aprendemos a ser assim, e não é à toa que um sujeito organizado vira o bicho com transtorno obsessivo compulsivo, ao primeiro sinal de "uma coisa de cada vez".

Então a gente pode exigir que o protesto ocupe somente uma das vias, pacificamente, que os praticantes do vandalismo, como se diz agora, que não são manifestantes, nunca serão!, estejam enfileirados, batendo palmas, cantando baixo, porque achamos injusto, sabe, o simples absurdo. O simples absurdo. Pode-se exigir?

Então pela desorganização e caos que a gente aprende, e não que a gente causa!, temos de sucumbir ao batalhão da pê eme desfilando feito sete de setembro, em marcha, para nos inibir. E aí pode protestar, mas com organização. E por que não: pode governar, mas com organização? Pode administrar, mas com planejamento!? Não entendi. Não entendi sua reclamação.

Acho que cabem até "desculpas", pelo seu atraso no trânsito. Você que estava cansado do trabalho (justificativa legítima, de verdade) e demorou muito mais tempo para chegar em casa. Desculpa, de verdade. Mas o trânsito e a cidade precisam ser interrompidos e virar caos, muito mais do que já são, algumas vezes, porque não é a Câmara e o prédio da Prefeitura que devemos incomodar. (Afinal, quem garante que nossos alvos estejam lá?...) Mas a população também, e, sabe o que mais?, os empresários e seus simpatizantes, que, exatamente como você, também dirigiam para casa depois de um dia cansativo de trabalho. Só que dentro de carros importados mais caros que os próprios ônibus, e com desprezo e antipatia pelos seus usuários assalariados.

Não cobre civilização de quem não é tratado como tal. Cobre civilização daqueles que não nos tratam como tais. Está na hora de pôr em prática a ideia de João Ubaldo, e parar de chamar o governo de governo, porque o governo é Estado; o governo não governa nada, quem governa é o povo.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Feliz dia, psicólogo.

A minha amiga passou em um concurso para estagiário de Psicologia em um dos mais importantes órgãos públicos do estado, e o "parabéns" que a professora-psi deu à ela foi: "que bom que você passou nesse concurso, agora você vai poder tomar um banho de loja para poder trabalhar lá!". Ah, claro, porque nada mais essencial nessa vida psi, nessa vida de meu Deus, nessa vida de daseins e ser-aí do que uma roupa nova! Já pensou, tu, colega-psi, indo trabalhar sem ter tomado um banho de loja? Um banho de roupa nova? Que tipo de psicólogo é você, que não toma banho de loja com frequência pré-determinada (a cada seis meses, ou três, ou, de preferência, mensalmente)? O que você está pensando em fazer, entitular-se psicólogo? Estagiário de psicologia? Tá louco?! Seu trabalho não vai valer de nada, colega, se você não tiver tomado um banho de loja. E a estagiária limpinha (!) vai levar o crédito, tô te avisando.

Uma aproximação aproximada, na redundância, porque aqui é senso comum, eu sou senso comum, que nem um monte de psicólogo que se diz psicólogo, mas que é senso comum, tipo esses de banho de loja tomado, cheios de sensos comuns, mas, voltando, uma aproximação aproximada me diz que cinquenta por cento dos meus coleguinhas de sala não serão psicólogos. Ou, hoje, não querem ser. Tipo, não pretendem, prefeririam ter feito ou ainda fazer outra coisa. Meio que se arrependem. Não se arrependem, mas vão ver o que é que dá esse diploma aí. Um banho de loja pode ser que resolva tudo.

Mas dos cem por cento que entrou, digamos que, uns dez por cento, não estavam super a fim da psicologia no começo. Ao longo do curso, a proporção aumenta. Por que será, hein? Acho que não houve bolsa suficiente pra dar banho de loja em todo mundo... Aí vem o desânimo e ficamos sem saber o que fazer com o diplominha. Mas, vá lá, se pra ser bom profissional tem que manejar muito bem o senso comum, ou seja, ser mais ator que psicólogo, floreador de discursos e laudos, tem que fazer relatórios com verbos mal conjugados, e ainda comprar roupa nova toda semana... Aí ficou difícil realmente. A gente terminou deixando o sonho (pufff!) pra trás.

Mas o curso tem suas partes boas, vá lá. Todo semestre, a democracia falaciosa nos comunica: vamos programar nossa disciplina? A gente diz o que quer, mas, em se tratando de estudantes de chinelos havaianas, quem se importa?, antes fosse Loubotin, e aí a democracia volta e comunica: decidi. Vai ser como eu sempre quis. Beijos.

E, depois de nove períodos, cadê vocês para vestirem a camisa? O Enade vem aí! Curtam o momento! Estudem, simulem (literalmente), vivam esse momento! Façam de conta que são bons estudantes, na verdade, os estudantes que nós julgamos de bons, e que são felizes nesse lugar. No nosso lugar. Não, no nosso lugar não! Não quero concorrência! Longe de mim! Vou quebrar os saltos de vocês, denunciar o jacaré ilegítimo da sua camisa, caso isso ameace acontecer!

E até o ano que vem, fofos. Com vocês formados, espero-os para um jantar de gala (literalmente?) na minha casa. Na lista de presentes para  psicólogos: Roupa Nova. Boas compras!, digo, boa sorte!

A time of... a time off.


Sempre à guisa de justificativa, de desculpas e promessas. Eu fui.

Agora, à guisa de presente, de presente, de fazer. Foi que precisei entender que caminho era esse, pois de tanto me perguntar os por quês, eu não sabia mais. De caminho, de por quê, de coisa alguma. Precisei parar de escrever, e pensar. E parar para escrever. E parar de pensar depois. Precisei parar de dizer, e, de novo, fazer.

E depois de tanto querer escapar do mundo, planejar a fuga, não planejá-la e ir, depois de tanto sentimento de querer desligar-se, eu opto pelo oposto. E agora desligo todo o resto, faço o resto e o tudo escapar, para que fique só eu. Comigo mesma.

É tempo de. É tempo de tempo. 

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

E no futuro? No futuro, o quê? Esqueci.

Não tenho mais memória. Não tenho mais sistema de post-its neuronais, não consigo fazer minhas sinapses funcionarem mais. Como é, moço? Amanhã, depois do meio-dia, já posso vir pegar o remédio? Tudo bem. Até amanhã. Esqueci. Esqueci. De novo. Isso foi na terça. Ou quarta...

Não anotei no celular, aí perdi. Aí anotei no celular, pra apitar, avisar, deixar lá com exclamações ou em caps lock (saudades do tempo em que minha memória funcionava com caps lock e exclamações), mas também esqueci. Porque eu olhei, e, no minuto seguinte, não me lembrei mais que tinha olhado. Não lembraria do que eu havia olhado. E o que do que? Dos seis lembretes no visor do aparelho, logo na minha frente, mas eu não lembro qual especificamente eu fui olhar e qual eu tenho que fazer agora. Daí preciso olhar novamente.

Atualizei minha agenda. A cor de rosa, grande, com dias longos, para caber de tudo... Escrevi a dessa semana, escrevi da semana que vem. Está tudo lá. Mas eu esqueci de anotar algumas coisas. E das que eu anotei, eu esqueci. Olhando, esqueci. E esqueci de olhar. Não lembro mais.

Os telefones dos meus amigos eu só sei de cór os mais assíduos (?), sabe, porque, por algum motivo que eu nunca entendi, meu celular não grava nomes das pessoas no espaço do sms. Mesmo que os tenha na agenda. Não grava porque quando me mandam sms, me mandam com ddd 084. E então, fui deixar meus números todos com o 084 ou só 84 na frente, pra quando as mensagens chegarem, eu ver logo o nome do amigo, e não o número - é que às vezes dá uma confusão... Só que aí, eu fui telefonar, e a ligação não completava (!). Aí tive de lutar com a memorização. Então os números eu sei de cor. Alguns. Aí meu amigo que foi pra Campinas e agora tem um número de lá, o número dele no meu celular tem o ddd e a operadora, né, pra eu poder ligar direto, então na sms aparece o nome dele inteiro e não o número, o que significa que eu jamais decorarei o número telefônico do rapaz.

Eu sei que quase ninguém acha isso importante, AFINAL, aí estão os apetrechos eletrônicos para nos ajudar (?) sempre que possível. Ninguém sabe mais telefone de ninguém, não sabemos também dos nossos compromissos de cór, especialmente dos que fogem do padrão. Mas... e quando a gente começar a esquecer de organizar nossos aifones, tabletes, sistema post-it no desktop? Nossos alzheimers serão piores. Procede?

Eu hoje precisei decorar uma sequência de três algarismos, enquanto andava do Sepa ao Cchla, o que deve dar, sei lá, duzentos metros? Seissentos metros? Eu não sei calcular nada em metros. Mas tipo ir do Cefet ao Midway (?). Eu cheguei lá, e disse a sequência toda trocada. Voltei dizendo a minha colega que ela tinha me dito a sequência diferente (não era 192, era 291!; então, bia, 291, foi o que eu te disse; não, menina, tá doida?). Bem que disseram que se eu tropeçasse no caminho, não ia lembrar do número que eu saí repetindo em voz alta, sem parar. Eu nem tropecei, e esqueci. Confundi, né. Se tivesse tropeçado tinha de ter voltado e perguntar novamente. Para então perguntar, na sala dos estagiários, por que eu estava ali de novo e o que eu tinha ido fazer... É verdade, não exagéro!

E aí de celular e agenda e post-its coloridos e dorso da mão rabiscado, eu vou. Vou caminhando para a demência juvenil, porque na senil nem celulares nem agendas nem minha letra mais eu vou conseguir fazer. Pelo jeito.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

(mini) escrito a quatro mãos

- O problema é que a gente se questiona demais.

- O problema é que a gente não consegue se desapegar. Porque tinha potencial. Mas não teve.

- O problema é que a gente não consegue se desapegar. Porque tem potencial. Mas não tem.



Com Pablo.

Presente, futuro e caminho

Eu tinha prometido a mim mesma parar de atravessar madrugadas, e de pensar durante elas, sobre elas. Eu prometi a mim mesma abandonar esses questionamentos e esses existencialismos, que não levam a lugar nenhum senão a solidão. Eu quis dizer a mim mesma para invejar você, que com superficiliamos e um pouco de bon vivant vai levando a vida sem problemas. Com pequenos problemas. É que sem questionar-se e sem pensar ou imaginar os "ses" e os "por quês", fica tudo mais simples.

Eu prometi tudo isso a mim mesma. Mentia. E claro que eu sabia. Eu não podia mais escapar da solidão e da vergonha, e acho que me transformei na personagem do livro. Aquela que de tanto sofrer se acomodou, e que de tanto se acomodar, passou a gostar de sofrer. Só podia ser essa a explicação.

Já podia eu bastar de ânsias por justificativas, de buscar evidências onde não havia. Sei lá, eu, às vezes parecia que havia evidência em todo lugar. E aí eu já não sei se era meu olhar viciado e desmotivado pelo diferente. Se eu esperava sempre o mesmo. E por quê, e para quê?, o superficialismo estava bom, eu já disse. Não precisava de mais.

Mas na covardia eu atingi uma espécie de convencimento. Ou seria de resignação. A linha entre esses dois conceitos, para mim, é mais que tênue, ela nem sempre existe. E então inventei uma nova história para ir embora. Eu tinha uns motivos no futuro, uns motivos de futuro, tinha um pouco de esperança, e disposição pela metade - o que às vezes pode ser muito. E, principalmente, eu não tinha nada a perder. E essa foi a bagagem, e o motivo dela.

Então, foi assim. Com uma desculpa na frente e outra atrás, eu fui, dizendo que voltaria. Iria.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

E por quês e para quês

Plante uma árvore, escreva um livro, tenha um filho. Escreva um livro em pdf, adote uma criança, plante trê árvores e recicle o lixo e troque o carro pela bicicleta. Escreva um livro em pdf, adote uma criança com aids, funde e sustente uma ong, plante seis árvores e recicle o lixo e use a bike e nunca mais coma transgênicos.

É difícil, né? Digo, pegar sua vida e fazer algo que preste com ela. Algo que você ache que preste, algo em que você veja sentido e sinta o sentido (?), e que ao mesmo tempo seja algo no que você acredite, e, de quebra, que realmente deseje. E que seu pai e sua mãe e seu irmão mais velho prodigioso não tenham como motivo para seus respectivos infartos e decepções uma única coisa: você.

A minha geração está crescendo sob o mantra da estabilidade financeira. Estabilidade financeira é a maior ambição que você deve (não "pode", "deve") ter na vida. Estabilidade financeira é o que você deve buscar, desde o berço, ou desde a escola trilíngue no jardim de infância. É o que você deve almejar, acima de tudo, e para isso você deve abrir mão do que, na teoria, tinha algum sentido para a vida: fazer o que gosta, ser feliz.

Em meio a estabilidade financeira, uns desavisados questionam sobre a paixão pelo labor, a batalha em ser o melhor naquilo que você se apaixonou por fazer, sobre ter uma semana com significados diários no fazer e no viver, e não no "ter". Ou seja, questionam sobre a felicidade nas demais coisas.

Só que as demais coisas não existem. Elas só existem e fazem sentido e serão boas e bem vividas se você tiver feito, de preferência nos últimos vinte e cinco anos, conforme manda o figurino. A felicidade cotidiana não é mais posta em cheque. É como se ela não existisse mais. O sentido da vida passou a ser a quantidade de riqueza que você pode acumular e gastar - comedidamente - ao longo da sua vida, podendo sustentar seus filhos - que passarão a ser um, conforme os conselhos superiores - sem apertos nem temores, e dar uma de bon vivant depois que o tempo passar e isso não ter mais graça. Quis dizer, quando a hora certa chegar!

Eu já nasci e cresci em meio a uma superficilidade, que se instaurava quando poucos percebiam. E as embalagens, os envelopes, as maquiagens, o externo foi transcendendo as dimensões, saindo, por exemplo, dos conceitos de beleza humana para valores e estilo de vida - e de gente. Agora, pretendem aprofundar todo o superficialismo, é isso? E rechaçar toda e qualquer objeção daqueles cujos valores vão na contra-mão. E que péssimo que são esses os valores que vão na contra-mão.

Se as coisas vão assim, e eu penso nos meus filhos e no que eles poderão ouvir e, o horror!, acreditar, é por isso que me desespero, de leve, e penso em procurar e ancorar esse tal de significado. Esse tal de meu significado. Não sei se é pela árvore ou pelo livro, ou se basta eu perseguir meus valores de contramão. Até agora, a única alternativa que eu consegui encontrar foi a mais simples. A de ser feliz(,porra). E a de ser essa a minha real ambição. Esperando que seja a deles também, e das árvores, dos soropositivos, do green peace e mais...

sábado, 18 de agosto de 2012

Exagerei?

Perdi. Eu estava ali pra assistir aula, só que, dos cinquenta minutos, vinte foram de indo e vindo olhando o celular. Meu whatsapp, whats up, como eu achava que era, não parava. Eu perdi a explicação, a razão, o encadeamento teórico anterior, e perdi a piada. Droga, logo a piada. A piada eu podia não ter perdido.

Eu sentei pra assistir a novela, mas, enquanto eu assistia novela, aí eu tava na internet pelo celular. Aí eu não sei o que aconteceu, mas eu fingia que prestava atenção ao mesmo tempo. Só que atenção simultânea não existe, né, só existe atenção alternada, e disso eu sei, e eu achava que estava alternando bem a atenção entre a tv e o celular, mas eu só assistia a tv pensando sobre o que eu estava fazendo no celular. Então eu não assistia a tv. (Aí no cinema eu faço parecido, mas não vou dizer que sim, porque eu incomodo todo mundo com isso, eu sei. Aí eu não digo que respondo mensagens o tempo inteiro pelo celular, ao invés de ver o filme. Perder o filme.)

E quando minha mãe sentou junto comigo para ver a novela, e, depois, o jornal, querendo ter o momento família-brasileira-em-frente-a-tv, apesar de esse conceito já ser ou ultrapassado ou muito classe D, eu comecei a conversar com ela e a ver a novela e a usar o whatsapi, o facebook, twitter, e ésse eme ésse. Eu achava que estava vendo minha novela e estando com a minha mãe. Mas eu não. Minha mãe levantou, conversou, me deu a lista de compras, e eu nem a vi. Eu perdi.

Aí eu saí com azamiga, mas também perdi. Porque eu levei meu celular comigo, e pus em cima da mesa, como quem leva o filho de seis meses, e põe ele na cadeirinha bem do lado, e ele não pára queto. O celular não pára queto. Nem eu, né. E aí que eu perdi de ver os olhos e os sorrisos e as expressões que podiam me dizer mais do que eu ouvia. Porque eu estava com elas mais assim, ouvindo. Vendo mesmo, meeesmo, eu não estava, vendo eu estava vendo era o meu celular.

Fui pro trânsito no dia seguinte, e nem pra ouvir a música, e nem pra ver os carros. Eu estava no meu celular. Eu fico vendo, falando, pensando, manuseando o tempo todo o meu aparelho. Minha obsessão me adestrou bem, e dormir e acordar sem olhá-lo, e sair de casa sem ele, são atitudes impraticáveis. E também está se tornando impraticável o que antes parecia impossível, a princípio: eu sair de dentro dele. Porque, sim, eu fiz que nem nos filmes dos anos noventa, e atravessei o aparelho tecnológico. E agora eu vivo dentro dele. Então, quando estou do lado de fora, é só aparentemente, porque eu não consigo mais estar. E se fico, assim, na ausência virtual, é coisa de poucos minutos. E enquanto eu durmo. O meu carne e osso, eu perdi. A minha espontaneidade agora é mais imitação dos tais memes, os exemplos do tumblr. A minha espontaneidade eu perdi - só consigo ser realmente (?) espontânea, se for usando o aparelho. Com meus amigos, eu converso muito mais e melhor usando as teclas. Ao vivo, dá preguiça.

A conversa fluía, e eu perdi. A piada chegou, e eu perdi. O namorado fez carinho, mas eu perdi, não aproveitei, mal olhei e mal sorri, eu perdi. Meu número na fila do banco chamou, e eu perdi. Porque o tempo passou, e eu perdi.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O amor tem dessas coisas

Me sentei no sofá, catatônica, respirando imperceptivelmente. Não senti braços e pernas, catatônicos, que pesavam mais que o meu corpo nesse dia. Olhava para a letra, para minhas mãos amarelas, e para dentro de mim, e só me perguntava (de novo) se o que eu via tinha mesmo acontecido. Se fora um sono de semanas, que me deu sonhos que eu nunca tivera (antes nem depois). Se me dispus a ir até alguma outra dimensão, e por que, e fui obrigada a voltar pois não tive licença de mais semanas nem meses nem a vida toda, conforme eu queria, para nós. Para mim, somente, para mim.

Fui enxotada com doces palavras, aparentes doces palavras, que me doeram os ouvidos e inflamaram minha garganta - que chorava e gritava sem entender. Fiquei, assim, incrédula e perplexa durante mais semanas e meses e a vida toda, conforme eu não queria.

O bilhete em má hora. A placa do carro em um péssimo dia. Não podia ser. Achei que não havia guardado nada de concreto, a não ser a dor que eu sentia e mais, a lágrima grossa e toda a somatização corrente decorrente, mas encontrei por acaso você.

Você por que? Você que me esbofeteia, às vezes, que me põe as ruas e as fotos e os outros bem atravessados no meu caminho, para esfregar-se na minha cara. Você. Você que só pode ser patética, pra me causar tudo isso. E eu que só posso ser ainda mais patética, pra deixar você me domar dessa forma. Você que pra ser domada precisa ser confrontada e amedrontada pelos racionais, pelos bem esclarecidos do poder que você tem. Seu poder de catatonismo, olha só eu aqui na porra do sofá. Você que é ultrajante e vigorosa, que tem um estoque infinito de pesadelos - que podem durar a vida toda. Você, que dura a vida toda.

Dizem, ainda, os também racionais e céticos, mas, (in?)felizmente(?) convictos da essencialidade da angústia, que, se não fosse você, não seríamos capaz do amor, nem do eterno, e, inexoravelmente, do amor eterno. Isso que guardo. Você, se não fosse você, não haveria a vida, não haveria nós. Quem somos nós quando tu se esvai por completo?

Seu paradoxo de angústia, sua dona do mundo e de todos. Lembrança.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Gentes e coisas que dominarão o mundo.

Há tipos de gentes, no sentido estereotipado mas também compreensível e compreensivo do termo, digo, assim, não estou cheia de preconceitos, mas por questões de praticidade e vivências frequentes, eu componho uns rótulos, enfim, gentes que dominarão esse mundo de sem Deus. E coisas, e bichos, e episódios. Colecionáveis. Você vai sobrar nisso aí.

Andei pensando, por exemplo:

Pastoradores de carro.
Pastoradores de carro que brotam do asfalto quando você já fechou a porta para ir embora.
Pastoradores de carro que batem no seu vidro cobrando reais (centavos, jamais!), afinal, estacionasse na rua deles.
Pastoradores de carro que roubaram cones do DETRAN e guardam vagas nos canteiros centrais (?).
Gatos.
Gatos vira-latas.
Gatos atrevidos.
Gatos assassinos: roçam na batata da sua perna.
Gatos assassino tipo dois: põem as patas no seu colo para cheiar e lamber os beiços fixando os olhos na sua comida.
Motoristas que só guiam o carro ligando as linhas pontilhadas. Por esporte, não porque a avenida apertou e o hemisfério direito deu uma travada.
Atendentes de Mc Donalds que não sorriem há anos.
Pessoas que cultivam um sobrenome como um animal (precioso) de estimação.
Patricinhas que viram roqueiras da noite para o dia/moda, mas que sempre gostaram de Strokes (...).
Vendedores de salgados no setor dois de aulas.
Funcionários públicos em greve.
Psicólogos mais bem vestidos que pra uma festa a rigor, que poderiam ficar calados ao invés de...
Estudantes de psicologia encantados com a vida.
Sua colega de trabalho, que quer ser você.
Playboys que não se contentam com a fama: querem mais! E se candidatam a vereador.
Blogueiros.
Blogueiras.
Blogueiros não jornalistas que acham que fazem um jornalismo de verdade!
Vizinho que mora no 12º andar e sempre chama os dois (todos) os elevadores, para atender a sua vontade. Só mora ele no prédio inteiro.
Vizinho que não te cumprimenta se tu não é bonito (rico).
Bebedores de mim long necks que calculam litros X reais.
Personalidades maquiadas.
Rótulos incompreendidos.
Não intelectuais xingando (?) outrem de pseudointelectuais.
Pseudointelectual estereotipando em dia de pouca criatividade para escrever.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Foi maravilhoso, Marçal.

A gente cria muita expectativa em cima de qualquer coisa, e essa qualquer coisa não funciona, né verdade? Não dá certo, se despedaça, acaba com a gente. A gente que se acaba, na verdade, porque se encheu de esperanças boas.

A regra não vale sempre sempre (2x). Eu Receberia As Piores Notícias Dos Seus Lindos Lábios foi um livro que enchi de ânimo para ler. E que consumiu toda a minha energia enquanto eu devorava suas frases poéticas e de múltiplos significados.

Me devotei ao livro que um amigo indicou há pouco mais de um ano. Na época, li o Cabeça a Prêmio emprestado, obra do mesmo autor, porque Eu Receberia foi um desses livros que meu colega emprestou e nunca obteve de volta. Faz todo sentido.

É um livro para você ter. Deitar-se, lê-lo, deitar-se sobre ele, debruçar-se, calar para ouvir o que Marçal Aquino tem a te dizer. É uma história de poucos personagens e uma história envolta em várias histórias - assim como a vida. Um cenário diferente do que estamos acostumados, mas simples e simplório, exageradamente simplório. E que foi palco de uma história incrível.

Foi um dos livros mais incríveis que já li. Daqueles que, depois de algumas horas longe dele, você se pega imaginando o que será que está acontecendo (?) e o que vai acontecer com aqueles personagens. Como vai a Lavínia e o que o careca tem mais para nos contar. E o que o Cauby está sentindo agora. Cauby, como o cantor.

Uma história com múltiplas (de novo essa palavra) lições, dependendo de quem você seja e qual o momento você está passando. Cada personagem tem coisas para te dizer; e cada momento, distinto, desses personagens, tem outras declarações a fazer a você, leitor. Espectador.

Marçal é poético (de novo essa palavra) nas linhas e entrelinhas do texto, nos títulos dados aos capítulos (O Amor é Sexualmente Transmissível e Poema Escrito com Bile são dois que se tatuam na sua memória, sem que você queira). Perfeito pra você pensar sobre os personagens, que podem, todos, ser você. Pedaços seus que o autor pulverizou nesse interior do Pará.

Também vem cheio de idéias e frases, lindas frases, intensas frases, para quem gosta de escrever e se inspirar.

Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios é um livro para sempre.


~ a única coisa anormal era minha vida sem ela
~ mais que disfarçada, estava escondida de alguém ou de alguma dor
~ olhos e silêncios escuros
~ poucas vezes me senti tão confortável no mundo
~ o que acontece é que, quando estou com você, eu me perdôo por todas as lutas que a vida venceu por pontos, e me esqueço completamente que gente como eu, no fim, aaba saindo mais cedo de bares, de brigas e de amores para não pagar a conta.
~ o careca não cansa de repetir que a esperança é o pior dos venenos? É. Porém muitas vezes é também o único remédio.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Meio com asco de dizer.

Olha, eu preciso, preciso, preciso dar um jeito nesses negócios. Nessas "coisas" que eu tenho, que me tiram o sono e o tempo, me fazem perder tanto tempo tantas vezes.

Não estou falando em ninfomania.

Minhas compulsões e obsessões vêm chegando ao grau máximo. Eu arrumo minha estante quase todos os dias, várias vezes, mudo os livros de lugar, crio novos critérios de organização, e nunca fica bem. Já coloquei o material da faculdade mais perto do birô. Já separei só as pastas. Literatura brasileira separada da estrangeira. Aí as pastas longe do material da faculdade não fica bem. Eu junto tudo e vira bagunça. Tá uma bagunça! Sempre tá uma bagunça.

Minha mesa tem que ficar organizada, mas tem que ter um ar de desorganização, para sempre parecer que eu estive ali fazendo coisas importantes. Como quem trabalha muito, entende? Que mantém uma organização, mas é difícil, porque a pessoa trabalha e estuda demais, e termina deixando alguns amontoados. Só que não pode ser muito, senão eu não estudo nem trabalho.

É que eu não estudo nem trabalho em lugar bagunçado. Como é que eu posso me concentrar se existem coisas para organizar? Roupas para colocar por ordem da cor, do uso, do material, livros de categorias diferentes, bem aí na parte da estante, como eu falei, papéis velhos que eu não sei se vou usar novamente algum dia... Preciso de um lugar para eles também. Aí se a cama não estiver bem coberta, e se formar aqueles volumes na colcha, que não está bem esticada, mesmo a cama 180º para mim, como eu posso me concentrar?

Aí não dá para ficar a porta do banheiro aberta. Eu sei que ventila mais, que é ótimo deixar a minha porta aberta e a do banheiro também, principalmente se não houver ninguém em casa. Mas quando não houver ninguém em casa, é porta do banheiro fechada, se não eu não existo! E minha vida torna-se um olhar incessante para o boxe do banheiro - como quem espera algo de extraordinário a vir por ali.

Lavar as mãos, lavar as mãos, lavar as mãos, que delícia lavar as mãos! Eu fui conversar com a mãe de um novo paciente. "Mas então, ele tem alguma mania, algum tique nervoso, algo que ele faça com muita frequencia, que, assim, chame a atenção?". "Se ele pudesse tava lavando as mãos o tempo todo!". Eu também! Adorei. A gente vai se dar super bem. Toda semana, nos cinquenta minutos da sessão, ainda bem que tem um banheiro dentro da sala de ludoterapia, a gente vai se divertir naquela pia. Ah, vai.

Eu não consigo parar de estalar os dedos, desculpe.  É muito mais forte do que eu, e tem praticamente a mesma idade que a minha esse vício. Os dedos das mãos, e dos pés. O máximo possível. A cada cinco, dez minutos. E enquanto durmo. Vocês, colegas excepcionais que dividem quarto comigo (novamente, não me refiro à ninfomania alguma), vão continuar se assustando. Mas essa é minha única compulsão na madrugada. Não mordo nem grito nem mato.

Não dá pra parar de cutucar as espinhas. Nem de arrancar a ferida da craquinha do brinco que inflamou na parte da trás da orelha. Não consigo. E pare de segurar minhas mãos! Sou feliz assim.

Também não dá pra deixar de usar cotonete diariamente, com uma vontade i-n-e-x-p-l-i-c-á-v-e-l de fazê-lo três vezes ao dia. Pelo menos.

Então eu já vou. Tenho que organizar metade do quarto já organizado antes de dormir. Separar logo o material que vou usar amanhã. Só que, se eu fizer isso, vai deixar mais bagunçado e eu vou ter muita insônia. Então vou deixar pra amanhã. Vou ver se a porta do banheiro está fechada, e lavar logo as mãos, lavar bem as mãos, pra poder adormecer arrancando as dermatites e depois estalar os dedos em um sono feliz...

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Então vamos falar de culpa

Que se não fosse você, acordar no domingo de manhã não seria de algum modo assim divertido.
Se não fosse você, um fim de tarde no meio da semana não seria cheio de alegrias.
Se não fosse você, os filmes ruins não ficariam tão engraçados.
Se não fosse você, os filmes ruins nunca seriam assistidos - porque eu preciso te dizer que você só escolhe os ruins!
Se não fosse você, eu não conheceria a ternura.
Se não fosse você, um roque instrumental não seria tão tão tão exepcional.
Se não fosse você, cerveja não seria religião.
Se não fosse você, religião faria um sentido cego.
Se não fosse você, compreender a vida seria inconcebível, incompreensível. E caminhar ao longo dela, impossível.
Se não fosse você, uma existência da mais da sem graça se instalaria.
E que se não fosse você, o ciúme não faria tanto sentido.
Se não fosse você, eu não acordaria e adormeceria sorrindo. (Mesmo que eu faça caras feias enquanto sonhe!)
Se não fosse você, eu não experimentaria tão bem a gratidão.
Se não fosse você, eu gargalharia bem menos, e desistiria tão mais fácil...
Se não houvesse você, não haveria mais eu.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Do outro lado.

Ela fala que entende, que sabe que não é fácil, que a gente tende a desistir. Ela me diz da importância de não desistir. Ela refere-se às escolhas. Conta essa história da atribuição de significados. Ela apela para esquemas que parecem pra mim mais matemática e gráficos e tabelas. Eu não entendo nada. Já falei para ela que minha consciência não me ajuda. Sou toda sentimento, sou toda inconsciente, sou toda à flor da pele, como diz quem é brega. Sou tudo aquilo que é difícil de atingir, difícil de se ver, e de esperar algo previsivelmente. Eu avisei que não iria a todos os encontros. Eu digo que vou, e não vou. Não peço desculpas, não ligo com antecedência. Eu vejo até quando posso aguentar para decidir. Eu já tinha decidido mas não sabia, porque, como eu disse, minha consciência nunca me ajuda. Eu nunca disse, no começo, que eu ia desistir. Eu nunca achei, no começo, que seria difícil, quase impossível, que eu tava era mesmo pisando em areais movediças. Eu nunca achei que a fraqueza era só o que eu era. Mas, eu desandei a ser tudo isso. As coisas ficaram assim. Eu digo que vou desistir e que não dá mais, e, se eu digo, é porque já tentei bastante. Ela diz que sabe que eu já tentei. Ela fala novamente de escolhas. E me convida para escolher não sofrer. Ainda bem que meus olhos e sobrancelhas te comunicam que seu convite, além de ridículo, feio, mal educado, impossível, é deveras ambicioso. Não diga que entende como eu me sinto, que me compreende. Que sabe o quão está sendo difícil, tortuoso. Já disse: você não sou eu.

Psicólogos são todos mentirosos.

Estalou

Foi quando eu me dei conta de que não havia mais eu. Me dei conta de que eu sobrevivia e alimentava-me de memórias e de mágoas. E imaginava um futuro de boas possibilidades. Vazias possibilidades. Triviais possibilidades.

Foi quando me dei conta de que o presente estava vazio, de que mal havia presente. De que eu forçava uma existência, um ser, uma essência, que não cabiam mais em lugar algum.

Eu deixei meus pedaços quase todos pelo caminho. A maioria deles ficou lá atrás, que é longe, bem longe assim, mas que eu vivo como se fosse hoje. Eu vivo exatamente assim, tudo aquilo como se fosse um aquilo de hoje.

Não me restou nada. Eu me perdi e esqueci de mim. A única coisa que ficou e que não controlo e que mal conheço e que não sei como reagir foi ele, o mais poderoso, o responsável por todas as coisas, ele que me sustenta dessa forma sacana e malévola, valendo-se de essencial, de bonzinho, mas me carregando pelo tornozelo e me arrastando pelas suas mãos ao avesso e pela sua face ruim. Sou só eu e ele, o sentimento. Sou só ele.

De mim, não restou mais nada.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Quando a psicoterapia não parece mas é.

Essa é uma carta pra você. Quer dizer, essa é uma carta para mim. Esse é um desabafo à guisa de supervisão semanal. Ou uma reflexão nada teórica sobre nós dois.

Teve dias que achei que fosse ser mais fácil do que parecia. Outros que achei que estava sendo mais difícil do que eu jamais imaginei. Teve dias nos quais achei que não iria mais suportar. Outros nos quais contei os minutos para chegar e ver qual a surpresa daquela segunda.

Segunda, às oito, sempre segunda às oito. Está marcado e a gente se encontra, se vê, porque você me vê! Eu não vou esquecer do prognóstico desanimador que eu vi nos livros: eles não focam o olhar, não te olham nos olhos, não te vêem, é como se não estivessem ali, ou como se você não estivesse ali com eles. Desde o primeiro dia, éramos só nós dois, e teus olhos nos meus.

Hoje foi demais. Eu imagino que por vezes você queira sair dessa casca, desse invólucro que chamam de corpo, o qual enfeitaram tão bem com olhos grandes e claros, com os quais você nem se importa. Você só quer sair! Você quer se libertar e corre, mas ninguém deixa. Todos acham que você não sabe o que quer, não sabe o que faz. Todos acham que seus movimentos são sem intenção. "Estereotipados". Puf. Estereotipados são eles, os seres humanos dos invólucros comuns e artificiais, bem cabidos dentro de si, todos eles; ao contrário de você, doido pra fugir desse dentro de si. Você que não parece caber em si mesmo.

É assim que te vêem, né? Como que vivendo sozinho dentro do seu corpo. A gente precisa mostrar para eles: você só está vivendo de um jeito diferente. Porque esse jeito diferente significa não viver? Não existir? Só porque não é como eles mandam.

De novo: hoje foi demais. Soube logo, pelos gritos, que não seria fácil. Que não ficaríamos juntos tanto tempo, olhos nos olhos menos ainda.  Tudo bem se foram só dez minutos. Eu vi o tamanho do seu esforço em segurar, segurar, segurar os chocalhos e não jogá-los para cima - ao longo de três minutos - para só então jogar com tanta força. E extravasar. As regras te tolhem, né, eu sei.

Então assim eu aceito seu convite para "passear". Aliás, eu comemoro o seu convite verbalizado e simbolizado de "passear". Você tá se virando bem na língua deles! Já que eles não te entendem, curvou-se. Eu sei como é. Não, não sei, mas eu entendo como é. E reconheço seu esforço.

E enquanto você corria, e mantinha os olhos fixos no caminho de arbustos, sempre à mesma altura, e observava algum movimento, aposto que vias um movimento irado naquilo ali, eu fiquei pensando sobre o que fazer. Não houve bolha de sabão dessa vez. E então você ia e vinha, ia e vinha, ia... Corria e voltava. Então é isso. Se você só quer ir e vir, ir e vir, correr e voltar, se você não quer bola nem bolha, carro nem chocalho, ar-condicionado. Se você quer correr desesperadamente, andar rápido, e cantar só as músicas que você tiver vontade. Se você quiser fazer do seu jeito ao ar livre, na frente de todos, sem sigilo, sem setting, sem regras, só com as suas regras, então vamos. Eu estou aqui. Eu faço com você. Eu ando, corro, vou e volto, bem ao seu lado. Eu acompanho seu ritmo - da corrida, da música, do não-olhar, do tempo efêmero. Eu estou bem aqui. Do jeito que você precisar. Pois, não sei como será segunda-feira que vem, qual a surpresa da vez, ou se não haverá novidades. O que eu sei, é que eu estarei lá. Pra te aceitar.