segunda-feira, 20 de agosto de 2012

E por quês e para quês

Plante uma árvore, escreva um livro, tenha um filho. Escreva um livro em pdf, adote uma criança, plante trê árvores e recicle o lixo e troque o carro pela bicicleta. Escreva um livro em pdf, adote uma criança com aids, funde e sustente uma ong, plante seis árvores e recicle o lixo e use a bike e nunca mais coma transgênicos.

É difícil, né? Digo, pegar sua vida e fazer algo que preste com ela. Algo que você ache que preste, algo em que você veja sentido e sinta o sentido (?), e que ao mesmo tempo seja algo no que você acredite, e, de quebra, que realmente deseje. E que seu pai e sua mãe e seu irmão mais velho prodigioso não tenham como motivo para seus respectivos infartos e decepções uma única coisa: você.

A minha geração está crescendo sob o mantra da estabilidade financeira. Estabilidade financeira é a maior ambição que você deve (não "pode", "deve") ter na vida. Estabilidade financeira é o que você deve buscar, desde o berço, ou desde a escola trilíngue no jardim de infância. É o que você deve almejar, acima de tudo, e para isso você deve abrir mão do que, na teoria, tinha algum sentido para a vida: fazer o que gosta, ser feliz.

Em meio a estabilidade financeira, uns desavisados questionam sobre a paixão pelo labor, a batalha em ser o melhor naquilo que você se apaixonou por fazer, sobre ter uma semana com significados diários no fazer e no viver, e não no "ter". Ou seja, questionam sobre a felicidade nas demais coisas.

Só que as demais coisas não existem. Elas só existem e fazem sentido e serão boas e bem vividas se você tiver feito, de preferência nos últimos vinte e cinco anos, conforme manda o figurino. A felicidade cotidiana não é mais posta em cheque. É como se ela não existisse mais. O sentido da vida passou a ser a quantidade de riqueza que você pode acumular e gastar - comedidamente - ao longo da sua vida, podendo sustentar seus filhos - que passarão a ser um, conforme os conselhos superiores - sem apertos nem temores, e dar uma de bon vivant depois que o tempo passar e isso não ter mais graça. Quis dizer, quando a hora certa chegar!

Eu já nasci e cresci em meio a uma superficilidade, que se instaurava quando poucos percebiam. E as embalagens, os envelopes, as maquiagens, o externo foi transcendendo as dimensões, saindo, por exemplo, dos conceitos de beleza humana para valores e estilo de vida - e de gente. Agora, pretendem aprofundar todo o superficialismo, é isso? E rechaçar toda e qualquer objeção daqueles cujos valores vão na contra-mão. E que péssimo que são esses os valores que vão na contra-mão.

Se as coisas vão assim, e eu penso nos meus filhos e no que eles poderão ouvir e, o horror!, acreditar, é por isso que me desespero, de leve, e penso em procurar e ancorar esse tal de significado. Esse tal de meu significado. Não sei se é pela árvore ou pelo livro, ou se basta eu perseguir meus valores de contramão. Até agora, a única alternativa que eu consegui encontrar foi a mais simples. A de ser feliz(,porra). E a de ser essa a minha real ambição. Esperando que seja a deles também, e das árvores, dos soropositivos, do green peace e mais...

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