quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Estalou

Foi quando eu me dei conta de que não havia mais eu. Me dei conta de que eu sobrevivia e alimentava-me de memórias e de mágoas. E imaginava um futuro de boas possibilidades. Vazias possibilidades. Triviais possibilidades.

Foi quando me dei conta de que o presente estava vazio, de que mal havia presente. De que eu forçava uma existência, um ser, uma essência, que não cabiam mais em lugar algum.

Eu deixei meus pedaços quase todos pelo caminho. A maioria deles ficou lá atrás, que é longe, bem longe assim, mas que eu vivo como se fosse hoje. Eu vivo exatamente assim, tudo aquilo como se fosse um aquilo de hoje.

Não me restou nada. Eu me perdi e esqueci de mim. A única coisa que ficou e que não controlo e que mal conheço e que não sei como reagir foi ele, o mais poderoso, o responsável por todas as coisas, ele que me sustenta dessa forma sacana e malévola, valendo-se de essencial, de bonzinho, mas me carregando pelo tornozelo e me arrastando pelas suas mãos ao avesso e pela sua face ruim. Sou só eu e ele, o sentimento. Sou só ele.

De mim, não restou mais nada.

2 comentários:

Otávio disse...

‎"Just like when during daytime, when we close our eyes to immerse ourselves in the sudden darkness we discover points of light and bands of color which remind us of the other part of the world, when likewise we descend into the vast and da
rk depths of our soul, when what is revealed onto us, in the margins of darkness, we find the reflections of an unsuspected golden world. Can these reflections be a calling to our soul or a regret?" -- Emil Cioran

Patrícia. disse...

Nossa!