sábado, 18 de agosto de 2012

Exagerei?

Perdi. Eu estava ali pra assistir aula, só que, dos cinquenta minutos, vinte foram de indo e vindo olhando o celular. Meu whatsapp, whats up, como eu achava que era, não parava. Eu perdi a explicação, a razão, o encadeamento teórico anterior, e perdi a piada. Droga, logo a piada. A piada eu podia não ter perdido.

Eu sentei pra assistir a novela, mas, enquanto eu assistia novela, aí eu tava na internet pelo celular. Aí eu não sei o que aconteceu, mas eu fingia que prestava atenção ao mesmo tempo. Só que atenção simultânea não existe, né, só existe atenção alternada, e disso eu sei, e eu achava que estava alternando bem a atenção entre a tv e o celular, mas eu só assistia a tv pensando sobre o que eu estava fazendo no celular. Então eu não assistia a tv. (Aí no cinema eu faço parecido, mas não vou dizer que sim, porque eu incomodo todo mundo com isso, eu sei. Aí eu não digo que respondo mensagens o tempo inteiro pelo celular, ao invés de ver o filme. Perder o filme.)

E quando minha mãe sentou junto comigo para ver a novela, e, depois, o jornal, querendo ter o momento família-brasileira-em-frente-a-tv, apesar de esse conceito já ser ou ultrapassado ou muito classe D, eu comecei a conversar com ela e a ver a novela e a usar o whatsapi, o facebook, twitter, e ésse eme ésse. Eu achava que estava vendo minha novela e estando com a minha mãe. Mas eu não. Minha mãe levantou, conversou, me deu a lista de compras, e eu nem a vi. Eu perdi.

Aí eu saí com azamiga, mas também perdi. Porque eu levei meu celular comigo, e pus em cima da mesa, como quem leva o filho de seis meses, e põe ele na cadeirinha bem do lado, e ele não pára queto. O celular não pára queto. Nem eu, né. E aí que eu perdi de ver os olhos e os sorrisos e as expressões que podiam me dizer mais do que eu ouvia. Porque eu estava com elas mais assim, ouvindo. Vendo mesmo, meeesmo, eu não estava, vendo eu estava vendo era o meu celular.

Fui pro trânsito no dia seguinte, e nem pra ouvir a música, e nem pra ver os carros. Eu estava no meu celular. Eu fico vendo, falando, pensando, manuseando o tempo todo o meu aparelho. Minha obsessão me adestrou bem, e dormir e acordar sem olhá-lo, e sair de casa sem ele, são atitudes impraticáveis. E também está se tornando impraticável o que antes parecia impossível, a princípio: eu sair de dentro dele. Porque, sim, eu fiz que nem nos filmes dos anos noventa, e atravessei o aparelho tecnológico. E agora eu vivo dentro dele. Então, quando estou do lado de fora, é só aparentemente, porque eu não consigo mais estar. E se fico, assim, na ausência virtual, é coisa de poucos minutos. E enquanto eu durmo. O meu carne e osso, eu perdi. A minha espontaneidade agora é mais imitação dos tais memes, os exemplos do tumblr. A minha espontaneidade eu perdi - só consigo ser realmente (?) espontânea, se for usando o aparelho. Com meus amigos, eu converso muito mais e melhor usando as teclas. Ao vivo, dá preguiça.

A conversa fluía, e eu perdi. A piada chegou, e eu perdi. O namorado fez carinho, mas eu perdi, não aproveitei, mal olhei e mal sorri, eu perdi. Meu número na fila do banco chamou, e eu perdi. Porque o tempo passou, e eu perdi.

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