quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O amor tem dessas coisas

Me sentei no sofá, catatônica, respirando imperceptivelmente. Não senti braços e pernas, catatônicos, que pesavam mais que o meu corpo nesse dia. Olhava para a letra, para minhas mãos amarelas, e para dentro de mim, e só me perguntava (de novo) se o que eu via tinha mesmo acontecido. Se fora um sono de semanas, que me deu sonhos que eu nunca tivera (antes nem depois). Se me dispus a ir até alguma outra dimensão, e por que, e fui obrigada a voltar pois não tive licença de mais semanas nem meses nem a vida toda, conforme eu queria, para nós. Para mim, somente, para mim.

Fui enxotada com doces palavras, aparentes doces palavras, que me doeram os ouvidos e inflamaram minha garganta - que chorava e gritava sem entender. Fiquei, assim, incrédula e perplexa durante mais semanas e meses e a vida toda, conforme eu não queria.

O bilhete em má hora. A placa do carro em um péssimo dia. Não podia ser. Achei que não havia guardado nada de concreto, a não ser a dor que eu sentia e mais, a lágrima grossa e toda a somatização corrente decorrente, mas encontrei por acaso você.

Você por que? Você que me esbofeteia, às vezes, que me põe as ruas e as fotos e os outros bem atravessados no meu caminho, para esfregar-se na minha cara. Você. Você que só pode ser patética, pra me causar tudo isso. E eu que só posso ser ainda mais patética, pra deixar você me domar dessa forma. Você que pra ser domada precisa ser confrontada e amedrontada pelos racionais, pelos bem esclarecidos do poder que você tem. Seu poder de catatonismo, olha só eu aqui na porra do sofá. Você que é ultrajante e vigorosa, que tem um estoque infinito de pesadelos - que podem durar a vida toda. Você, que dura a vida toda.

Dizem, ainda, os também racionais e céticos, mas, (in?)felizmente(?) convictos da essencialidade da angústia, que, se não fosse você, não seríamos capaz do amor, nem do eterno, e, inexoravelmente, do amor eterno. Isso que guardo. Você, se não fosse você, não haveria a vida, não haveria nós. Quem somos nós quando tu se esvai por completo?

Seu paradoxo de angústia, sua dona do mundo e de todos. Lembrança.

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